Dezessete
    Luas
             p   BEAUTIFUL CREATURES   p




           Dezessete
               Luas
             MARGARET STOHL
                   KAMI GARCIA
VOLUME 2
E     than Wate costumava pensar de Gatlin, a
      pequena cidade do sul que ele sempre chamou de
      casa, como um lugar onde nada mudou. Ento
ele encontrou misterioso recm-chegado Duchannes
Lena, que revelou um mundo secreto que tinha sido
escondida na plancie vista o tempo todo. A Gatlin
que abrigou antigos segredos sob sua carvalhos
cobertos de musgo e caladas rachadas. A Gatlin,
onde marcou uma maldio familiar Lena de seres
sobrenaturais poderosos para as geraes. A Gatlin,
onde impossvel, mgico, vida-alterando as coisas
acontecerem.
     s vezes a vida acaba. Juntos, eles podem
enfrentar qualquer coisa Gatlin joga com eles, mas
depois de sofrer uma perda trgica, Lena comea a se
afastar, mantendo segredos que testam seu
relacionamento. E agora que os olhos de Ethan foram
abertos para o lado mais sombrio de Gatlin, no h
como voltar atrs.Assombrada por estranhas vises
que s ele pode ver, Ethan  puxado mais para a
histria emaranhada sua cidade e se encontra preso na
rede perigosa de passagens subterrneas que cruzam
incessantemente a Sul, onde nada  como parece.




                       
                                     shadow
                                 Hunters
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                     Garota Conjuradora

                                   

E
    u achava que nossa cidade, perdida na vastido da Carolina do Sul, presa
    no fundo lamacento do vale do rio Santee, ficava no meio do nada. Que
    era um lugar onde nada acontecia e nada jamais mudaria. Assim como
ontem, o sol nasceria e se poria na cidade de Gatlin sem se dar o trabalho de
permitir nem uma brisa sequer. Amanh, meus vizinhos estariam em suas
cadeiras de balano na varanda, o calor e a fofoca e a intimidade derretendo
como pedras de gelo no ch gelado, como sempre fora por mais de cem anos.
Por aqui, nossas tradies eram to tradicionais que era difcil apontar
exatamente quais eram. Estavam impregnadas em tudo o que fazamos ou,
com mais frequncia, no que no fazamos. Voc podia nascer, casar e ser
enterrado, e os metodistas continuariam cantando.
     Os domingos eram dias de igreja, as segundas, dias de ir fazer compras no
Pare & Compre, o nico mercado da cidade. O restante da semana envolvia
um monte de nada e um pouco mais de torta, se voc tivesse a sorte de morar
com algum como a governanta da minha famlia, Amma, que todo ano vencia
a competio de tortas da feira do condado. A velha Srta. Monroe, que s
tinha quatro dedos, ainda dava aulas de cotilho, uma espcie de quadrilha,
com o dedo vazio da luva branca balanando enquanto deslizava pelo salo
com as debutantes. Maybelline Sutter ainda cortava cabelos no Snip n` Guri,
apesar de ter perdido a maior parte da viso por volta dos 70 anos. Agora, ela
muitas vezes se esquecia de colocar o pente na mquina de cortar cabelo,
deixando a parte de trs da cabea dos clientes com uma faixa branca como a
de um gamb, totalmente raspada. Carlton Eaton nunca deixava de abrir a
correspondncia das pessoas antes de entreg-la, fizesse chuva ou fizesse sol.
Se a notcia fosse ruim, ele a dava pessoalmente. Era melhor ouvir de um dos
seus.
     Essa cidade era nossa proprietria, e o que era bom e ruim. Ela conhecia
cada centmetro de ns, cada pecado, cada segredo, cada cicatriz. E era por
isso que a maioria nunca se dava ao trabalho de ir embora, e tambm por isso
que aquelas que iam nunca voltavam. Antes de conhecer Lena, teria sido eu a
partir, cinco minutos depois de me formar na Jackson High. J estaria longe.
     Mas ento eu me apaixonei por uma garota, uma Conjuradora.
     Ela me mostrou que havia outro mundo dentro das rachaduras de nossas
caladas irregulares. Um que sempre estivera l, escondido mas  vista de
todos. A Gatlin de Lena era um lugar onde coisas aconteciam -- coisas
impossveis, sobrenaturais, que mudavam o rumo da vida das pessoas.
     Algumas vezes, que botavam fim  vida das pessoas.
     Enquanto os moradores normais estavam ocupados aparando suas
roseiras ou separando os pssegos bichados numa barraquinha de beira de
estrada, Conjuradores da Luz e das Trevas, com dons singulares e poderosos,
estavam presos em uma luta eterna -- uma guerra civil sobrenatural sem
esperana alguma de bandeira branca. A Gatlin de Lena era lar de Demnios e
de perigo e de uma maldio que tinha marcado a famlia dela por mais de
cem anos. E quanto mais prximo eu ficava de Lena, mais a Gatlin dela se
aproximava da minha.
     Alguns meses atrs, eu acreditava que nada jamais mudaria nessa cidade.
Agora sei que no  assim, e s consigo desejar que fosse verdade.
     Porque, a partir do momento em que me apaixonei por uma Conjuradora,
aqueles que eu amava no estavam mais em segurana. Lena achava que era a
nica amaldioada, mas estava errada.
     A maldio agora era nossa.
                                  15 de fevereiro   
                            Paz perptua

                                  
A      chuva pingando da aba do melhor chapu preto de Amma. Os joelhos
       de Lena batendo contra a lama grossa em frente ao tmulo. A sensao
       de picadas na minha nuca, resultado de ficar perto demais de tantos da
espcie de Macon: Incubus, Demnios que se alimentavam das lembranas e
dos sonhos de Mortais, como eu, enquanto dormamos. O som que eles
fizeram foi diferente de qualquer outra coisa no universo, quando se
infiltraram no resqucio de cu escuro e desapareceram logo antes do
amanhecer. Como se fossem um bando de corvos negros, levantando voo de
um fio eltrico em perfeita sincronia.
      Esse foi o enterro de Macon.
      Eu conseguia me lembrar de detalhes como se tivesse acontecido ontem,
embora fosse difcil de acreditar que algumas dessas coisas tinham mesmo
acontecido. Enterros eram assim, complexos. E a vida tambm, eu acho. As
partes importantes voc bloqueia totalmente. Mas os momentos aleatrios e
distorcidos assombram voc, se repetindo sem parar
      O que eu conseguia me lembrar: Amma me acordando de madrugada
para conseguirmos chegar ao Jardim da Paz Perptua antes do amanhecer.
Lena congelada e destruda, querendo congelar e destruir tudo ao seu redor.
Escurido no cu e na metade das pessoas de p ao redor do tmulo, e que
no eram nem um pouco pessoas.
     Mas, por trs disso tudo, havia uma coisa da qual eu no conseguia me
lembrar. Estava l, persistindo no fundo da minha mente. Eu estava tentando
pensar naquilo desde o aniversrio de Lena, sua Dcima Sexta Lua, a noite em
que Macon morreu.
     Eu s sabia que era uma coisa que eu precisava lembrar.
     Na madrugada do enterro, estava preto como piche do lado de fora, mas
fachos de luar brilhavam por entre as nuvens e entravam pela minha janela
aberta. Meu quarto estava frio, mas eu no ligava. Deixei a janela aberta nas
duas noites depois que Macon morreu, como se ele pudesse simplesmente
aparecer no meu quarto, se sentar na minha cadeira giratria e ficar um pouco.
     Eu me lembrava da noite em que o vi de p ao lado da minha janela. Foi
quando descobri o que ele era. No um vampiro ou uma criatura mitolgica
de livro, como eu desconfiava, mas um verdadeiro Demnio. Um que podia
ter optado por se alimentar de sangue, mas preferiu se alimentar dos meus
sonhos.
     Macon Melchizedek Ravenwood. Para o pessoal daqui, ele era o Velho
Ravenwood, o recluso da cidade. Era tambm tio de Lena e o nico pai que
ela teve.
     Eu estava me vestindo no escuro quando senti um puxo quente dentro
de mim, o que significava que Lena estava l.
     L?
     Lena falava das profundezas da minha mente, to perto quanto algum
podia estar e ao mesmo tempo to longe quanto possvel. Kelt, nossa forma
no falada de comunicao. A lngua sussurrada que Conjuradores como ela
usavam muito antes de o meu quarto ter sido considerado ao sul da Linha
Mason-Dixon1. Era a lngua secreta da intimidade e da necessidade, nascida
em uma poca em que ser diferente podia fazer com que voc fosse queimado
na fogueira. Era uma lngua que no deveramos ser capazes de usar, porque
eu era Mortal. Mas, por algum motivo inexplicvel, ns conseguamos, e era a
lngua que usvamos para falar o que no era dito e no deveria ser dito.
     No consigo fazer isso. No vou.


1
    Fronteira cultural que divide o norte e o sul dos Estados Unidos, resqucio da Guerra Civil. (N.daT.)
      Desisti da gravata e me sentei na cama, as velhas molas do colcho
gemendo debaixo de mim.
      Voc precisa ir No vai se perdoar se no for
      Por um segundo, ela no respondeu.
      Voc no sabe como .
      Sei, sim.
      Eu me lembrei de quando era eu sentado na cama com medo de me
levantar, com medo de colocar o terno e me juntar ao crculo de oraes e de
cantar Abide With Me e de participar da triste procisso de luzes de farol de
carro pela cidade at o cemitrio, para enterrar minha me. Eu tinha medo de
que isso fosse tornar tudo real novamente. Eu no conseguia suportar pensar
nisso, mas abri minha mente e mostrei a Lena...
      Voc no consegue ir, mas no tem escolha, porque Amma o conduz pelo brao e o leva
at o carro, at o banco da igreja, at o altar. Mesmo que doa quando voc anda, como se seu
corpo inteiro ardesse por causa de algum tipo de febre. Seus olhos encaram os rostos
murmurantes  sua frente, mas voc no consegue ouvir o que as pessoas esto dizendo. No
com aqueles gritos na sua cabea. Ento voc deixa que o peguem pelo brao de novo, entra
no carro, e tudo acontece. Porque voc consegue passar por isso se algum diz que voc
consegue.
      Levei as mos  cabea.
      Ethan...
      Estou dizendo que voc consegue, L.
      Pressionei os punhos contra os olhos, e eles estavam molhados. Acendi a
luz e olhei para a lmpada, me recusando a piscar at conseguir secar as
lgrimas.
      Ethan, estou com medo.
      Estou aqui. No vou a lugar algum.
      No houve mais uma palavra enquanto eu voltava a lutar contra minha
gravata, mas eu sentia Lena ali, como se estivesse sentada no canto do quarto.
A casa parecia vazia sem o meu pai, e ouvi Amma no corredor. Um segundo
depois, ela estava parada em silncio na porta, segurando sua melhor bolsa. Os
olhos escuros examinaram os meus, e sua pequena silhueta parecia alta,
embora ela nem chegasse ao meu ombro. Ela era a av que nunca tive, e a
nica me que eu tinha agora.
    Fiquei olhando a cadeira vazia ao lado da janela, sobre a qual ela colocara
meu melhor terno havia menos de um ano, depois olhei para a lmpada do
abajur na minha mesa de cabeceira.
    Amma esticou a mo e entreguei a ela minha gravata. s vezes parecia
que Lena no era a nica que conseguia ler minha mente.


                                   
Ofereci meu brao a Amma e comeamos a subir a colina lamacenta do
Jardim da Paz Perptua. O cu estava escuro e a chuva comeou antes de
chegarmos ao topo. Amma usava seu melhor vestido de enterro, com um
chapu largo que protegia a maior parte do rosto da chuva, exceto pelo pedao
de renda branca da gola do vestido que escapava da beirada do chapu. Estava
preso ao pescoo com seu melhor camafeu, um sinal de respeito. Eu tinha
visto isso abril passado, da mesma forma que sentira suas melhores luvas
tocando meu brao, me apoiando para subir aquela colina. Dessa vez, eu no
sabia quem estava apoiando quem.
     Eu ainda no tinha certeza do motivo pelo qual Macon queria ser
enterrado no cemitrio de Gatlin, levando em considerao o que as pessoas
da cidade achavam dele. Mas, de acordo com vov, a av de Lena, Macon
deixara instrues rigorosas, requisitando ser enterrado especificamente ali.
Ele mesmo comprara o lote anos atrs. A famlia de Lena no pareceu feliz
com isso, mas vov bateu o p. Iam respeitar os desejos dele, como qualquer
boa famlia sulista.
     Lena? Estou aqui.
     Eu sei.
     Eu sentia que minha voz a acalmava, como se eu a tivesse envolvido em
meus braos. Olhei para o alto da colina, onde estaria o toldo para a
cerimnia. Pareceria com qualquer outro enterro de Gatlin, o que era uma
ironia, pois era o enterro de Macon.
     O dia ainda no tinha clareado, e eu mal conseguia distinguir umas poucas
figuras ao longe. Elas estavam distorcidas, diferentes. As fileiras antigas e
irregulares de pequenas lpides nos tmulos de crianas; as enormes criptas
familiares; os obeliscos brancos e antigos em homenagem a soldados
confederados mortos, marcados com pequenos crucifixos de metal. At o
general Jubal A. Early, cuja esttua vigiava o General`s Green no centro da
cidade, estava enterrado ali. Contornamos o lote da famlia Moultrie, menos
conhecida, que estava l havia tanto tempo que o tronco liso da magnlia na
beirada do lote tinha invadido a lateral da maior lpide, tornando-a
indistinguvel.
     E sagrada. Todas eram sagradas, o que queria dizer que tnhamos chegado
 parte mais antiga do cemitrio. Aprendi com minha me: a primeira palavra
entalhada em qualquer lpide antiga de Gatlin era sagrado. Mas,  medida que
nos aproximvamos e meus olhos se acostumavam  escurido, eu soube
aonde o caminho lamacento de cascalho estava nos levando. Eu me lembrava
do ponto onde ele passava pelo banco memorial de pedra na ladeira de grama,
cheia de magnlias. Eu me lembrava do meu pai sentado naquele banco,
incapaz de falar e de se mexer.
     Meus ps no queriam prosseguir, porque tinham percebido a mesma
coisa que eu. O Jardim da Paz Perptua de Macon ficava a uma magnlia de
distncia do da minha me.
     As estradas serpenteantes passam bem no meio de ns.
     Era uma frase boba de um poema ainda mais bobo que eu tinha escrito
para Lena no Dia dos Namorados. Mas, aqui no cemitrio, era verdade. Quem
imaginaria que nossos pais, ou o mais prximo que Lena teve de um pai,
seriam vizinhos de tmulo?
     Amma pegou minha mo e guiou-me at o enorme lote de Macon.
     -- Fique firme agora.
     Entramos na rea circundada por uma cerca preta na altura da cintura que
delimitava o lote, coisa que, em Gatlin, era reservada aos melhores lotes, como
uma cerquinha branca para os mortos. s vezes, era mesmo uma cerca branca.
Essa era de ferro forjado, e o porto torto estava aberto sobre a grama
crescida. O lote de Macon parecia ter uma atmosfera s sua, como o prprio
Macon.
     Dentro do cercado estava a famlia de Lena: vov, tia Dei, tio Barclay,
Reece, Ryan e a me de Macon, Arelia, debaixo do toldo preto de um dos
lados do caixo preto entalhado. Do outro lado, um grupo de homens e uma
mulher de sobretudo preto mantinham distncia tanto do caixo quanto do
toldo, todos de p, um ao lado do outro, debaixo da chuva. Estavam todos
secos. Era como um casamento na igreja, separado por um corredor no meio,
no qual os parentes da noiva ficam no lado oposto ao dos parentes do noivo,
como cls rivais. Havia um senhor na ponta do caixo, parado ao lado de
Lena. Amma e eu ficamos na outra ponta, debaixo do toldo.
     Amma apertou mais meu brao, pegou o amuleto de ouro que sempre
usava sob a blusa e o esfregou entre os dedos. Amma era mais do que
supersticiosa. Era Vidente, pertencia a geraes de mulheres que liam cartas de
tar e conversavam com espritos. Tinha um amuleto ou uma boneca para
tudo. Esse era para proteo. Olhei para os Incubus na nossa frente, a chuva
escorrendo dos ombros deles sem deixar vestgios. Eu torci para que fossem
do tipo que s se alimentava de sonhos.
     Tentei desviar o olhar, mas no era fcil. Havia algo nos Incubus que
atraa voc, como uma teia de aranha, como qualquer bom predador. No
escuro, no dava para ver os olhos pretos deles, quase pareciam um grupo de
gente normal. Alguns estavam vestidos do mesmo jeito que Macon sempre se
vestira, com terno escuro e sobretudo de aparncia cara. Um ou outro parecia
mais com um operrio de obra indo tomar uma cerveja depois do trabalho, de
jeans e botas pesadas, com as mos nos bolsos das jaquetas. A mulher
provavelmente era uma Succubus. Eu tinha lido sobre elas, principalmente nas
revistas em quadrinhos, e pensei que fossem lenda, como os lobisomens. Mas
vi que estava errado porque ela estava sob a chuva, to seca quanto os outros.
     Os Incubus faziam um contraste notvel com a famlia de Lena, cada um
deles encoberto por um tecido preto iridescente que captava o pouco de luz
que havia e a refletia, como se eles mesmos fossem a fonte da luz. Eu nunca
os tinha visto assim antes. Era uma luz estranha, principalmente considerando
o rigoroso padro de vestimentas para as mulheres em enterros sulistas.
      No centro de tudo estava Lena. A aparncia dela estava longe de ser
mgica. Ela estava parada em frente ao caixo com os dedos apoiados sobre
ele, como se Macon estivesse de alguma forma de mos dadas com ela. Suas
roupas eram do mesmo tecido que o restante da famlia, mas ele pendia do
corpo dela como uma sombra. O cabelo preto estava preso em um coque
apertado, sem os cachos caractersticos  mostra. Ela parecia arrasada e
deslocada, como se estivesse do lado errado do corredor.
      Como se o lugar dela fosse com a outra famlia de Macon, a que estava na
chuva.
      Lena?
      Ela ergueu a cabea e nossos olhos se encontraram. Desde o seu
aniversrio, quando um dos olhos dela tinha adquirido um tom de dourado e
o outro permanecera verde, as cores se combinavam de forma a criar um tom
diferente de tudo o que eu j vira. Quase castanho-claro s vezes, e dourado
de um modo artificial em outras. Agora eles estavam mais para castanho-claro,
sem vida e cheios de sofrimento. Eu no conseguia suportar isso. Queria peg-
la e lev-la para longe dali.
      Posso pegar o Volvo e vamos pela costa at Savannah. Podemos nos esconder na casa
da minha tia Caroline.
      Dei mais um passo em sua direo. A famlia dela estava reunida ao redor
do caixo, e eu no conseguiria chegar perto de Lena sem passar pela fileira de
Incubus, mas no me importava com aquilo.
      Ethan, pare! No  seguro...
      Um Incubus alto com uma cicatriz que atravessava todo o rosto, como a
marca do ataque de um animal selvagem, virou a cabea para olhar para mim.
O ar pareceu ondular no espao entre ns, como se eu tivesse jogado uma
pedra dentro de um lago. Isso me atingiu, tirando o ar dos meus pulmes
como se eu tivesse levado um soco, mas no conseguia reagir porque me
sentia paralisado meus membros dormentes e inteis.
      Ethan!
      Amma apertou as plpebras, mas antes que ela pudesse dar um passo, a
Succubus colocou a mo no ombro do Cicatriz e apertou, de forma quase
imperceptvel. Fui imediatamente libertado do olhar dele e o sangue voltou a
correr em mim. Amma fez um aceno de cabea, agradecendo, mas a mulher
de cabelo longo e sobretudo ainda mais longo a ignorou, voltando a sumir
entre o restante deles.
     O Incubus com a cicatriz brutal se virou e piscou para mim. Entendi o
recado, mesmo sem palavras. Nos veremos em seus sonhos.
     Eu ainda estava prendendo a respirao quando um senhor de cabelos
brancos, com um terno antigo e gravata fina, andou at o caixo. Os olhos
dele eram escuros e contrastavam com os cabelos, o que fazia com que
parecesse algum personagem apavorante de um velho filme em preto e
branco.
     -- O Conjurador de Tmulos -- sussurrou Amma. Ele parecia mais um
coveiro.
     Ele tocou a madeira preta e lisa, e um smbolo entalhado na parte de cima
do caixo comeou a brilhar com uma luz dourada. Parecia uma espcie de
braso antigo, o tipo de coisa que se v em museus ou castelos. Vi uma rvore
com grandes galhos cheios de ramificaes e um pssaro. Debaixo dele havia
um sol e uma lua crescente.
     -- Macon Ravenwood da Casa de Ravenwood, de Corvos e Carvalhos,
Ar e Terra, Trevas e Luz. -- Ele tirou a mo do caixo e a luz foi atrs dele,
deixando o caixo escuro novamente.
     -- Aquele  Macon? -- sussurrei para Amma.
     -- A luz  simblica. No h nada naquele caixo. No sobrou nada para
se enterrar.  assim com a espcie de Macon: das cinzas s cinzas e do p ao
p, como ns. S que muito mais rpido.
     A voz do Conjurador de Tmulos foi ouvida de novo.
     -- Quem consagra esta alma para o Outro Mundo?
     A famlia de Lena se manifestou.
     -- Ns -- disseram todos em unssono, exceto Lena. Ela ficou olhando
para o cho de terra.
     -- E ns tambm. -- Os Incubus chegaram mais perto do caixo.
     -- Ento que ele seja Conjurado ao mundo alm. Redi in pace, ad Ignem
Afrum ex quo venisti. -- O Conjurador de Tmulos segurou a luz acima da
cabea, e ela brilhou com mais fora. -- V em paz, de volta ao Fogo Negro
de onde voc veio.
      Ele jogou a luz no ar e fagulhas caram sobre o caixo, chamuscando a
madeira nos pontos onde tocaram. Ao mesmo tempo, a famlia de Lena e os
Incubus ergueram as mos e jogaram pequenos objetos de prata no muito
maiores do que moedas, que caram sobre o caixo de Macon em meio s
fagulhas douradas. O cu estava comeando a mudar de cor, do preto da noite
para o azul antes da aurora. Tentei ver o que os objetos eram, mas estava
escuro demais.
      -- His dictis, solutus est. Com essas palavras, ele est livre.
      Uma luz branca que quase cegava emanou do caixo. Eu mal podia ver o
Conjurador de Tmulos alguns metros  minha frente, como se a voz dele nos
estivesse transportando e no estivssemos mais em um cemitrio em Gatlin.
      Tio Macon! No!
      A luz piscou, como um relmpago, e se apagou. Estvamos todos de
volta ao crculo, olhando para uma montanha de terra e flores. O enterro tinha
terminado. O caixo havia sumido. Tia Del abraou Reece e Ryan de forma
protetora.
      Macon tinha partido.
      Lena caiu de joelhos na grama lamacenta.
      O porto da cerca que rodeava o lote de Macon se fechou com fora atrs
dela, sem nem um dedo t-lo tocado. No tinha terminado para ela. Ningum
ia a lugar algum.
      Lena?
      A chuva comeou a aumentar imediatamente, pois o tempo ainda estava
ligado aos poderes dela, uma Natural, a mais forte Conjuradora dos elementos
do mundo Conjurador. Ela se ps de p.
      Lena! Isso no vai mudar nada!
      O ar se encheu de centenas de cravos brancos baratos e flores de plstico
e folhas de palmeira e bandeiras de todos os tmulos visitados no ltimo ms,
todos voando soltos no ar, caindo pela colina. Cinquenta anos depois, as
pessoas da cidade ainda falariam do dia em que o vento quase derrubou as
magnlias no Jardim da Paz Perptua. A ventania foi intensa e chegou to
rapidamente que foi como um tapa no rosto de todos, to forte que era
preciso se esforar para ficar de p. S Lena permaneceu ereta e orgulhosa, se
segurando  lpide ao seu lado. Seus cabelos tinham se soltado do estranho
coque e voavam ao redor do rosto. Ela no estava mais cercada de escurido e
sombras. Ao contrrio, ela era o nico ponto brilhante na tempestade, como
se o relmpago dourado que partia o cu acima de ns estivesse emanando do
corpo dela. Boo Radley, o cachorro de Macon, chorava e baixava as orelhas
aos ps de Lena.
     Ele no iria querer isso, L.
     Lena levou as mos ao rosto e uma rajada repentina arrancou o toldo do
ponto onde estava fincado na terra molhada, fazendo com que despencasse
colina abaixo.
     Vov deu um passo e ficou de frente para Lena, fechou os olhos e
colocou um nico dedo na bochecha da neta. Assim que ela tocou em Lena,
tudo parou, e eu sabia que vov tinha usado suas habilidades de Emptica
para absorver os poderes de Lena temporariamente. Ela, porm, no poderia
absorver a raiva de Lena. Nenhum de ns era forte o bastante para fazer isso.
     O vento parou e a chuva diminuiu at virar um chuvisco. Vov afastou a
mo de Lena e ela abriu os olhos.
     A Succubus, parecendo estranhamente desarrumada, olhou para o cu.
     -- Est quase amanhecendo.
     O sol estava comeando a surgir por entre as nuvens e no horizonte,
enviando raios irregulares de luz e vida pelas fileiras de lpides. Nada mais
precisava ser dito. Os Incubus comearam a se desmaterializar, o barulho de
suco enchendo o ar. Eu pensava naquilo como algo se rasgando, pelo modo
como eles abriam o cu e desapareciam.
     Comecei a andar na direo de Lena, mas Amma me puxou pelo brao.
     -- O que foi? Eles foram embora.
     -- Nem todos. Olhe...
     Ela estava certa. Na beirada do lote havia sobrado apenas um Incubus,
apoiado contra uma lpide gasta e adornada com um anjo chorando. Ele
parecia mais velho do que eu, talvez 19 anos, e tinha cabelos pretos e curtos e
a mesma pele plida que o restante da espcie. Mas, ao contrrio dos outros
Incubus, ele no desapareceu antes do amanhecer. Enquanto eu o observava,
ele saiu do lugar onde estava, debaixo da sombra do carvalho, diretamente
para a luz forte da manh, com os olhos fechados e o rosto virado para cima,
como se o sol s brilhasse para ele.
      Amma estava errada. No podia ser um deles. Ele estava se aquecendo na
luz do sol, coisa impossvel para um Incubus.
      O que ele era? E o que estava fazendo ali?
      Ele chegou mais perto e olhou em minha direo, como se pudesse sentir
que eu o observava. Foi quando vi os olhos dele. No eram pretos como os de
um Incubus.
      Eram verdes como os de um Conjurador.
      Ele parou na frente de Lena, colocou as mos nos bolsos e inclinou
ligeiramente a cabea. No foi uma reverncia, mas uma demonstrao
desajeitada de deferncia, o que, de certa forma, a tornava mais honesta. Ele
tinha cruzado o corredor invisvel, e em um momento de verdadeira nobreza
sulista, podia ter sido o filho do prprio Macon Ravenwood. Isso me fez odi-
lo.
      Sinto muito por sua perda.
      Ele abriu a mo dela e colocou um pequeno objeto de prata, como os que
todo mundo tinha jogado sobre o caixo de Macon. Seus dedos se fecharam
ao redor do objeto. Antes que eu pudesse mover um msculo, o inconfundvel
som de algo se rasgando encheu o ar e ele sumiu.
      Ethan?
      Vi as pernas dela comearem a se dobrar sob o peso da manh -- a
perda, a tempestade, at mesmo o rasgo final no cu. No momento em que
consegui chegar at ela e segur-la, ela havia desmaiado. Carreguei-a colina
abaixo, para longe de Macon e do cemitrio.


Ela dormiu encolhida na minha cama, acordando de vez em quando, por uma
noite e um dia inteiros. Tinha alguns galhos presos no cabelo, o rosto ainda
estava manchado de lama, mas no queria ir para casa em Ravenwood, e
ningum lhe pediu que fosse. Dei a ela meu moletom mais velho e macio e a
enrolei em nossa mais antiga colcha de patchwork, mas Lena no parava de
tremer, nem mesmo dormindo. Boo ficou deitado aos ps dela, e Amma
aparecia na porta de vez em quando. Sentei-me na cadeira ao lado da janela,
aquela na qual eu nunca me sentava, e fiquei olhando para o cu. No podia
abrir a janela porque ainda caa uma tempestade l fora.
     Enquanto Lena dormia, seus dedos se abriram. Na mo, estava um
pequeno pssaro de prata, um pardal. O presente do estranho no enterro de
Macon. Tentei tir-lo, mas os dedos dela imediatamente se fecharam.
     Dois meses se passaram e eu ainda no conseguia olhar para o pssaro
sem ouvir o som do cu se abrindo.
                                     17 de abril   
                       Waffles queimados

                                    
Q    uatro ovos, quatro tiras de bacon, uma cesta de pes caseiros (o que, pelos
     padres de Amma, significava que a massa jamais tinha sido tocada por
     uma colher), trs tipos de gelia congelada e um pedao de manteiga
coberto de mel. E, pelo cheiro, do outro lado da bancada, a massa de leiteIho
estava se separando em quadrados e ficando crocante na velha frma de
waffle. Nos ltimos dois meses, Amma cozinhava noite e dia. A bancada
estava cheia de travessas -- canjica de queijo, ensopado de vagem, frango frito
e,  claro, salada de cerejas Bing, que era, na verdade, um nome chique para
gelatina com cerejas, abacaxi e Coca-Cola. Depois disso, eu pude ver um bolo
de coco, pezinhos de laranja e o que parecia pudim de po com usque, mas
eu sabia que havia mais. Desde que Macon tinha morrido e meu pai ido
embora, Amma no parava de cozinhar, assar e amontoar comida, como se
desse para acabar com a tristeza trabalhando na cozinha. Ns dois sabamos
que no dava.
     Amma no ficava to amargurada assim desde que minha me morreu.
Ela conhecia Macon Ravenwood havia muito mais tempo que eu, mais tempo
at do que Lena. Independentemente do quanto o relacionamento deles fosse
improvvel ou imprevisvel, tinha sido importante para os dois. Eram amigos,
embora eu no tivesse certeza de que qualquer um dos dois fosse admitir isso.
Mas eu sabia a verdade. Amma estava com ela estampada no rosto e a
empilhava por toda a cozinha.
      -- Recebi uma ligao do Dr. Summers. -- O psiquiatra do meu pai.
Amma no tirou os olhos da frma de waffle, e no comentei que no era
preciso ficar olhando para que ela assasse os waffles.
      -- O que ele disse?
      Observei as costas dela de onde eu estava sentado,  velha mesa de
carvalho, os cordes do avental amarrados atrs. Lembrei-me de quantas vezes
tentei chegar sorrateiramente e desamarrar aqueles cordes. Amma era to
baixa que as pontas ficavam penduradas at quase a beirada do avental, e
pensei nisso por tanto tempo quanto consegui. Qualquer coisa era melhor do
que pensar no meu pai.
      -- Ele acha que seu pai est pronto para voltar para casa.
      Levantei meu copo vazio e olhei atravs dele, onde as coisas pareciam to
distorcidas quanto eram na realidade. Meu pai estava no Blue Horizons, em
Columbia, havia dois meses. Depois que Amma descobriu sobre o livro
inexistente que ele fingiu escrever ao longo do ano todo e do incidente, que
era como Amma chamava o fato de meu pai quase ter pulado de uma sacada,
ela ligou para minha tia Caroline, que o levou para o Blue Horizons naquele
mesmo dia -- ela o chamava de spa. Do tipo de spa para onde eram
mandados os parentes malucos se eles precisassem daquilo que o pessoal de
Gatlin chamava de ateno individual, mas que todo mundo que no fosse
do sul chamava de terapia.
      -- Que timo.
      Que timo. Eu no conseguia imaginar meu pai voltando para Gatlin,
andando pela cidade com seu pijama de patos. J havia loucura demais aqui
entre mim e Amma, enfiada nos ensopados de creme de luto que eu deixaria
na Primeira Igreja Metodista na hora do jantar, como fazia quase todas as
noites. Eu no era especialista em sentimentos, mas os de Amma estavam
misturados com massa de bolo, e ela no iria compartilh-los. Preferia dar o
bolo a algum.
      Tentei conversar com ela sobre isso uma vez, no dia seguinte ao enterro;
ela, no entanto, encerrou a conversa antes mesmo que eu comeasse.
     -- O que est feito est feito. O que acabou acabou. Onde Macon
Ravenwood est agora  improvvel que o vejamos de novo, nem nesse
mundo, nem no Outro.
     Parecia que ela havia superado tudo, mas ali estava eu, dois meses depois,
ainda entregando bolos e ensopados. Ela havia perdido os dois homens de sua
vida naquela mesma noite: meu pai e Macon. Meu pai no estava morto, mas
nossa cozinha no fazia esse tipo de distino. Como Amma disse, o que
acabou, acabou.
     -- Estou fazendo waffles. Espero que esteja com fome.
     Aquilo era provavelmente tudo o que eu ouviria dela naquela manh.
Peguei a caixa de leite achocolatado que estava ao lado do meu copo e o enchi,
por puro hbito. Amma reclamava quando eu bebia achocolatado no caf da
manh. Agora ela seria capaz de me dar um pedao enorme de bolo com calda
de chocolate sem dizer uma palavra, o que s fazia eu me sentir pior. Mais
alarmante ainda era o fato de que o New York Times de domingo no estava
aberto nas palavras cruzadas, e os lpis pretos n 2 apontados estavam
guardados na gaveta. Amma olhava pela janela da cozinha, para as nuvens que
sufocavam o cu.
     L-A-C--N-I-C-A. Oito, horizontal, o que quer dizer que no preciso
dizer nada, Ethan Wate.  assim que Amma teria agido em qualquer outro dia.
     Tomei um gole do achocolatado e quase engasguei. O acar estava doce
demais e Amma, silenciosa demais. Foi assim que eu soube que as coisas
tinham mudado.
     Com tudo isso e com os waffles queimando na frma.

                                  
Eu devia estar a caminho da escola, mas em vez disso virei na autoestrada 9 e
segui para Ravenwood. Lena no havia voltado a frequentar a escola desde o
seu aniversrio. Depois da morte de Macon, o diretor Harper generosamente
concedeu a ela permisso para estudar em casa com um professor particular
at que ela se sentisse bem o bastante para voltar  Jackson. Levando em
considerao que ele tinha ajudado a Sra. Lincoln em sua campanha para que
Lena fosse expulsa depois do baile de inverno, tenho certeza de que ele torcia
para que ela nunca mais voltasse.
     Admito, eu estava com um pouco de inveja. Lena no tinha de ouvir o Sr.
Lee tagarelando sobre a Guerra da Agresso Norte e o sofrimento da
Confederao e nem tinha de se sentar no Lado do Olho Bom na aula de
ingls. Abby Porter e eu ramos os nicos que nos sentvamos l agora, ento
tnhamos de responder todas as perguntas sobre O mdico e o monstro. O
que faz com que o Dr. Jekyll vire o Sr. Hyde? Eles eram realmente to
diferentes? Ningum fazia a menor ideia, e era por isso que todos do lado do
olho de vidro da Sra. English viviam dormindo.
     Mas a Jackson no era a mesma sem Lena, pelo menos no para mim. Foi
por isso que, depois de dois meses, eu estava implorando para que ela voltasse.
No dia anterior, quando Lena disse que pensaria no assunto, falei que ela
podia pensar a caminho da escola.
     Eu estava de novo na bifurcao da estrada. Era nossa antiga rua, minha e
de Lena. A que tinha me tirado da autoestrada 9 e me levado a Ravenwood na
noite em que nos conhecemos. Na primeira vez que percebi que ela era a
mesma garota com quem eu sonhava, bem antes de ela se mudar para Gatlin.
     Assim que vi a rua, ouvi a msica. Ela chegou ao Volvo to naturalmente
quanto se eu tivesse ligado o rdio. A mesma msica. A mesma letra. Do
mesmo jeito que vinha tocando havia 2 meses -- quando ligava meu iPod,
olhava para o teto ou relia a mesma pgina do Surfista Prateado vrias vezes,
sem absorver uma palavra.
     Dezessete luas. Sempre estava l. Tentei mudar a estao do rdio, mas no
fazia diferena. Agora ela estava tocando na minha cabea em vez de sair dos
alto-falantes, como se algum estivesse transmitindo a msica para mim por
meio de Kelt.

    Dezessete luas, dezessete anos,
    Olhos onde Trevas ou Luz aparecem,
    Dourado para sim e verde para no,
    Dezessete, o ltimo a saber.
     A msica acabou. Eu sabia que no devia ignor-la, mas tambm sabia
como Lena agia toda vez que eu tentava tocar no assunto.
     --  uma msica -- dizia ela, sem interesse. -- No significa nada.
     -- Assim como Dezesseis luas no significava nada?  sobre ns.
     -- No importava se ela sabia e nem mesmo se concordava. Era sempre
naquele momento que Lena passava da defesa para o ataque e a conversa
perdia o rumo.
     -- Voc quer dizer que  sobre mim. Trevas ou Luz? Se vou ou no dar
uma de Sarafine com voc? Se voc j decidiu que vou virar das Trevas, por
que no admite?
     Naquele ponto, eu dizia qualquer coisa idiota para mudar de assunto. At
que aprendi a no dizer absolutamente nada. Ento no falvamos da msica
que estava tocando na minha cabea, do mesmo jeito que tocava na dela.
     Dezessete luas. Ns no podamos evitar.
     A msica tinha de ser sobre a Invocao de Lena, sobre o momento em
que ela se tornaria da Luz ou das Trevas para sempre. O que s podia
significar uma coisa: ela no tinha sido Invocada. Ainda no. Dourado para
sim e verde para no? Eu sabia o que a msica queria dizer -- os olhos
dourados de um Conjurador das Trevas ou os olhos verdes de um da Luz.
Desde a noite do aniversrio de Lena, a Dcima Sexta Lua dela, eu tentava
dizer a mim mesmo que tudo havia terminado, que Lena no precisava ser
Invocada, que ela era algum tipo de exceo. Por que no podia ser diferente
com Lena, visto que tudo mais que dizia respeito a ela parecia ser to
incomum?
     Mas no era diferente. Dezessete luas era a prova. Eu tinha comeado a
ouvir Dezesseis luas meses antes do aniversrio de Lena, como um anncio
das coisas por vir. Agora a letra tinha mudado de novo, e eu tinha de encarar
outra profecia sinistra. Havia uma escolha a ser feita, e Lena no a tinha feito.
As msicas nunca mentiam. Pelo menos, ainda no tinham mentido.
     Eu no queria pensar no assunto. Enquanto seguia pela longa ladeira que
levava aos portes de Ravenwood, at o som triturante dos pneus contra o
cascalho parecia repetir a nica verdade inevitvel. Se havia uma Dcima
Stima Lua, tudo tinha sido  toa. A morte de Macon tinha sido desnecessria.
      Lena ainda teria de se Invocar para a Luz ou para as Trevas, o que
decidiria o destino dela para sempre. No havia mudana de ideia para
Conjuradores, no era possvel mudar de lado. E quando ela finalmente
decidisse, metade da famlia dela morreria por causa disso. Os Conjuradores
da Luz ou os Conjuradores das Trevas -- a maldio garantia que s um dos
lados podia sobreviver. Mas em uma famlia na qual geraes de Conjuradores
no tinham livre-arbtrio e eram Invocados pela Luz ou pelas Trevas em seus
dcimos sextos aniversrios, sem poder opinar sobre o assunto, como Lena
poderia fazer esse tipo de escolha?
      Tudo o que ela sempre quis na vida era escolher o prprio destino. Agora
ela podia, mas era com uma piada csmica cruel.
      Parei nos portes, desliguei o motor e fechei os olhos, lembrando -- o
pnico crescente, as vises, os sonhos, a msica. Dessa vez, Macon no estaria
presente para roubar os finais tristes. No havia sobrado ningum para nos
tirar da enrascada, e ela estava chegando rpido.
                                    17 de abril   
                          Limo e cinzas

                                   
Q    uando parei o carro em frente a Ravenwood, Lena estava sentada na
     varanda em runas, esperando. Usava uma velha camisa de boto, jeans e
     seu All Star surrado. Por um segundo, pareceu que podamos estar trs
meses atrs e hoje era apenas outro dia. Ela, porm, tambm estava usando
um dos coletes listrados de Macon, e tudo estava diferente. Agora que Macon
tinha morrido, alguma coisa em Ravenwood dava a sensao de estar errada.
Como ir  Biblioteca do Condado de Gatlin se Marian, sua nica bibliotecria,
no estivesse l, ou ao FRA sem a filha mais importante das Filhas da
Revoluo Americana em pessoa, a Sra. Lincoln. Ou ao escritrio dos meus
pais sem minha me.
     Ravenwood parecia pior cada vez que eu ia. Ao olhar para o arco de
salgueiros chores, era difcil imaginar que o jardim tinha se deteriorado to
rpido. Canteiros com os mesmos tipos de flores que Amma tinha me
ensinado cuidadosamente a livrar de ervas daninhas, quando eu era criana,
brigavam por espao na terra seca. Debaixo das magnlias, aglomerados de
jacintos se enroscavam em hibiscos, e os heliotrpios infestavam as no-me-
esqueas, como se o prprio jardim estivesse de luto. E isso era inteiramente
possvel. Ravenwood sempre pareceu ter vontade prpria. Por que os jardins
deveriam ser diferentes? O peso do sofrimento de Lena provavelmente no
estava ajudando. A casa era um espelho dos humores dela, do mesmo modo
como sempre tinha sido com Macon.
     Quando ele morreu, deixou Ravenwood para Lena, e s vezes eu me
perguntava se teria sido melhor que ele no tivesse feito isso. A casa parecia
pior a cada dia. Cada vez que eu subia a colina, prendia a respirao,
esperando pelo menor sinal de vida, por alguma coisa nova, algo florescendo.
Cada vez que eu chegava ao topo, s via mais galhos vazios.
     Lena entrou no Volvo j com uma reclamao nos lbios.
     -- No quero ir.
     -- Ningum quer ir para a escola.
     -- Voc sabe o que eu quero dizer. Aquele lugar  horrvel. Preferia ficar
aqui e estudar latim o dia inteiro.
     Isso no ia ser fcil. Como eu podia convenc-la a ir para onde ela no
queria? A escola era um saco. Isso era uma verdade universal, e qualquer
pessoa que dissesse que aqueles deveriam ser os melhores anos da sua vida, ou
estava bbado, ou louco. Decidi que a psicologia reversa era minha nica
chance.
     -- O Ensino Mdio representa os piores anos das nossas vidas.
     --  mesmo?
     -- Com certeza. Voc precisa voltar.
     -- E isso vai me fazer sentir melhor exatamente como?
     -- No sei. Que tal:  to ruim que vai fazer o restante da sua vida
parecer maravilhoso em comparao?
     -- Pela sua lgica, eu devia passar o dia com o diretor Harper.
     -- Ou fazer teste pra lder de torcida.
     Ela enrolou o cordo no dedo e os caractersticos pingentes bateram uns
contra os outros.
     --  tentador.
     Ela sorriu, quase rindo, e eu soube que ela iria comigo.


Lena apoiou o ombro contra o meu durante todo o caminho at a escola.
     Mas quando chegamos ao estacionamento, ela no conseguiu sair do
carro.
     No ousei desligar o motor.
     Savannah Snow, a rainha da Jackson High, passou por ns amarrando a
camiseta apertada acima do jeans. Emily Asher, sua mais importante sdita,
estava logo atrs, digitando no celular enquanto passava entre os carros. Emily
nos viu e segurou Savannah pelo brao. Elas pararam, fazendo o que qualquer
garota de Gatlin que recebera uma boa educao faria ao ver o parente de uma
pessoa que tivesse morrido recentemente. Savannah apertou os livros contra o
peito, sacudindo a cabea para ns com tristeza. Era como assistir a um antigo
filme mudo.
      Seu tio est em um lugar melhor agora, Lena. Est nos portes do Cu, e um coro de
anjos o est levando para o amado Criador.
      Traduzi para Lena, mas ela j sabia o que elas estavam pensando.
      Pare com isso!
      Lena colocou o caderno de espiral surrado na frente do rosto, tentando
desaparecer. Emily ergueu a mo em uma tentativa de aceno tmido. Estava
nos dando espao, mostrando que no era s bem-educada como tambm
sensvel. Eu no precisava ler mentes para saber em que ela estava pensando
tambm.
      No vou at a porque estou deixando voc sofrer em paz, doce Lena Du-channes.
Mas sempre estarei aqui para te ajudar, sempre mesmo, como a Bblia e minha me me
ensinaram.
      Emily assentiu para Savannah, e as duas foram andando lenta e
tristemente, como se no tivessem fundado alguns meses antes os Anjos da
Guarda, a verso Jackson da viglia de vizinhos, cujo nico propsito era fazer
Lena ser expulsa da escola. De certo modo, aquilo era pior. Emory correu para
alcan-las, mas nos viu e diminuiu o passo at uma caminhada sbria,
tamborilando no cap do meu carro quando passou. Ele no tinha dirigido
uma palavra a mim durante meses, mas agora estava mostrando seu apoio.
Eram todos uns imbecis.
      -- No fale nada. -- Lena tinha se encolhido inteiramente no banco do
passageiro.
      -- No acredito que ele no tirou o bon. A me dele vai dar uma surra
nele quando chegar em casa. -- Desliguei o motor. -- Faa tudo certo e voc
talvez chegue mesmo  equipe de lderes de torcida, doce Lena Du-channes.
      -- Elas so... Elas so to...
     Ela estava to zangada que por um minuto me arrependi de ter dito
aquilo. Mas ia acontecer o dia todo, e eu queria que ela estivesse preparada
antes de pr os ps nos corredores da Jackson. Eu tinha passado tempo
demais sendo o Pobre Ethan Wate Cuja Mame Morreu no Ano Passado para no
saber disso.
     -- Hipcritas? -- Isso era at pouco.
     -- Fracas. -- Isso tambm. -- No quero entrar para a equipe delas e
no quero me sentar  mesa delas. No quero nem que olhem para mim. Sei
que Ridley as estava manipulando com os poderes dela, mas se no tivessem
dado aquela festa no meu aniversrio... Se eu tivesse ficado dentro de
Ravenwood como tio Macon queria... -- Eu no precisava que ela terminasse.
Ele ainda poderia estar vivo.
     -- Voc no tem como saber isso, L. Sarafine teria encontrado outra
maneira de chegar at voc.
     -- Elas me odeiam, e  assim que tem que ser. -- O cabelo dela comeou
a se movimentar, e por um segundo achei que haveria uma tempestade. Ela
apoiou a cabea nas mos, ignorando as lgrimas que estavam se perdendo
nos cabelos agitados. -- Alguma coisa precisa permanecer igual. No sou nada
parecida com elas.
     -- Odeio dar a notcia, mas voc nunca foi e nunca ser.
     -- Eu sei, mas alguma coisa mudou. Tudo mudou.
     Olhei pela minha janela.
     -- Nem tudo.
     Boo Radley olhou para mim. Ele estava sentado na linha branca quase
apagada da vaga ao lado da nossa, como se estivesse esperando por esse
momento. Boo ainda seguia Lena para todos os lugares, como um bom
cachorro Conjurador. Pensei em quantas vezes cogitei dar uma carona quele
cachorro. Para poupar o tempo dele. Abri a porta, mas Boo no se moveu.
     -- Tudo bem. Fique a.
     Comecei a fechar a porta, sabendo que Boo jamais entraria. Ento ele
pulou no meu colo, passou por cima da marcha e foi para os braos de Lena.
Ela afundou o rosto no pelo dele, inalando profundamente, como se o
cachorro sarnento criasse algum tipo de ar diferente do externo.
     Eles eram um amontoado pulsante de cabelo e pelo preto. Por um mito,
o universo inteiro pareceu frgil, como se pudesse desmoronar se eu soprasse
na direo errada ou puxasse o fio incorreto.
     Eu sabia o que precisava fazer. No conseguia explicar o sentimento, mas
ele me dominou com tanta fora quanto os sonhos, quando vi Lena pela
primeira vez. Os sonhos que sempre compartilhamos, to reais que deixavam
lama nos meus lenis ou gua de rio pingando no cho do meu quarto. Esse
sentimento no era diferente.
     Eu precisava saber que fio puxar. Precisava ser aquele que sabia o
caninho certo. Ela no conseguia ver o caminho alm do ponto onde estava
agora, ento tinha de ser eu.
     Perdida. Era assim que ela estava, e era a nica coisa que eu no podia
deix-la ficar.
     Liguei o carro e engatei a r. S tnhamos chegado at o estacionamento,
eu sabia, sem precisar de qualquer palavra, que era hora de levar Lena para
casa. Boo manteve os olhos fechados durante todo o caminho.


Levamos um cobertor velho para Greenbrier e nos enroscamos perto do
tmulo de Genevieve, em uma faixa estreita de grama ao lado da lareira e da
parede de pedra destruda. As rvores enegrecidas e a campina nos cercavam
por todos os lados, com tufos verdes comeando a surgir entre a terra batida.
Mesmo agora, ainda era o nosso lugar, o lugar onde tivramos nossa primeira
conversa depois que Lena quebrou a janela na aula de ingls com um olhar  e
com seus super poderes Conjuradores. Tia Del no suportava mais ver o
cemitrio queimado e os jardins destrudos, mas Lena no se importava. Era o
ltimo lugar onde ela tinha visto Macon, e isso o tornava seguro. De alguma
forma, olhar para a destruio do fogo era algo familiar, reconfortante. Ele
tinha chegado e destrudo tudo em sua frente, depois sumira. No era preciso
se perguntar o que mais estava a caminho e nem quando ia chegar l.
     A grama estava molhada e verde, e enrolei o cobertor ao nosso redor.
     -- Venha mais pra perto, voc est congelando.
     Ela sorriu sem olhar para mim.
     -- Desde quando preciso de uma razo pra chegar mais perto?
     Ela se encostou novamente no meu ombro e ficamos sentados em
silncio, nossos corpos aquecendo um ao outro e nossos dedos entrelaados,
uma corrente eltrica subindo pelo meu brao. Era sempre assim quando nos
tocvamos -- um leve choque que se intensificava com cada toque. Um aviso
de que Conjuradores e Mortais no podiam ficar juntos. No sem o Mortal
acabar morto.
     Olhei para os galhos pretos e retorcidos e para o cu desolador. Pensei no
primeiro dia em que segui Lena at aquele jardim, no modo como a tinha
encontrado chorando na grama alta. Tnhamos observado as nuvens cinzentas
desaparecerem de um cu azul, nuvens que ela movimentava s com o
pensamento. O cu azul -- era isso que eu significava para ela. Ela era o
Furaco Lena, e eu era o velho e comum Ethan Wate. Eu no podia imaginar
minha vida sem ela.
     -- Olhe. -- Lena passou por cima de mim e estendeu o brao na direo
dos galhos pretos.
     Havia um limo perfeitamente amarelo, o nico do jardim, cercado de
cinzas. Lena o soltou e flocos pretos voaram pelo ar. A casca amarela brilhava
em sua mo, e ela se deixou cair de novo nos meus braos.
     -- Olhe s isso. Nem tudo pegou fogo.
     -- Tudo vai crescer de novo, L.
     -- Eu sei. -- Ela no parecia convencida, virando e revirando o limo nas
mos.
     -- Daqui a um ano, nada disso vai estar preto. -- Ela olhou para os
galhos e para o cu acima de ns, e eu a beijei na testa, no nariz, na marca de
nascena em forma de lua crescente em seu rosto, enquanto ela virava para
mim. -- Tudo estar verde. At essas rvores voltaro a crescer. -- Enquanto
empurrvamos nossos ps uns contra os outros, tirando os sapatos, pude
sentir a pontada familiar de eletricidade cada vez que nossas peles se tocavam.
Estvamos to prximos que os cachos dos cabelos dela caam no meu rosto.
Soprei, e eles se espalharam.
      Eu estava preso na energia dela, envolvido pela corrente que nos unia e
nos afastava. Inclinei-me para beijar sua boca, e ela colocou o limo na frente
do meu nariz, provocando.
      -- Cheire.
      -- Tem o seu cheiro. -- Como o de limo e alecrim, que tinha me atrado
para Lena quando nos conhecemos.
      Ela o cheirou, fazendo uma careta.
      -- Azedo, como eu.
      -- Para mim, voc no tem gosto azedo.
      Puxei-a mais para perto, at que nossos cabelos estavam cheios de cinzas
e grama, e o limo amargo, perdido em algum lugar entre nossos ps e o fim
do cobertor. O calor estava na minha pele, como fogo. Embora ultimamente
eu s conseguisse sentir um frio cortante sempre que segurava a mo dela,
quando nos beijvamos de verdade no havia nada alm de calor. Eu a amava,
cada tomo dela, uma clula ardente de cada vez. Beijamos at que meu
corao comeou a dar pequenas paradas e as extremidades de tudo o que eu
via, sentia e ouvia comearam a se dissipar e virar escurido...
      Lena me afastou, para meu prprio bem, e ficamos deitados na grama
quanto eu tentava recuperar o flego.
      Voc est bem?
      Estou... estou bem.
      No estava, mas no falei nada. Achei que sentia cheiro de alguma coisa
pegando fogo e me dei conta de que era o cobertor. Estava fumegando
embaixo de ns, onde encostava no cho.
      Lena se levantou e puxou o cobertor. A grama debaixo de ns estava
chamuscada e amassada.
      -- Ethan. Olhe para a grama.
      -- O que tem?
      Eu ainda estava tentando recuperar o flego, mas tentava no
demonstrar. Desde o aniversrio de Lena, as coisas s tinham piorado,
fisicamente falando. Eu no conseguia parar de toc-la, embora s vezes no
conseguisse suportar a dor do toque.
      -- Tambm est queimada agora.
     -- Que estranho.
     Ela olhou para mim com calma, os olhos estranhamente escuros e
brilhantes ao mesmo tempo. Ela deixou cair um punhado de grama.
     -- Fui eu.
     -- Voc  uma garota quente.
     -- No pode estar brincando logo agora. Est piorando. -- Ns nos
sentamos um ao lado do outro, olhando para o que tinha sobrado de
Greenbrier. Mas no estvamos olhando para Greenbrier, na verdade.
Estvamos olhando para o poder do outro fogo. -- Igual  minha me. -- Ela
parecia amargurada.
     O fogo era a marca registrada de um Cataclista, e o fogo de Sarafine tinha
queimado cada centmetro desses campos na noite do aniversrio de Lena.
Agora Lena estava acendendo chamas involuntariamente. Meu estmago deu
um n.
     -- A grama vai crescer tambm.
     -- E se eu no quiser que cresa? -- disse ela baixinho, enquanto deixava
outro punhado de grama queimada cair por entre os dedos.
     -- O qu?
     -- Por que eu deveria?
     -- Porque a vida continua, L. Os pssaros fazem a parte deles, as abelhas
tambm. As sementes so espalhadas e tudo cresce de novo.
     -- Depois tudo  queimado novamente. Se voc tiver sorte o bastante
para estar perto de mim.
     No fazia sentido discutir com Lena quando ela estava com esse tipo de
humor. Uma vida inteira vendo Amma entristecendo tinha me ensinado isso.
     -- s vezes acontece.
     Ela dobrou as pernas e apoiou o queixo nos joelhos. Seu corpo lanava
uma sombra muito maior do que o tamanho real dela.
     -- Mas ainda tenho sorte.
     Mexi minha perna at que ficasse sob a luz, lanando uma longa linha da
minha sombra sobre a dela.
     Ficamos sentados assim, lado a lado, com apenas nossas sombras se
encostando, at o sol se pr e elas se esticarem, at as rvores negras
desaparecerem na noite. Ouvimos, em silncio, as cigarras e tentamos no
pensar at que a chuva comeou a cair novamente.
                                    1 de maio   
                                   Caindo

                                   

N      as semanas seguintes, convenci Lena a sair de casa comigo trs vezes.
       Uma, para ir ao cinema com Link -- meu melhor amigo desde o
       segundo ano --, quando nem a combinao favorita dela de pipoca e
caramelos de chocolate a animou. Outra vez para ir  minha casa comer os
biscoitos de melado de Amma e assistir a uma maratona de filmes de zumbis,
minha verso do encontro perfeito. No foi perfeito. E uma vez para uma
caminhada ao longo do rio Santee, mas acabamos voltando depois de 10
minutos com sessenta picadas de insetos cada um. Onde quer que ela
estivesse, era nesse lugar que no queria estar.
     Hoje foi diferente. Ela finalmente encontrara um lugar onde ficou 
vontade, mesmo sendo o ltimo que eu esperaria.
     Entrei no quarto dela e a encontrei esparramada no teto, os braos
estirados sobre o gesso, o cabelo espalhado como um ventilador preto ao
redor da cabea.
     -- Desde quando voc consegue fazer isso?
     Eu j estava acostumado aos poderes de Lena, mas desde seu dcimo
sexto aniversrio eles pareciam estar ficando mais fortes e descontrolados,
como se ela estivesse crescendo desajeitadamente e virando a Conjuradora que
seria no futuro. A cada dia, a Lena Conjuradora estava mais imprevisvel,
desenvolvendo seus poderes para ver o que conseguia fazer. Como acabamos
vendo, o que ela conseguia fazer nesses dias era causar todo tipo de confuso.
      Como na vez em que Link e eu estvamos indo para a escola no Lata
Velha e uma das msicas dele tocou no rdio como se a estao a estivesse
tocando. Link ficou to chocado que desviou o carro por reflexo e entrou uns
60 centmetros na cerca viva da Sra. Asher.
      -- Foi um acidente -- disse Lena com um sorriso torto. -- Uma das
musicas de Link estava na minha cabea.
      Ningum jamais tinha ficado com uma msica de Link na cabea. Mas ela
acreditou, o que deixou seu ego ainda mais insuportvel.
      -- O que posso dizer? Causo esse tipo de coisa nas mulheres. Minha voz
 macia como manteiga.
      Uma semana depois disso, Link e eu estvamos andando pelo corredor e
Lena apareceu e me deu um abrao, bem na hora em que o sinal tocou. Achei
que ela finalmente tinha decidido voltar para a escola. Mas Lena no estava na
verdade. Era algum tipo de projeo, ou sei l que palavra os Conjuradores
usam para fazer o namorado parecer um idiota. Link pensou que eu tivesse
tentando abra-lo, ento me chamou de namorado durante dias.
      Senti saudades.  crime? Lena dissera, achando engraado, mas eu
estava comeando a desejar que a vov interviesse e a colocasse de castigo, e
fizesse o que se faz com uma Natural que andava aprontando.
      No seja reclamo. Pedi desculpas, no pedi?
      Voc  uma ameaa to grande quanto Link no quinto ano, quando sugou todo o suco
dos tomates da minha me com um canudo.
      No vai acontecer de novo. Juro.
      Foi o que Link disse naquela poca.
      Mas ele parou, no foi?
      Sim. Quando paramos de plantar tomates.
      -- Desa.
      -- Gosto mais daqui de cima.
      Peguei a mo dela. Uma corrente eltrica percorreu meu brao, mas no
soltei. Puxei-a para baixo, em direo  cama e ao meu lado.
      --Ai!
      Ela estava rindo. Eu podia ver o ombro dela mexer embora estivesse de
costas para mim. Ou talvez ela no estivesse rindo, e sim chorando, o que era
raro atualmente. O choro tinha quase parado e sido substitudo por uma coisa
pior. Nada.
     O nada era enganoso. Era mais difcil descrever, consertar ou impedir o
nada.
     Quer conversar, L?
     Sobre o qu?
     Puxei-a mais para perto e apoiei minha cabea na dela. O tremor
diminuiu, e a apertei com tanta fora quanto podia. Como se ela ainda
estivesse no teto e eu  que estivesse pendurado.
     Nada.


Eu no devia ter reclamado do teto. Havia lugares mais loucos onde se podia
ficar. Como onde estvamos agora.
     -- Tenho uma sensao ruim em relao  isso.
     Eu suava, mas no conseguia limpar o rosto. Precisava que minhas mos
ficassem onde estavam.
     -- Que estranho. -- Lena sorriu para mim. -- Porque tenho uma
sensao boa em relao a isso. -- Os cabelos dela se mexiam com a brisa,
embora eu no tivesse certeza de que tipo de brisa. -- Alm do mais, estamos
quase l.
     -- Voc sabe que isso  loucura, certo? Se algum policial passar por aqui,
vamos ser presos ou enviados para o Blue Horizons para visitar meu pai.
     -- No  loucura.  romntico. Casais vm aqui o tempo todo.
     -- Quando as pessoas vo para a torre de gua, L, elas no esto se
referindo ao topo da torre de gua. -- Que era onde estaramos em um
minuto. S ns dois, uma escada instvel de ferro de uns 30 metros e o cu
azul da Carolina.
     Tentei no olhar para baixo.
     Lena tinha me convencido a subir at o topo. Havia algo na empolgao
da voz dela que me fez concordar, como se uma coisa to idiota pudesse faz-
la se sentir como da ltima vez em que estivemos ali. Sorrindo, feliz, suter
vermelho. Eu me lembrava porque havia um pedao de linha vermelha
pendurada no cordo dela.
     Ela tambm devia se lembrar. Ento ali estvamos ns, em uma escada,
olhando para cima para no olharmos para baixo.
     Quando chegamos ao topo e observei a vista, entendi. Lena estava certa.
     Era melhor ali em cima. Tudo ficava to longe que nada importava.
     Fiquei com as pernas penduradas na beirada.
     -- Minha me colecionava fotos de antigas torres de gua.
     --Ah,?
     -- Assim como as Irms colecionam colheres. S que, pra minha me,
eram torres de gua e cartes postais de Exposies Mundiais.
     -- Eu achava que todas as torres de gua eram como essa. Como uma
grande aranha branca.
     -- Em algum lugar no Illinois, tem uma com o formato de uma garrafa
de ketchup.
     Ela riu.
     --E tem uma que parece uma casinha, a essa altura do cho.
     -- Devamos morar l. Eu subiria e jamais voltaria a descer. -- Ela se
recostou na parede branca e quente. -- Acho que a de Gatlin devia ter
formato de pssego, um grande pssego de Gatlin.
     Recostei-me ao lado dela.
     -- J tem uma assim, mas no  em Gatlin. Fica em Gaffney. Pelo visto,
eles tiveram a ideia primeiro.
     -- Que tal uma torta? Podamos pintar esse tanque para parecer uma das
tortas de Amma. Ela ia gostar.
     Nunca vi uma assim. Mas minha me tinha a foto de uma com formato
de espiga de milho.
     -- Ainda prefiro a casinha. Lena olhou para o cu, onde no havia uma
nuvem.
     -- Eu iria querer a espiga de milho e o ketchup, se voc estivesse l.
     Ela pegou minha mo e ficamos assim, na beirada da torre branca de gua
de Summerville, olhando para o condado de Gatlin como se fosse uma terra
de brinquedo cheia de pequenas pessoas de brinquedo. To pequena quanto a
cidade de papelo que minha me montava debaixo da rvore de Natal.
      Como pessoas to pequenas podem ter problemas?
      -- Ei, trouxe uma coisa pra voc. -- Observei enquanto ela se sentava
ereta, olhando para mim como uma criana.
      -- O que ?
      Olhei pela beirada da torre de gua.
      -- Talvez devssemos esperar at que no pudssemos morrer por causa
da queda.
      -- No vamos morrer. No seja to covarde.
      Coloquei a mo no meu bolso de trs. No era nada de mais, mas j
estava comigo havia algum tempo, e eu tinha esperana de que pudesse ajud-
la a se reencontrar.
      Peguei uma minicaneta permanente presa a uma argola.
      -- Est vendo? Ela pode ficar no seu cordo, assim.
      Tentando no cair, estendi a mo at o cordo de Lena, o que ela nunca
tirava. Tinha um monte de pingentes, e cada um significava uma coisa para ela.
A moeda achatada da mquina do Cineplex, onde foi nosso primeiro
encontro. Uma lua de prata que Macon deu a ela na noite do baile de inverno.
O boto do colete que ela estava usando na noite da chuva. Eram as
lembranas de Lena, e ela as carregava consigo como se fosse perd-las e ficar
sem prova alguma de que aqueles poucos momentos perfeitos de felicidade
aconteceram.
      Prendi a caneta na corrente.
      -- Agora voc pode escrever onde quer que esteja.
      -- At mesmo em tetos? -- Ela olhou para mim e sorriu, de um jeito um
pouco torto, um pouco triste.
      -- At mesmo em torres de gua.
      -- Adorei.
      Ela falou baixinho e tirou a tampa da caneta.
      Antes que eu percebesse, ela estava desenhando um corao. Preto na
tinta branca, um corao escondido no topo da torre de gua de Summerville.
     Fiquei feliz por um segundo. Ento tive a sensao de que estava caindo
at o cho. Ela no estava pensando em ns. Estava pensando no prximo
aniversrio dela, na Dcima Stima Lua. J estava fazendo a contagem
regressiva.
     No meio do corao, ela no escreveu nossos nomes.
     Escreveu um nmero.
                                     16 de maio   
                                A ligao

                                    

N      o perguntei a ela sobre o que tinha escrito na torre de gua, mas
       tambm no esqueci o assunto. Como eu poderia, quando tudo o que
       tnhamos feito no ano anterior foi uma contagem regressiva para o
inevitvel? Quando finalmente perguntei por que Lena tinha escrito aquilo ou
para que era aquela contagem regressiva, ela no quis dizer. E tive a sensao
de que ela no sabia.
     Isso era pior do que saber.
     Duas semanas tinham se passado e, pelo que eu podia perceber, Lena
ainda no tinha escrito nada no caderno. Usava a minicaneta presa ao cordo,
mas parecia to nova quanto no dia em que a comprei no Pare & Roube. Era
estranho no ver a caligrafia dela, suas mos ou o All Star surrado, que ela no
usava muito ultimamente. Tinha comeado a usar botas pretas no lugar dos
tnis. O cabelo tambm estava diferente. Quase sempre preso para trs, como
se achasse que podia arrancar a mgica que havia nele.
     Estvamos sentados no degrau mais alto da minha varanda, no mesmo
lugar onde estvamos quando Lena me contou que era uma Conjuradora, um
segredo que nunca tinha contado a um Mortal. Eu estava fingindo ler O mdico
e o monstro. Lena olhava as pginas em branco do caderno em como se as
linhas azuis e finas guardassem a resposta para todos os problemas.
     Quando eu no a estava observando, contemplava minha rua. Meu pai ia
voltar para casa hoje. Amma e eu tnhamos ido visit-lo no Dia da Famlia
todas as semanas desde que minha tia o levara para o Blue Horizons. Embora
ele no tivesse voltado a ser quem sempre tinha sido, eu tinha de admitir que
ele estava agindo quase como uma pessoa normal de novo. Mas ainda estava
nervoso.
     -- Chegaram.
     A porta de tela bateu atrs de mim. Amma estava de p na varanda
quando um avental com bolsos, do tipo que ela preferia no lugar do
tradicional, principalmente em dias como aquele. Segurava o amuleto de ouro
pendurado no seu pescoo, esfregando-o entre os dedos.
     Olhei para o comeo da rua, mas a nica coisa que vi foi Billy Watson
andando de bicicleta. Lena tinha se inclinado para a frente para ver melhor.
     No vejo carro algum.
     Eu tambm no via, mas sabia que veria em uns cinco segundos. Amma
era orgulhosa, principalmente quando se tratava das suas habilidades como
vidente. Ela no diria que tinham chegado a no ser que soubesse que estavam
chegando.
     Logo aparecer.
     E, de fato, o Cadillac branco da minha tia virou  direita na Cotton Bend.
Tia Caroline estava com a janela aberta, o que ela gostava de chamar ar-
condicionado 360, e eu podia v-la acenando desde a quadra anterior. Fiquei
de p e Amma passou por mim.
     -- Venha. Seu pai merece uma recepo apropriada.
     Isso era um cdigo que significava V para a calada, Ethan Wate.
     Respirei fundo.
     Voc est bem?
     Os olhos castanho-claros de Lena brilharam ao sol.
     Estou.
     Menti. Ela deve ter percebido, mas no disse nada. Peguei a mo dela.
Estava fria, como sempre andava ultimamente, e a corrente de eletricidade
pareceu mais uma pontada de congelamento.
     -- Mitchell Wate. No me diga que comeu torta de alguma outra pessoa
alm da minha. Porque parece que voc caiu em um pote de biscoitos e no
conseguiu sair.
     Meu pai lanou-lhe um olhar sagaz. Amma o tinha criado, e ele sabia que
a provocao dela era carregada de tanto amor quanto um abrao.
     Fiquei ali parado enquanto Amma o tratava como se ele tivesse 10 anos.
Ela e minha tia estavam conversando como se os trs tivessem acabado de
chegar do mercado. Meu pai sorriu para mim sem entusiasmo. Era o mesmo
sorriso que me dava quando visitvamos o Blue Horizons. Dizia: No estou
mais louco, s envergonhado. Vestia a velha camiseta da Duke e uma cala jeans, e
de alguma forma parecia mais novo do que eu me lembrava. Exceto pelas
linhas ao redor dos olhos, que se destacaram quando ele me puxou para um
abrao desajeitado.
     -- Como voc est?
     Minha voz ficou presa na garganta por um segundo, e eu tossi.
     -- Bem.
     Ele olhou para Lena.
     --  bom ver voc de novo, Lena. Lamento sobre seu tio.
     Aquilo era o sinal da rigorosa educao sulista. Ele precisava se manifestar
sobre a morte de Macon, mesmo em um momento constrangedor como
aquele.
     Lena tentou sorrir, mas s conseguiu parecer to pouco  vontade quanto
eu.
     -- Obrigada, senhor.
     -- Ethan, venha at aqui e d um abrao em sua tia favorita.
     Tia Caroline estendeu as mos. Eu queria jogar os braos ao redor dela e
deixar que espremesse o n que havia no meu peito at ele sumir.
     -- Vamos entrar. -- Amma acenou para meu pai do alto da varanda. --
Fiz frango frito e um bolo de Coca-Cola. Se no entrarmos logo, o frango vai
dar um jeito de ir embora para casa.
     Tia Caroline passou o brao pelo de meu pai e o guiou escada acima. Ela
tinha o mesmo cabelo castanho e corpo magro da minha me, e por um
segundo pareceu que meus pais estavam em casa de novo, passando pela
antiga porta de tela da propriedade Wate.
     -- Preciso voltar para casa.
     Lena estava segurando o caderno contra o peito como um escudo.
      -- Voc no precisa ir. Entre.
      Por favor.
      Eu no falava aquilo por educao. No queria entrar l sozinho. Alguns
meses antes, Lena teria percebido. Mas acho que naquele momento a mente
dela estava em outro lugar, porque ela no percebeu.
      -- Voc precisa passar um tempo com sua famlia.
      Ela ficou na ponta dos ps e me beijou, os lbios mal tocando a minha
bochecha. Estava quase no carro antes mesmo que eu pudesse contestar.
      Observei o Fastback de Larkin desaparecer pela minha rua. Lena no
dirigia mais o rabeco. Pelo que eu sabia, ela no tinha nem olhado para ele
desde que Macon morrera. Tio Barclay o tinha estacionado atrs do velho
celeiro e depois jogado uma lona sobre ele. Agora ela dirigia o carro de Larkin,
todo preto e cromado. Link tinha quase babado na primeira vez em que o viu:
Sabe quantas garotas eu conseguiria com esse carro?
      Depois que o primo trara a famlia toda, eu no entendia por que Lena
iria querer dirigir o carro dele. Quando perguntei, ela deu de ombros e disse:
Ele no vai mais precisar dele. Talvez Lena achasse que estivesse punindo
Larkin ao dirigir o carro dele. Ele tinha contribudo para a morte de Macon,
algo que ela jamais perdoaria. Observei o carro dobrar a esquina, desejando
poder desaparecer junto com ele.




Quando cheguei  cozinha, havia caf de chicria no fogo. Havia tambm
problemas. Amma estava ao telefone, andando de um lado para o outro em
frente  pia, e a cada minuto ou dois cobria o fone com a mo e relatava a
conversa para tia Caroline.
     -- No a veem desde ontem. -- Amma colocou o telefone de volta no
ouvido. -- Faa um ch com conhaque para tia Mercy e a coloque na cama at
que a encontremos.
     -- Encontrar quem?
     Olhei para meu pai, que deu de ombros.
     Tia Caroline me levou at a pia e sussurrou do jeito que as damas sulistas
fazem quando alguma coisa  horrvel demais para ser dita em voz alta.
     -- Lucille Ball. Sumiu.
     Lucille Ball era a gata siamesa de tia Mercy, e passava a major parte do
tempo correndo pelo jardim das minhas tias-avs presa com uma coleira a um
varal, uma atividade  qual as Irms se referiam como exerccio.
     -- Como assim?
     Amma cobriu o fone com a mo de novo, apertando os olhos e firmando
o queixo. O Olhar.
     -- Parece que algum colocou na cabea da sua tia a ideia de que gatos no
precisam ficar presos, porque sempre voltam pra casa. Voc no sabe nada
sobre isso, sabe? -- No era uma pergunta. Ambos sabamos que era eu quem
dizia isso havia anos.
     -- Mas gatos no devem ficar na coleira tentei me defender, mas era tarde
demais.
     Amma me olhou com raiva e se virou para tia Caroline.
     -- Parece que tia Mercy est esperando, sentada na varanda, olhando para
a coleira pendurada no varal. -- Ela tirou a mo do fone. -- Voc precisa
lev-la para dentro de casa e colocar os ps dela para cima. Se ela ficar tonta,
ferva alguns dentes-de-leo.
     Sa de fininho da cozinha antes que Amma estreitasse ainda mais os
olhos. timo. O gato da minha tia de 100 anos tinha sumido e era minha
culpa. Eu teria que ligar para Link para ver se ele podia dirigir pela cidade
comigo para procurar Lucille. Talvez as fitas demo de Link a espantassem de
onde estivesse escondida.
     -- Ethan? -- Meu pai estava de p no corredor, bem em frente  porta
da cozinha. -- Posso falar com voc um segundo?
     Eu andava com medo disso, de quando ele pediria desculpas por tudo e
tentaria explicar por que tinha me ignorado por quase um ano.
     -- T, tudo bem. -- Mas eu no sabia se queria ouvir. No estava mais
com raiva. Quando quase perdi Lena, houve uma parte de mim que entendeu
por que meu pai tinha ficado completamente atormentado. Eu no conseguia
imaginar minha vida sem Lena, e meu pai tinha amado minha me por mais de
18 anos.
     Eu sentia pena dele agora, mas ainda doa.
     Meu pai passou a mo pelo cabelo e chegou mais perto de mim.
     -- Eu queria dizer o quanto lamento -- ele fez uma pausa, olhando para
prprios ps. -- No sei o que aconteceu. Um dia eu estava l escrevendo no
seguinte, s conseguia pensar na sua me: me sentar na cadeira dela, irar os
livros dela, imagin-la lendo por trs dos meus ombros. -- Ele ou para as
mos, como se estivesse falando com elas em vez de comigo. Talvez fosse um
truque que ensinavam no Blue Horizons. -- Era o nico lugar onde eu me
sentia prximo a ela. Eu no conseguia esquec-la.
     Ele olhou para o velho teto de gesso e uma lgrima escapou do canto dos
seus olhos, descendo lentamente pela lateral do rosto. Meu pai tinha perdido o
amor da vida dele, e tinha se desfeito como um suter velho. Eu tinha
testemunhado aquilo, mas no fiz nada para ajudar. Talvez ele no fosse o
nico culpado. Eu sabia que devia sorrir agora, mas no tinha vontade.
     -- Entendo, pai. Queria que voc tivesse dito alguma coisa. Eu tambm
sentia falta dela. Sabia?
     A voz dele estava baixa quando finalmente respondeu:
     -- Eu no sabia o que dizer.
     -- Tudo bem. -- Eu no sabia se realmente sentia isso, mas pude ver o
alivio se espalhar pelo seu rosto. Ele estendeu os braos e me abraou,
apertando minhas costas com os punhos por um segundo.
     -- Estou aqui agora. Quer conversar?
     -- Sobre o qu?
     -- Coisas que voc precisa saber quando tem uma namorada.
     No havia nada sobre o que eu menos quisesse conversar.
     -- Pai, ns no precisamos...
     -- Tenho muita experincia, sabe. Sua me me ensinou algumas coisas
sobre as mulheres ao longo dos anos.
     Comecei a planejar minha rota de fuga.
     -- Se algum dia quiser conversar sobre, voc sabe...
     Eu podia me jogar pela janela do escritrio e me espremer entre a cerca e
a casa.
     -- Sentimentos.
     Quase ri na cara dele.
     --O qu?
     --Amma diz que Lena est tendo dificuldades com a morte do tio. No
est agindo normalmente.
     Deitada no teto. Recusando-se a ir  escola. No se abrindo comigo.
Escalando torres de gua.
     -- No, ela est bem.
     -- Bem, as mulheres so uma espcie diferente.
     Assenti e tentei no olh-lo nos olhos. Ele no tinha ideia do quanto
estava certo.
     -- Por mais que eu amasse sua me, na metade do tempo eu no fazia
ideia do que se passava na cabea dela. Os relacionamentos so complicados.
Voc sabe que pode me perguntar qualquer coisa.
     O que eu podia perguntar? O que se faz quando o corao quase para de
bater cada vez que vocs se beijam? Se h vezes em que voc deve ou no ler
as mentes um do outro? Quais so os primeiros sinais de que sua namorada
est sendo Invocada para sempre pelo bem ou pelo mal?
     Ele apertou meu ombro uma ltima vez. Eu ainda estava tentando
formular uma frase quando me soltou. Ele olhava pelo corredor, na direo do
escritrio.
     O quadro emoldurado de Ethan Carter Wate estava pendurado no
corredor. Eu ainda no estava acostumado  ideia de v-lo, embora tivesse
sido eu a pendur-lo no dia seguinte ao enterro de Macon. Ele tinha ficado
escondido debaixo de um lenol durante minha vida inteira, e isso parecia
errado. Ethan Carter Wate tinha abandonado uma guerra na qual ele no
acreditava e morrera tentando proteger a Conjuradora que amava.
     Ento arrumei um prego e pendurei o quadro. Pareceu a coisa certa a
fazer. Depois disso, entrei no escritrio do meu pai e juntei as folhas de papel
espalhadas pelo aposento. Olhei para os rabiscos e crculos uma ltima vez, a
prova do quo fundo o amor pode ir e de quanto tempo uma perda pode
durar. Depois limpei o escritrio e joguei as folhas no lixo. Isso tambm
pareceu a coisa certa a se fazer.
     Meu pai andou at o quadro, fiquei observando-o como se o estivesse
vendo pela primeira vez.
     -- No vejo esse cara h muito tempo.
     Senti-me to aliviado por termos mudado para um assunto novo que as
palavras saram meio atropeladas.
     -- Eu o pendurei. Espero que no tenha problema. Mas pareceu que
devia ficar aqui, em vez de embaixo de um lenol velho.
     Por um minuto, meu pai olhou para o quadro do rapaz de uniforme
Confederado, que no parecia muito mais velho do que eu.
     -- Esse quadro sempre ficou debaixo de um lenol quando eu era
criana. Meus avs nunca falavam muito sobre ele, mas no iam pendurar o
quadro de um desertor na parede. Depois que herdei esta casa, encontrei-o
coberto no poro e o trouxe para o escritrio.
     -- Por que no o pendurou? -- Nunca imaginei que meu pai tivesse
olhado para o mesmo quadro escondido quando era criana.
     -- No sei. Sua me queria que eu o pendurasse. Ela amava essa histria:
o modo como ele fugiu da guerra, embora isso tenha acabado custando sua
vida. Eu queria pendur-lo. Mas estava muito acostumado a v-lo coberto.
Antes que o fizesse, sua me morreu. -- Ele passou a mo pela parte de baixo
da moldura entalhada. -- Sabe, seu nome  em homenagem a ele.
     -- Eu sei.
     Meu pai me olhou como se estivesse me vendo pela primeira vez
tambm.
     --Ela era louca por esse quadro. Fico feliz por voc t-lo pendurado.
Aqui  o lugar dele.


No escapei do frango frito e nem da expiao de culpa de Amma. Ento,
depois do jantar, dirigi pelas redondezas da casa das Irms com Link,
procurando por Lucille. Link chamava o nome dela entre mordidas em uma
coxa de frango enrolada num papel toalha cheio de gordura. Cada vez que ele
passava a mo pelo cabelo louro espetado, o brilho ficava mais intenso por
causa da gordura.
     -- Voc devia ter trazido mais frango frito. Gatos adoram frango. Eles
comem pssaros na natureza. -- Link estava dirigindo mais devagar do que o
habitual para que eu pudesse procurar por Lucille enquanto ele batucava no
volante do carro ao som de Love Biscuit, a nova e pssima msica da banda
dele.
     -- E a? Voc ia ficar dirigindo enquanto eu me pendurava pela janela
com uma coxa de frango na mo? -- Link era to transparente. Voc s quer
mais frango.
     -- Verdade. E bolo de Coca-Cola. -- Ele esticou o osso da coxa para
fora da janela. -- Aqui, gatinha, gatinha...
     Observei a calada, procurando um gato siams, mas outra coisa me
chamou a ateno: uma lua crescente. Estava na placa de um carro, entre um
adesivo da Stars and Bars, a bandeira Confederada, e um do Bubba`s Truck
and Trailer. Igual s outras placas da Carolina do Sul com o smbolo estadual
que eu tinha visto milhares de vezes, mas nunca havia pensado no assunto.
Uma palmeira azul e uma lua crescente, talvez uma lua Conjuradora. Os
Conjuradores realmente estavam ali havia muito tempo.
     -- O gato  mais burro do que pensei, se no conhece o frango frito da
Amma.
     -- Gata. Lucille Ball  fmea.
     -- um gato.
     Link fez uma curva e dobramos a esquina para a Main. Boo Radley estava
sentado no meio-fio, observando o Lata-Velha passar. Seu rabo balanou, uma
batida solitria de reconhecimento, enquanto desaparecamos na rua. O
cachorro mais solitrio da cidade.
     Ao ver Boo, Link limpou a garganta.
     -- Falando de garotas, como esto as coisas com Lena?
     Ele no a via muito, apesar de mais do que a maioria das pessoas. Lena
passava a maior parte do tempo em Ravenwood, sob os olhares atentos de
vov e tia Del, ou se escondia dos olhares atentos delas, dependendo do dia.
     -- Esto melhorando. -- No era exatamente uma mentira.
     -- Esto? Ela parece meio diferente. Mesmo se tratando de Lena. --
Link era uma das poucas pessoas da cidade que sabia do segredo dela.
     -- Seu tio morreu. Esse tipo de coisa mexe com a gente.
     Link devia saber melhor do que ningum. Ele tinha me visto tentando
entender a morte da minha me e, depois, o mundo sem ela nele. Sabia que era
impossvel.
     -- , mas ela quase no fala e vive usando as roupas dele. Voc no acha
o meio estranho?
     -- Ela est bem.
     -- Se voc diz, cara.
     -- Continue dirigindo. Precisamos encontrar Lucille. -- Olhei pela janela
para a rua vazia. -- Gata burra.
     Link deu de ombros e aumentou o volume, A banda dele, os Holy Rolers,
vibrou pelos alto-falantes. A garota foi embora. Levar um fora era o rema
de todas as msicas que Link escrevia. Era o jeito dele de encarar as coisas. Eu
ainda no tinha descoberto o meu.


Nunca encontramos Lucille, e jamais tirei da cabea a conversa com Link e a
que tive com meu pai. Minha casa estava em silncio, o que  algo que no
queremos quando estamos tentando fugir dos prprios pensamentos.
     A janela do meu quarto estava aberta, mas o ar estava to quente e parado
quanto tudo naquele dia.
     Link estava certo. Lena estava agindo de modo estanho. Mas s tinham se
passado alguns meses. Ela sairia dessa e as coisas voltariam a ser como antes.
     Mexi nas pilhas de livros e papis sobre minha escrivaninha, procurando
O guia do mochileiro das galxias, meu eterno livro para tirar alguma coisa da
cabea. Debaixo de uma pilha de quadrinhos de Sandman, encontrei outra
coisa. Era um pacote, enrolado no papel pardo tpico de Marian e amarrado
com um barbante. Mas no havia BIBLIOTECA DO CONDADO DE
GATLIN carimbado nele.
     Marian era a amiga mais antiga de minha me e a bibliotecria-chefe do
Condado de Gatlin. Era tambm a Guardi no mundo Conjurador -- uma
Mortal que protegia os segredos e a histria dos Conjuradores e, no caso de
Marian, a Lunae Libri, uma Biblioteca Conjuradora cheia de segredos dos
prprios. Ela tinha me dado esse pacote depois que Macon morreu, mas eu o
esqueci completamente. Era o dirio dele, e ela achou que Lena fosse querer
ficar com ele. Marian estava enganada. Lena no queria v-lo ou toc-lo. Nem
deixou que fosse levado para Ravenwood. Fique voc com ele, tinha dito
ela. Acho que no conseguiria suportar ver a letra de Macon`
     Estava juntando poeira na minha escrivaninha desde ento.
     Virei-o nas minhas mos. Era pesado, quase pesado demais para ser um
livro. Fiquei curioso sobre como ele era. Provavelmente velho, com uma capa
de couro rachado. Desamarrei o barbante e o desembrulhei. Eu no ia l-lo, s
olhar para ele. Porm, quando afastei o papel pardo, percebi que no era um
livro. Era uma caixa preta de madeira com entalhes complexos formando
estranhos smbolos Conjuradores.
     Passei a mo pela tampa, me perguntando sobre o que ele escrevia. No
conseguia imagin-lo escrevendo poesia, como Lena. Provavelmente estava
cheio de notas sobre horticultura. Abri a tampa com cuidado. Queria ver algo
em que Macon tivesse tocado todos os dias, algo que era importante para ele.
O forro era de cetim preto e as pginas em seu interior estavam soltas e
amareladas, escritas com a caligrafia apagada e rebuscada de Macon. Toquei
numa pgina, com um nico dedo. O cu comeou a girar e me senti caindo
para a frente. Vi o cho chegando mais perto, mas quando cheguei ao cho,
ca atravs dele e me vi em uma nuvem de fumaa...

      Havia incndios ao longo do rio, os nicos traos das plantaes que existiam l apenas
horas antes. Greenbrier j estava tomada pelas chamas. Ravenwood seria a prxima. Os
soldados da Unio deviam estar fazendo uma pausa, embriagados com a vitria e a bebida
que tinham roubado das casas mais abastadas de Gatlin.
      Abraham no tinha muito tempo. Os soldados estavam chegando, e ele teria de mat-
los. Era o nico meio de salvar Ravenwood. Os Mortais no tinham chance alguma contra
ele, mesmo sendo soldados. No eram preo para um Incubus. E se o irmo dele, Jonah,
voltasse dos tneis, os soldados teriam dois deles para enfrentar. As armas eram a nica
preocupao de Abraham. Embora as armas Mortais no pudessem matar a espcie dele, as
balas o enfraqueceriam, o que poderia dar soldados o tempo de que precisavam para
incendiar Ravenwood.
      Abraham precisava se alimentar, e apesar da fumaa, conseguia sentir o desespero e o
medo de um Mortal ali perto. O medo o deixaria forte. Fornecia mais poder e sustento do
que lembranas ou sonhos.
      Abraham Viajou em direo ao cheiro. Mas, quando se materializou no bosque atrs
de Greenbrier, soube que era tarde demais. O cheiro estava fraco. Ao longe, ele podia ver
Genevieve Duchannes curvada sobre um corpo na lama. Ivy, a cozinheira de Greenbrier,
estava parada atrs de Genevieve, segurando alguma coisa contra o peito.
      A velha viu Abraham e foi correndo na direo dele.
      -- Sr. Ravenwood, graas a Deus. -- Ela baixou a voz. -- O senhor precisa pegar
isto. Coloque-o em algum lugar seguro at que eu possa busc-lo. -- Tirando um pesado
livro preto das dobras do avental, o colocou nas mos de Abraham. Assim que ele tocou no
objeto, Abraham pde sentir seu poder.
      O livro estava vivo, pulsando contra suas mos como se tivesse batimentos cardacos.
Ele quase podia ouvi-lo sussurrando, pedindo que o pegasse -- que o abrisse e libertasse o
que estava escondido l dentro. No havia palavras na capa, s uma nica lua crescente.
Abraham passou os dedos pelas beiradas.
      Ivy continuou falando, considerando o silncio de Abraham uma hesitao.
      -- Por favor, Sr, Ravenwood. No tenho mais ningum a quem entreg-lo. E no
posso deix-lo com a Srta. Genevieve. No agora.
      Genevieve ergueu a cabea como se pudesse ouvi-los em meio  chuva e ao rugir das
chamas.
      No momento em que Genevieve se virou na direo deles, Abraham entendeu. Ele
podia ver os olhos amarelos dela brilhando na escurido. Os olhos de uma Conjuradora das
Trevas. Naquele momento, ele tambm entendeu o que estava segurando.
      O Livro das Luas.
      Ele j tinha visto o Livro antes, nos sonhos da me de Genevieve, Marguerite. Era um
livro de infinito poder, um livro que Marguerite igualmente temia e reverenciava. Que ela
escondia do marido e das filhas, e que jamais teria permitido cair nas mos de uma
Conjuradora das Trevas ou de um Incubus. Um livro que podia salvar Ravenwood.
      Ivy tirou alguma coisa das dobras da saia e esfregou na capa do Livro. Cristais
brancos rolaram pelas beiradas. Sal. A arma de mulheres supersticiosas, que traziam seu
prprio tipo de poder das Ilhas do Acar2, onde seus ancestrais tinham nascido. Elas
acreditavam que o sal afastava os Demnios, uma crena que Abraham sempre achara
divertida.
      -- Vou busc-lo assim que puder. Juro.
      -- Vou guard-lo em segurana. Voc tem minha palavra.
      Abraham tirou um pouco do sal da capa do Livro para que conseguisse sentir seu calor
contra a pele. Ele se virou em direo ao bosque. Andaria alguns metros, por causa de Ivy.
As mulheres Gullah sempre se assustavam ao v-lo Viajar, por serem lembradas do que ele
era.
      -- Guarde-o, Sr. Ravenwood. Faa o que fizer, mas no o abra. Esse livro no traz
nada alm de infelicidade para quem o manuseia. No escute quando ele o chamar. Vou
busc-lo.
      Mas o aviso de Ivy foi dado tarde demais.
      Abraham j estava escutando.


Quando voltei a mim, estava deitado de costas no cho do meu quarto,
olhando para o teto. Ele era pintado de azul, assim como o da casa, para
enganar as abelhas carpinteiras que faziam ninhos ali.
     Sentei, ainda tonto. A caixa estava ao meu lado, a tampa fechada. Abri-a,
e as pginas estavam l dentro. Desta vez, no toquei nelas.
     Nada daquilo fazia sentido. Por que eu estava tendo vises de novo? Por
que via Abraham Ravenwood, um homem do qual o povo da cidade
desconfiava havia geraes pelo fato de Ravenwood ter sido a nica fazenda a
sobreviver ao Grande Incndio? No que eu acreditasse muito no que o da
cidade dizia.
     Mas, quando o medalho de Genevieve provocou as vises, houve um
motivo. Uma coisa que Lena e eu precisvamos descobrir. O que Abraham
Ravenwood tinha a ver conosco? O ponto em comum era O Livro das
Luas.Estava nas vises do medalho e nessa. Mas o Livro estava desaparecido.
A vez que algum o vira fora na noite do aniversrio de Lena, quando em

2
 As Antilhas receberam por muito tempo o apelido de Ilhas do Acar, por causa do cultivo da cana-de-acar. (N. da
T.)
cima da mesa da cripta, cercado pelo fogo. Como tantas coisas, era nada alm
de cinzas agora.
                                    17 de maio   
                         Tudo o que resta

                                   
Q    uando fui  escola no dia seguinte, me sentei sozinho com Link e seus
     quatro sanduches de carne moda  mesa do almoo. Enquanto comia
     minha pizza, s conseguia pensar no que ele havia dito sobre Lena. Estava
certo. Ela havia mudado, um pouco de cada vez, at que eu quase no
conseguisse lembrar como as coisas eram. Se eu tivesse algum com quem
conversar, sabia que essa pessoa me diria para dar tempo a ela. Tambm sabia
que isso era s uma coisa que as pessoas diziam quando no tinha nada a ser
dito ou algo que se pudesse fazer.
     Lena no estava seguindo em frente. No estava voltando a ser ela
mesma, nem voltando para mim. Na verdade, estava se afastando de mim
mais do que de qualquer outra pessoa. Cada vez mais, eu no conseguia chegar
at ela, ou ao seu interior, nem com o Kelt nem com beijos ou nenhum outro
jeito complicado ou descomplicado que usvamos para nos tocar. Agora,
quando eu pegava a sua mo, s sentia a frieza.
     E quando Emily Asher olhou para mim do outro lado do refeitrio, no
havia nada alm de pena nos olhos dela. Mais uma vez, eu era algum digno de
pena. Eu no era o Ethan Wate Cuja Mame Morreu no Ano Passado. Agora eu
era Ethan Wate Cuja Namorada Ficou Pirada Quando o Tio Morreu.
     As pessoas sabiam que houve complicaes, e sabiam que no tinham
visto Lena na escola comigo.
     Mesmo no gostando de Lena, os infelizes amam observar a infelicidade
dos outros. Eu era lder de mercado no assunto infelicidade. Eu era mais do
que infeliz, pior do que um sanduche de carne moda amassado e esquecido
numa bandeja de refeitrio. Eu estava sozinho.

                             
Certa manh, quase uma semana depois, ouvi um barulho estranho, como
rangido, um disco arranhado ou uma pgina se rasgando, no fundo da minha
mente. Eu estava na aula de histria e falvamos sobre a Reconstruo, o que
era uma poca ainda mais entediante que a da Guerra Civil, ando os Estados
Unidos tiveram de se reconstruir. Em uma sala de aula Gatlin, esse captulo
era ainda mais constrangedor do que deprimente -- uma lembrana de que a
Carolina do Sul tinha sido um estado escravagista e de que estvamos contra o
que era certo. Todos sabamos disso, mas nossos ancestrais nos deixaram com
um eterno zero no boletim moral da nao. Cortes profundos deixam
cicatrizes, independentemente do que se tenta fazer para cur-los. O Sr. Lee
ainda falava sobre isso, pontuando cada frase com um suspiro dramtico.
     Eu tentava no escutar quando senti o cheiro de algo queimando, talvez
motor superaquecido ou um isqueiro. Olhei ao redor da sala. No vinha do Sr.
Lee, a fonte mais frequente de qualquer cheiro horrvel na minha aula de
histria. Ningum mais pareceu ter reparado.
     O barulho ficou mais alto, at virar um som indefinido e confuso de
coisas destrudas -- rasgos, falas, gritos. Lena.
     L?
     Nenhuma resposta. Acima do barulho, ouvi Lena murmurando versos de
poesia, e no do tipo que se manda para algum no Dia dos Namorados.
     No ondulando mas se afogando...
     Reconheci o poema, e no era bom. Lena lendo Stevie Smith era apenas
um passo atrs das poesias mais sombrias de Sylvia Plath e de um dia estilo A
redoma de vidro. Era a bandeira vermelha de Lena, como quando Link ouvia os
Dead Kennedys ou Amma picava legumes para rolinhos primavera com um
cutelo.
     Aguente firme, L. Estou indo.
     Alguma coisa tinha mudado e, antes que pudesse voltar a ser o que era,
peguei meus livros e sa correndo. Sa da sala antes do suspiro seguinte do Sr.
Lee.




Reece no me olhou quando entrei pela porta. Ela apontou para a escadaria.
Ryan, a prima mais nova de Lena, estava sentada no degrau de baixo com
Boo, parecendo triste. Quando mexi no cabelo dela, ela levou um dedo aos
lbios.
     -- Lena est tendo uma crise de nervos. Temos de ficar quietos at vov
e mame chegarem em casa.
     Aquilo era um eufemismo.
     A porta s tinha uma fresta aberta e, quando a empurrei, as dobradias
rangeram, como se eu estivesse entrando no local de um crime. Parecia que o
quarto tinha sido sacudido. A moblia estava de cabea para baixo ou destruda
ou desaparecida. O quarto inteiro estava coberto de pginas de livros, pginas
arrancadas e rasgadas e grudadas nas paredes, no teto e no cho. No havia
um livro sequer nas prateleiras. Parecia que uma biblioteca tinha explodido.
Algumas das pginas chamuscadas empilhadas no cho ainda estavam
fumegando. A nica coisa que no vi foi Lena.
     L? Onde est voc?
     Examinei o quarto. A parede atrs da cama dela no estava coberta com
os fragmentos dos livros que Lena amava. Estava coberta de outra coisa.

    Ningum o homem morto & Ningum o vivo
    Ningum vai ceder & Ningum vai dar
    Ningum me ouve mas Ningum se importa
    Ningum tem medo de mim mas Ningum s fica olhando
    Ningum pertence a mim & Ningum ficou
    No Ningum sabe de nada
    Tudo o que restou so restos
      Ningum e Ningum. Um Ningum.deles era Macon, certo? O homem
morto.
      Quem era o outro? Eu.
      Era isso que eu era agora? Ningum?
      Ser que todos os garoto precisavam se esforar tanto para entender suas
namoradas? Decifrar os poemas distorcidos escritos nas paredes delas com
caneta permanentemente ou gesso rachado?
       Tudo que restou so restos.
       Toquei a parede, borrando a palavra restos.
      Porque tudo o que restava no eram restos. Tinha que haver mais do que
-- mais em mim e Lena, mais em tudo. No era s Macon. Minha me tinha
morrido, mas, como os ltimos meses tinham mostrado, parte dela estava
comigo. Eu vinha pensando cada vez mais nela.
      Invoque a si mesma. Esse tinha sido o recado de minha me para Lena,
escrito nos nmeros de pginas de livros, espalhados no cho do aposento
favorito dela na propriedade Wate. O recado dela para mim no precisava ser
escrito em lugar algum, nem em nmeros, nem em letras, nem mesmo em
sonhos.
      O cho do quarto de Lena parecia um pouco com o escritrio naquele ,
com livros abertos espalhados por toda parte. S que esses livros estavam sem
as folhas, o que passava uma mensagem completamente aferente.
      Dor e culpa. Era o segundo captulo de todos os livros que minha tia
Caroline tinha me dado sobre os cinco estgios do luto, ou fosse l quantos
estgios as pessoas dissessem que havia no luto. Lena tinha passado pelo
choque e pela negao, os dois primeiros, ento eu devia ter previsto isso. Para
ela, acho que significava abrir mo de uma das coisas que ela mais amava. Os
livros.
      Pelo menos era o que eu esperava que aquilo significasse. Passei com
cuidado por cima das capas de livros vazias e queimadas. Ouvi os soluos
abafados antes mesmo de v-la.
      Abri a porta do armrio. Ela estava encolhida na escurido, com os
joelhos abraados contra o peito.
      Est tudo bem, L.
     Ela olhou para mim, mas no tenho certeza do que estava vendo.
     Todos os meus livros pareciam com ele falando. No consegui fazer com que parassem.
     No importa. Est tudo bem agora.
     Eu sabia que as coisas no ficariam daquele jeito por muito tempo. Nada
estava bem. Em algum lugar no caminho entre a raiva, o medo e a infelicidade,
ela havia dobrado uma esquina. Eu sabia por experincia prpria que no
havia volta.


Vov finalmente interveio. Lena voltaria para a escola na semana seguinte,
quer ela quisesse, quer no. A escolha dela era a escola ou a coisa que ningum
dizia em voz alta. Blue Horizons, ou seja l qual fosse o equivalente para os
Conjuradores. At ento, eu s tinha permisso de v-la quando fosse levar
seu dever de casa. Andei com dificuldade at a casa dela com uma sacola do
Pare & Roube cheia de folhas de exerccios e perguntas de redao sem
sentido.
     Por que eu? O que foi que eu fiz?
     Acho que no posso ficar perto de ningum que mexa com as minhas emoes. Foi o
que Reece disse.
     Sou eu que mexo com suas emoes?
     Eu podia sentir alguma coisa como um sorriso surgindo no fundo da
minha mente.
      claro que sim. S no do jeito que eles pensam.
     Quando a porta do quarto dela finalmente se abriu, deixei a sacola no
cho e a tomei nos braos. Apenas alguns dias tinham se passado desde que eu
a vira pela ltima vez, mas sentia saudade do cheiro do cabelo dela, de limo e
alecrim. Das coisas familiares. Mas hoje eu no conseguia sentir o cheiro.
Afundei meu rosto contra o pescoo dela.
     Tambm senti saudades.
     Lena olhou para mim. Ela estava vestindo uma camiseta e uma legging
pretas, cheia de cortes loucos pelas pernas. Seu cabelo estava se soltando do
coque acima da nuca. O cordo, pendurado e retorcido. Os olhos estavam
cercados de uma mancha preta que no era maquiagem.
     Mas quando olhei atrs dela, para o quarto, fiquei ainda mais preocupado.
     Vov tinha conseguido o que queria. No havia um livro queimado e
nada fora do lugar. Esse era o problema. No havia uma mancha de
permanente, nenhum poema, nenhuma pgina em qualquer parte do quarto.
Em vez disso, as paredes estavam cobertas de imagens, presas cuidadosamente
em fila ao longo do espao, como se fossem uma espcie de cerca prendendo-
a.
     Sagrado.Dormindo. Amada. Filha.
     Eram todas fotos de lpides, tiradas to de perto que s dava para
perceber o pedao spero de pedra por trs das palavras entalhadas e as
prprias palavras.
     Pai. Alegria. Desespero. Descanso eterno.
     -- No sabia que voc curtia fotografia. -- Fiquei me perguntando o
mais eu no sabia.
     -- No curto mesmo. -- Ela pareceu sem graa.
     -- Esto timas.
     -- Acham que isso  bom pra mim. Tenho que provar pra todo mundo
sei que ele se foi.
     -- Sei como . Meu pai precisa manter um dirio de sentimentos agora.
     Assim que terminei de falar desejei poder retirar o que disse. Comparar ao
meu pai no tinha como ser confundido com um elogio, mas ela no pareceu
perceber. Perguntei a mim mesmo h quanto tempo ela ia ao Jardim da Paz
Perptua com a cmera e como eu no tinha percebido.
     Soldado. Dormindo. Por espelho em enigma.
     Cheguei  ltima foto, a nica que no parecia fazer parte do grupo. Era
moto, uma Harley encostada a uma lpide. O cromado brilhante da parecia
deslocado ao lado das pedras velhas e gastas. Meu corao comeou a disparar
quando olhei para ela.
     -- Que foto  essa?
     Lena fez um gesto indicando que no era importante.
     -- Um cara visitando um tmulo, eu acho. Ele estava meio que... l. Eu
sempre penso em tr-la da, a luz est horrvel.
     Ela ergueu a mo por trs de mim, puxando as tachas da parede. Quando
chegou  ltima, a foto desapareceu, no deixando nada alm de quatro
buraquinhos na parede preta.
     Fora as imagens, o quarto estava quase vazio, como se ela tivesse feito as
malas para ir para a faculdade em outra cidade. A cama tinha sumido. A
estante e os livros tambm. O velho lustre que fizemos balanar tantas vezes
que pensei que cairia do teto tinha sumido. Havia um futon no cho, no meio
do quarto. Ao lado dele estava o pequeno pardal de prata. Olhar para ele
encheu minha mente de lembranas do enterro -- magnlias saindo da grama,
o mesmo pardal de prata na mo lamacenta dela.
     -- Tudo est to diferente.
     Tentei no pensar no pardal e nem na razo pela qual ele estaria ao lado
da cama dela. A razo que no tinha nada a ver com Macon.
     -- , voc sabe. Faxina de primavera. Eu meio que tinha destrudo o
quarto.
     Alguns livros esfarrapados estavam sobre o futon. Sem pensar, abri um
deles -- e me dei conta de que tinha cometido um dos piores crimes. Embora
o lado de fora estivesse coberto com uma capa antiga e remendada com durex
de O mdico e o monstro, a parte de dentro no era um livro. Era um dos
cadernos em espiral de Lena, e eu o tinha aberto bem na frente dela. Como se
no fosse nada, como se fosse meu e eu pudesse ler.
     Percebi outra coisa. A maior parte das pginas estava em branco.
     O choque foi quase to terrvel quanto descobrir as pginas de rabiscos
do meu pai quando achei que ele estivesse escrevendo um livro. Lena levava o
caderno consigo aonde quer que fosse. Se tinha parado de escrever o tanto
que costumava, as coisas estavam piores do que eu imaginava.
     Ela estava pior do que eu imaginava.
     -- Ethan! O que est fazendo?
     Afastei a mo, e Lena pegou o livro.
     -- Me desculpe, L.
     Ela estava furiosa.
      -- Pensei que fosse s um livro. O que quero dizer  que parece um livro.
No achei que voc deixaria seu caderno por a, onde qualquer um pudesse l-
lo.
      Ela no olhava para mim, e estava com o livro agarrado contra o peito.
      -- Por que no est escrevendo mais? Achei que amasse escrever.
      Eia revirou os olhos e abriu o caderno para me mostrar.
      -- Eu amo.
      Lena sacudiu as pginas em branco, e agora elas estavam cobertas com e
linhas de pequenas palavras rabiscadas, riscadas vrias vezes, revias e reescritas
e relidas mil vezes.
      -- Voc o Enfeitiou?
      -- Transformei as palavras para fora da realidade Mortal. A no ser que
queira mostrar para algum, s um Conjurador consegue ler.
      -- Brilhante. Considerando que Reece, a pessoa com mais chances de
tudo, por acaso  uma Conjuradora. -- Reece era to curiosa quanto
mandona.
      -- Ela no precisa. Pode ler tudo no meu rosto.
      Era verdade. Sendo uma Sibila, Reece conseguia ver os pensamentos e a
segredos, at as coisas que se planejava fazer, s de olhar nos olhos. E era por
isso que eu costumava evit-la.
      -- Ento pra que tanto segredo?
      Sentei no futon de Lena. Ela se sentou ao meu lado, com as pernas cruz
as. As coisas estavam menos confortveis do que eu fingia que estavam.
      -- No sei. Ainda sinto vontade de escrever o tempo todo. Talvez eu nas
sinta menos vontade de ser compreendida, ou sinta menos que possa ser
compreendida.
      Meu maxilar se contraiu.
      -- Por mim.
      -- No foi o que eu quis dizer.
      -- Que outros Mortais leriam seu caderno?
      -- Voc no entende.
      -- Acho que entendo.
      -- Em parte, talvez.
     -- Eu entenderia tudo se voc me deixasse entender.
     -- No tem o que deixar, Ethan. No consigo explicar.
     -- Deixe-me ver. -- Estendi o brao na direo do caderno.
     Ela ergueu uma sobrancelha, passando-o para mim.
     -- Voc no vai conseguir ler.
     Abri o caderno e olhei. No sei se foi Lena ou o livro em si, mas as
palavras foram aparecendo na pgina  minha frente lentamente, uma de cada
vez. No era um dos poemas de Lena, e no era uma letra de msica. No
havia muitas palavras, s desenhos estranhos, formas e curvas subindo e
descendo pela pgina como uma coleo de desenhos tribais.
     No fim da pgina, havia uma lista.

    o que eu lembro
    me
    ethan
    macon
    hunting
    o fogo
    o vento
    a chuva
    a cripta
    o eu que no sou eu
    o eu que mataria
    dois corpos
    a chuva
    o livro
    o anel
    o amuleto de Anna
    a lua

    Lena tirou o livro da minha mo. Havia mais algumas linhas na pgina,
mas no consegui l-las.
    -- Pare!
     Olhei para ela.
     -- O que  aquilo?
     -- Nada,  particular. Voc no devia ter conseguido ver aquilo.
     -- Ento por que consegui?
     -- Eu devo ter feito o Conjuro Verbum Celatum errado. A Palavra
Escondida. -- Ela olhou para mim com ansiedade, o olhar mais suave. --
No importa. Eu estava tentando me lembrar daquela noite. Da noite em que
Macon... desapareceu.
     -- Morreu, L. Da noite em que Macon morreu.
     -- Sei que ele morreu.  claro que morreu. S no quero falar sobre isso.
     -- Sei que deve estar deprimida.  normal.
     -- O qu?
     -- E o estgio seguinte.
     Os olhos de Lena faiscaram.
     -- Sei que sua me morreu e que meu tio morreu. Mas tenho meus
prprios estgios de luto. Esse no  o meu dirio de sentimentos. No sou
seu e no sou voc, Ethan. No somos to parecidos quanto pensa.
     Olhamos um para o outro de um modo que no fazamos havia muito
tempo, talvez nunca. Houve um momento indescritvel, Percebi que
estvamos falando em voz alta desde que cheguei, sem usar Kelt para nem
uma palavra. Pela primeira vez, eu no sabia em que ela estava pensando, e
esta bem claro que ela no sabia como eu me sentia tambm.
     Mas ento ela soube. Esticou os braos e me envolveu com eles porque,
ia primeira vez, era eu quem estava chorando.


Quando cheguei em casa, todas as luzes estavam apagadas, mas no entrei
logo. Fiquei sentado na varanda observando os vagalumes piscando no escuro.
No queria ver ningum. Queria pensar, e tinha a sensao de que Lena no
estaria ouvindo. Tem alguma coisa em ficar sozinho no escuro que faz a gente
se lembrar do quanto o mundo  grande e o quanto estamos distantes uns dos
outros. As estrelas parecem estar to perto que daria para esticar o brao e
toc-las. Mas no d. s vezes as coisas parecem bem mais prximas do que
realmente esto.
     Fiquei olhando para a escurido por tanto tempo que pensei ver alguma
coisa se mexer ao lado do velho carvalho em nosso jardim. Por um segundo,
meu corao acelerou. A maior parte das pessoas de Gatlin nem trancava as
portas, mas eu sabia que havia muitas coisas que podiam ultrapassar uma
tranca. Vi o ar se mover de novo, quase imperceptivelmente, como uma onda
de calor. Percebi que no era alguma coisa tentando entrar na minha casa. Era
algo que tinha fugido de outra.
     Lucille, a gata das Irms. Eu conseguia ver os olhos azuis brilhando na
escurido enquanto ela andava at a varanda.
     -- Falei pra todo mundo que voc encontraria o caminho de casa mais
cedo ou mais tarde. S que encontrou a casa errada. -- Lucille virou a cabea
para o lado. -- Voc sabe que as Irms nunca vo soltar voc daquele varal
depois disso.
     Lucille ficou me olhando como se entendesse perfeitamente. Como se
soubesse as consequncias quando fugiu, mas, por alguma razo, decidiu fugir
mesmo assim. Um vagalume piscou na minha frente, e Lucille pulou do
degrau.
     Ele voou mais alto, mas a gata burra continuou tentando peg-lo. Ela no
parecia saber a que distncia ele realmente estava. Como as estrelas.
     Como muitas coisas.
                                    12 de junho   
               A garota dos meus sonhos

                                   

E
     scurido
          Eu no conseguia ver nada, mas podia sentir o ar fugindo dos meus
     pulmes. No conseguia respirar. O ar estava cheio de fumaa e eu estava
, sufocando.
     Ethan!
     Eu tinha ouvido a voz dela, mas estava distante e baixa.
     O ar ao meu redor era quente. Tinha cheiro de cinzas e morte.
     Ethan, no!
     Vi o brilho de uma faca acima da minha cabea e ouvi uma risada sinistra.
Sarafine. S que eu no conseguia ver o rosto dela.
     Quando a faca entrou na minha barriga, eu soube onde estava.
     Estava em Greenbrier, em cima da cripta, e estava prestes a morrer.
     Tentei gritar, mas no consegui emitir som algum. Sarafine jogou a cabea
para trs e riu, as mos na faca enfiada na minha barriga. Eu estava morrendo
e ela ria. O sangue escorria pelo meu corpo inteiro, entrando nos meus
ouvidos, nas minhas narinas, na minha boca. Tinha um gosto distinto, de
cobre ou de sal.
     Meus pulmes pareciam dois sacos pesados de cimento. Quando o
sangue nos meus ouvidos abafou a voz dela, fui tomado por um sentimento
familiar de perda. Verde e dourado. Limo e alecrim. Podia sentir o cheiro
mesmo com o sangue, a fumaa e as cinzas. Lena.
    Sempre pensei que no pudesse viver sem ela. Agora eu no teria de
passar por isso.




-- Ethan Wate! Por que ainda no estou ouvindo o chuveiro ligado?
     Sentei-me de repente na cama, molhado de suor. Passei a mo por
debaixo da camiseta, pela pele. No havia sangue, mas eu podia sentir a marca
em relevo onde a faca tinha me cortado no sonho. Ergui a camiseta e olhei
para a linha cor-de-rosa irregular. Uma cicatriz cortava a parte de baixo do
meu abdmen, como uma ferida de facada. Apareceu do nada, o ferimento de
um sonho.
     S que era real e doa. Eu no havia tido um sonho desses desde o
aniversrio de Lena e no sabia por que estavam voltando agora, dessa
maneira. Eu estava acostumado a acordar com lama na minha cama ou fumaa
nos meus pulmes, mas era a primeira vez que eu acordava sentindo dor.
Tentei afastar a sensao, dizendo para mim mesmo que no tinha acontecido
de verdade. Mas minha barriga latejava. Olhei para minha janela aberta,
desejando que Macon estivesse por perto para roubar o fim desse sonho. Eu
desejava que ele estivesse por perto por vrios motivos.
     Fechei os olhos e tentei me concentrar, para ver se Lena estava por perto.
Mas eu j sabia que no estaria. Eu podia sentir quando ela estava longe, o que
acontecia na maior parte do tempo ultimamente.
     Amma gritou da escada de novo:
     -- Se voc est se atrasando de propsito para sua ltima prova, vai ficar
de castigo no seu quarto o vero inteiro. Pode apostar.
     Lucille Ball estava me olhando do p da cama, como fazia quase todas as
manhs agora. Depois que Lucille apareceu na varanda, levei-a de volta para
tia Mercy, mas no dia seguinte ela estava sentada na nossa varanda de novo.
Depois disso, tia Prue convenceu as irms de que Lucille era uma desertora, e
a gata foi morar conosco. Fiquei surpreso quando Amma abriu a porta e
deixou Lucille entrar, mas ela tinha suas razes.
     -- No h nada de errado em ter um gato em casa. Eles conseguem ver a
maioria das pessoas no v, como espritos do Outro Mundo que a passagem
de volta para c, os bons e os maus. E eles nos livram de ratos.
     Acho que podamos dizer que Lucille era a verso de Amma no reino
animal.
     Quando entrei no chuveiro, a gua quente caiu sobre meu corpo, levando
tudo embora. Tudo exceto a cicatriz. Esquentei ainda mais a gua, mas
conseguia me concentrar no banho. Estava envolvido com os sonhos, a
risada...
     Minha prova final de ingls.
     Merda.
     Eu tinha adormecido antes de terminar de estudar. Se no passasse na
prova, no passaria na matria, independentemente de me sentar no Lado
Olho Bom. Minhas notas no estavam maravilhosas nesse semestre, e com
isso quero dizer que eu estava no nvel de Link. Eu no estava em estado
normal de no estudar e me dar bem. J estava prestes a repetir em histria,
pois Lena e eu tnhamos faltado  Encenao da Batalha de Honey Hill no
aniversrio dela. Se repetisse em ingls, passaria o vero numa escola to velha
que nem tinha ar-condicionado, ou teria de repetir o ano todo. Uma pessoa
com pulso devia estar preparada para ponderar esse tipo de problema.
Assonncia, certo? Ou seria consonncia? Eu estava ferrado.


Esse foi o quinto dia do caf da manh gigantesco. Estvamos tendo provas a
semana toda, e Amma acreditava haver uma correlao direta entre o quanto
eu comia e o quanto me sairia bem. Eu tinha comido o equivalente ao meu
peso em bacon e ovos desde a segunda-feira. No era surpresa meu estmago
estivesse me matando e que eu tivesse pesadelos. Ou pelo menos foi o que
tentei dizer a mim mesmo.
     Cutuquei os ovos fritos com o garfo.
     -- Mais ovos?
     Amma me olhou com desconfiana.
      -- No sei o que voc est tramando, mas no estou com humor pra isso.
-- Ela colocou outro ovo no meu prato. -- No teste minha pacincia hoje,
Ethan Wate.
      Eu no ia discutir com ela. J tinha problemas demais.
      Meu pai entrou na cozinha e abriu o armrio, procurando cereal de trigo
integral.
      -- No provoque Amma. Voc sabe que ela no gosta. -- Ele olhou para
ela, sacudindo a colher. -- Esse meu garoto  completamente E-S-C-A-B-R-
O-S-O. O que quer dizer...
      Amma olhou com raiva para ele, batendo a porta do armrio com fora.
      -- Mitchell Wate, voc vai ganhar um par de cicatrizes se no parar de
bagunar minha despensa.
      Ele riu e um segundo depois eu podia jurar que ela estava sorrindo, e
observei meu pai doido comeando a fazer Amma voltar a ser Amma
novamente. O momento se acabou, estourando como bolha de sabo, mas eu
sabia o que tinha visto. As coisas estavam mudando.
      Eu ainda no estava acostumado a ver meu pai andando pela casa durante
o dia, se servindo de cereal e batendo papo. Parecia inacreditvel que quatro
meses atrs minha tia o tivesse internado no Blue Horizons. Embora ele no
fosse exatamente um homem novo, como tia Caroline declarou, eu tinha de
admitir que mal o reconhecia. Ele no fazia sanduches de salada de frango
para mim, mas ultimamente ficava cada vez mais fora do escritrio, e s vezes
at saa de casa. Marian conseguiu um trabalho para ele no departamento de
ingls da Universidade de Charleston, como palestrante convidado. Embora o
percurso do nibus transformasse a viagem de 40 minutos em 2 horas, no
podamos deixar meu pai operar maquinrio pesado ainda. Ele parecia quase
feliz. Relativamente falando, pelo menos, para um cara que ficou enfiado no
escritrio durante meses rabiscando como um louco. A expectativa era bem
baixa.
      Se as coisas podiam mudar tanto para meu pai, se Amma estava sorrindo,
talvez elas pudessem mudar para Lena tambm.
      No podiam?
     Mas o momento passou. Amma estava de volta ao seu mau humor. Eu
via no rosto dela. Meu pai se sentou ao meu lado e colocou leite no cereal.
Amma limpou as mos no avental.
     -- Mitchell,  melhor voc comer um pouco desses ovos. Cereal no 
manh.
     -- Bom-dia pra voc tambm, Amma. -- Ele sorriu para ela, do jeito que
aposto que fazia quando criana.
     Ele se virou para ele com os olhos estreitos e colocou com fora um copo
de leite achocolatado ao lado do meu prato, embora eu quase no bebesse
mais isso.
     -- No est muito bom, na minha opinio. -- Ela fungou e comeou a
quantidade enorme de bacon no meu prato. Para Amma, eu sempre teria 6
anos. -- Voc parece um morto-vivo. Precisa de alimento para o crebro, para
conseguir passar nessas suas provas.
     -- Sim, senhora.
     Bebi toda a gua do copo que Amma tinha servido para meu pai. Ela
ergueu a famosa colher de pau com um buraco no meio, a Ameaa de Um
Olho -- era assim que eu a chamava. Quando eu era criana, ela costumava
crer atrs de mim pela casa com a colher se eu a provocasse, embora nunca
tenha me batido com ela. Eu me abaixei, dando continuidade  brincadeira.
     -- E  melhor voc passar em todas. No quero voc naquela escola o
vero inteiro como os garotos Petty. Voc vai arrumar um emprego como
disse que faria -- a fungou, sacudindo a colher. -- Tempo livre equivale a e
voc j tem muito disso.
     Meu pai sorriu e abafou uma gargalhada. Aposto que Amma dizia
exatamente a mesma coisa para ele quando tinha a minha idade.
     -- Sim, senhora.
     Ouvi uma buzina de carro e um som grave muito parecido com o do
Lata-Velha e peguei minha mochila. S vi a sombra da colher atrs de mim.
     Entrei no Lata-Velha e abaixei a janela. Vov tinha conseguido o que e
Lena tinha voltado a frequentar a escola uma semana antes, no do ano letivo.
Dirigi at Ravenwood para lev-la  escola no primeiro que ela voltou e at
parei no Pare & Roube para comprar um dos famosos pes doces mas quando
cheguei l, Lena j tinha ido. Desde esse dia, ela vai sozinha de carro para a
escola, ento Link e eu voltamos a ir no Lata-Velha.
     Link abaixou o volume da msica, que estava pulsando pelo carro, pelas
janelas e pelo quarteiro todo.
     -- No me envergonhe naquela sua escola, Ethan Wate. E abaixe essa
msica, Wesley Jefferson Lincoln! Voc vai destruir a minha plantao de
repolho com essa barulheira. -- Link buzinou para ela. Amma bateu a colher
na caixa de correio, colocou as mos nos quadris e ento relaxou. -- Saia-se
bem nas suas provas e talvez eu lhe faa uma torta.
     -- No seria uma de pssego de Gatlin, seria, senhora?
     Amma fungou e assentiu.
     -- Pode ser.
     Ela jamais admitiria, mas tinha finalmente comeado a gostar de Link
depois de tantos anos. Link achava que fosse porque Amma sentia pena da
me dele depois da experincia de invaso-de-corpos de Sarafine, mas no era.
Ela se sentia mal por Link. No acredito que aquele garoto precisa morar na
mesma casa que aquela mulher. Ele ficaria melhor sendo criado por lobos:`
Dissera ela na semana anterior, antes de mandar uma torta de noz-pec para
ele.
     Link olhou para mim e riu.
     -- Foi a melhor coisa que me aconteceu, a me de Lena ter entrado no
corpo da minha me. Nunca comi tanta torta da Amma na vida.
     Isso era o mximo que ele dizia sobre o pesadelo de aniversrio de Lena.
Ele meteu o p no acelerador e o Lata-Velha saiu derrapando pela rua. Quase
no era preciso mencionar que estvamos atrasados, como sempre.
     -- Voc estudou para a prova de ingls?
     No era exatamente uma pergunta. Eu sabia que Link no abria um livro
desde o stimo ano.
     -- No. Vou colar de algum.
     --De quem?
     -- Por que voc se importa? De algum mais inteligente que voc.
     -- ? Da ltima vez que voc colou de Jenny Masterson, os dois tiraram
5.
     -- No tive tempo de estudar. Estava compondo uma msica. Talvez a
gente toque na feira do condado. Olha s. -- Link comeou a cantar junto
com a msica, o que era estranho, porque cantava junto com uma gravao da
prpria voz: -- Garota do Pirulito, partiu sem dizer nada, fiquei gritando seu
nome, mas voc nunca ouviu.
     timo. Outra msica sobre Ridley. Isso no devia me surpreender, pois
ele no escrevia uma msica sobre Outra coisa alm de Ridley havia quatro
meses. Eu estava comeando a achar que ele sempre seria vidrado na prima de
Lena, que no era nada parecida com ela. Ridley era uma Sirena, e usava
Poder de Persuaso para conseguir o que queria com uma lambida em pirulito.
E, por um tempo, o que ela quis foi Link. Embora ela o tivesse usado e
desaparecido, ele no a esquecera. Mas eu no podia culp-lo. Devia se difcil
se apaixonar por uma Conjuradora das Trevas. J era bastante estar
apaixonado por uma da Luz.
     Eu ainda pensava em Lena apesar do barulho ensurdecedor nos meus
ouvidos, at que a voz de Link foi completamente abafada e eu ouvi
Dezessete Luas S que a letra tinha mudado.


    Dezessete luas, dezessete voltas
    Olhos to escuros e brilhantes que queimam,
    O tempo tem pressa mas algum tem mais,
    Traz a lua para o fogo...

     O tempo tem pressa? O que isso significava? Faltavam 8 meses para a
dcima Stima Lua de Lena. Por que o tempo tinha pressa agora? E quem era
o algum, e o que era o fogo?
     Senti Link dar um tapa na lateral da minha cabea, e a msica
desapareceu. Ele estava gritando mais alto que a msica.
     -- Se eu conseguir diminuir a levada, vai ficar uma msica bem gostosa.
-- Olhei para ele, que me bateu na cabea de novo. -- Deixa pra l, cara.  s
uma prova. Voc parece to louco quanto a Srta. Luney, a moa dos quentes
no almoo.
    O problema era que ele no estava to errado.




Quando o Lata-Velha entrou no estacionamento da Jackson High, ainda
parecia o ltimo dia de escola. Para os formandos, no era. Eles teriam a
formatura no dia seguinte, alm de uma festa que duraria a noite toda e
normalmente deixa um monte de gente em coma alcolico. Mas para quem
estava no primeiro e no segundo ano, ainda havia mais uma prova at a
liberdade.
      Savannah e Emily passaram por mim e Link e nos ignoraram. As saias
curtas estavam ainda mais curtas do que o normal, e podamos ver lacinhos de
biquni saindo por debaixo das blusas. Tie-dye e cor-de-rosa.
      -- Olha s. Temporada de biqunis. -- Link sorriu.
      Eu quase tinha esquecido. Faltava apenas uma prova para podermos
passar a tarde no lago. Todo mundo que era algum estava com roupa de
banho por baixo, pois o vero no comeava oficialmente at que voc tivesse
dado o primeiro mergulho no lago Moultrie. Os alunos da Jackson tinham um
lugar cativo, depois do Canto de Monck, onde o lago se abria numa rea
profunda e larga que parecia um oceano quando se nadava nele. Exceto pelos
bagres e pelas algas do pntano, podia mesmo ser o mar. Nessa poca do ano,
eu ia at o lago na traseira da picape do irmo de Emory com Emily,
Savannah, Link e metade do time de basquete. Mas isso tinha sido at ano
passado.
      --Voc vai?
      -- No.
      -- Tenho uma sunga extra no Lata-Velha, mas no  to legal quanto
esta.
      Link puxou o short para que eu pudesse ver a sunga, que era quadriculada
de laranja e amarelo. To discreta quanto o prprio Link.
      -- No, obrigado.
      Ele sabia por que eu no ia, mas no falou nada. Eu tinha que agir como
se tudo estivesse bem.
     Como se Lena e eu estivssemos bem.
     Link no queria desistir hoje.
     -- Tenho certeza de que Emily vai dividir a toalha com voc.
     Era uma piada, porque ns dois sabamos que ela jamais faria isso. At
mesmo a fase do olhar de piedade tinha acabado, junto com a campanha de
dio. Acho que ramos um alvo to fcil ultimamente que tinha perdido a
graa.
     -- D um tempo.
     Link parou de andar e ergueu a mo para me deter. Afastei-a antes que
pusesse comear a falar. Eu sabia o que ia dizer e, por mim, a conversa estava
acabada antes mesmo de comear.
     -- Pare com isso. Sei que o tio dela morreu. Pare de agir como se ainda
estivessem no enterro. Sei que voc a ama, mas... -- No queria dizer, embora
estivssemos pensando a mesma coisa. Ele nunca mais havia falado no
assunto porque era Link, e ainda se sentava no almoo comigo quando
ningum mais se sentava.
     -- Est tudo bem. -- Ia dar certo. Tinha que dar. Eu no sabia viver sem
ela.
     --  difcil de ver, cara. Ela est tratando voc como...
     -- Como o qu? -- Era um desafio. Eu sentia meus dedos se fechando.
Estava esperando por um motivo, qualquer um. Parecia que eu ia explodir. Eu
queria muito bater em alguma coisa.
     -- Como as garotas costumam me tratar.
     Acho que ele estava esperando que eu batesse nele. Talvez quisesse isso,
se me ajudar. Deu de ombros.
     Abri minha mo. Link era Link, independentemente de eu ter vontade de
dar uns chutes nele s vezes.
     -- Desculpe, cara.
     Link riu um pouco, descendo pelo corredor um pouco mais rpido do o
habitual.
     -- Tudo bem, Psicopata.
     Quando subi os degraus para o destino inevitvel, senti uma pontada
familiar de solido. Talvez Link estivesse certo. Eu no sabia por quanto
tempo mais as coisas iriam continuar assim com Lena. Nada era igual. Se
conseguia perceber, talvez fosse a hora de encarar os fatos.
     Minha barriga comeou a doer e botei a mo na lateral, como se pudesse
arrancar a dor com as mos.
     Onde est voc, L?


Eu me sentei na cadeira quando o sinal tocou. Lena estava sentada ao meu
lado, no Lado do Olho Bom, como sempre. Mas no parecia ela mesma.
     Estava usando uma camiseta com gola V que era grande demais e uma
saia preta alguns centmetros mais curta do que jamais usaria trs meses atrs.
Mal dava para ver a saia debaixo da camiseta, que era de Macon. Eu quase no
reparava mais. Ela tambm usava o anel dele; Macon costumava gir-lo no
dedo quando estava pensando, pendurado em uma corrente em torno do
pescoo. A corrente que Lena usava era nova, e o anel estava ao lado do da
minha me. A antiga tinha quebrado na noite do aniversrio dela e se perdido
nas cinzas. Eu tinha dado o anel da minha me a Lena por amor, embora no
tivesse certeza de que ela achasse isso agora. Fosse qual fosse o motivo, Lena
carregava lealmente os nossos fantasmas consigo, o dela e o meu, se
recusando a se desfazer de qualquer um dos dois. Minha me perdida e o tio
perdido dela, presos em crculos de ouro e platina e outros metais preciosos,
pendurados sobre um cordo cheio de pingentes e escondidos em camadas de
algodo que no pertenciam a ela.
     A Sra. English j estava entregando as provas, e no pareceu feliz por
metade da sala estar de roupa de banho ou carregando uma toalha de praia.
Emily estava com ambas as coisas.
     -- Cinco respostas curtas, valendo dez pontos cada; a mltipla escolha
vale vinte e cinco pontos; a redao tambm. Desculpem, mas nada de Boo
Radley dessa vez. Estamos estudando O mdico e o monstro. Ainda no
chegou o vero, pessoal.
     Lemos O sol  para todos no outono. Eu me lembrava da primeira vez em
que Lena aparecera na aula, carregando o prprio livro surrado.
     -- Boo Radley morreu, Sra. English. Levou uma estaca no corao.
      No sei quem falou, uma das garotas sentadas atrs com Emily, mas
todos sabamos que falava de Macon. O comentrio tinha o objetivo de atingir
Lena, como antigamente. Fiquei tenso quando as risadas sumiram. Estava
esperando que a janela se estilhaasse ou algo do tipo, mas no houve sequer
uma rachadura. Lena no reagiu. Talvez no estivesse ouvindo, ou no ligasse
mais para o que eles diziam.
      -- Aposto que o Velho Ravenwood nem est no cemitrio da cidade.
Aquele caixo deve estar vazio. Se  que h um. -- A voz foi alta o bastante
para que a Sra. English dirigisse o olhar para o fundo da sala.
      -- Cale a boca, Emily -- sibilei.
      Dessa vez, Lena se virou e olhou diretamente para Emily. Isso foi o
bastante: um olhar. Emily abriu aprova, como se fizesse alguma ideia do que O
medico e o monstro se tratava. Ningum queria enfrentar Lena. S queriam falar
dela. Lena era o novo Boo Radley. Eu me perguntei o que Macon diria sobre
isso.
      Ainda estava pensando nisso quando ouvi o grito do fundo da sala.
      -- Fogo! Algum me ajude!
      Emily estava segurando sua prova, e o papel estava em chamas. Soltou
aprova no cho de linleo e continuou a gritar. A Sra. English pegou seu ter
das costas da cadeira, andou at o fundo da sala e se virou para poder usar o
olho bom. Com trs boas batidas o fogo se apagou, deixando a prova
queimada e fumegante em um ponto queimado e fumegante do cho.
      -- Eu juro que foi algum tipo de combusto espontnea. Comeou a
pegar fogo enquanto eu escrevia.
      A Sra. English pegou um isqueiro preto brilhante no meio da carteira de
Emily.
      --  mesmo? Junte suas coisas. Pode explicar tudo para o diretor Harper.
      Emily saiu da sala como um furaco enquanto a Sra. English andava at a
frente da sala de aula. Quando passou por mim, reparei que o isqueiro tinha o
smbolo de uma lua crescente de prata.
      Lena voltou-se para a prova e comeou a escrever. Olhei para a camiseta
branca larga, com o cordo tilintando por baixo. O cabelo dela estava preso,
amarrado em um n esquisito, outra nova preferncia que ela nunca se dava
ao trabalho de explicar. Cutuquei-a com o lpis. Ela parou de escrever e olhou
para mim, curvando os lbios em um meio-sorriso torto, que era o melhor que
conseguia fazer ultimamente.
     Sorri para ela tambm, mas ela olhou de volta para a prova, como se
preferisse pensar em assonncia e consonncia a me ver. Como se doesse
olhar para mim -- ou pior, como se ela simplesmente no quisesse.
     Quando o sinal tocou, a Jackson High virou um carnaval. As garotas
tiraram as blusas e saram correndo pelo estacionamento com a parte de cima
do biquni. Armrios foram esvaziados, cadernos jogados no lixo. As pessoas
deixaram de falar e passaram a gritar, depois a berrar, enquanto o pessoal do
primeiro ano passava a ser do segundo e o do segundo ano virava formando.
Todo mundo finalmente tinha tudo pelo qual vinha esperando o ano todo:
liberdade e um recomeo.
     Todo mundo menos eu.
     Lena e eu andamos at o estacionamento. A bolsa dela balanava
enquanto ela andava e esbarramos um no outro. Senti a eletricidade de meses
atrs, mas ainda estava fria. Ela deu um passo para o lado, me evitando.
     -- Como voc foi? -- Eu tentava puxar papo, como se fssemos
totalmente estranhos.
     --Em qu?
     -- Na prova final de ingls.
     -- Provavelmente fiquei reprovada. No li nada do que precisava.
     Era difcil imaginar Lena no lendo o livro para a aula, considerando que
respondera todas as perguntas durante meses quando lemos O sol  para
todos.
     -- ? Eu gabaritei. Roubei uma cpia da prova da mesa da Sra. English
na semana passada. -- Era mentira. Eu preferia repetir a colar enquanto
morasse na Casa de Amma. Mas Lena no estava ouvindo. Balancei a mo na
frente dos olhos dela. -- L? Voc est me ouvindo? -- Eu queria conversar
com ela sobre o sonho, mas primeiro precisava fazer com que ela reparasse
que eu estava ali.
     -- Desculpe. Tem muita coisa na minha cabea.
     Ela olhou para o outro lado. No foi muito, mas foram mais palavras do
que consegui arrancar dela em semanas.
     -- Tipo o qu?
     Ela hesitou.
     -- Nada.
     Nada de bom? Ou nada que possamos falar aqui?
     Ela parou de andar e se virou para mim, se recusando a me deixar entrar
na mente dela.
     -- Vamos embora de Gatlin. Todos ns.
     -- O qu?
     Eu no estava esperando por isso. E devia ser isso que ela queria. Ela
estava me afastando para que eu no conseguisse ver o seu interior, onde
coisas estavam acontecendo, onde ela escondia os sentimentos que no queria
compartilhar. Eu pensei que ela s precisasse de tempo. No me dei conta de
que era um tempo longe de mim.
     -- Eu no queria te contar.  s por alguns meses.
     -- Tem alguma coisa a ver com... -- O pnico familiar tomou conta do
eu estmago.
     -- No tem nada a ver com ela. -- Lena olhou para baixo. -- Vov e tia
Del acham que, se eu me afastar de Ravenwood, talvez pense menos. Sobre
ele.
     Se eu me afastar de voc. Foi isso que ouvi.
     -- No funciona assim, Lena.
     -- O qu?
     -- Voc no vai esquecer Macon se fugir.
     Ela ficou tensa ao ouvir o nome dele.
     -- ?  isso que os seus livros dizem? Onde eu estou? No estgio cinco?
Seis, no mximo?
     --  isso o que voc acha?
     -- Eis aqui um estgio: deixe tudo pra trs e se afaste enquanto ainda de.
Quando chego nesse?
     Parei de andar e olhei para ela.
     --  isso que voc quer?
     Ela retorceu o cordo cheio de pingentes, tocando nos pedacinhos de
ns, nas coisas que fizemos e vimos juntos. Ela o retorceu tanto que achei e
fosse arrebentar.
     -- No sei. Parte de mim quer ir embora e nunca mais voltar, e outra o
consegue suportar ir porque ele amava Ravenwood e a deixou pra mim.
     Essa  a nica razo?
     Esperei que ela terminasse -- que dissesse que no queria me deixar. Ela,
porm, no falou nada.
     Mudei de assunto.
     -- Talvez seja por isso que estamos sonhando sobre aquela noite. Do que
voc est falando?
     Consegui a ateno dela.
     -- O sonho que tivemos na noite passada, sobre o seu aniversrio. Quero
dizer, parecia com o seu aniversrio, exceto pela parte em que Sarafine me
matou. Parecia to real. At acordei com isso.
     Levantei minha camisa.
     Lena ficou olhando para a cicatriz rosada em alto-relevo que fazia uma
linha irregular no meu abdmen. Ela pareceu que ia desmaiar. Seu rosto ficou
plido e ganhou uma expresso de pnico. Foi a primeira vez que vi algum
tipo de emoo nos olhos dela em semanas.
     -- No sei do que est falando. No tive sonho algum ontem  noite.
     -- Havia algo no jeito que ela falou e na expresso em seu rosto. Ela
estava falando srio.
     -- Isso  estranho. Normalmente sonhamos juntos.
     Tentei parecer calmo, mas sentia meu corao disparando. Tnhamos os
mesmos sonhos desde antes de nos conhecermos. Eram eles o motivo das
visitas de Macon ao meu quarto,  meia-noite ele tirava os pedaos do meu
sonho que no queria que Lena visse. Macon tinha dito que nossa ligao era
to forte que Lena sonhava meus sonhos. O que isso dizia sobre nossa ligao
se ela no tinha mais os mesmos sonhos que eu?
     -- Era a noite do seu aniversrio e ouvi voc me chamando. Mas quando
cheguei  parte de cima da cripta, Sarafine estava l, segurando uma faca.
      Lena parecia que ia vomitar. Eu provavelmente devia ter parado ali, mas
no consegui. Precisava continuar insistindo, e nem sabia o porqu.
      -- O que aconteceu naquela noite, L? Voc nunca me contou. Talvez seja
por isso que estou sonhando agora.
      Ethan, no posso. No me obrigue afazer isso.
      Eu no podia acreditar. L estava ela, no fundo da minha mente, usando
Kelt de novo. Tentei abrir a porta alguns centmetros mais e entrar de novo na
dela.
      Podemos conversar sobre isso. Voc precisa me contar.
      Fosse l o que Lena estivesse sentindo, ela superou. Senti a porta entre
nossas mentes se fechar.
      -- Voc sabe o que aconteceu. Voc caiu quando tentava subir na cripta,
desmaiou.
      -- Mas o que aconteceu com Sarafine?
      Ela puxou a ala da bolsa para cima.
      -- No sei. Houve um incndio, lembra?
      E ela simplesmente desapareceu?
      -- No sei. Eu no conseguia ver nada e, quando o fogo comeou a se
apagar, ela tinha sumido. -- Lena parecia na defensiva, como se eu a estivesse
acusando de alguma coisa. -- Por que est fazendo tanto estardalhao por
causa disso? Voc teve um sonho e eu no. E da? No  como os outros. No
significa nada.
      Ela comeou se afastar de mim. Parei na frente dela e ergui a camisa de
novo.
      -- Ento como voc explica isso?
      A Linha irregular ainda estava rosada e recm-cicatrizada. Os olhos de
estavam arregalados, absorvendo a luz do primeiro dia de vero. Ao sol, seus
olhos castanhos pareciam brilhar com reflexos dourados. Ela no disse nada.
      -- E a msica, ela est mudando. Sei que voc a ouve tambm. O tempo
pressa? Vamos conversar sobre isso? -- Ela se afastou mais de mim, e acho
que essa foi a resposta. Mas no liguei e no importava, porque eu no
conseguia parar. -- Alguma coisa est acontecendo, no est?
      Ela balanou a cabea.
     --O que ? Lena...
     Antes que eu dissesse alguma coisa, Link nos alcanou, batendo em mim
com uma toalha.
     -- Parece que ningum vai ao lago hoje, exceto talvez vocs dois.
     -- Como assim?
     -- Olhe para os pneus,  Derrotado. Esto todos rasgados, de todos os
rios do estacionamento, at mesmo os do Lata-Velha.
     -- De todos os carros? -- Fatty, o inspetor da Jackson, ficaria doido com
isso. Calculei o nmero de carros no estacionamento. O bastante para levar a
coisa toda at Summerville, talvez at para o escritrio do xerife. Era coisa
demais para Fatty resolver.
     -- Todos os carros menos o de Lena.
     Link apontou para o Fastback no estacionamento. Eu ainda tinha
dificuldade de pensar nele como o carro de Lena. O estacionamento estava
um caos. Savannah falava ao celular. Emily gritava com Eden Westerly. O
time de basquete no ia a lugar algum.
     Link bateu com o ombro no de Lena.
     -- No culpo voc por todos os outros, mas tinha que fazer com o Lata-
Velha tambm? Estou meio sem grana pra comprar pneus novos.
     Olhei para ela. Ela estava transtornada.
     Lena, voc fez isso?
     -- No fui eu.
     Alguma coisa estava errada. A antiga Lena teria arrancado nossas cabeas
s por perguntarmos.
     -- Voc acha que foi Ridley ou...
     Olhei para Link. Eu no queria dizer o nome de Sarafine.
     Lena balanou a cabea com veemncia.
     -- No foi Ridley. -- Ela no soou como ela mesma, e nem segura de si.
-- Ela no  a nica que odeia Mortais, acredite se quiser.
     Olhei para ela, mas foi Link que falou a nica coisa que ns dois
pensamos:
     -- Como voc sabe?
     -- Eu apenas sei.
     Acima do caos do estacionamento, ouvimos o motor de uma moto dando
a partida. Um cara de camiseta preta passou pelos carros estacionados,
jogando fumaa nos rostos das lderes de torcida furiosas, e desapareceu na
estrada. Ele estava de capacete, ento no deu para ver o rosto. S a Harley.
     No entanto, meu estmago se embrulhou, porque a moto parecia
familiar. Onde eu a tinha visto? Ningum na Jackson tinha moto. O mais
prximo disso era o quadriciclo de Hank Porter, que no funcionava desde
que ele capotara depois da ltima festa de Savannah. Ou pelo menos foi o que
ouvi falar, pois j no fazia mais parte da lista de convidados.
     Lena ficou olhando para a moto como se tivesse visto um fantasma.
     -- Vamos sair daqui.
     Ela se encaminhou para o carro, praticamente correndo ao descer a
escada.
     -- Para onde?
     Tentei alcan-la, com Link correndo atrs de mim.
     -- Para qualquer lugar longe daqui.
                                   12 de junho   
                                  O lago

                                   

--S
                e no foi Ridley, por que os pneus do seu carro no foram
                cortados? -- continuei insistindo, O que tinha acontecido no
                estacionamento no fazia sentido, e eu no conseguia parar de
pensar nisso. Nem na moto. Por que eu a tinha reconhecido?
     Lena me ignorou, olhando para a gua.
     -- Provavelmente  coincidncia.
     Nenhum de ns acreditava em coincidncia.
     -- ?
     Peguei um punhado de areia marrom e spera. Exceto pela presena de
Link, o lago era nosso. Todos deviam estar fazendo fila no BP para comprar
pneus novos antes que Ed no tivesse mais nenhum.
     Em outra cidade, voc poderia ter calado de volta os sapatos, chamado
aquela areia de terra, e essa parte do nosso lago de pntano, mas a gua turva
do lago Moultrie era o mais prximo que Gatlin tinha de uma piscina. Todo
mundo ficava na margem norte porque era na extremidade do bosque e ficava
longe dos carros, ento nunca esbarrvamos com algum que no estivesse no
ensino mdio -- principalmente nossos pais.
     Eu no sabia por que estvamos ali. Era estranho o lago ser s nosso,
pois a escola inteira tinha planejado estar ali hoje. Eu no acreditei em Lena
quando ela disse que queria ir. Mas fomos, e agora Link estava nadando
enquanto compartilhvamos uma toalha suja que ele havia pegado no porta-
malas do Lata-Velha antes de sairmos.
     Lena se virou para o meu lado. Por um minuto, pareceu que tudo tinha
voltado ao normal e que ela queria estar ali comigo sobre a toalha. Mas aquilo
s durou at que o silncio se instalasse. Eu via a pele clara dela brilhando sob
a camiseta branca, que estava grudada no seu corpo, por causa do calor
sufocante e da umidade de um dia de junho na Carolina do Sul. O som das
cigarras quase abafou o silncio desconfortvel. Quase. A saia de Lena estava
baixa sobre os quadris. Desejei pela centsima vez que estivssemos com
nossas roupas de banho. Eu nunca tinha visto Lena de biquni. Tentei no
pensar nisso.
     Esqueceu que posso ouvir voc?
     Ergui uma sobrancelha. L estava ela de novo. De volta  minha mente,
duas vezes em um dia, como se nunca tivesse sado de l. Em um minuto ....
mal falava comigo, e no seguinte agia como se nada tivesse mudado entre ns.
Eu sabia que devamos conversar, mas no queria mais brigar.
     Voc de biquni no seria fcil de esquecer, L.
     Ela se inclinou mais para perto, puxando minha camiseta surrada por
cima da minha cabea, Senti alguns cachos que haviam escapado do penteado
dela encostarem no meu ombro. Ela passou o brao ao redor do meu pescoo
e me puxou para mais perto. Cara a cara, pude ver o sol brilhando dourado
nos olhos dela. Eu no me lembrava de eles serem to dourados.
     Ela jogou a camiseta no meu rosto e saiu correndo em direo  gua,
como uma criancinha enquanto pulava no lago, ainda de roupas. Eu no a via
rir ou brincar havia meses. Era como se eu a tivesse de volta por uma tarde,
mesmo sem saber por qu. Afastei o pensamento e fui atrs dela, correndo at
a gua e pela beirada rasa do lago.
     -- Pare!
     Lena espirrou gua em mim e eu nela. Suas roupas estavam encharcadas e
meu short tambm, mas era gostoso estar ao sol. Ao longe, Link nadava o
per. Estvamos sozinhos de verdade.
     -- L, espere.
     Ela sorriu e mergulhou.
     -- Voc no vai escapar to facilmente.
     Peguei a perna dela antes que desaparecesse e a puxei na minha direo.
     Ela riu e chutou, se contorcendo at que eu casse na gua ao seu lado.
     -- Acho que senti um peixe -- gritou ela,
     Puxei a cintura dela contra a minha. Estvamos cara a cara, sem nada
alm do sol, da gua e de ns dois. No havia como nos evitarmos agora.
     -- No quero que v embora. Quero que as coisas voltem a ser como
antes. Ser que no podemos voltar, voc sabe, a ser como ramos...
      estendeu a mo e tocou meus lbios.
     -- Shh.
     Um calor se espalhou pelos meus ombros e meu corpo. Eu quase tinha
me esquecido dessa sensao, do calor e da eletricidade. Ela desceu as mos
por meus braos e as juntou atrs das minhas costas, encostando a cabea
contra o meu peito. Parecia que havia vapor subindo da minha pele, pinicando
onde ela me tocava. Eu no ficava to prximo dela havia semanas. Inspirei
profundamente. Limo e alecrim.., e mais alguma coisa. Alguma coisa
diferente.
     Amo voc, L.
     Eu sei.
     Lena ergueu o rosto em direo ao meu e eu a beijei. Em segundos, ela
desapareceu nos meus braos, como no acontecia havia meses. O beijo
comeou a nos fazer mover involuntariamente, como se estivssemos sob
algum tipo de Conjuro prprio. Peguei-a e ergui-a para fora da gua, suas
pernas balanando sobre meu brao, a gua pingando dos nossos corpos.
Carreguei-a at a toalha e comeamos a rolar na areia suja. Nosso calor se
transformou em fogo. Eu sabia que estvamos fora de controle e
precisvamos parar.

L.
    Lena ofegou debaixo do peso do meu corpo e rolamos novamente.
Tentei recuperar o flego. Ela jogou a cabea para trs e riu; um arrepio
percorreu minha espinha. Eu me lembrava daquela risada, sada diretamente
do meu sonho. Era a risada de Sarafine. A risada de Lena soou exatamente
como a dela.
     Lena.
     Ser que eu estava imaginando? Antes que eu conseguisse entender, ela
tava em cima de mim e no pude pensar em mais nada. Eu me perdi em
segundos, completamente envolvido nela. Meu peito se apertou e me senti
ofegante. Eu sabia que, se no parssemos logo, eu terminaria no pronto
socorro ou em lugar pior.
     Lena!
     Senti uma dor lancinante no meu lbio. Empurrei-a para longe e rolei para
o lado, atnito. Lena se afastou e ficou de joelhos. Seus olhos brilham,
dourados e enormes. Quase no havia trao de verde. Ela estava respirando
com dificuldade. Inclinei meu corpo para a frente, tentando recuperar o
flego. Cada nervo do meu corpo tinha sido incendiado, um de cada vez. Lena
ergueu a cabea e mal consegui ver seu rosto na confuso de cabelos e terra.
S o estranho brilho dourado.
     -- Se afaste de mim -- pediu lentamente, como se cada palavra viesse de
um lugar profundo e intocvel dentro dela.
     Link saiu da gua e comeou a passar uma toalha pelo cabelo espetado.
Ele estava ridculo com os mesmos culos de natao de plstico que a me
dele o obrigava a usar quando ramos crianas.
     -- Perdi alguma coisa?
     Toquei no meu lbio, fazendo uma careta, e olhei para meus dedos.
Sangue.
     Lena ficou de p e comeou a se afastar de ns.
     Eu podia ter te matado.
     Ela se virou e correu em direo s rvores.
     --Lena!
     Sa correndo atrs dela.


Correr pelos bosques da Carolina do Sul descalo no  algo que eu
recomende. Estvamos passando por um perodo de seca, e a rea ao redor do
lago tinha ficado coberta de espinhos de cipreste, que cortavam os ps o
milhares de pequenas facas. Mas continuei correndo. Eu podia ouvir Lena
mais at do que v-la enquanto corria esbarrando nas rvores  minha
     -- Afaste-se de mim!
     Um galho pesado de pinheiro se partiu e caiu sem aviso, despencando na
trilha alguns metros  minha frente. E j ouvia outro galho estalando mais a
frente.
     L, voc enlouqueceu?
     Galhos caam ao meu redor, passando a centmetros de mim. Longe o
bastante para no me atingirem, mas perto o suficiente para deixar clara a
inteno.
     Pare com isso!
     No me siga, Ethan! Deixe-me em paz!
     Conforme a distncia entre ns aumentou, corri mais rpido. Troncos de
rvores e arbustos caram passando por mim. Lena desviava por entre as
rvores, sem seguir um caminho claro. Estava indo em direo  estrada.
     Outra rvore caiu na minha frente, presa horizontalmente nos troncos de
cada um dos meus lados. Fiquei preso por um momento. Havia um ninho de
guia-marinha de cabea para baixo na rvore partida. Coisa que Lena, em um
momento de sanidade, jamais sonharia em fazer. Toquei nos galhos,
verificando se havia ovos quebrados.
     Ouvi o som de uma moto e senti um vazio no estmago. Empurrei os
galhos e passei. Meu rosto estava arranhado e sangrando, mas cheguei 
estrada a tempo de ver Lena subindo na garupa de uma Harley.
     O que voc est fazendo, L?
     Ela olhou para mim por um segundo. Depois desapareceu na estrada, os
cabelos pretos ao vento.
     Afastando-me daqui.
     Seus braos plidos se agarraram ao motoqueiro do estacionamento da
Jackson High, o furador de pneus.
     A moto. Finalmente consegui lembrar. Estava em uma das fotos de
cemitrio de Lena, a que sumiu da parede assim que perguntei sobre ela.
     Ela no pularia na garupa da moto de um cara qualquer.
A no ser que o conhecesse.
Naquele momento, eu no sabia o que era pior.
                                   12 de junho   
                       Garoto conjurador

                                   

L
     ink e eu no conversamos muito no caminho de volta do lago. Tnhamos
     que levar o carro de Lena, mas eu no estava em condies de dirigir.
     Meus ps estavam cortados e eu tinha dado um mau jeito no tornozelo ao
me esforar para pular aquela ltima rvore.
     Link no se importou. Estava curtindo ficar atrs do volante do Fastback.
     --Cara, essa coisa  forte. Tem a fora de um pnei, baby.
     A admirao de Link pelo Fastback estava irritante hoje. Minha cabea
girava e eu no queria ouvir sobre o carro de Lena pela centsima vez.
     -- Ento acelere, cara. Temos de encontr-la. Ela pegou carona na moto
 um cara.
     Eu no podia dizer que ela provavelmente conhecia o cara. Quando Lena
tinha tirado aquela foto da Harley no cemitrio? Dei um soco na porta
frustrado.
     Link no apontou o bvio. Lena fugira de mim. Estava bem claro que i
queria ser encontrada. Ele apenas continuou dirigindo, e eu fiquei ando pela
janela enquanto o vento quente fazia arder as centenas de pequenos cortes no
meu rosto.
     Alguma coisa estava errada havia algum tempo. Eu s no queria encarar.
No tinha certeza se era algo que fizeram com a gente, se eu tinha feito com
ela, ou se ela havia feito comigo. Talvez fosse alguma coisa que ela tivesse
fazendo com ela mesma. Foi no aniversrio dela que tudo comeou no
aniversrio dela e na morte de Macon. Eu me perguntei se seria Sarafine.
     Todo esse tempo, eu achava que se tratava daqueles estgios idiotas do
luto. Pensei no dourado dos olhos dela e na gargalhada do sonho. E se isso se
tratasse de tipos diferentes de estgios, estgios de outra coisa? Algo
sobrenatural? Alguma coisa das Trevas?
     E se fosse aquilo de que tnhamos medo desde o comeo?
     Bati na porta de novo.
     -- Tenho certeza de que Lena est bem. Ela precisa ficar sozinha. A
garotas sempre falam que precisam de espao. -- Link ligou o rdio e ento o
desligou. -- Sistema de som maneiro.
     -- Que seja.
     -- Ei, devamos passar no Dar-ee Keen para ver se Charlotte est
trabalhando. Talvez nos arranje um sorvete. Principalmente se aparece com
esse carro.
     Link estava tentando me distrair, mas no ia dar certo.
     -- Como se houvesse uma pessoa na cidade que no soubesse de quem 
esse carro. Devamos deix-lo em casa. Tia Del deve estar preocupada. Isso
tambm me daria uma desculpa para ver se a Harley estava na casa de Lena.
     Link insistiu:
     --Voc vai aparecer com o carro de Lena sem Lena? E isso no vai
preocupar tia Del? Vamos parar pra tomar um gelado e pensar no assunto.
Nunca se sabe, talvez Lena esteja no Dar-ee Keen. Fica bem no fim da
estrada.
     Ele estava certo, mas isso no fez eu me sentir melhor. S pior.
     -- Se voc gosta tanto do Dar-ee Keen, devia ter arrumado um emprego
l. Ah, calma, voc no pode, porque vai estar na escola durante o vero
dissecando sapos com os outros Condenados que repetiram em biologia.
     Condenados eram os superformandos, os que sempre pareciam estar na
escola, mas de alguma maneira nunca se formavam. Os caras que usavam as
jaquetas dos times da escola anos depois, enquanto trabalhavam no Pare &
Roube.
     -- Olha quem fala. Voc podia ter um trabalho de vero pior? Na
biblioteca?
     --Eu posso arrumar um livro pra voc, mas a voc precisaria aprender
     Link estava frustrado com meus planos de trabalhar na biblioteca durante
o vero com Marian, mas eu no ligava. Ainda estava cheio de perguntas sobre
Lena, a famlia dela e os Conjuradores da Luz e das Trevas. Por que Lena no
teve que se Invocar no dcimo sexto aniversrio? No parecia o tipo de coisa
da qual se conseguia escapar. Ser que ela podia mesmo escolher entre ser da
Luz ou das Trevas? Era to fcil assim? Como O Livro das Luas tinha sido
destrudo no incndio, a Lunae Libri era o nico lugar que podia ter as
respostas.
     E havia outras perguntas. Tentei no pensar na minha me. Tentei no
pensar em estranhos de moto e pesadelos e lbios sangrando e olhos
dourados. Em vez disso, fiquei olhando pela janela e observei as rvores
passarem como uma mancha na paisagem.


O Dar-ee Keen estava lotado. Isso no era surpresa, pois era um dos nicos
lugares aonde dava para ir a p da Jackson High. No vero, voc podia seguir
a trilha de moscas e acabava sempre chegando ali. Antigamente chamado de
Dairy King, o lugar tinha ganhado um nome novo depois que os Gentry o
compraram mas no quiseram gastar dinheiro para fazer um novo letreiro.
Hoje, todo mundo parecia mais suado e irritado do que o normal. Andar um
quilmetro e meio no calor da Carolina do Sul e perder o primeiro dia de farra
e cerveja quente no lago no estava nos planos de ningum. Era como
cancelar um feriado nacional.
      Emily, Savannah e Eden estavam na mesa boa do canto com o time de
basquete. Estavam descalas, de biquni e saia jeans supercurta -- do tipo com
um boto aberto, mostrando uma viso poderosa da parte de baixo do biquni
mas sem deixar cair completamente. Ningum estava de muito hom humor.
No havia um pneu sequer em Gatlin, ento metade dos carros tinha ficado
no estacionamento da escola. Mesmo assim, havia risadas e jogadinhas de
cabelo. Emily estava ajeitando o suti cortininha do biquni e Emory, sua
vtima mais recente, estava adorando.
     Link balanou a cabea.
     -- Cara, aquelas duas querem ser o centro das atenes, a noiva no
casamento e o cadver no velrio.
     -- Desde que no me convidem pra nenhum dos dois.
     --Cara, voc precisa de acar. Vou entrar na fila. Quer alguma coisa?
     -- No, obrigado. Precisa de dinheiro?
     Link nunca tinha dinheiro.
     --No, vou convencer Charlotte a me dar de graa.
     Link conseguia convencer as pessoas de praticamente tudo. Passei pelo
meio da multido, indo para o lugar mais longe possvel de Emily e Savannah.
Fui at a mesa do canto ruim, embaixo das prateleiras com latas de
refrigerante e garrafas de todo o pas. Alguns refrigerantes estavam l desde
que meu pai era pequeno, e dava para ver nveis diferentes de xarope marrom,
laranja e vermelho desaparecendo no fundo das garrafas depois de anos de
evaporao. Era bem nojento, junto com o papel de parede de garrafa de
refrigerante dos anos 1950 e das moscas. Depois de um tempo, voc nem
reparava mais nisso tudo.
     Sentei-me e olhei para o xarope escuro que desaparecia, meu humor
engarrafado. O que tinha acontecido com Lena no lago? Em um minuto
estvamos nos beijando, no outro, ela fugia de mim. Todo aquele dourado nos
olhos. Eu no era burro. Sabia o que significava. Conjuradores da Luz tinham
olhos verdes. Conjuradores das Trevas, dourados. Os de Lena no eram
completamente dourados, mas o que eu tinha visto no lago era o bastante para
me deixar confuso.
     Uma mosca pousou na mesa vermelha brilhante, e fiquei olhando para
ela. Reconheci a sensao familiar no meu estmago. Medo e pnico, tudo
virando uma raiva indefinida. Eu estava to furioso com Lena que queria
chutar a janela de vidro na lateral da mesa. Mas, ao mesmo tempo, queria
saber o que estava acontecendo e quem era o cara da Harley. Ento dava uma
surra nele.
     Link se sentou  minha frente com o maior sorvete que j vi. As bolas
iam at uns 10 centmetros acima da borda do copinho.
     -- Charlotte tem muito potencial -- Link lambeu o canudo.
     At o cheiro doce do sorvete estava me enjoando. Senti como se o suor, a
gordura, as moscas, os Emorys e as Emilys estivessem me sufocando.
     -- Lena no est aqui. Vamos embora.
     Eu no podia ficar ali sentado como se tudo estivesse normal. Link, por
outro lado, podia. Chovesse ou fizesse sol.
     -- Relaxe. Vou tomar isso tudo em 5 minutos.
     Eden passou por ns enquanto ia encher o refil da Coca Diet. Ela sorriu,
to falsa como sempre.
     -- Que casal fofo. Est vendo, Ethan, voc no precisa perder tempo
com aquela cortadora de pneus e quebradora de janelas. Voc e Link so s
pombinhos feitos um para o outro.
     -- Ela no cortou os pneus, Eden.
     Eu sabia como a coisa toda ia se virar contra Lena. E tinha de acabar com
aquilo antes que as mes delas se envolvessem.
     -- . Fui eu -- disse Link com a boca cheia de sorvete. -- Lena ficou
chateada por no ter pensado nisso antes.
     Ele nunca conseguia resistir a uma oportunidade de perturbar a equipe de
animadoras de torcida. Para elas, Lena era como uma piada antiga que no
tinha mais graa, mas que ningum conseguia esquecer. Esse era o problema
das cidades pequenas. Ningum nunca mudava de opinio sobre voc, mesmo
que voc mudasse. No que dizia respeito a elas, mesmo quando Lena fosse
bisav, ainda seria a garota doida que quebrou a janela na aula de ingls. Isso
porque a maior parte dos alunos da aula de ingls ainda estaria morando em
Gatlin.
     Eu no. No se as coisas continuassem assim. Era a primeira vez em que
eu pensava em ir embora desde que Lena viera morar em Gatlin. A caixa de
livretos de faculdades debaixo da minha cama tinha permanecido l at agora.
Enquanto eu tinha Lena, no contava os dias para sair de Gatlin.
     -- Opa. Quem  aquele? -- A voz de Eden saiu um pouco alta demais.
Ouvi o sino da porta do Dar-ee Keen tocar quando ela se fechou. Era como
em algum tipo de filme do Clint Eastwood, no qual o heri entra no saloon
depois que acabou de atirar na cidade inteira. O pescoo de todas as garotas
sentadas perto de ns se virou para a porta, rabos de cavalo louros e oleosos
voando.
     -- No sei, mas certamente gostaria de descobrir -- ronronou Emily,
aparecendo atrs de Eden.
     -- Nunca o vi antes. Voc j o viu?
     Eu podia ver Savannah folheando o anurio da escola que tinha na mente.
     -- No mesmo. Eu me lembraria dele.
     Coitado. Emily o tinha na mira, com a arma carregada e engatilhada. Ele
no tinha chance, fosse quem fosse. Eu me virei para olhar o cara em quem
Earl e Emory dariam uma surra quando percebessem que suas namoradas
babavam por ele.
     Ele estava parado na porta usando uma camiseta preta surrada, jeans e
coturnos pretos gastos. Eu no conseguia ver os coturnos de onde estava, mas
sabia que estavam l. Porque ele vestia exatamente a mesma coisa na ltima
vez em que o vi, quando desapareceu no ar durante o enterro de Macon.
     Era o estranho, o Incubus que no era Incubus. O Incubus da luz do sol.
Eu me lembrei do pardal de prata na mo de Lena enquanto ela dormia na
minha cama.
     O que ele fazia ali?
     Uma tatuagem preta com aparncia meio tribal envolvia seu brao,
parecendo algo que eu j tinha visto antes. Senti uma faca na minha barriga e
toquei a minha cicatriz. Ela estava latejando.
     Savannah e Emily foram at o balco tentando fingir que iam pedir
alguma coisa, como se tocassem em qualquer coisa alm de Coca Diet.
     -- Quem  aquele? -- Link no gostava de concorrncia; no que ele
estivesse em alta ultimamente.
     -- No sei, mas ele apareceu no enterro de Macon.
     Link estava olhando para ele.
     --  um dos parentes esquisitos de Lena?
     -- No sei o que ele , mas no  parente de Lena.
     Por outro lado, ele tinha ido ao enterro para se despedir de Macon. Ainda
assim, havia algo de errado nele. Senti isso desde a primeira vez em que o vi.
     Ouvi o sino tocar de novo quando a porta se fechou.
     -- Ei, Carinha de Anjo, me espere.
     Congelei. Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Link tambm
estava olhando para a porta. Ele parecia que tinha visto um fantasma, ou
pior...
     Ridley.
     A prima Conjuradora das Trevas de Lena estava to perigosa e gostosa
pouca roupa como sempre, s que agora era vero, ento ela usava menos
roupas do que o habitual. Estava com uma camiseta preta de renda justa e
uma saia preta to curta que parecia de criana. As pernas de Ridley pareciam
mais longas do que nunca, equilibradas sobre um tipo de sandlia de salto alto
agulha que podia servir de estaca para matar vampiros. Agora as garotas no
eram as nicas com as bocas abertas. A maior parte da escola tinha ido ao
baile de inverno, quando Ridley botou tudo abaixo e ainda conseguiu
continuar mais gostosa do que qualquer garota naquele dia, exceto uma.
     Ridley se inclinou para trs e esticou os braos acima da cabea, como se
tivesse acordado de uma longa soneca. Ela entrelaou os dedos e se alongou
ainda mais, mostrando mais pele e a tatuagem preta que envolvia seu umbigo.
A tatuagem parecia com a do brao do garoto. Ridley sussurrou alguma coisa
no ouvido dele.
     -- Puta merda, ela est aqui.
     Link estava absorvendo lentamente. Ele no vira Ridley desde a noite do
aniversrio de Lena, quando a convenceu de no matar meu pai. Mas no
precisava v-la para pensar nela. Estava bem claro que ele vinha pensando
muito nela, com base em todas as msicas que escreveu desde que ela foi
embora.
     -- Ela est com aquele cara? Voc acha que ele , sabe, igual a ela? --
Um Conjurador das Trevas. Ele no conseguia dizer.
     -- Duvido. Os olhos dele no so amarelos. -- Mas ele era alguma coisa.
Eu s no sabia o qu.
     -- Esto vindo pra c.
     Link olhou para seu sorvete e Ridley chegou at ns.
     -- Ora, se no so duas das minhas pessoas favoritas. Legal encontrar
vocs aqui. John e eu estvamos doidos por uma bebida.
     Ridley jogou as mechas louras e cor-de-rosa por cima do ombro. Ela se
sentou  nossa frente e fez sinal para o cara fazer o mesmo. Mas ele no se
sentou.
     --John Breed -- disse ele como se fosse um nome s, olhando
diretamente para mim. Os olhos dele eram to verdes quanto os de Lena
costumavam ser. O que um Conjurador da Luz estaria fazendo com Ridley?
     Ridley sorriu para ele.
     -- Esse  o, voc sabe, da Lena, sobre quem eu estava te falando. -- Ela
fez um gesto casual na minha direo com os dedos de unhas pintadas de
roxo.
     -- Sou o namorado de Lena, Ethan.
     John pareceu confuso, mas s por um segundo. Ele era o tipo de cara que
parecia tranquilo, como se soubesse que tudo terminaria a seu favor em algum
momento.
     -- Lena nunca me contou que tinha namorado.
     Todos os msculos do meu corpo se contraram. Ele conhecia Lena, mas
eu no o conhecia. Ele a tinha visto depois do enterro, pelo menos falado com
ela. O que tinha acontecido, e por que ela no me contou?
     -- Como exatamente voc conheceu minha namorada? -- Minha voz
saiu alta demais, e pude sentir os olhos em ns.
     -- Relaxe, Palitinho. Estvamos aqui perto. -- Ridley olhou para Link.
     -- Como voc t, gostoso?
     Link limpou a garganta, sem graa.
     -- Bem. -- A voz dele saiu meio desafinada. -- Estou muito bem. Pensei
que tivesse ido embora.
     Ridley no respondeu.
     Eu ainda olhava para John, e ele devolvia o olhar, me avaliando.
Provavelmente imaginando mil maneiras de se livrar de mim. Porque ele
estava atrs de uma coisa (ou algum) e eu estava atrapalhando. Ridley no ia
simplesmente aparecer com esse cara agora, no depois de 4 meses.
     Mantive meu olhar nele.
     -- Ridley, voc no devia estar aqui.
     -- No precisa se revirar dentro da cueca, Namorado. S estamos de
passagem, indo embora de Ravenwood.
     Seu tom de voz era casual, como se no fosse nada demais.
     Eu ri.
     -- Ravenwood? No iam deixar voc passar pela porta. Lena botaria fogo
na casa primeiro.
     Ridley e Lena tinham crescido juntas, como irms, at que Ridley foi as
Trevas. Ela tinha ajudado Sarafine a encontrar Lena no aniversrio o que fez
com que todos ns quase morrssemos, inclusive meu pai. No havia
possibilidade de Lena querer estar com ela.
     Ela sorriu.
     -- Os tempos mudaram, Palitinho. No estou na melhor das situaes
com o restante da famlia, mas Lena e eu nos entendemos. Por que no
pergunta a ela?
     -- Voc est mentindo.
     Ridley abriu um pirulito de cereja, que parecia bastante inocente, mas a
uma arma superpoderosa nas mos dela.
     -- Voc obviamente tem dificuldade para confiar nas pessoas. Eu
adoraria ajudar voc com isso, mas temos que ir. Precisamos abastecer a moto
John antes que aquele posto caipira daqui fique sem gasolina.
     Eu estava segurando a lateral da mesa, e os ns dos meus dedos ficaram
brancos.
     A moto dele.
     Estava l fora naquele momento, e aposto que era uma Harley. A mesma
moto que eu tinha visto na foto presa  parede do quarto de Lena. John Breed
tinha buscado Lena no lago Moultrie. E antes que ele dissesse qualquer outra
coisa, eu sabia que John Breed no ia desaparecer. Ele estaria esperando na
esquina na prxima vez em que Lena precisasse de carona.
     Fiquei de p. No tinha certeza do que eu ia fazer, mas Link tinha. Ele se
levantou e me empurrou em direo  porta.
     -- Vamos sair daqui, cara.
    Ridley gritou atrs de ns:
    -- Senti muita saudade de voc, Shrinky Dink.
    Ela tentou fazer com que isso soasse sarcstico, como uma de suas
piadas. Mas o sarcasmo ficou preso na garganta e a frase saiu parecendo
verdadeira. Bati com a palma da mo na porta e a abri com fora.
    Mas antes que ela se fechasse, ouvi a voz de John:
    -- Foi um prazer conhecer voc, Ethan. Diga oi a Lena por mim.
    Minhas mos estavam tremendo, e ouvi Ridley rir. Ela nem precisava
mentir para me magoar hoje. Ela tinha a verdade.


                                   
No conversamos no caminho at Ravenwood. Nenhum de ns sabia o que
dizer. As garotas tm esse efeito nos garotos, principalmente as Conjuradoras.
Quando chegamos ao fim do longo caminho que levava  casa, os portes
estavam fechados, algo que eu nunca tinha visto antes. A hera tinha crescido
por cima do metal retorcido, como se sempre tivesse estado ali. Sa do carro e
sacudi o porto para ver se abriria, mas j sabendo que isso no ia acontecer.
Olhei para a casa atrs dele. As janelas estavam escuras e o cu acima ainda
mais.
     O que tinha acontecido? Eu poderia ter lidado com o ataque de Lena no
lago e com a sensao de que ela precisava se afastar. Mas por que ele? Por
que o garoto Conjurador da Harley? Quanto tempo fazia que ela andava com
ele sem me contar? E o que Ridley tinha a ver com aquilo tudo?
     Eu nunca tinha ficado to furioso com ela antes. Uma coisa era ser
atacado por algum que se odiava, mas isso era diferente. Era o tipo de
sofrimento que s podia ser causado por algum que voc amava e que
tambm amava voc. Era como ser esfaqueado de dentro para fora.
     -- Voc est bem, cara? -- Link bateu a porta do carro.
     -- No. -- Olhei para o caminho  nossa frente.
     -- Nem eu. -- Link jogou a chave dentro do Fastback pela janela aberta
e descemos a colina.
    Pegamos uma carona at a cidade; Link se virava a cada poucos minutos
para ver se a Harley aparecia na estrada atrs de ns. Mas eu achava que no
amos v-la. Aquela Harley no iria para a cidade. Pelo que eu sabia, ela j
podia estar dentro daqueles portes.


                                   
No desci para jantar, e esse foi meu primeiro erro. O segundo foi abrir a
caixa preta do All Star. Espalhei o contedo sobre minha cama. Um bilhete
que Lena havia escrito para mim no verso de uma embalagem amassada de
Stickers, um ingresso do filme que vimos em nosso primeiro encontro, um
recibo apagado do Dar-ee Keen e uma pgina sublinhada com marca-texto
arrancada de um livro que tinha me feito pensar nela. Era a caixa na qual eu
guardava todas as nossas lembranas -- a minha verso do cordo de Lena.
No parecia o tipo de coisa que um garoto deveria fazer, ento no contei para
ningum que eu guardava aquelas coisas, nem para ela.
     Peguei a foto amassada do baile de inverno, tirada segundos antes de
sermos encharcados de neve derretida pelos meus supostos amigos. A foto
atava tremida, mas fomos capturados em um beijo, to feliz que era difcil de
olhar agora. Lembrar-me daquela noite, embora eu soubesse que o momento
seguinte seria terrvel, fez com que parte de mim ainda estivesse l, dando
aquele beijo nela.
     -- Ethan Wate, voc est a?
     Tentei enfiar tudo de volta na caixa quando ouvi minha porta se abrindo
mas a caixa caiu, espalhando tudo pelo cho.
     -- Voc est se sentindo bem?
     Amma entrou no meu quarto e se sentou ao p da cama. Ela no fazia o
desde que tive infeco estomacal, no sexto ano. No que ela no me amasse.
Era s que as coisas entre ns funcionavam de um jeito que no inclua ela se
sentar na minha cama.
     -- Estou cansado, s isso.
     Ela olhou para a baguna no cho.
     -- Voc parece mais pra baixo do que uma lampreia no fundo do rio. E
um pedao de carne de porco l na minha cozinha com uma cara to triste
quanto a sua.  infelicidade demais. Ela se inclinou e tirou meu cabelo de cima
do olho. Ela sempre pegava no meu p para que cortasse e cabelo.
     -- Eu sei, eu sei. Os olhos so a janela da alma, e preciso cortar o cabelo.
     -- Voc precisa de muito mais do que cortar o cabelo. -- Ela fez uma
cara triste e pegou meu queixo como se pudesse me erguer por ele. Nas
circunstncias certas, aposto que poderia. -- Voc no est bem.
     --No?
     -- No, e voc  meu garoto, e  tudo minha culpa.
     -- Como assim? -- Eu no entendi e ela no explicou; e era geralmente
assim que nossas conversas aconteciam.
     -- Ela tambm no est bem, sabe -- falou Amma baixinho, olhando
pela janela. -- No estar bem nem sempre  culpa de algum. s vezes 
apenas um fato, como as cartas que pegamos.
     Com Amma, tudo se resumia ao destino, as cartas de tar dela, os ossos
no cemitrio, o universo que ela sabia ler.
     -- Sim, senhora.
     Ela olhou dentro dos meus olhos, e pude ver os dela brilhando.
     -- s vezes as coisas no so o que parecem, e at uma Vidente no
consegue ver o que est por vir. -- Ela pegou minha mo e colocou uma coisa
nela. Um barbante vermelho com pequenas miangas amarradas, um dos seus
amuletos. -- Amarre no seu pulso.
     -- Amma, garotos no usam pulseira.
     -- Desde quando fao bijuterias? Isso  pra mulheres com tempo demais
e bom-senso de menos. -- Ela puxou o avental, esticando-o. -- Um barbante
vermelho  uma ligao com o Outro Mundo, e oferece o tipo de proteo
que no posso oferecer. Vamos, coloque-o.
     Eu sabia que no devia discutir quando Amma estava com aquela
expresso no rosto. Era uma mistura de medo e tristeza, e ela a usava como
um fardo pesado demais para carregar. Estiquei o brao e deixei que ela
amarrasse o barbante ao redor do meu pulso. Antes que eu pudesse dizer
qualquer coisa, ela estava na minha janela, tirando um punhado de sal do bolso
do avental e o colocando ao longo do peitoril.
    -- Tudo vai ficar bem, Amma. No se preocupe.
    Amma parou na porta e olhou para mim, esfregando os olhos brilhantes.
    -- Cortei cebolas a tarde toda.
    Alguma coisa no ia bem, como Amma disse. Mas eu tinha a sensao de
que no era eu.
    -- Voc sabe alguma coisa sobre um cara chamado John Breed?
    Ela ficou tensa.
    -- Ethan Wate, no me faa dar aquela carne de porco para Lucille.
    -- No, senhora.
    Amma sabia alguma coisa, e no era boa, e ela no ia falar. Eu sabia disso
bem quanto conhecia a receita de carne de porco dela que no tinha unica
cebola nos seus ingredientes.
                                   14 de junho   
                           Traa de livro

                                  

--S
                e era bom o bastante para Melvil Dewey,  bom o bastante
                para mim.
                     Marian piscou para mim enquanto tirava uma pilha de
livros novos de uma caixa de papelo, fungando bastante. Havia livros por
todo lado, dispostos em um crculo ao redor dela que ia quase at a cabea.
     Lucille andava por entre as torres de livros, procurando uma cigarra
perdida. Marian fez uma exceo  regra de no serem permitidos animais na
biblioteca, pois o lugar estava cheio de livros mas sem uma pessoa dentro. S
um idiota iria para a biblioteca no primeiro dia de vero, ou algum que
precisasse de distrao. Algum que no estivesse falando com a namorada, ou
com quem a namorada no falava, ou que no sabia nem se ainda tinha
namorada -- tudo isso no perodo entre os dois dias mais longos da sua vida.
     Eu ainda no tinha conversado com Lena. Disse a mim mesmo que o
nico motivo era estar muito furioso, mas isso era uma daquelas mentiras que
dizemos quando tentamos nos convencer de que estamos fazendo a coisa
certa. A verdade era que eu no sabia o que dizer. Eu no queria fazer as
perguntas certas e tinha medo de ouvir as respostas. Alm do mais, no havia
sido eu a fugir com um cara de moto.
     --  o caos. A Classificao Decimal de Dewey est debochando de
voc.Nem consigo encontrar um almanaque sobre a histria do padro orbital
da Lua. -- A voz vinda das pilhas de livros me assustou.
     -- Olivia... -- Marian sorriu enquanto examinava as lombadas dos livros
que tinha nas mos. Era difcil acreditar que ela tinha idade para ser me. Sem
nem um fio branco no cabelo macio e nem uma ruga na pele marrom-
dourada, ela parecia no ter mais do que 30 anos.
     -- Professora Ashcroft, no estamos em 1876. Os tempos mudam. --
Era uma voz de garota. Ela tinha sotaque; britnico, eu acho. Eu s tinha
ouvido falar das pessoas falarem daquele jeito em filmes de James Bond.
     -- Assim como a Classificao Decimal de Dewey. Vinte e duas vezes,
para ser exata. -- Marian guardou um livro na prateleira.
     --E a Biblioteca do Congresso? -- A voz parecia exasperada.
     -- S em mais uns cem anos.
     -- A Classificao Decimal Universal? -- Agora estava irritada.
     -- Estamos na Carolina do Sul, no na Blgica.
     -- Talvez a classificao de Harvard-Yenching?
     -- Ningum neste pas fala chins, Olivia.
     Uma garota loura e magra ergueu a cabea por trs das pilhas de livros.
     -- No  verdade, professora Ashcroft. Pelo menos no durante as frias
de vero.
     -- Voc fala chins?
     No consegui me segurar. Quando Marian mencionou sua assistente
durante o vero, no me disse que a garota seria uma verso adolescente dela
mesma. Exceto pelo cabelo com mechas cor de mel, a pele clara e o sotaque,
elas podiam ser me e filha. At  primeira vista, a garota tinha um pequeno
grau de semelhana com Marian que era difcil de descrever e que no havia
em mais ningum na cidade.
     --Voc no? -- Ela me cutucou nas costelas. -- Estou brincando. Na
minha opinio, as pessoas deste pas mal sabem falar ingls. -- Ela sorriu e
estendeu a mo. Era alta, mas eu era mais, e ela me olhou como se j tivesse
certeza de sermos grandes amigos. -- Olivia Durand. Liv para os amigos.
Voc deve ser Ethan Wate, o que acho difcil de acreditar. Pelo modo como a
Professora Ashcroft fala de voc, eu esperava um aventureiro carregando uma
baioneta.
     Marian riu e eu fiquei vermelho.
     -- O que ela disse pra voc?
     -- Que voc  brilhante, corajoso e virtuoso, do tipo que vive salvando o
dia. Exatamente o tipo de filho que se esperaria da amada Lila Evers Wate. E
que vai ser meu humilde assistente este vero, em quem posso mandar o
quanto quiser. -- Ela sorriu para mim e fiquei sem fala.
     Ela no se parecia em nada com Lena, mas tambm no se parecia em
nada com as garotas de Gatlin. Isso j era mais do que confuso. Tudo o que
ela estava vestindo tinha um aspecto gasto, do jeans surrado s tiras de
cordes e miangas ao redor dos pulsos, dos tnis de cano alto prateado e
furados, remendados com fita crepe,  camiseta gasta do Pink Floyd. Ela usava
um grande relgio preto de plstico com ponteiros doidos, perdido entre fios
de cordo. Eu estava sem graa demais para dizer alguma coisa.
     Marian veio ao meu resgate.
     -- No ligue para Liv. Ela est te provocando. At os deuses amam
brincadeiras` Ethan.
     -- Plato. E pare de se exibir -- riu Liv.
     -- Vou parar -- sorriu Marian, impressionada.
     -- Ele no est rindo -- apontou Liv para mim, sria de repente. --
Risadas vazias em corredores de mrmore.
     -- Shakespeare? -- Olhei para ela.
     Liv piscou e esticou a camiseta.
     -- Pink Floyd. Vejo que voc tem muito a aprender. -- Uma Marian
adolescente, e nada parecida com o que eu esperava quando me candidatei ao
emprego de vero na biblioteca.
     -- Agora, crianas -- disse Marian estendendo a mo para que a puxasse
do cho. At mesmo em um dia quente como aquele ela ainda conseguia ficar
bem. Nem um fio de cabelo estava fora do lugar. A blusa estampada fez um
barulho quando ela passou na minha frente. -- Deixarei as pilhas de livros
para voc, Olivia. Tenho um projeto especial para Ethan no arquivo.
     --  claro. A estudante de histria muito bem preparada separa pilhas de
livros, enquanto o preguioso sem formao universitria  promovido ao
arquivo. Muito americano. -- Ela revirou os olhos e pegou uma caixa de
livros.
     O arquivo no tinha mudado desde o ms anterior, quando fui perguntar
a Marian sobre um emprego de vero mas tinha acabado ficando l para
conversar sobre Lena, meu pai e Macon. Ela foi solidria, como sempre.
Havia pilhas de velhos registros da Guerra Civil na prateleira acima da
escrivaninha da minha me, e a coleo dela de pesos de papel de vidro
antigos. Uma esfera brilhante e preta estava ao lado da ma de argila
deformada que fiz para ela no primeiro ano. Os livros e notas de minha me e
de Marian ainda estavam empilhados na escrivaninha, em cima de mapas
amarelados de Ravenwood e Greenbrier, abertos sobre as mesas. Cada pedao
de papel rabiscado me fazia sentir como se ela ainda estivesse ali. Embora
tudo na minha vida parecesse estar dando errado, eu sempre me sentia
melhor ali. Era como se eu estivesse com minha me. Ela era a nica pessoa
sempre sabia consertar as coisas, ou pelo menos me fazia acreditar que um
jeito de consert-las.
     Mas havia uma outra coisa na minha cabea.
     --Aquela  sua estagiria de vero?
     --  claro.
     -- Voc no me disse que ela seria assim.
     -- Assim como, Ethan?
     -- Como voc.
     --  isso que o est incomodando? A inteligncia, ou talvez o cabelo
claro e louro? Existe uma aparncia certa para bibliotecrias? Com culos
grandes e cabelo grisalho preso num coque? Eu pensei que, depois de sua me
e de mim, voc j teria deixado essa noo pra trs. -- Ela estava certa, minha
me e Marian sempre tinham sido as duas mulheres mais bonitas de Gatlin. --
Liv no vai ficar por aqui muito tempo e no  muito mais velha que voc.
Pensei que o mnimo que voc podia fazer  mostrar a cidade a ela e
apresent-la a algumas pessoas da sua idade.
     -- Como quem? Link? Para melhorar o vocabulrio dele e matar alguns
milhares de neurnios dela?
     No mencionei que Link ia passar a maior parte do tempo tentando ficar
com ela, o que eu achava que no ia rolar.
     -- Eu estava pensando em Lena. -- O silncio no aposento foi
constrangedor, at para mim.  claro que ela estava pensando em Lena. A
pergunta era: por que eu no tinha pensado nela? Marian olhou para mim
abertamente. -- Por que voc no me conta o que realmente est se passando
na sua cabea hoje?
     -- O que voc precisa que eu faa aqui, tia Marian? -- Eu no estava
com vontade de conversar.
     Ela suspirou e se virou para o arquivo.
     -- Achei que talvez voc pudesse me ajudar a separar parte dessas coisas.
Obviamente, grande parte desse material diz respeito ao medalho e a Ethan e
Genevieve. Agora que sabemos o fim da histria, acho que podemos abrir
espao para a prxima.
     -- Qual  a prxima? -- Peguei a velha foto de Genevieve usando o
medalho. Eu me lembrava da primeira vez em que a vi com Lena. Parecia
que anos tinham se passado, em vez de meses.
     -- Parece-me que  a sua e de Lena. Os eventos no aniversrio dela
despertaram muitas perguntas, cuja maior parte no sei responder. Nunca ouvi
falar de um incidente em que um Conjurador no precisou escolher entre a
Luz e as Trevas na noite da Invocao, exceto no caso da famlia de Lena, em
que a escolha  feita independentemente deles. Agora que no temos Macon
para nos ajudar, acho que vamos ter de procurar as respostas sozinhos. --
Lucille pulou na cadeira de minha me, erguendo as orelhas.
     -- Eu no saberia por onde comear.
     -- Aquele que escolhe o comeo da estrada escolhe o lugar aonde ela
leva.
     -- Thoreau?
     -- Harry Emerson Fosdick. Um pouco mais antigo e mais obscuro, mas
ainda bastante relevante, na minha opinio. -- Ela sorriu e colocou a mo na
beirada da porta.
     -- Voc no vai me ajudar?
     -- No posso deixar Olivia sozinha por muito tempo, seno ela vai
rearrumar o acervo inteiro, e ento teremos todos que aprender chins -- fez
uma pausa por um momento, me observando, parecendo muito com a me.
-- Acho que voc pode lidar com isso sozinho. Pelo menos no comeo.
     --No tenho escolha, tenho? Voc no pode me ajudar porque  a
Guardi.
     Eu ainda estava ressentido com a revelao de Marian de que ela sabia
que minha me estava envolvida com o mundo Conjurador, mas no queria
explicar por que nem como. Havia muitas coisas sobre minha me e sua e que
Marian nunca tinha me contado. Sempre recaa nas infinitas regras do
Juramento que Marian havia feito ao aceitar o emprego de Guardi.
     -- S posso ajud-lo a se ajudar. No posso determinar o curso dos
eventos,  dissociao entre Luz e Trevas, a Ordem das Coisas.
     -- Um monte de merda.
     -- O qu?
     --  como a primeira diretriz do Jornada nas Estrelas. Voc precisa
deixar que o planeta evolua em seu ritmo prprio. No pode apresentar o
hiperespao ou a velocidade da dobra espacial at que as tenham descoberto
por si prprios. Mas o capito Kirk e a tripulao da Enterprise sempre
violando as regras.
     -- Ao contrrio do capito Kirk, no h escolha no meu caso. Uma
Guardi est presa por seu Juramento a no agir pelas Trevas e nem pela Luz.
Eu no poderia mudar meu destino mesmo se quisesse. Tenho meu prprio
lugar na ordem natural do mundo Conjurador, na Ordem das Coisas.
     -- Deixa pra l.
     -- No  uma escolha. No tenho autoridade para mudar o modo como
as coisas funcionam. Se eu sequer tentasse, poderia destruir no s a mim o a
prpria pessoa que eu estivesse tentando ajudar.
     -- Mas minha me acabou morrendo.
     No sei por que falei isso, mas no conseguia entender a lgica. Marian
precisava permanecer distante para proteger as pessoas que amava, mas a
pessoa que ela mais amava morreu assim mesmo.
     -- Voc est me perguntando se eu poderia ter impedido a morte da
me?
     Ela sabia que era isso. Olhei para meus tnis. No tinha certeza de estar
pronto para ouvir a resposta.
     Marian colocou a mo debaixo do meu queixo e ergueu meu rosto para
que eu olhasse para ela.
     -- Eu no sabia que sua me corria perigo, Ethan. Mas ela conhecia os
riscos. -- A voz dela estava trmula, e eu sabia que tinha ido longe demais,
mas no pude evitar. Eu vinha tentando reunir coragem para ter essa conversa
havia meses. -- Eu tomaria o lugar dela naquele carro sem hesitar. Voc no
acha que j me perguntei mil vezes se havia alguma coisa que eu soubesse ou
que pudesse ter feito para salvar Lila... -- A voz dela falhou.
     Eu me sinto do mesmo jeito. Voc s est se segurando em uma beirada diferente do
mesmo buraco irregular. Estamos perdidos, os dois. Era isso o que eu queria dizer. Em
vez disso, deixei que ela passasse o brao ao redor do meu ombro e me
puxasse para um abrao desajeitado. Mal senti quando o brao se afastou e a
porta se fechou atrs dela.
     Olhei para as pilhas de papel. Lucille pulou da cadeira para a mesa.
     -- Tome cuidado. Tudo isso  bem mais velho do que voc. -- Ento
inclinou a cabea e olhou para mim com os olhos azuis. Depois ficou
paralisada.
     Estava olhando para a cadeira da minha me, com os olhos arregalados,
fixos. No tinha nada ali, mas me lembrei do que Amma havia me dito:
Gatos podem ver os mortos.  por isso que olham para as coisas por muito
tempo, como se estivessem olhando para o nada. Mas no esto. Esto
olhando atravs do nada:.
     Dei um passo em direo  cadeira.
     -- Mame?
     Ela no respondeu, ou talvez tenha respondido, porque havia um livro
em cima de uma cadeira que no estava ali um minuto antes. Trevas e Luz: as
origens da magia. Era um dos livros de Macon. Eu o tinha visto na biblioteca
de Ravenwood. Eu o ergui, e uma embalagem de chiclete caiu -- um dos
marcadores da minha me, sem dvida. Inclinei-me para pegar a embalagem e
a sala comeou a girar, as luzes e cores rodopiando ao meu redor. Tentei me
concentrar em alguma coisa, em qualquer coisa, para evitar cair, mas eu estava
tonto demais. O cho de madeira pareceu ficar mais prximo e, quando atingi
o cho, a fumaa queimou meus olhos...
      Quando Abraham voltou para Ravenwood, as cinzas j tinham entrado na casa. Os
restos queimados das grandes casas de Gatlin que estavam suspensos no ar entravam pelas
janelas abertas do segundo andar como flocos de neve pretos. Enquanto subia a escadaria, os
passos de Abraham deixavam marcas na fina camada preta que j cobria o cho. Ele
fechou as janelas do segundo andar sem soltar O Livro das Luas por nem um segundo. No
podia t-lo deixado em qualquer lugar mesmo que quisesse. lvy, a velha cozinheira de
Greenbrier estava certa; o Livro o estava chamando, com um sussurro que s ele podia ouvir.
      Quando chegou ao escritrio, Abraham apoiou o Livro na escrivaninha de mogno
polido. Sabia exatamente em que pgina abrir, como se o Livro estivesse virando as pginas
sozinho. Como se soubesse o que ele queria. Embora jamais tivesse visto o livro antes,
Abraham sabia que a resposta estava naquelas pginas, uma resposta que iria garantir a
sobrevivncia de Ravenwood.
      O Livro estava oferecendo a ele a nica coisa que ele queria acima de tudo. Mas iria
exigir algo em troca.
      Abraham ficou olhando para a escrita em latim. Ele a reconheceu imediatamente. Era
um Conjuro sobre o qual havia lido em outros livros. Um que ele sempre tinha considerado
mito. Mas se equivocou, pois estava olhando para ele naquele momento.
      Abraham ouviu a voz de Jonah antes de v-lo.
      -- Abraham, precisamos deixar a casa. Os Federais esto chegando. Eles
incendiaram tudo, e no planejam parar at chegarem a Savannah. Temos que entrar nos
tneis.
      A voz de Abraham era resoluta, e soou meio diferente, at para ele.
      -- No vou a lugar algum, Jonah.
      -- Como assim? Precisamos salvar o que pudermos e sair daqui. -- Jonah pegou o
brao do irmo, reparando na pgina aberta entre eles. Ele olhou para o texto, sem saber se
podia confiar no que via.
      -- O Daemonis Pactum? A Troca do Demnio? -- Jonah deu um isso para trs.
-- Isso  o que eu acho que ? O Livro das Luas?
      -- Estou surpreso de voc reconhec-lo. Voc nunca prestou muita ateno aos nossos
estudos.
      Jonah estava acostumado aos insultos de Abraham, mas havia algo de diferente no tom
dele naquela noite.
      -- Abraham, voc no pode.
      -- No me diga o que no posso fazer. Voc assistiria a essa casa ser consumida
completamente pelas chamas antes de sequer pensar em agir. Voc nunca foi capaz de fazer
o que era necessrio. Voc  fraco, como mame.
      Jonah se encolheu, como se algum tivesse batido nele.
      -- Onde conseguiu o livro?
      -- Voc no precisa se preocupar com isso.
      -- Abraham, seja sensato. A Troca do Demnio  poderosa demais. No pode ser
controlada. Voc est fazendo uma troca sem saber o que vai ter que sacrificar. Temos
outras casas.
      Abraham empurrou o irmo para o lado. Embora Abraham mal tenha tocado nele,
Jonah voou at o outro lado da sala.
      -- Outras casas? Ravenwood  o bero do poder de nossa famlia no mundo Mortal, e
voc acha que vou permitir que alguns soldados a queimem? Posso usar isso para salvar
Ravenwood.
      A voz de Abraham ficou mais alta.
      -- Exscinde, neca, odium incende; mors portam patefacit. Destrua, mate, odeie; a
morte abre o porto.
      -- Abraham, pare!
      Mas era tarde demais. As palavras deslizaram pela lngua de Abraham como se ele as
soubesse de cor. Jonah olhou ao redor, em pnico, esperando que o Conjuro funcionasse. Mas
ele no tinha ideia do que o irmo havia pedido. S sabia que, fosse o que fosse, seria
realizado. Esse era o poder do Conjuro, mas tambm havia um preo. Nunca era o mesmo.
Jonah correu em direo ao irmo, e uma esfera perfeitamente redonda, do tamanho de um
ovo, caiu do bolso dele e rolou pelo piso.
      Abraham pegou a esfera que brilhava aos seus ps, e a rolou entre os dedos.
      -- O que voc est fazendo com um Arco Voltaico, Jonah? Tem algum Incubus em
particular que voc pretende aprisionar neste aparato antigo?
      Jonah andou para trs conforme Abraham avanava, acompanhando cada passo dele,
mas Abraham era rpido demais. Em um piscar de olhos, ele prendeu Jonah contra a
parede, as mos de ferro ao redor da garganta do irmo.
      -- No.  claro que no. Eu...
      Abraham apertou ainda mais.
      -- O que um Incubus estaria fazendo com o nico veculo capaz de aprisionar sua
espcie? Voc acha que sou to burro?
      -- S estou tentando proteg-lo de si mesmo.
      Com um movimento suave, Abraham deu um salto para a frente e enfiou os dentes no
ombro do irmo. Depois, fez o impensvel.
      Bebeu.
      A troca estava feita. Ele no mais se alimentaria de lembranas e sonhos de mortais.
Daquele dia em diante, ele desejaria sangue.
      Quando tomou o suficiente, Abraham soltou o corpo inerte do irmo e lambeu as
cinzas da mo, o gosto de carne ainda presente no resduo negro.
      -- Voc devia ter se preocupado mais em se proteger.
      Abraham se afastou do corpo do irmo.
      --Ethan.


--Ethan!
     Abri meus olhos. Eu estava deitado no cho da sala de arquivo. Marian
ESTava inclinada sobre mim em um estado de pnico atpico.
     -- O que aconteceu?
     -- No sei. -- Eu me sentei, passando a mo na cabea e fazendo uma
reta. Havia um galo crescendo debaixo do meu cabelo. -- Devo ter batido na
mesa quando ca.
     O livro de Macon estava cado no cho, aberto ao meu lado. Marian
olhou para mim com aquela misteriosa percepo extrassensorial -- ou no
to misteriosa, se voc pensasse que ela tinha me seguindo para dentro das
vises meses antes. Em segundos ela estava com uma bolsa de gelo na mo e a
segurava contra minha cabea latejante.
     -- Voc est tendo vises de novo, no est?
     Assenti. Minha mente tinha sido tomada por imagens, mas eu no
conseguia me concentrar em nenhuma delas.
     --  a segunda vez. Tive uma na outra noite, quando estava segurando o
dirio de Macon.
     -- O que voc viu?
     -- Era a noite dos incndios, como nas vises do medalho. Ethan Carter
Wate j estava morto. Ivy estava com O Livro das Luas, e ela o deu a Abraham
Ravenwood. Ele estava nas duas vises. -- O nome dele soou grosseiro e
confuso na minha lngua. Abraham Ravenwood era o bicho-papo original do
condado de Gatlin.
     Segurei na beirada da mesa para me equilibrar. Quem estava querendo
que eu tivesse essas vises? E o mais importante, por qu?
     Marian fez uma pausa, ainda segurando o livro.
     -- Ah? -- Ela olhou para mim com cuidado.
     -- E tinha outra pessoa. O nome dele comeava com J. Judas? Joseph?
Jonah. Era isso. Acho que eram irmos. Os dois eram Incubus.
     -- No apenas Incubus. -- Marian fechou o livro. -- Abraham
Ravenwood era um poderoso Incubus de Sangue, o pai da linha de Incubus de
Sangue de Ravenwood.
     -- O que voc quer dizer? -- Ento a histria que as pessoas contavam
havia anos era verdade? Eu tinha tirado mais uma camada de nvoa do mapa
sobrenatural de Gatlin.
     -- Embora os Incubus sejam das Trevas por natureza, nem todos
escolhem se alimentar de sangue. Mas uma vez que se faa essa escolha, o
instinto parece ser passado adiante por hereditariedade.
     Apoiei-me mesa enquanto a viso clareava na minha mente.
     -- Abraham  a razo pela qual a casa de Ravenwood nunca pegou fogo,
certo? Ele no fez um acordo com o Demnio. Ele fez um acordo com O
Livro das Luas.
     -- Abraham era perigoso, talvez mais perigoso do que qualquer outro
Conjurador. No consigo imaginar por que voc o est vendo agora. Feliz ele
morreu jovem, antes de Macon nascer.
     Tentei fazer as contas.
     -- Isso  jovem? Quantos anos os Incubus costumam viver?
     -- De 150 a 200 anos. -- Ela recolocou o livro em sua mesa de trabalho.
-- No sei o que isso tem a ver com voc ou com o dirio de Macon, mas eu
nunca devia t-lo dado a voc. Eu interferi. Devamos deixar esse livro
trancado aqui.
     -- Tia Marian...
     -- Ethan! No insista nisso, e no conte a mais ningum, nem a Amma.
No consigo imaginar como ela reagiria se voc dissesse o nome de Abraham
Ravenwood na presena dela. -- Ela passou o brao ao redor dos ombros e
deu um aperto. -- Agora vamos terminar com as pilhas de livros antes que
Olivia chame a polcia. -- Ela se virou para a porta e enfiou na fechadura.
     Havia mais uma coisa. Eu precisava contar.
     -- Ele podia me ver, tia Marian. Abraham olhou bem para mim e disse
meu nome. Isso nunca aconteceu nas vises anteriores.
     Marian parou, olhando para a porta como se pudesse ver atravs dela.
Demorou alguns segundos at que girasse a chave na fechadura e abrisse a
porta.
     -- Olivia? Voc acha que Melvil Dewey pode deix-la parar pra uma
xcara de ch?
     Nossa conversa tinha terminado. Marian era Guardi e bibliotecria-chefe
da Biblioteca de Conjuradores, a Lunae Libri. Ela no podia me contar muito
sem violar suas obrigaes. No podia escolher lados e nem o curso dos
eventos depois que comeavam a se desenrolar. Ela no a ser como Macon
para mim, e no era minha me. Eu estava sozinho.
                                   14 de junho   
                        Debaixo do papel

                                  

--T                 odos esses?
                        Havia trs pilhas de pacotes embrulhados com papel
                    pardo na mesa prxima  sada. Marian marcou o ltimo
com o familiar selo da BIBLIOTECA DO CONDADO DE GATLIN,
sempre duas vezes, e sempre amarrado com mesmo barbante branco.
     -- No, leve aquela pilha tambm. -- Ela apontou para uma segunda
pilha, no carrinho que estava mais perto de ns.
     -- Eu pensei que ningum nessa cidade lesse.
     -- Ah, as pessoas leem. S no admitem o que leem, e  por isso fazemos
no s entregas entre bibliotecas como tambm em casa. S para livros que
podem sair da biblioteca. E com prazo de dois a trs dias para processamento
dos pedidos,  claro.
     timo. Eu tinha medo de perguntar o que tinha nos pacotes embrulhados
com papel pardo, e tinha certeza de que no queria saber. Peguei uma pilha de
livros e perguntei:
     -- O que so esses, enciclopdias?
     Liv pegou o recibo de cima da pilha.
     -- Sim. A Enciclopdia das munies, na verdade.
     Marian fez sinal para sairmos.
     -- V com Ethan, Liv. Voc ainda no teve oportunidade de ver nossa
bela cidade.
     -- Posso fazer isso sozinho.
     Liv suspirou e empurrou o carrinho em direo  porta.
     -- Vamos, Hrcules. Vou ajudar voc a colocar tudo no carro. No posso
deixar as senhoras de Gatlin esperando pelo... -- ela consultou outro recibo
-- Livro de receitas da mestra de bolos da Carolin-er, podemos?
     -- Carolina -- falei automaticamente.
     -- Foi o que eu disse. Carolin-er.


Duas horas depois, tnhamos entregado a maior parte dos livros e passado
tanto pela Jackson High quanto pelo Pare & Roube. Enquanto
contornvamos o General`s Green, me dei conta de por que Marian tinha
ficado ansiosa para me contratar para trabalhar em uma biblioteca que vivia e
no precisava de empregados de vero. Ela havia planejado que eu fosse
     o guia turstico adolescente de Liv desde o comeo. Era meu trabalho
mostrar a ela o lago e o Dar-ee Keen e faz-la entender a diferena entre o que
o pessoal da cidade dizia e o que queria dizer. Meu trabalho era ser amigo dela.
     Pensei sobre como Lena se sentiria quanto a isso. Caso ela reparasse.
     -- Ainda no entendo por que no meio da cidade tem uma esttua de um
general de uma guerra que o sul no venceu e que costuma ser constrangedora
para seu pas.
      claro que ela no entendia.
     -- O pessoal aqui honra os mortos em batalha. H um museu inteiro
dedicado a eles. -- No mencionei que o Fallen Soldiers tambm tinha sido o
cenrio da tentativa de suicdio de meu pai, induzida por Ridley, alguns meses
antes.
     Olhei para Liv de onde estava, atrs do volante do Volvo. No conseguia
me lembrar da ltima vez em que tinha sentado uma garota ali no banco do
carona, exceto Lena.
     -- Voc  um pssimo guia turstico.
     -- Essa  Gatlin. No h tanto assim para se ver. -- Olhei pelo
retrovisor. -- Ou no tanto que voc queira ver.
     -- O que voc quer dizer com isso?
     -- Um bom guia turstico sabe o que mostrar e o que esconder.
     -- Vou me corrigir. Voc  um pssimo guia turstico.
     Ela tirou um elstico do bolso.
     -- Ento estou mais para um desvio turstico? -- Era uma piada idiota,
caracterstica minha.
     -- Discordo tanto da sua piadinha quanto da sua filosofia sobre guia
turstico.
     Ela estava fazendo duas tranas no cabelo louro e tinha as bochechas
rosadas pelo calor. No estava acostumada  umidade da Carolina do Sul.
     -- O que voc quer ver? Quer que a leve pra atirar em latas atrs da velha
algodoaria na autoestrada 9? Para esmagar moedas nos trilhos do trem? Para
seguir as moscas at Dar-ee Keen, onde se come por sua conta e risco?
     -- Sim. Todas as anteriores, principalmente a ltima. Estou morrendo de
fome.

    Liv colocou o ltimo recibo da biblioteca em uma das duas pilhas.
    -- ... sete, oito, nove. O que significa que ganhei e voc perdeu, ento tire
as mos dessas chips. Elas so minhas agora. -- Ela puxou minhas batatas
com chili para perto de si na mesa vermelha de plstico.
    -- Voc quer dizer batatas.
    -- Estou falando de negcios.
    O lado dela da mesa j estava coberto de anis de cebola empanada, um
cheesebrguer, ketchup, maionese e meu ch gelado. Eu sabia de quem era
aquele lado porque ela tinha feito uma linha com batatas fritas de uma ponta a
outra da mesa, como a Grande Muralha da China.
    -- Boas cercas fazem bons vizinhos.
    Eu me lembrei do poema da aula de ingls.
    -Walt Whitman.
    Ela balanou a cabea.
      -- Robert Frost. Agora tire as mos dos meus anis de cebola.
      Eu devia saber o autor daquela frase. Quantas vezes Lena havia citado as
de Frost ou os tinha distorcido para fazerem se adaptar ao que ela queria
dizer?
      Tnhamos ido almoar no Dar-ee Keen, que ficava no fim da rua onde os
feito as duas ltimas entregas -- para a Sra. Ipswich (O guia para limpeza do
clon) e para o Sr. Harlow (Pin-ups clssicas da Segunda Guerra Mundial ), esse
ltimo tendo sido entregue para a sua mulher porque ele no estava em casa.
Pela primeira vez, entendi o motivo do papel pardo.
      -- No acredito. -- Amassei meu guardanapo. -- Quem imaginaria que
era to romntica? -- Eu tinha apostado em livros de religio. Liv apostado
em romances. Eu perdi por 9 a 8.
      -- No s romntica, mas romntica e ntegra.  uma combinao
maravilhosa, to...
      -- Hipcrita?
      -- Nem um pouco. Eu ia dizer norte-americana. Voc reparou que
entregarmos.  Preciso uma Bblia e Delilah Divinamente Deliciosa para a mesma
casa.
      Pensei que fosse um livro de culinria.
      -- No, a no ser que Delilah esteja cozinhando alguma coisa bem mais
apimentada do que essas chips com chili. -- Ela balanou uma batata no ar.
      -- Batatas.
      -- Exatamente.
      Fiquei vermelho, pensando no quanto a Sra. Lincoln ficara envergonhada
quando deixamos aqueles livros na casa dela. Eu no falei para Liv que a
devota de Delilah era me do meu melhor amigo e a mulher mais brutalmente
ntegra da cidade.
      -- E a, gostou do Dar-ee Keen? -- falei, mudando de assunto.
      -- Estou louca por ele.
      Liv deu uma mordida no cheesebrguer, grande o bastante para deixar
Link envergonhado. Eu j a tinha visto engolir mais do que um jogador de
basquete comia em mdia no almoo. De qualquer maneira, ela no parecia se
importar com o que eu pensava sobre ela, o que era um alvio. Principalmente
porque tudo o que eu fazia perto de Lena ultimamente pare errado.
      --O que descobriramos no seu pacote embrulhado em papel pardo?
Livros de igreja, romances, ou os dois?
      -- No sei. -- Eu tinha segredos demais, mas no ia compartilhar
nenhum deles.
      --Vamos l. Todo mundo tem segredos.
      -- Nem todo mundo -- menti.
      -- No tem nada debaixo do seu papel?
      -- No. S mais papel, eu acho. -- De um certo modo, desejei que fosse
verdade.
      -- Ento voc  tipo uma cebola?
      -- Mais como uma batata comum.
      Ela pegou uma batata frita e a examinou.
      Ethan Wate no  uma batata comum. Voc, meu senhor,  uma batata
frita. -- Ela a colocou na boca, sorrindo.
      Eu ri e concordei.
      -- Tudo bem. Sou uma batata frita. Mas sem papel pardo, sem nada para
contar.
      Liv mexeu o ch com o canudo.
      -- Isso s confirma que voc est na lista de espera pelo Delilah
Divinamente Deliciosa.
      -- Agora voc me pegou.
      -- No posso prometer nada, mas posso dizer que conheo a
bibliotecria. Muito bem, na verdade.
      -- Ento vai quebrar meu galho?
      -- Vou dar um jeitinho, cara.
      Liv comeou a rir, e eu tambm. Ela era uma companhia agradvel como
se nos conhecssemos desde sempre. Eu estava me divertindo quando
paramos de rir, essa sensao se transformou em culpa. Algum por favor me
explique isso.
      Ela voltou a atacar as batatas fritas.
      -- Acho todo segredo meio romntico, no acha?
      Eu no soube como responder aquilo, considerando o quo profundos
eram os segredos na cidade.
      -- Na minha cidade, o bar fica na mesma rua da igreja e a congregao sai
diretamente de um para o outro. Algumas vezes at comemos o jantar de
domingo l.
      Eu sorri.
      -  divinamente delicioso?
      -- Quase. Talvez no to apimentado. Mas as bebidas no so to
frias.--Ela apontou com uma batata para o ch gelado. -- O gelo, meu amigo,
 uma coisa que vemos mais no cho do que no copo.
      -- Voc tem algum problema com o famoso ch gelado de Gatlin?
      -- Ch  pra ser servido quente, senhor. Direto da chaleira.
      Roubei uma batata e apontei para o ch gelado dela.
      -- Bem, senhora, para um batista sulista rigoroso, isso  a bebida do
Demnio.
      -- Porque  gelado?
      --Porque  ch. Cafena no  permitida.
      Liv pareceu chocada.
      -- Nada de ch? Nunca vou entender este pas.
      Roubei outra batata.
      -- Quer falar sobre blasfmia? Voc no estava aqui quando o Millie`s
Breakfast n` Biscuits na rua Main comeou a servir pezinhos pr-assados e
congelados. Minhas tias-avs, as Irms, deram um ataque que quase der lugar.
Cadeiras voaram.
      -- Elas so freiras?
      Liv enfiou um anel de cebola dentro do cheesebrguer.
      --Quem?
      -- As Irms.
      Outro anel de cebola.
      -- No. Elas so irms de verdade.
      -- Entendi.
      Ela recolocou o po no lugar.
      -- No entendeu, no.
      Ela pegou o cheeseburguer e deu uma mordida.
      -- Nem um pouco.
      Comeamos a rir de novo. No ouvi o Sr. Gentry chegar por trs de ns.
      -- A comida foi suficiente? -- perguntou ele, limpando as mos em um
pano.
      Assenti.
      -- Sim, senhor.
      -- Como vai aquela sua namorada? -- Ele perguntou como se tivesse
esperana de que eu tivesse tido um lampejo de sanidade e largado Lena.
      -- Hum, est bem, senhor.
      Ele assentiu, desapontado, e andou de volta at o balco.
      -- Diga oi para Srta. Amma por mim.
      -- Pelo que vi, ele no gosta da sua namorada. -- Ela falou como se
fosse uma pergunta, mas eu no soube o que dizer. Uma garota ainda era
tecnicamente sua namorada se ela saa de moto com outro cara? -- Acho que
a professora Ashcroft falou sobre ela.
      -- Lena. Minha... O nome dela  Lena. -- Eu esperava no aparentar
estar to pouco  vontade como estava. Liv no pareceu notar.
      Tomou outro gole do ch.
      -- Provavelmente vou conhec-la na biblioteca.
      -- No sei se ela ir  biblioteca. As coisas andam estranhas ultimamente.
-- No sei por que falei isso. Eu mal conhecia Liv. Mas foi bom falar em voz
alta, e minhas entranhas se contorceram um pouco.
      -- Tenho certeza de que voc vai resolver. L em casa, eu brigava com
meu namorado o tempo todo. -- A voz dela estava alegre. Ela tentava fazer
com que eu me sentisse melhor.
      -- H quanto tempo esto juntos?
      Liv balanou a mo no ar e o relgio esquisito deslizou por seu pulso.
      -- Ah, ns terminamos. Ele era meio lento. Acho que no gostava de ter
uma namorada que era mais inteligente do que ele.
      Eu queria sair do assunto sobre namoradas e ex-namoradas.
      -- E o que  essa coisa, afinal? -- Apontei com a cabea em direo ao
relgio, ou fosse l o que fosse.
     -- Isso? -- Ela ergueu o pulso sobre a mesa para que eu pudesse ver o
relgio preto esquisito. Tinha trs mostradores e uma pequena agulha prateada
pousada sobre um retngulo cheio de ziguezagues, meio como aquelas
mquinas que registram a intensidade de terremotos. --  um selenmetro.
     Olhei para ela sem entender.
     -- Selene, a deusa grega da Lua. Metron, medida em grego. -- Ela sorriu.
-- Est meio enferrujado em etimologia grega?
     -- Um pouco.
     -- Mede a fora gravitacional da Lua. -- Ela mexeu em um dos
mostradores, com cuidado. Nmeros apareceram debaixo da agulha.
     -- Por que voc quer saber a fora gravitacional da Lua?
     -- Sou astrnoma amadora. E me interesso principalmente pela Lua. Ela
tem um tremendo impacto sobre a Terra. Voc sabe, as mars e tudo mais.
Por isso fiz isso.
     Quase cuspi minha Coca.
     -- Voc que fez?  srio?
     -- No se impressione tanto. No foi to difcil. -- Liv ficou com as
bochechas enrubescidas de novo. Eu a estava deixando sem graa. Pegou
outra batata. -- Essas chips so mesmo demais.
     Tentei imaginar Liv sentada numa verso inglesa do Dar-ee Keen
medindo a gravidade da Lua em frente a uma montanha de batatas. Era
melhor do que imaginar Lena na garupa da Harley de John Breed.
     -- Ento, deixe-me ouvir sobre sua Gatlin. A cidade onde chamam as
batatas pelo nome errado.
     Eu nunca tinha ido mais longe do que Savannah. No conseguia imaginar
como era a vida em outro pas.
     -- A minha Gatlin? -- Os pontos rosados nas bochechas dela sumiram.
     -- A sua cidade.
     -- Sou de uma cidade ao norte de Londres, chamada Kings Langley.
     --O qu?
     -- Em Hertfordshire.
     -- Nunca ouvi falar.
     Ela deu outra mordida no cheesebrguer.
     -- Talvez isso ajude. Foi onde inventaram o Ovomaltine. Voc sabe, a
bebida? -- Ela suspirou. -- A gente mistura com leite e o transforma em
chocolate maltado.
     Meus olhos se arregalaram.
     -- Est falando de leite achocolatado? Tipo Nesquik?
     -- Exatamente.  realmente incrvel. Voc deveria experimentar.
     Ri com o rosto dentro do copo de Coca, que derramou na minha
camiseta velha com estampa de Atari. A garota Ovomaltine conhece o garoto
Quik. Eu queria contar para Link, mas ele ia entender errado.
     Embora s algumas horas tivessem se passado, eu sentia que ela era
minha amiga.
     -- O que voc faz quando no est bebendo Ovomaltine e fazendo
aparelhos cientficos, Olivia Durand de Kings Langley?
     Ela amassou o papel do cheesebrguer.
     -- Vamos ver. Eu leio livros e vou  escola. Estudo em um lugar
chamado Harrow. No a escola para garotos.
     -- E  mesmo?
     --O qu? -- Ela mexeu no nariz.
     --Harrow-rosa? -- H-O-R-R-O-R-O-S-A. Nove horizontal, como em
anos se passam e no d mais para aguentar tanta coisa horrorosa, Ethan
Wate.
     -- Voc no consegue resistir a um terrvel trocadilho, consegue? -- Liv
sorriu.
     -- E voc no respondeu a pergunta.
     --No. No  horrorosa. No pra mim.
     -- Por que no?
     -- Bom, pra comear, porque sou um gnio. -- Ela foi direta, como se
tivesse dito que era loura ou que era inglesa.
     -- Ento por que veio para Gatlin? No somos exatamente um m de
gnios.
     -- Bem, fao parte do IAT, Intercmbio para os Academicamente
Talentosos, que acontece entre a Universidade de Duke e a minha escola.
Pode me passar a maio-neise?
     --Maionese. -- Tentei falar devagar.
     --Foi o que eu disse
     --Por que Duke ia querer mandar voc para Gatlin? Para voc poder ter
aulas na Faculdade Comunitria de Summerville?
     -- No, seu bobo. Para que eu pudesse estudar com minha orientadora a
renomada Dra. Marian Ashcroft, exemplar nico da espcie.
     -- Sobre o que  a sua tese?
     --Folclore e mitologia; e como se relacionam com a construo da
comunidade depois da Guerra Civil Americana.
     --Aqui a maioria das pessoas ainda a chama de Guerra entre os Estados
-- falei.
     Ela riu, deliciada. Fiquei feliz por algum achar engraado. Para mim, era
constrangedor.
     --  verdade que as pessoas do sul s vezes se vestem com roupas velhas
da Guerra Civil e encenam as batalhas de novo, s por diverso?
     Fiquei de p. Uma coisa era eu dizer, mas no queria ouvir isso de Liv
tambm.
     -- Acho que est na hora de ir. Temos mais livros para entregar.
     Liv assentiu, pegando as batatas.
     -- No podemos deixar isso aqui. Devamos lev-las para Lucille.
     No comentei que Lucille estava acostumada a ser alimentada por Amma
com frango frito e pratos de sobra de ensopado em seu prprio prato de
porcelana, como as Irms haviam instrudo. No conseguia imaginar Lucille
comendo batatas gordurosas. Lucille era seletiva, como as Irms diriam. Mas
ela gostava de Lena.
     Enquanto amos em direo  porta, um carro chamou a minha ateno
ao passar pelas janelas cobertas de gordura. O Fastback estava fazendo a volta
na extremidade do estacionamento. Lena fez questo de no passar por ns.
     timo.
     Fiquei de p e observei o carro arrancar para a rua Dove.
     Naquela noite, fiquei deitado na cama olhando para o teto azul com as
mos atrs da cabea. Alguns meses antes, seria nessa hora que Lena e eu
iramos juntos para a cama, cada um em seu quarto -- e leramos, riramos e
conversaramos sobre nossos dias. Eu quase tinha esquecido como era
adormecer sem ela.
     Rolei para o lado e olhei para meu celular velho e rachado. No
funcionava direito desde o aniversrio de Lena, mas ele ainda tocaria quando
algum me ligasse. Se algum ligasse.
     No que ela usasse o telefone.
     Naquele momento, eu tinha voltado a ser o mesmo garoto de 7 anos que
tinha jogado todos os quebra-cabeas do meu quarto em uma pilha enorme e
bagunada. Quando eu era criana, minha me se sentou no cho e me ajudou
a transformar a baguna em uma imagem. Mas eu no era mais criana, e
minha me tinha morrido. Revirei as peas na minha mente, mas parecia no
conseguir arrum-las. A garota por quem eu estava loucamente apaixonado
ainda era a garota por quem eu estava loucamente apaixonado. Isso no tinha
mudado. S que agora a garota por quem eu estava loucamente apaixonado
escondia coisas de mim e mal falava comigo.
     Havia tambm as vises.
     Abraham Ravenwood, um Incubus de Sangue que tinha matado o
prprio irmo, sabia meu nome e conseguia me ver. Eu precisava entender
como essas peas se encaixavam at que eu conseguisse ver algum coisa 
algum tipo de padro. Eu no podia guardar o quebra-cabea de volta na
caixa. Era tarde demais para isso. Queria que algum pudesse me dizer onde
colocar ao menos uma pea. Sem pensar, fiquei de p e abri a janela do quarto.
     Inclinei-me para fora e inspirei a escurido, e ento ouvi o miado de
Lucille. Amma devia ter se esquecido de deix-la entrar. Eu ia gritar para dizer
que estava indo quando reparei neles. Debaixo da minha janela, -- beirada da
varanda, Lucille Ball e Boo Radley estavam sentados lado a lado sob o luar.
     Boo abanou o rabo e Lucille miou em resposta. Eles ficaram sentados
desse jeito no degrau mais alto da varanda, mexendo o rabo e miando como se
estivessem tendo uma conversa civilizada igual a qualquer outra duas pessoas
da cidade em uma noite de vero. No sei sobre o qu mas devia ser uma
grande notcia. Enquanto ouvia, da cama, a conversa baixinha do cachorro de
Macon e da gata das Irms, adormeci antes deles.
                                    15 de junho   
                         Southern Crusty

                                   

--N
                o coloque um dedo sequer em nenhuma das minhas tortas a
                que eu diga, Ethan Wate.
                     Eu me afastei de Amma, com as mos para o alto.
     -- S estou tentando ajudar.
     Ela me lanou um olhar intenso enquanto enrolava uma torta de batata
doce, duas vezes vencedora, em um pano de prato limpo. A torta de creme,
azedo e passas estava na mesa da cozinha ao lado da torta de creme, prontas
para irem para a caixa trmica. As tortas de frutas ainda estavam esfriando nas
grades, e uma fina camada de farinha branca cobria todas as superfcies da
cozinha.
     -- O vero s comeou h dois dias e voc j est me deixando louca?
Vai desejar estar na escola fazendo curso de vero se deixar cair uma das
minhas tortas premiadas. Quer ajudar? Pare de zanzar e v buscar o carro.
     Os nimos estavam to exaltados quanto a temperatura, ento no
falamos muito no caminho at a estrada, dentro do Volvo. Eu estava quieto,
mas no posso dizer se algum reparou. Hoje era o dia mais importante do
ano para Amma. Ela tinha ganhado o primeiro lugar no concurso de Tortas de
Frutas Assadas e Fritas e o segundo lugar nas Tortas Cremosas todos os anos
na Feira do Condado de Gatlin desde que eu conseguia me lembrar. O nico
ano em que ela no ganhou um prmio foi no ano em que no fomos porque
fazia apenas dois meses do acidente da minha me. Gatlin no podia se gabar
de ter a maior ou mais antiga feira do estado. O Festival da Melancia do
condado de Hampton ganhava de ns por uns 32 quilmetros e vinte anos, e
o prestgio de ganhar o ttulo de Prncipe e Princesa do Pssego de Gatlin mal
podia ser comparado  honra de ter uma boa colocao no concurso de Srta.
E Sr.Melo de Hampton.
     Mas quando entramos no estacionamento poeirento, o rosto de Amma
no enganou nem a meu pai nem a mim. Hoje, o dia era de concursos e tortas,
e se voc no estivesse segurando uma torta embrulhada de maneira to
cuidadosa quanto seguraria o recm-nascido de algum, estava acompanhando
uma criana de cabelo cacheado, segurando um basto em direo ao
pavilho. A me de Savannah era a organizadora do Conde Beleza do Pssego
de Gatlin, e Savannah estava concorrendo a Princesa do Pssego. A Sra. Snow
tomaria conta de concursos de beleza o dia todo. Ningum era novo demais
para uma coroa em nosso condado.i O evento de Melhores Bebs da feira,
onde bochechas rosadas e a posio das fraldas competiam entre si, atraa mais
espectadores do que competies de destruio de carros. No ano anterior, o
beb dos Skipett fora desqualificado por trapaa quando as bochechas rosadas
dela mancharam as mos dos juzes. A feira do condado tinha regras rgidas 
no era permitido usar roupas formais at os 2 anos, no era permitida
maquiagem at os 6 anos, e s maquiagem apropriada para a idade at os 12
anos.
     Quando minha me era viva, estava sempre pronta para confrontar a Sra.
Snow, e os Concursos de Beleza do Pssego eram um dos seus alvos favoritos.
Eu ainda podia ouvi-la dizendo: Maquiagem apropriada para a idade? Quem
so vocs? Que maquiagem  apropriada para algum de 7 anos? Mas nem
mesmo minha famlia faltava  feira do condado, exceto no anterior. Agora
estvamos l de novo, carregando tortas no meio da multido para dentro da
feira, como sempre.
     -- No me empurre, Mitchell. Ethan Wate, mais rpido. No vou deixar
Martha Lincoln e nenhuma daquelas mulheres tirar aquele prmio de mim por
causa de vocs dois.
     No jargo de Amma, aquelas mulheres eram sempre as mesmas: a Sra.
Lincoln, a Sra. Asher, a Sra. Snow e o restante do FRA.
     Quando minha mo foi carimbada, parecia que trs ou quatro condados
j tinham chegado. Ningum perdia o dia de abertura da feira, o que
significava uma ida ao campo no caminho entre Gatlin e Peaksvile. E uma ida
ao campo para a feira significava: uma quantidade desastrosa de funned cake,
uma espcie de massa frita salpicada de acar; um dia to quente e grudento
que dava para desmaiar s de ficar parado; e, se voc tivesse sorte, beijos e
amassos atrs dos celeiros de aves dos Futuros Fazendeiros dos Estados
Unidos. Minha chance de qualquer coisa alm do calor e de funnd cake no
pareciam muito boas este ano.
     Meu pai e eu seguimos Amma obedientemente at as mesas julgadoras,
debaixo de uma enorme faixa da Southern Crusty. As tortas tinham ura
patrocinador diferente a cada ano, e quando no podia ser Pilsbury ou Sara.
Lee, a gente acabava ficando com Southern Crusty. Os concursos de beleza
agradavam ao pblico, mas o de tortas era o mestre de todos. As mesma
famlias faziam tortas por vrias geraes, e cada prmio que ganhavam o
orgulho de uma grande casa sulista e a vergonha de outra. Diziam que algumas
mulheres da cidade tinham em mente impedir Amma de ganhasse o primeiro
lugar este ano. A julgar pelos murmrios que ouvi na cozinha durante a
semana toda, isso aconteceria no dia em que nevasse no inferno e aquelas
mulheres fossem patinar l.
     Assim que acabamos de descarregar a preciosa carga, Amma comeou a
perturbar os juzes quanto  arrumao da mesa.
     -- No se pode botar uma de vinagre depois de uma de cereja, e no
pode servir uma de ruibarbo entre as minhas de creme. Vai tirar o gosto delas,
a no ser que seja isso que vocs estejam tentando fazer.
     -- Comeou -- disse meu pai num cochicho. Quando as palavras saram
da boca dele, Amma lanou o Olhar aos juzes, e eles se contorceram em suas
cadeiras dobrveis.
      Meu pai olhou para a sada e nos dirigimos para fora antes que Amma
tivesse a chance de nos colocar para aterrorizar voluntrios inocentes e
intimidar juzes. Assim que alcanamos a multido, viramos instintivamente
em direes opostas.
      -- Voc vai andar pela feira com essa gata? -- Meu pai olhou para
Lucille,sentada na terra ao meu lado.
      -- Acho que vou.
      Ele riu. Eu ainda no tinha me acostumado a voltar a ouvir risadas.
      -- Bem, no se meta em confuso.
      -- Nunca.
      Meu pai assentiu para mim, como se ele fosse o pai e eu, o filho. Assenti
i resposta, tentando no pensar no ano anterior, quando eu era o adulto e ele
estava fora de si. Ele seguiu o caminho dele e eu segui o meu, e ns
desaparecemos no meio da multido quente e suarenta.
      A feira estava lotada, e levei um tempo para encontrar Link. Mas, fiel a
ndole, ele estava perto dos jogos, tentando flertar com qualquer garota que
olhasse para ele, pois hoje era uma grande oportunidade de parecer algum
que no fosse de Gatlin. Ele estava parado em frente a uma daquelas balanas
em que se usa uma enorme marreta de borracha para mostrar o quanto 
forte, com a marreta apoiada no ombro. Estava vestido de baterista, com a
camiseta gasta do Social Distortion, baquetas nos bolsos de trs do jeans e a
corrente presa  carteira pendurada abaixo delas.
      -- Deixem que eu mostre como se faz, moas. Se afastem. Vocs no vo
querer se machucar.
      As garotas riram e Link fez o melhor que pde. O pequeno marcador
medindo ao mesmo tempo a fora de Link e suas chances de arrumar algum.
Ele passou por MARIQUINHAS e FRACOTE e foi em direo ao sino mo
topo, UM VERDADEIRO GARANHO. Mas no conseguiu chegar l e
parou na metade do caminho, em FRANGUINHO. As garotas reviraram os
olhos e foram em direo ao Jogo de Argolas.
      -- Essa coisa est alterada. Todo mundo sabe disso -- gritou Link para
elas, soltando a marreta na terra.
     Ele provavelmente estava certo, mas no importava. Tudo em Gatlin era
alterado. Por que os jogos da feira seriam diferentes?
     -- Ei, voc tem dinheiro? -- Link fingiu remexer nos bolsos, como se
pudesse ter mais do que dez centavos.
     Entreguei uma nota de cinco dlares a ele, balanando a cabea.
     -- Voc precisa de um emprego, cara.
     -- Tenho um emprego. Sou baterista.
     -- Isso no  emprego. No pode ser chamado de emprego se voc no
recebe salrio.
     Link avaliou a multido, procurando garotas ou funnel cake. Era difcil
saber qual, pois ele tinha a mesma reao a ambos.
     -- Estamos tentando arrumar um show.
     -- Os Holy Rollers vo tocar na feira?
     -- Nesse lugar sem graa? No. -- Ele chutou o cho.
     -- No quiseram contratar voc?
     -- Dizem que somos ruins. Mas as pessoas achavam o Led Zeppelin ruim
tambm.
     Enquanto andvamos pela feira, era difcil no reparar que os brinquedos
pareciam ficar um pouco menores e os jogos um pouco mais desgastados a
cada ano. Um palhao com aparncia pattica passou arrastando uni monte de
bales ao nosso lado.
     Link parou e me deu um soco no brao.
     -- Olha s. Ali na frente. Queimaduras de Terceiro Grau. -- No
universo de Link, uma garota no podia ser mais gostosa do que isso.
     Ele estava apontando para uma loura que vinha na nossa direo,
sorrindo. Era Liv.
     -- Link... -- Tentei avis-lo, mas ele estava em uma misso.
     -- Como minha me diria, o Senhor tem bom gosto, aleluia, amm.
     -- Ethan! -- Ela acenou para ns.
     Link olhou para mim.
     -- Est de brincadeira? Voc j tem Lena. Isso no  justo.
     -- No tenho Liv, e ultimamente nem sei se tenho Lena. Comporte-se.
     -- Sorri para Liv, at que notei que ela estava usando uma camiseta velha
do Led Zeppelin.
     Link viu ao mesmo tempo que eu.
     -- A garota perfeita.
     -- Oi, Liv. Este  Link. -- Dei uma cotovelada nele, torcendo para que
ele fechasse a boca. -- Liv  a assistente de pesquisas de Marian durante o
vero. Ela trabalha comigo na biblioteca.
     Liv esticou a mo.
     Link estava com os olhos arregalados.
     -- Uau.. -- O lance com Link era que ele nunca envergonhava a si
mesmo s a mim.
     -- Ela  estudante de intercmbio da Inglaterra.
     -- Duplo uau.
     Olhei para Liv e dei de ombros.
     -- Eu te avisei.
     Link abriu seu maior sorriso para Liv.
     -- Ethan no me contou que estava trabalhando com uma gata linda de
propores csmicas.
     Liv olhou para mim, fingindo estar surpresa.
     --No contou? Acho isso um tanto trgico. -- Ela riu e passou os braos
pelos nossos. -- Vamos, garotos. Expliquem pra mim exatamente como se
faz doce com esse algodo estranho.
     -- No posso entregar segredos de estado, senhora.
     -- Eu posso. -- Link apertou o brao dela.
     -- Conte-me tudo.
     -- Tnel do amor ou cabine do beijo? -- Link sorriu ainda mais.
     Liv inclinou a cabea.
     -- Humm. Essa escolha  difcil. Vou escolher... a roda gigante.
     Foi quando vi uma cabeleira preta familiar e senti o cheiro de limo e
alecrim na brisa.
     Nada mais era familiar. Lena estava a alguns metros, parada atrs da
bilheteria usando roupas que s podiam ser de Ridley. A blusa preta ia at a
barriga e a saia preta era uns 12 centmetros mais curta do que o normal.
Havia uma mecha azul no cabelo dela, saindo de onde ele se dividia, ao redor
do rosto, e descendo pelas costas. Mas no foi isso que me chocou mais. Lena,
a garota que nunca passava nada no rosto alm de protetor solar, estava
coberta de maquiagem. Alguns caras gostam de garotas cheias porcaria no
rosto, mas eu no era um deles. Os olhos com contorno p estavam
particularmente perturbadores.
     Cercada de jeans cortado e poeira e palha e suor e toalhas de mesa de
plstico quadriculadas de vermelho e branco, ela parecia ainda mais deslocada.
As botas velhas foram as nicas coisas que reconheci. E o cordo cheio de
pingentes, pendurado como uma ligao vital com a verdadeira Lena. Ela no
era o tipo de garota que se vestia assim. Pelo menos no costumava ser.
     Trs vagabundos estavam olhando para ela com apreciao. Tive de
resistir ao impulso de dar um soco na cara de cada um.
     Soltei o brao de Liv.
     -- Encontro vocs l.
     Link no acreditou na sua sorte.
     -- Tudo bem, cara.
     -- Podemos esperar -- falou Liv.
     -- No se preocupe. Depois alcano vocs.
     Eu no esperava encontrar Lena ali, e no sabia o que dizer sem parecer
mais aborrecido do que Link achava. Como se houvesse alguma coisa que
voc pudesse dizer para parecer tranquilo depois que sua namorada com outro
cara.
     -- Ethan, eu estava procurando por voc.
     Lena andou na minha direo, e ela falou como ela mesma, a Lena antiga,
a Lena de quem eu me lembrava de alguns meses atrs. Aquela quem eu estava
desesperadamente apaixonado, a que me amava tambm. Mesmo se
parecendo com Ridley. Ela ficou na ponta dos ps para tirar meu cabelo do
rosto, passando os dedos lentamente pela linha do meu maxilar.
     -- Isso  estranho, porque da ltima vez em que te vi, voc me
dispensou. -- Tentei soar casual, mas a frase saiu com raiva.
     -- Eu no dispensei voc -- respondeu ela na defensiva.
     -- No, voc jogou rvores em mim e pulou na garupa da moto de outro
cara.
     -- No joguei rvores.
     Ergui uma sobrancelha.
     -- Ah, ?
     Ela deu de ombros.
     -- Eram apenas galhos.
     Mas eu percebi que a tinha atingido. Ela revirou tanto o pequeno clipe de
papel em forma de estrela que eu dera a ela que pensei at que o cordo fosse
arrebentar.
     --Desculpa, Ethan. No sei o que est acontecendo comigo. -- A voz
estava baixa e parecia sincera. -- s vezes sinto como se tudo estivesse me
sufocando e no consigo suportar. No dispensei voc no lago. Eu queria me
dispensar.
     -- Tem certeza disso?
     Ela olhou para mim e uma lgrima escorreu pelo seu rosto. Ela a limpou
com os dedos encolhidos de frustrao. Abriu a mo e a levou ao meu peito,
sobre meu corao.
     No  isso. Eu te amo.
     -- Eu te amo.
     Ela falou em voz alta dessa vez, e as palavras pairaram no ar entre ns,
muito mais pblicas do que quando usvamos Kelt. Meu peito se apertou
quando ela falou e meu flego ficou preso na garganta. Tentei pensar em
alguma coisa sarcstica para dizer, mas no consegui pensar em nada alm do
quanto ela era linda e do quanto eu a amava tambm.
     Mas eu no ia deixar que se safasse com tanta facilidade desta vez.
Quebrei a trgua.
     -- O que est acontecendo, L? Se voc me ama tanto, o que est rolando
com John Breed?
     Ela olhou para o lado sem dizer nada.
     Responde.
     -- No  nada disso, Ethan. John  s um amigo de Ridley. No tem
nada acontecendo entre ns.
     -- H quanto tempo no tem nada acontecendo? Desde que voc tirou
aquela foto dele no cemitrio?
     -- No foi uma foto dele. Foi da moto. Fui me encontrar com Ridley e
ele por acaso estava l.
     Reparei que ela ignorou a pergunta.
     -- Desde quando voc anda com Ridley? Esqueceu a parte em que ela
nos separou para que sua me pudesse falar com voc sozinha e tentar te
convencer a escolher as Trevas? Ou de quando Ridley quase matou meu pai?
     Lena tirou o brao, e pude senti-la se afastando de novo, se escondendo
naquele lugar em que eu no conseguia chegar.
     -- Ridley me avisou que voc no entenderia. Voc  Mortal. No sabe
nada sobre mim, sobre o que sou de verdade. Foi por isso que no contei a
voc.
     Senti uma brisa repentina quando nuvens de tempestade chegaram como
um aviso.
     -- Como sabe se eu entenderia ou no? Voc no me contou nada.
Talvez se me desse uma chance em vez de fazer as coisas pelas minhas
costas...
     -- O que voc quer que eu diga? Que no tenho ideia do que est
acontecendo comigo? Que alguma coisa est mudando, uma coisa que no
entendo? Que me sinto uma aberrao e que Ridley  a nica que pode me
ajudar a entender?
     Eu escutava tudo o que ela dizia, mas ela estava certa. No entendia.
     -- Voc est ouvindo o que est dizendo? Acha que Ridley est tentando
te ajudar, que pode confiar nela? Ela  uma Conjuradora das Trevas, L. Olhe
para si mesma! Acha que essa  voc? As coisas que voc est sentindo,
provavelmente  ela quem est provocando.
     Esperei pelo temporal, mas, em vez disso, as nuvens se abriram. Lena
chegou mais perto e colocou as mos sobre meu peito de novo, olhando para
mim, implorando.
     -- Ethan, ela mudou. Ela no quer ser das Trevas. O dia da
Transformao arruinou a vida dela. Ela perdeu todo mundo, inclusive a si
mesma. Ridley disse que ir para as Trevas muda o modo como nos sentimos
em relao s pessoas. Voc pode perceber os sentimentos que teve, as coisas
que amou, mas Rid diz que os sentimentos so distantes. Quase como se
pertencessem a outra pessoa.
      -- Mas voc disse que era uma coisa que ela no podia controlar.
      -- Eu errei. Veja o tio Macon. Ele sabia como controlar, e Ridley est o
tambm.
      -- Ridley no  Macon.
      Um relmpago riscou o cu.
      -- Voc no sabe de nada.
      --  isso mesmo. Sou um Mortal idiota. No sei nada sobre seu mundo
Conjurador supersecreto e sobre sua desagradvel prima Conjuradora, e o
Garoto Conjurador e sua Harley.
      Lena perdeu o controle.
      -- Ridley e eu ramos como irms, e no posso dar as costas a ela. J
falei, preciso dela agora. E ela precisa de mim.
      No disse nada. Lena estava to frustrada que me surpreendi pela roda
gigante no ter se soltado e sado rolando. Eu via com o canto do olho as
luzes dos bicho da seda girando, brilhantes e vertiginosas. Era como eu me
quando me deixava perder nos olhos de Lena. s vezes o amor  assim se
voc se v em meio a uma trgua quando no  isso que quer.
      s vezes a trgua encontra voc.
      Ela esticou os braos e entrelaou os dedos atrs do meu pescoo, me
puxando contra si. Encontrei os lbios dela e nos beijamos como se
tivssemos medo de jamais termos chance de nos tocar novamente. Dessa
vez, quando puxou meu lbio inferior, mordendo de leve, no sangrou. S
houve intensidade. Eu me virei e a encostei contra a parede de madeira atrs
da bilheteria. A respirao dela estava entrecortada, ecoando ainda mais alto
nos meus ouvidos do que a minha prpria. Passei as mos pelos cachos,
guiando os lbios dela at os meus. A presso no meu peito comeou a
aumentar, a falta de ar, o som que o ar fazia quando eu tentava encher os
pulmes. O fogo.
      Lena tambm sentiu. Ela se afastou, e me inclinei, tentando recuperar o
flego.
     -- Voc est bem?
     Respirei fundo e ajeitei minha postura.
     -- Estou bem, sim. Para um Mortal.
     Ela deu um sorriso verdadeiro e estendeu a mo para pegar a minha.
Reparei que ela havia desenhado formas estranhas na palma da mo usando
caneta permanente. Os caracis e espirais pretos pareciam a henna que a
cartomante usava em uma tenda que tinha cheiro de incenso ruim e ficava na
extremidade da feira.
     -- O que  isso?
     Segurei seu pulso, mas ela o puxou. Ao me lembrar de Ridley e da tal
tatuagem dela, torci para que fosse caneta permanente.
      sim.
     -- Talvez devssemos pegar alguma coisa pra voc beber.
     Ela me puxou para a lateral da bilheteria e eu deixei. No conseguia ficar
com raiva, no se houvesse uma possibilidade de o muro que havia entre ns
estar finalmente desmoronando. Quando nos beijamos um momento antes,
foi assim que me senti. Foi o oposto do beijo no lago, um beijo tinha tirado
meu flego por motivos diferentes. Eu talvez nunca soubesse que tinha sido
aquele beijo. Mas conhecia esse beijo e sabia que ele era o que eu tinha: uma
chance.
     Que durou dois segundos.
     Porque naquele momento eu vi Liv, carregando dois algodes doces em
uma mo e acenando para mim com a outra, e soube que o muro ia subir de
novo, talvez para sempre.
     -- Ethan, venha. Estou com seu algodo doce. Ns vamos perder a roda
gigante!
     Lena soltou minha mo. Eu soube como as coisas deviam ter aparentado:
uma loura alta, com pernas longas e dois algodes doces e um sorria cheio de
expectativa. Meu destino estava selado antes mesmo de Liv chegar  palavra
ns.
     Essa  Liv, a assistente de pesquisas de Marian. Ela trabalha comigo na biblioteca.
     Vocs trabalham no Dar-ee Keen juntos tambm? E na feira?
     O brilho de outro relmpago partiu o cu.
     No  nada disso, L.
     Liv me entregou o algodo doce e sorriu para Lena, estendendo a mo.
     Uma loura? Lena olhou para mim. Srio?
     -- Lena, certo? Sou Liv.
     Ah, o sotaque, isso explica tudo.
     -- Oi,Liv -- e pronunciou o nome como se fosse uma piada interna
entre ns. No tocou na mo de Liv.
     Se Liv notou a indiferena, ela ignorou, baixando a mo.
     -- finalmente ! Faz tempo que quero que Ethan nos apresente, pois, ao
que tudo indica, ele e eu estamos acorrentados juntos pelo vero todo.
     Obviamente.
     Ela no olhava para mim e Liv no parava de olhar para ela.
     --Liv esse no  um bom... -- tentei interromper, mas no pude. Elas
eram dois trens colidindo em uma dolorosa cmera lenta.
     -- No seja bobo -- interrompeu Lena, olhando para Liv com cuidado,
como se ela fosse a Sibila da famlia e pudesse ler o rosto de Liv. --  um
prazer conhecer voc.
     Ele  todo seu. Aproveite e fique com a cidade toda.
     Liv demorou uns dois segundos para se dar conta de que tinha
interrompido alguma coisa, mas tentou preencher o silncio mesmo assim.
     Ethan e eu falamos de voc o tempo todo. Ele disse que voc toca viola.
     Lena ficou tensa.
     Ethan e eu. No houve nada de maldoso no jeito em que Liv falou, mas as
palavras por si s eram o bastante. Eu sabia o que elas significavam para Lena.
Ethan e a garota mortal, a garota que era tudo o que Lena no podia ser.
     -- Preciso ir. -- Lena se virou antes que eu pudesse pegar o brao dela.
     Lena...
     Ridley estava certa. Era s uma questo de tempo at que outra garota nova chegasse 
cidade.
     Pensei no que mais Ridley havia dito a ela.
     De que voc est falando? Somos s amigos, L.
     Ns tambm j fomos s amigos.
     Lena foi embora, empurrando a multido suada, causando uma reao em
cadeia de caos enquanto passava, O efeito da passagem dela parecia infinito.
Eu no conseguia ver direito, mas em algum lugar entre ns um palhao se
assustou quando o balo na mo dele estourou, uma criana chorou quando
um sorvete caiu e uma mulher gritou quando uma mquina de pipoca
comeou a soltar fumaa e a pegar fogo. Mesmo na confuso de calor, braos
e barulho, Lena afetava tudo por onde passava, uma fora to poderosa
quanto a lua para as mars ou os planetas para o sol. Eu estava preso  orbita
dela, mesmo ela se afastando da minha.
     Dei um passo e Liv colocou a mo no meu brao. Os olhos dela se
estreitaram como se estivessem analisando a situao ou registrando-a pela
primeira vez.
     -- Desculpa, Ethan. No quis interromper. Se  que eu estava
interrompendo, sabe. Alguma coisa.
     Eu sabia que ela queria que eu contasse o que tinha acontecido sem
precisar perguntar. No falei nada, o que acho que foi minha resposta.
     Mas no dei outro passo. Deixei Lena ir embora.
     Link veio em nossa direo, se esforando para passar no meio da
multido, carregando trs Cocas e um algodo doce.
     -- Cara, a fila na barraca de bebidas est absurda. -- Link entregou Coca
a Liv. -- O que perdi? Aquela era Lena?
     --Ela foi embora -- disse Liv rapidamente, como se as coisas fossem
simples assim.
     Desejei que fossem.
     -- Tudo bem. Esqueam a roda gigante.  melhor irmos para  tenda
principal. Vo anunciar os vencedores do concurso de tortas a qualquer
minuto e Amma vai te dar uma surra se no estiver l para assistir ao
momento de glria dela.
     -- Torta de ma? -- O rosto de Liv se iluminou.
     -- Isso mesmo. E a gente come usando cala jeans, com um guardanapo
para dentro da camisa bem aqui. Bebendo Coca e dirigindo um Chevy
enquanto canta American Pie
     Ouvi Link tagarelando e a risada relaxada de Liv enquanto andavam na
minha frente. Eles no tinham pesadelos. No eram assombrados. Nem
estavam preocupados.
     Link estava certo. No podamos perder o momento glorioso de Amma.
Eu no ia ganhar nenhum prmio aquele dia. A verdade era que eu no
precisava bater com a marreta na balana velha e alterada da feira para saber o
que ela diria. Link podia ser FRANGUINHO, mas eu me sentia pior do que
MARIQUINHAS. Eu podia bater o quanto quisesse, mas a resposta te seria a
mesma, No importava o que eu fizesse ultimamente, eu estava preso em
alguma coisa entre PERDEDOR e ZERO, e estava comeando a parecer que
Lena segurava o martelo. Por fim entendi por que Link escrevia todas aquelas
msicas sobre levar um fora.
                                  15 de junho   
                         Tnel do amor

                                  
--S             e ficar mais quente, as pessoas vo comear a cair mortas
                como moscas. As moscas vo comear a cair mortas como
moscas. -- Link limpou a testa suada com a mo suada, o que fez espirrar
Link lquido todos ns que tnhamos sorte o bastante para estarmos ao lado
dele.
     --Obrigada por isso. -- Liv limpou o rosto com uma das mos e puxou a
camiseta molhada com a outra. Ela parecia chateada. A tenda da Southern
Crusty estava lotada e as finalistas j estavam de p no palco de madeira
improvisado. Tentei olhar por cima da fila de mulheres enormes  nossa
frente, mas era como estar na fila do refeitrio da Jackson no dia em que
serviam cookies.
     -- Mal consigo ver o palco. -- Liv ficou na ponta dos ps. -- Era para
ter alguma coisa acontecendo? Chegamos atrasados?
     -- Espere. -- Link tentou se enfiar entre as menores das mulheres
enormes  nossa frente. -- , no d pra chegar mais perto. Desisto.
     -- L est Amma -- apontei. -- Ela ganha o primeiro lugar quase todos
os anos.
     -- Amma Treadeau -- disse Liv.
     -- Isso mesmo. Como voc sabe?
     -- A professora Ashcroft deve ter falado nela.
     A voz de Carlton Eaton soou no alto-falante enquanto ele mexia no
microfone porttil. Ele sempre anunciava os vencedores porque a nica coisa
que ele amava mais do que abrir a correspondncia dos outros eram os
holofotes.
     --Por favor, tenham pacincia, pessoal. Estamos com problemas
tcnicos... Esperem... Algum pode chamar Red? Como posso saber como
consertar a porcaria de um microfone? Est mais quente do que no reino de
Hades aqui. -- Ele limpou o rosto com um leno. Carlton Eaton nunca seguia
lembrar quando o microfone estava ligado.
     Amma estava parada orgulhosamente  direita dele, usando seu melhor
vestido com pequenas violetas estampadas, e segurando a torta premiada
batata doce. A Sra. Snow e a Sra. Asher estavam ao lado dela, segurando as
prprias criaes. J estavam vestidas para o Concurso de Beleza Me e Filha
do Pssego que comeava depois do das Tortas. Estavam igualmente
apavorantes em seus respectivos vestidos azul-piscina e cor-de-rosa de me do
concurso, que a faziam parecer moas envelhecidas prontas para um baile dos
anos 1980. Felizmente, a Sra. Lincoln no ia participar do concurso de beleza,
ento estava ao lado da Sra. Asher com um tpico vestido de igreja, segurando
a famosa torta de creme. Ainda era difcil olhar para a de Link sem lembrar da
insanidade do aniversrio de Lena. No se v a me da namorada saindo do
corpo da me do melhor amigo em muitas noites do ano. Toda vez que eu via
a Sra. Lincoln, era nisso que eu pensava -- o momento em que Sarafine
emergira como uma cobra trocando de pele. Tremi.
     Link me deu uma cotovelada.
     -- Cara, olhe pra Savannah. Ela est de coroa e tudo. Sabe bem como se
promover.
     Savannah, Emily e Eden estavam sentadas na primeira fila com o restante
das concorrentes ao Concurso de Beleza do Pssego, suando em bicas nas
roupas de concurso mais brega possvel. Savannah vestia metros e metros de
tecido cor de Pssego de Gatlin com purpurina, a coroa com pedras falsas de
Princesa do Pssego equilibrada perfeitamente na cabea, embora a cauda do
vestido toda hora ficasse presa no p da cadeira de ferro dobrvel e
vagabunda. Little Miss, a loja de vestidos da cidade, provavelmente devia ter
encomendado o vestido especialmente para ela, em Orlando.
     Liv veio chegando para mais perto de mim, examinando o fenmeno
cultural que era Savannah Snow
     -- Ento ela  a rainha do Southern Crusty? -- Os olhos de Liv
brilharam e tentei imaginar o quanto isso devia parecer estranho aos olhos de
uma estrangeira.
     Quase sorri.
     -- Tipo isso.
     -- Nunca imaginei que fazer doces era to importante para os
americanos. Antropologicamente falando.
     -- No sei quanto aos outros lugares, mas no sul as mulheres levam a
atividade a srio. E este  o maior concurso de tortas do condado  Gatlin.
     -- Ethan, aqui! -- Tia Mercy estava balanando um leno em uma das
mos e segurando a famosa torta de coco na outra. Thelma andava atrs dela,
abrindo espao entre as pessoas com a cadeira de rodas. Todo ano tia Mercy
entrava no concurso e todo ano recebia uma meno honrosa pela torta de
coco, embora tivesse esquecido a receita havia vinte anos e nenhum dos juzes
fosse corajoso o bastante para provar a torta.
     Tia Grace e tia Prue estavam de braos dados, arrastando o yorkshire de
tia Prue, Harlon James.
     -- Que surpresa ver voc aqui, Ethan. Veio ver Mercy ganhar o prmio?
     --  claro que sim, Grace. O que mais ele estaria fazendo em uma tenda
cheia de damas idosas?
     Eu queria apresentar Liv, mas as Irms no me deram chance. No
paravam de falar entre si. Eu devia saber que tia Prue cuidaria disso para mim.
     -- Quem  essa, Ethan? Sua nova namorada?
     Tia Mercy arrumou os culos.
     -- O que aconteceu com a outra? A garota Duchannes, de cabelos
escuros?
     Tia Prue olhou para ela com desconfiana.
     -- Bem, Mercy, isso no  da nossa conta. Voc no devia ficar
perguntando essas coisas. Ela pode t-lo largado.
     -- Por que faria isso? Ethan, voc no pediu que ela ficasse pelada,
     Tia Prue se engasgou.
     -- Mercy Lynne! Se o Bom Deus no nos fulminar com um raio por voc
falar assim...
     Liv parecia tonta. Ela obviamente no estava acostumada a acompanhar a
tagarelice de trs mulheres centenrias com sotaques sulistas carregados e
gramtica imperfeita.
     -- Ningum tentou... Ningum largou ningum. Tudo est bem entre
mim e Lena -- menti. Mesmo que elas fossem descobrir a verdade na prxima
vez em que fossem  igreja, se os aparelhos auditivos estivessem com o
volume alto o bastante para captar as fofocas. -- Esta  Liv, assistente de
pesquisas de Marian durante o vero. Trabalhamos juntos na biblioteca. Liv,
estas so tia Grace, tia Mercy e tia Prudence, minhas tias-bisavs.
     --No nos bote mais velhas do que somos. -- Tia Prue empertigou ainda
mais a coluna.
     --  esse o nome dela. Lena! Estava na ponta da minha lngua. -- Tia
Mercy sorriu para Liv.
     Liv correspondeu o sorriso.
     --  claro.  um prazer conhecer as senhoras.
     Carlton Eaton bateu no microfone bem naquela hora.
     -- Tudo bem, pessoal. Acho que podemos comear.
     -- Garotas, precisamos ir para a frente. Vo chamar meu nome a
qualquer instante. -- Tia Mercy j estava seguindo pelos corredores, rolando a
frente como um tanque do exrcito. -- Nos vemos daqui a dois sacos do rabo
do coelho, Docinho.
     As pessoas estavam entrando na tenda pelas trs aberturas, e Lacy
Beecham e Elsie Wilks, as vencedoras do concurso de Ensopado e de
Churrasco, sentaram-se em seus lugares ao lado do palco, segurando seus
prmios azuis. Churrasco era uma categoria importante, mais at do que Chili,
ento a Sra. Wilks estava to inflada de orgulho como eu jamais a tinha visto.
     Observei o rosto de Amma, orgulhoso, no olhando nem uma vez na
direo daquelas mulheres. Ento observei o rosto dela escurecer e olhar na
direo de um lado da tenda.
     Link me deu outra cotovelada.
     -- Olha s. Voc sabe,  o Olhar.
     Seguimos o olhar de desprezo de Amma at o canto da tenda. Quando vi
para quem estava olhando, fiquei tenso.
     Lena estava apoiada em uma das colunas da tenda, com os olhos no
palco. Eu sabia que ela no ligava para o concurso de tortas, a no ser que
fosse para torcer por Amma. E, pelo que parecia, Amma no achava que
aquele era o motivo da presena de Lena.
     Amma balanou a cabea de leve para Lena.
     Lena olhou para o outro lado.
     Talvez estivesse procurando por mim, apesar de eu provavelmente ser a
ltima pessoa que ela quisesse ver agora. Ento o que ela estava fazendo ali?
     Link segurou meu brao.
     Lena olhou para a coluna em frente  dela. Ridley estava encostada na
coluna com uma minissaia cor-de-rosa, desembrulhando um pirulito. Os olhos
dela estavam fixos no palco, como se ela realmente ligasse para quem ia
vencer. Eu sabia que no, porque a nica coisa para a qual ligava era causar
tumulto. Como havia mais de duzentas pessoas na tenda, aquele parecia um
timo lugar para uma confuso.
     A voz de Carlton Eaton ecoou pela multido.
     -- Testando, testando. Vocs conseguem me ouvir? Tudo bem ento,
vamos para as tortas de creme. Este ano foi apertado, pessoal. Eu tive o prazer
de experimentar algumas dessas tortas, e estou aqui para dizer que todas so
vencedoras, na minha opinio. Mas sei que s podemos ter um vencedor hoje,
ento vamos ver quem ser. -- Carlton pegou o primeiro envelope e o rasgou,
fazendo barulho. -- Aqui est, pessoal, a vencedora do terceiro lugar ... a
torta gelada de creme de Tricia Asher.
     A Sra. Asher fez cara de raiva por um minissegundo, depois exibiu um
sorriso falso.
     Mantive os olhos fixos em Ridley. Ela estava tramando alguma coisa.
Ridley no dava a mnima para tortas ou para nada que acontecia em Gatlin.
Ela se virou e assentiu em direo ao fundo da tenda. Olhei para trs.
     O Garoto Conjurador observava com um sorriso. Estava parado ao lado
a dos fundos, com os olhos nas finalistas. Ridley voltou a ateno para o palco
e lenta e deliberadamente comeou a chupar o pirulito. Isso nunca era um
bom sinal.
     Lena!
     Lena nem piscou. O cabelo dela comeou a se mexer no ar estagnado,
Por causa daquilo que eu sabia ser a brisa Conjuradora. No sei se era pelo
calor local apertado ou pelo olhar irado no rosto de Amma, mas eu estava
comeando a me preocupar. O que Ridley e John tramavam e por que Lena
estava Conjurando ali? Fosse o que fosse que tentavam fazer, Lena estar
tentando neutralizar.
     Ento entendi. Amma no era a nica a exibir o Olhar como quem mo
ruim de cartas no pquer. Ridley e John estavam encarando Amma tambm.
Seria Ridley burra o bastante para se meter com Amma? Ser que algum era?
     Ridley ergueu o pirulito como se em resposta.
     -- Opa. -- Link no conseguia parar de olhar. -- Acho que devamos
sair daqui.
     -- Por que voc no leva Liv pra roda gigante? -- falei, tentando chamar
a ateno de Link. -- Acho que as coisas aqui vo ficar meio chatas por um
tempo.
     -- Agora chegamos  parte mais emocionante da avaliao -- disse a
Eaton, como se tivesse ouvido o que falei. -- Tudo bem, pessoal, chegou a
hora. Vamos ver qual dessas senhoras aqui vai levar para casa o de segundo
lugar e quinhentos dlares em produtos novinhos de cozinha, ou o prmio de
primeiro lugar e setecentos dlares, cortesia da Southern Crusty. Porque se no
for Southern Crusty, no  do sul e no  crocante... -- Carlton Eaton no terminou,
porque antes que pudesse dizer as palavras, outra coisa saiu...
     Das tortas.
     As frmas de torta comearam a se mexer e as pessoas levaram alguns
segundos para perceber o que estava acontecendo antes de comearem a
gritar. Larvas, insetos e baratas comearam a sair das tortas. Era como se todo
o dio, mentiras e hipocrisia da cidade -- da Sra. Lincoln e da Sra. Asher e da
Sra. Snow, do diretor da Jackson High, do FRA e da Associao de Pais e
Mestres e de todos os auxiliares de igreja, todos reunidos em um s --
tivessem sido colocados naquelas tortas e agora estivessem ganha vida. Tinha
insetos saindo de todas as tortas do palco, mais insetos do que podia caber nas
frmas das tortas.
     De todas as tortas, menos das de Amma. Ela balanou a cabea, os olhos
apertados em fendas como se fosse algum tipo de desafio. Hordas de larvas e
baratas cobertas de creme caram no cho aos ps das concorrentes. Mas a fila
de insetos se abria numa bifurcao ao redor de Amma.
     A Sra. Snow reagiu primeiro. Ela jogou a torta longe, insetos cobertos
com gelia de fruta voando no ar e caindo na primeira fila. ASra. Lincoln e a
Sra. Asher fizeram o mesmo, larvas voando nos vestidos das candidatas do
Concurso de Beleza do Pssego. Savannah comeou a gritar; no gritinhos
falsos, mas gritos reais, assustadores. Para todo lado que se olhasse havia
larvas cobertas de torta e pessoas tentando no vomitar ao v-las. Alguns
tiveram mais sucesso do que outros. Vi o diretor Harper inclinado sobre a lata
de lixo da sada, livrando-se de um inteiro de funnel cake. Se Ridley estava
querendo causar confuso, tinha conseguido.
     Liv parecia enjoada. Link tentou entrar no meio da multido,
provavelmente para salvar sua me. Ele vinha fazendo isso muitas vezes
ultimamente e, considerando o quanto a me dele era irrecupervel, eu
precisava dar crdito a ele.
     Liv segurou meu brao enquanto a multido corria em direo s sadas.
     --Liv, saia daqui. V por ali. Todo mundo est saindo pelas laterais --
apontei para os fundos da tenda. John Breed ainda estava parado ali, sorrindo
para sua obra, os olhos verdes fixos no palco. Independentemente dos olhos
verdes, ele no era um dos mocinhos.
     Link estava no palco tirando larvas e insetos de cima da me, que estava
completamente histrica. Cheguei mais perto da frente do palco.
     -- Algum me ajude! -- A Sra. Snow parecia estar num filme de terror,
apavorada e gritando, o vestido parecendo vivo pelas larvas se contorcendo.
Mesmo eu no a odiava o bastante para desejar isso.
     Olhei para Ridley, ela estava chupando o pirulito, dando vida a insetos a
cada lambida. Eu no sabia que ela conseguia provocar sozinha algo to
grandioso, mas por outro lado, tinha a ajuda do Garoto Conjurador.
     Lena, o que est acontecendo?
     Amma ainda estava parada no palco, parecendo que poderia botar a tenda
abaixo com um olhar. Insetos e larvas rastejavam por cima uns dos outros aos
ps dela, mas nenhum tinha coragem o suficiente para toc-la. At os insetos
sabiam que no deviam. Ela olhava para Lena com os olhos apertados e o
maxilar contrado, como estava desde o momento em que a primeira larva saiu
da torta da Sra. Lincoln.
     -- Est querendo me obrigar a fazer isso agora?
     Lena estava parada em uma extremidade da tenda, os cabelos se mexendo
na brisa Conjuradora, os cantos da boca erguidos numa leve sombra de riso.
Reconheci o que aquilo representava. Satisfao.
     Agora todo mundo sabe o que realmente tem nas tortas.
     Lena no estava tentando impedi-los. Era parte daquilo.
     Lena! Pare!
     Mas no havia como parar agora. Aquilo era a vingana pelos Anjos da
Guarda e pela reunio do Comit Disciplinar, por cada panela de ensopado
deixada nos portes de Ravenwood e por cada olhar de pena, por cada
condolncia falsa dada pelo pessoal de Gatlin. Lena estava devolvendo tudo
como se tivesse guardado cada pedacinho, juntado cada um deles at que
pudesse explodir tudo na cara deles. Acho que era a forma dela de dizer adeus.
     Amma falou com Lena como se fossem as duas nicas pessoas na tenda.
     -- Chega, criana. Voc no vai conseguir o que quer desse pessoal. Um
pedido de desculpas de uma cidade desgraada no passa de um nada. Uma
forma de torta cheia de nada.
     A voz de tia Prue soou mais alta do que a barulheira toda:
     -- Meu Deus, ajudem aqui! Grace est tendo um infarto!
     Tia Grace estava deitada no cho, inconsciente. Grayson Petty estava
ajoelhado ao lado dela, medindo sua pulsao enquanto tia Prue e tia Mercy
tiravam baratas do corpo da irm.
      -- J disse que chega! -- rugiu Amma no palco, e enquanto eu corria
para tia Grace, pude jurar que a tenda ia cair em cima de ns.
      Quando me inclinei para ajudar, vi Amma tirar alguma coisa do bolso e
erguer acima da cabea. A Ameaa de Um Olho, nossa colher de pau, em sua
glria plena. Amma bateu com ela sobre a mesa  sua frente, com toda a fora.
      -- Aiii! -- Do outro lado do recinto, Ridley fez uma careta e o pirulito
caiu da mo dela, rolando pelo cho de terra como se Amma o tivesse
quebrado com a Ameaa.
      Naquele segundo, tudo parou.
      Olhei para Lena, mas ela tinha sumido. O feitio, ou fosse l o que fosse,
tinha sido quebrado. As baratas saram da tenda, deixando s as larvas para
trs.
      E eu, inclinado sobre tia Grace para ter certeza de que ela estava
respirando.
      Lena, o que voc fez?
      Link me seguiu para fora da tenda, confuso como sempre.
      -- No entendo. Por que Lena ajudaria Ridley e o Garoto Conjurador a
fazer uma coisa dessas? Algum podia ter se machucado.
      Olhei para os brinquedos mais perto de ns para ver se havia algum sinal
de Lena ou de Ridley. Mas no as vi, s os voluntrios do 4-H abanando
senhoras e entregando copos de gua para as vtimas do concurso de tortas do
inferno.
      -- Tipo a minha tia Grace?
      Link balanou o short para ter certeza de que no havia uma larva nele.
      -- Pensei que ela tivesse morrido. Sorte que s desmaiou. Provavelmente
foi o calor.
      -- . Sorte.
      Mas eu no me sentia com sorte. Estava com raiva demais. Precisava
encontrar Lena, mesmo que ela no quisesse ser encontrada. Ela teria de me
dizer por que quis apavorar todo mundo daquela tenda para se vingar -- de
quem? De algumas ex-misses de meia-idade? Da me de Link, que nem era ex-
miss? Era uma coisa que Ridley faria, no Lena.
     Estava escurecendo e Link passou os olhos pela multido em meio a luzes
piscando e beatas histricas.
     --Aonde Liv foi? Ela no estava com voc?
     -- No sei. Falei para ela sair por trs quando o festival de larvas
comeou.
     Link fez uma careta ao ouvir a palavra larva.
     -- Ser que devamos procur-la?
     Havia um grupo na fila da casa de espelhos, ento segui naquela direo.
     -- Tenho a impresso de que Liv sabe se cuidar. Acho que vamos ter que
isso sozinhos.
     -- Beleza.
     Dobramos uma esquina alguns metros depois da entrada do tnel do
amor. Ridley, Lena e John estavam parados em frente aos carros de plstico
pintados para parecerem gndolas. Lena estava no meio, com uma jaqueta de
couro jogada por cima dos ombros. S que ela no tinha jaqueta de couro.
John tinha.
     Chamei o nome dela sem nem pensar.
     -- Lena!
     Deixe-me em paz, Ethan.
     No. O que voc estava pensando?
     Eu no estava pensando. Finalmente fiz alguma coisa.
     . Uma coisa idiota.
     No me diga que est do lado deles agora.
     Eu estava andando rpido. Link se esforava para me acompanhar.
     -- Voc vai puxar briga, no vai? Cara, espero que o Garoto Conjurador
no coloque fogo na gente nem nos transforme em esttua.
     Link costumava estar disposto a brigar. Apesar de ser magro, era quase
alto quanto eu, e bem mais maluco. Mas a ideia de lutar com um Sobrenatural
no tinha o mesmo apelo. J tnhamos nos queimado com esse o antes.
     Eu queria tir-lo dessa.
     -- Pode deixar comigo. V procurar Liv.
     -- De jeito nenhum, cara. Estou com voc.
     Quando chegamos s gndolas, John deu um passo para a frente das
garotas de forma protetora, como se precisassem ser protegidas de ns.
     Ethan, saia daqui.
     Eu podia sentir o medo na voz dela, mas dessa vez fui eu que no
respondi.
     -- Ei, Namorado, como vai? -- Ridley sorriu e abriu um pirulito azul.
     -- Vai  merda, Ridley.
     Ela reparou em Link atrs de mim e seu sorriso mudou.
     -- Oi, gostoso. Quer dar uma volta no tnel do amor? -- Ridley tentou
parecer brincalhona, mas acabou parecendo nervosa.
     Link a pegou pelo brao e a puxou em sua direo, quase como se
realmente fosse namorado dela.
     -- O que voc pensou que estava fazendo l dentro? Podia ter matado
algum. A tia de 400 anos do Ethan quase teve um infarto.
     Ridley puxou o brao da mo dele.
     -- Foram s alguns insetos. No seja to melodramtico. Acho que
gostava mais de voc quando era um pouco mais complacente.
     -- , aposto que sim.
     Lena saiu de detrs de John.
     -- O que aconteceu? Sua tia est bem?
     Ela parecia minha Lena de novo, gentil e preocupada, mas eu no
confiava mais nela. Alguns minutos antes, eia estava atacando as mulheres que
odiava e todo mundo que estava na tenda com elas, e agora era a garota que
beijei atrs da bilheteria. As coisas no se encaixavam.
     -- O que voc estava fazendo l dentro? Como pde ajud-los? -- No
percebi o quanto estava furioso at me ouvir gritando. Mas John percebeu.
     Ele colocou a palma da mo contra meu peito e cambaleei para trs.
     -- Ethan! -- Lena estava com medo, dava para perceber.
     Pare! Voc no sabe o que est fazendo.
     Como voc disse. Estou finalmente fazendo alguma coisa. Faa outra coisa. Saa
daqui!
     -- Voc no pode falar assim com ela. Por que no vai embora antes que
se machuque?
     O que eu perdi? Lena tinha me deixado havia uma hora, e agora John
Breed a estava defendendo como se j fosse namorado dela?
     -- ? Voc devia ter cuidado com quem sai empurrando por a, Garoto
Conjurador.
       -- Garoto Conjurador? -- Ele deu um passo em minha direo,
fechando as mos em forma de punhos. Bem grandes. -- No me chame
assim.
     -- Do que eu devia te chamar? Saco de lixo? -- Eu queria que ele me
batesse.
     Ele veio para cima de mim, mas dei o primeiro soco. Sou to burro assim.
Liberei toda frustrao e raiva que estava guardando em mim no segundo em
que meu punho humano e macio fez contato com o maxilar sobrenatural de
ao dele. Foi como bater em cimento.
     John piscou e seus olhos verdes ficaram pretos como carvo. Ele no
tinha sentido nada.
     -- No sou Conjurador.
     Ele j havia entrado em muitas brigas, mas nenhuma poderia ter me
preparado para a sensao de ser atingido por John Breed. Eu me lembro de
assistir a Macon e seu irmo Hunting lutando, da incrvel fora e velocidade
deles John mal se moveu e minhas costas atingiram o cho. Pensei que fosse
desmaiar.
     --Ethan! John, pare! -- Lena estava gritando, a maquiagem preta
escorrendo pelo rosto.
     Ouvi John jogar Link no cho. A favor dele, devo dizer que Link se leu
mais rpido do que eu. Porm, foi derrubado de novo mais rpido tambm.
Eu me levantei do cho. No tinha sido espancado, mas ia ter dificuldade em
esconder os hematomas de Amma.
     -- J chega, John. Ridley tentou parecer tranquila, mas sua voz tinha um
tom estranho e ela parecia assustada, tanto quanto Ridley podia parecer. Ela
pegou o brao de John. -- Vamos. Temos outro lugar pra ir.
     Link olhou bem nos olhos dela, o que no foi nada fcil, considerando ele
estava deitado no cho.
     -- No me faa favores, Ridley. Posso me cuidar sozinho.
     -- Estou vendo. Voc  um verdadeiro Punho de Ao.
     Link fez uma careta pelo que ela falou, ou talvez tenha sido pela dor.
     Fosse como fosse, ele no estava acostumado a estar no cho em uma
briga. Ps-se de p e levantou a guarda, pronto para atacar de novo.
     -- So os punhos da fria, gata, e mal comearam a trabalhar.
     Ridley ficou parada entre John e Link.
     -- No. Eles pararam.
     Link baixou as mos e chutou a terra.
     -- Bem, eu podia dar uma surra nele se no fosse um... Que porra voc ,
cara?
     No dei chance para John responder, porque eu tinha certeza de que j
sabia.
     -- Ele  algum tipo de Incubus.
     Olhei para Lena. Ainda chorava, os braos ao redor da prpria cintura,
mas no tentei falar com ela. Nem sabia mais direito quem ela era.
     -- Voc acha que sou um Incubus? Um Soldado do Demnio? --John
riu.
     Ridley revirou os olhos.
     -- No seja exibido. Ningum mais chama os Incubus de Soldados do
Demnio.
     John estalou os dedos.
     -- Sou antiquado.
     Link pareceu confuso.
     -- Eu pensei que todos vocs, vampiros, tivessem que ficar dentro algum
lugar durante o dia.
     -- E eu pensei que caipiras dirigissem Pontiacs Trans Am com bandeiras
Confederadas pintadas no cap. -- John riu, mas no era engraado e Ridley
permaneceu entre eles.
     -- E por que isso interessa a voc, Shrinky Dink? John no  o tipo cara
que segue regras. Ele  meio que... nico. Gosto de pensar nele como o
melhor dos dois mundos.
     Eu no fazia ideia do que Ridley estava falando. Mas ela no ia dizer o
que John Breed era.
     -- ? Gosto de pensar nele voltando rastejando pro mundo dele e fica do
fora do nosso.
     Link falou com coragem, mas quando John olhou para ele, toda a sumiu
do seu rosto.
     Ridley se virou para John.
     -- Vamos.
     Eles se viraram em direo ao tnel do amor, os carros ainda deslizando
por baixo do arco de madeira pintado para parecer alguma ponte de Veneza.
Lena hesitou.
     -- Lena, no v com eles.
     Ela ficou parada ali, por um segundo, como se estivesse pensando em
voltar correndo para os meus braos. Mas alguma coisa a impedia. John
sussurrou alguma coisa no seu ouvido e ela subiu na gndola de plstico.
Olhei para a nica garota que j amei. Cabelos pretos e olhos dourados em m
vez verdes.
     Eu no podia fingir que o dourado no significava nada. No mais.
     Observei o carrinho desaparecer, deixando a mim e Link para trs,
machucados e cheios de hematomas como no dia em que encaramos Emory e
o irmo dele no playground, quando estvamos no quinto ano.
     -- Venha. Vamos sair daqui. -- Link foi em direo ao outro lado. J
estava escuro e as luzes da roda gigante piscavam enquanto ela girava. -- Por
que voc pensou que ele fosse um Incubus? -- Link estava usando como
consolo o fato de ter apanhado de um Demnio, no de um cara qualquer. Os
olhos dele ficaram pretos e me senti como se tivesse sido atropelado por um
4x4.
     -- , mas ele estava andando por a durante o dia. E ele tem olhos
verdes, como Lena... -- Ele parou, mas eu sabia o que ia dizer.
     -- Tinha antes? Eu sei. No faz sentido.
     Nada nessa noite fazia. Eu no conseguia esquecer o jeito com que Lena
olhou para mim. Por um segundo, tive certeza de que ela no ia atrs deles. Eu
estava pensando em Lena, mas Link ainda falava de John.
     -- E o que foi toda aquela palhaada de melhor dos dois mundos? Que
mundos? Apavorante e aterrorizante?
     -- No sei. Eu tinha certeza de que ele era um Incubus.
     Link mexeu os ombros, avaliando as dores.
     -- Seja l o que ele for, tem superpoderes impressionantes. Queria saber
o que mais ele consegue fazer.
     Viramos uma esquina perto da sada do tnel do amor. Parei de andar. O
melhor dos dois mundos. E se John conseguisse fazer mais do que desaparecer
como um Incubus e dar uma surra em ns? Ele tinha olhos verdes. E se fosse
um tipo de Conjurador, com sua verso prpria do Poder de Persuaso de
Ridley? Eu achava que Ridley sozinha no conseguia influenciar Lena, mas e
se John a estivesse ajudando?
     Isso explicaria por que Lena estava agindo de forma to louca, por que ela
havia passado a impresso de que queria vir comigo at John sussurrar no
ouvido dela. H quanto tempo ele sussurrava no ouvido dela?
     Link bateu no meu brao com a parte de trs da mo.
     -- Sabe o que  estranho?
     -- O qu?
     -- Eles no saram.
     -- O que voc quer dizer?
     Ele apontou para a sada do tnel do amor.
     -- Eles no saram do brinquedo.
     Link estava certo. No havia como eles terem sado antes de a gente
contornar o brinquedo. Observamos as gndolas passando, todas vazias.
     -- Ento onde eles esto?
     Link balanou a cabea, sem nenhuma explicao em mente.
     -- No sei. Talvez os trs estejam fazendo alguma coisa pervertida
dentro. -- Fizemos uma careta. -- Vamos dar uma olhada. No tem ningum
por perto. -- Quando Link terminou de falar, j estava quase na sada.
     Ele tinha razo. Os carrinhos todos estavam saindo vazios. Link pulou o
porto e entrou no tnel. L dentro havia um pouco de espao em cada lado
dos trilhos, mas era difcil andar ao lado dos carros em movimento sem ser
atingido.
     Um dos carros bateu na canela de Link.
     -- No tem ningum aqui. Aonde eles podem ter ido?
     -- Eles no podem ter desaparecido.
     Eu me lembrei do modo como John Breed se desmaterializou no enterro
de Macon. Talvez ele pudesse desaparecer. Mas Ridley e Lena no sabiam
Viajar.
     Link passou as mos pelas paredes.
     -- Voc acha que tem alguma espcie de porta secreta Conjuradora aqui,
ou algo assim?
     As nicas portas Conjuradoras que eu conhecia levavam aos tneis, o
labirinto subterrneo que ficava debaixo de Gatlin e do restante do mundo
Morta. Era um mundo dentro de outro mundo, to diferente do nosso que
alterava tanto o tempo quanto a distncia. Mas, pelo que eu sabia, todas as
entradas dos tneis ficavam dentro de prdios -- de Ravenwood, da Lunae
Libri, da cripta e de Greenbrier. Algumas placas de compensado pintado no o
qualificavam como um prdio e no havia nada debaixo do tnel do amor
alm de terra.
     -- Uma porta que leva aonde? Essa coisa est no meio da feira. Foi
montada alguns dias atrs.
     Link voltou devagar pelo tnel.
     -- Para onde mais eles podem ter ido?
     Se John e Ridley estavam usando seus poderes para controlar Lena, eu
que descobrir. No explicaria tudo o que aconteceu nos ltimos meie nem os
olhos dourados, mas talvez explicasse o que ela estava fazendo com John.
     --Preciso ir at l.
     Link j havia tirado as chaves do bolso de trs.
     -- Como ser que eu sabia que voc ia dizer isso?
     Ele me seguiu at o Lata-Velha, o cascalho estalando debaixo dos tnis
enquanto ele corria para me acompanhar. Ele abriu a porta enferrujada e se
sentou atrs do volante.
     -- Para onde vamos? Ou ser que eu devia...
     Ele ainda estava falando quando ouvi as palavras, bem baixinho, no
fundo do meu corao.
     Adeus, Ethan.
    Ambos tinham ido embora, a voz e a garota. Como uma bolha de sabo,
algodo doce, como a ltima imagem de um sonho.
                                   15 de junho   
                           Inconfundvel

                                  

O
      Lata-Velha parou em frente  Sociedade Histrica, os pneus da frente
     em cima do meio-fio e o motor morrendo na rua vazia.
          -- Ser que no d pra fazer menos barulho? Algum vai nos ouvir.
No que Link dirigisse de maneira diferente. Porm, estvamos estacionados
dos a alguns metros do prdio que servia de quartel-general para o FRA.
Reparei que o telhado tinha finalmente sido reconstrudo -- fora arrancado
pelo Furaco Lena, alguns dias antes do aniversrio dela. Embora a Jackson
High tivesse sido atingida pela mesma tempestade, acho que aqueles consertos
podiam esperar. Tnhamos nossas prioridades aqui.
     Quase todo mundo na Carolina do Sul tinha um parente Confedera ento
entrar para o Filhas da Confederao era fcil. Mas, para entrar FRA, voc
precisava da ascendncia de algum que tivesse lutado na guerra da
independncia dos Estados Unidos. O problema era provar. A no que tivesse
assinado a Declarao de Independncia, voc precisava uma papelada de um
quilmetro de comprimento. E mesmo assim tinha de ser convidado, o que
exigia puxar o saco da me de Link e assinar qualquer abaixo-assinado que ela
estivesse organizando. Talvez fosse mais importante aqui do que no norte,
como se precisssemos provar que todos lutamos do mesmo lado de uma
guerra no passado. A parte Mortal de nossa cidade to confusa quanto a parte
Conjuradora.
     Esta noite, o prdio parecia vazio.
     -- No tem ningum por perto pra nos ouvir. At que termine a
destruio de carros, todo mundo que conhecemos estar na feira.
     Link estava certo. Gatlin parecia uma cidade fantasma. A maioria das
pessoas ainda estava na feira, em casa ou ao telefone contando os detalhes de
certa competio de tortas que ficaria na histria por dcadas. Eu tinha a
certeza de que Sra. Lincoln no deixaria ningum do FRA perder a unidade de
v-la tentar tirar o primeiro lugar de Amma no concurso de tortas. Embora,
naquele momento, aposto que a me de Link estivesse desejando ter feito s
picles de quiabo naquele ano.
     -- Nem todo mundo. -- Eu estava sem ideias e explicaes, mas sabia
onde podamos conseguir um pouco de cada.
     -- Tem certeza de que essa  uma boa ideia? E se Marian no estiver a?
     Link estava assustado. Ver Ridley com um tipo de Incubus mutante no
estava fazendo bem a ele. No que ele tivesse qualquer coisa com que se
preocupar. Estava bem claro atrs de quem John Breed estava, e no era de
Ridley.
     Olhei meu celular. Era quase 23h.
     --  feriado bancrio em Gatlin. Voc sabe o que isso quer dizer. Marian
deve estar na Lunae Libri agora.
     Era assim que as coisas funcionavam. Marian era a bibliotecria-chefe do
condado de Gatlin de 9 da manh s 6 da tarde, todos os dias de semana. Mas,
nos feriados bancrios, ela era a bibliotecria-chefe Conjuradora das 9 da noite
at as 6 da manh. A biblioteca de Gatlin estava fechada, o que significava que
a biblioteca Conjuradora estava aberta. E a Lunae Libri tinha uma porta que
levava aos tneis.
     Bati a porta do Lata-Velha e Link tirou uma lanterna do porta-luvas.
     -- Eu sei, eu sei. A biblioteca de Gatlin est fechada e a biblioteca
Conjuradora est aberta a noite toda, pelo fato de a maioria dos clientes de
Marin no aparecerem durante o dia. -- Link balanou a lanterna na direo 
prdio  nossa frente. Uma placa de lato dizia FILHAS DA REVOLUO
AMERICANA. -- Ainda assim, se minha me ou a Sra. Asher ou a Sra. Snow
descobrisse o que tem no poro do prdio delas... -- Ele segurava a pesada
lanterna de metal como se empunhasse uma arma.
     -- Est planejando atingir algum com essa coisa?
     Link deu de ombros.
     -- Nunca se sabe o que vamos encontrar l embaixo.
     Eu sabia o que ele estava pensando. Nenhum de ns tinha voltado 
Lunae Libri depois do aniversrio de Lena. Nossa ltima visita tinha envolvido
mais perigo do que dicionrios.
     Perigo e morte. Fizemos algumas coisas erradas naquela noite e algumas
delas tinham acontecido bem ali. Se eu tivesse chegado a Ravenwood antes, se
tivesse encontrado O Livro das Luas, se pudesse ter ajudado Lena a lutar contra
Sarafine -- se tivssemos feito sequer uma coisa diferente -- ser que Macon
estaria vivo agora?
     Andamos sob a luz da lua at os fundos do velho prdio de tijolos
vermelhos. Link apontou com a lanterna para a grade perto do cho e me
agachei ao lado dela.
     -- Pronto, cara?
     A lanterna estava tremendo na mo dele.
     --Quando voc estiver.
     Enfiei o brao na j conhecida grade que ficava nos fundos do prdio.
Minha mo desapareceu, como sempre, pela entrada ilusria da Lunae Libri.
Pouca coisa em Gatlin era o que parecia ser -- pelo menos no as que
envolviam Conjuradores.
     -- Estou surpreso por esse feitio ainda funcionar. -- Link me viu tirar a
mo de dentro da grade, intacta.
     -- Lena me disse que no  difcil. Algum tipo de feitio de esconderijo
que Larkin Conjurou.
     -- J pensou que pode ser uma armadilha? -- A lanterna estava
tremendo tanto que a luz mal parava na grade.
     -- S tem um jeito de descobrir.
     Fechei meus olhos e dei um passo. Em um minuto eu estava nos arbustos
crescidos atrs do FRA e,, no seguinte, eu estava na escadaria de pedra que
levava ao corao da Lunae Libri. Tremi quando cruzei o portal enfeitiado da
biblioteca, mas no por ter sentido qualquer coisa sobrenatural. O tremor, a
sensao de coisa errada, veio de no sentir nada de diferente. O ar era o
mesmo em qualquer um dos lados da grade, mesmo estando totalmente
escuro. Eu no me sentia mgico agora, em nenhum lugar de Gatlin e nem
debaixo da cidade. Eu me sentia ferido e furioso, mas esperanoso. Estava
convencido de que Lena sentia alguma coisa por John. Mas e houvesse
qualquer possibilidade de eu estar errado -- de que John a estivessem
influenciando --, valia a pena estar do lado errado da grade novamente.
     Link cambaleou pela passagem atrs de mim e deixou cair a lanterna. Ela
fez barulho na escada  nossa frente e ficamos parados no escuro, at que as
tochas nas laterais da passagem se acenderam uma a uma.
     -- Desculpe. Essa coisa sempre me assusta.
     -- Link, se voc no quiser fazer isso... -- Eu no conseguia ver o rosto
dele na escurido.
     Levei um segundo para ouvir a voz dele no escuro.
     --  claro que no quero fazer isso, mas preciso. No  que Rid seja o
amor da minha vida. No  mesmo. Isso seria loucura. Mas, e se Lena estiver
falando a verdade e Rid quiser mudar? E se o Garoto Vampiro estiver fazendo
alguma coisa com ela tambm?
     Eu duvidava que Ridley estivesse sob a influncia de qualquer pessoa ela
mesma. Mas no falei nada.
     Aquilo no envolvia s a mim e Lena. Ridley ainda afetava Link, de uma
maneira ruim. No  uma boa se apaixonar por uma Sirena. Apaixonar-se por
uma Conjuradora j era difcil o bastante.
     Eu o segui pela escurido bruxuleante iluminada por tochas que formava
o mundo debaixo da nossa cidade. Samos de Gatlin e entramos no
Conjurador, um lugar onde qualquer coisa podia acontecer. Tentei no
lembrar a poca em que isso era tudo o que eu queria.


Sempre que eu passava pelo arco de pedra com as palavras DOMUS LUNAE
LIBRI entalhadas, entrava em outro mundo, em um universo paralelo.
Agora,algumas partes desse mundo me eram familiares -- o odor da pedra
coberta por musgo, o cheiro almiscarado de pergaminhos da poca da Guerra
Civil e at de antes, a fumaa subindo das tochas acesas perto dos tetos
entalhados. Eu sentia o odor das paredes midas, ouvia o ocasional gotejar de
gua subterrnea percorrendo o caminho das marcas no cho de pedra. Mas
havia outras partes que jamais me seriam familiares. A escurido nas
extremidades das estantes, as sees da biblioteca que nenhum Mortal jamais
tinha visto. Fiquei curioso para saber o quanto minha me tinha visto daquilo
tudo.
     Chegamos  base da escadaria.
     -- E agora? -- Link pegou sua lanterna e a apontou para a coluna lado.
Uma ameaadora cabea de grifo feita de pedra rosnou em resposta. Ele
afastou a lanterna e ela brilhou sobre uma grgula com presas. -- essa  a
biblioteca, eu nem quero ver uma priso Conjuradora.
     Ouvi o som das chamas nascendo e gerando luz.
     -- Espere s.
     Uma a uma, as tochas em volta da rotunda se acenderam e pudemos ver
as colunas entalhadas: fileiras de ferozes criaturas mitolgicas, algumas
Conjuradoras, algumas Mortais, enroscadas em todos os pedestais. Link se
encolheu.
     -- Esse lugar  errado. S estou dizendo.
     Toquei no rosto de uma mulher, contorcido numa expresso de
sofrimento entalhada nas chamas esculpidas na pedra. Link passou a mo
sobre outro rosto, revelando fileiras de caninos.
     -- Veja s este cachorro. Parece Boo.
     Ele olhou de novo e se deu conta de que as presas saam da cabea de
homem. Ele puxou a mo para longe rapidamente.
     Houve um redemoinho na pedra entalhada que parecia ser feito tanto de
pedra quanto de fumaa. Um rosto surgiu das dobras da coluna e pareceu
familiar. Era difcil reconhecer porque havia muita pedra ao redor dele. O
rosto parecia estar lutando contra a pedra, tentando forar passagem para
chegar at mim. Por um segundo, pensei ter visto os lbios se moverem, como
se o rosto estivesse tentando falar.
     E me afastei.
      -- Que diabos  isso?
      -- O que  o qu? -- Link estava ao meu lado, olhando para a coluna, era
apenas uma coluna enroscada com ondas curvas e espirais novamente.
      O rosto tinha sido engolido pelo padro da superfcie, como uma cabea
parecendo nas ondas do mar.
      -- O oceano, talvez? Fumaa de um incndio? Por que voc se importa
nisso?
      -- Deixa pra l. -- Mas eu no podia deixar pra l, mesmo no
entendendo. Eu conhecia aquele rosto da pedra. J o tinha visto antes. Esse
lugar era assustador, como um aviso de que o mundo Conjurador era um lugar
das Trevas, independentemente de qual lado voc estivesse.
      Outra tocha se acendeu e as estantes de livros velhos, manuscritos e
Pergaminhos Conjuradores se revelaram. Elas irradiavam da rotunda em todas
as direes, como aros em uma roda, e desapareciam na escurido mais alm.
A ltima tocha se acendeu e pude ver a escrivaninha curva de mogno onde
Marian deveria estar sentada.
      Ela estava vazia. Embora Marian sempre dissesse que a Lunae Libri era
um lugar de magia antiga, nem das Trevas e nem da Luz, sem ela a
bibliotecria inteira parecia muito cheia de Trevas.
      -- No tem ningum aqui. -- Link parecia derrotado.
      Peguei uma tocha na parede e entreguei a ele, pegando outra para mim.
      Eles esto aqui embaixo.
      -- Como voc sabe?
      -- Simplesmente sei.
      Fui para um corredor entre estantes como se soubesse para onde estava
indo. O ar era denso com o cheiro dos velhos livros e pergaminhos
manuseados e gastos, e as prateleiras de carvalho poeirentas se curvavam com
o peso de centenas de anos e sculos de palavras. Ergui minha tocha at a
prateleira mais prxima. Como conjurar cabelo nos dedos dos ps da sua zela. Conjurar
e enfeitiar em vrias lnguas. Conjuros escondidos dentro  caramelos. Devemos estar na
letra C.
      -- Destruio da vida mortal, completa. Esse deveria estar na D. -- Link
estendeu a mo em direo ao livro.
     -- No toque nisso. Vai queimar sua mo. -- Eu tinha aprendido da
maneira mais sofrida, com o Livro das Luas.
     -- No devamos pelo menos escond-lo? Atrs do livro sobre
caramelos?
      Link tinha razo.
     No tnhamos andado nem 3 metros quando ouvi uma risada. Uma risada
de garota, sem dvida, ecoando pelos tetos entalhados.
     -- Ouviu isso?
     -- O qu? Link sacudiu sua tocha, quase incendiando a pilha mis prxima
de pergaminhos.
     -- Cuidado. Aqui no tem sada de incndio.
     Chegamos a um cruzamento rodeado por estantes. Ouvi de novo a risada
quase musical. Era linda e familiar, e o som dela me fez sentir seguro e fez o
mundo em que eu estava parecer um pouco menos estrangeiro.
     -- Acho que  uma garota rindo.
     -- Talvez seja Marian. Ela  uma garota. -- Olhei para Link como se ele
estivesse louco, mas ele deu de ombros. -- De certa forma.
     -- No  Marian. -- Fiz sinal para que ele escutasse, mas o som
desapareceu. Andamos na direo da risada e a passagem se curvou at que
chegamos a outra rotunda, parecida com a primeira.
     -- Voc acha que so Lena e Ridley?
     -- No sei. Vamos por aqui. -- Eu mal conseguia seguir o som, mas
sabia quem era. Parte de mim sempre suspeitou que eu conseguiria encontrar
Lena onde quer que ela estivesse. Eu no sabia explicar, s sabia que era
assim.
     Fazia sentido. Se nossa ligao era to forte a ponto de podermos sonhar
os mesmos sonhos e conversar sem falar, por que eu no conseguiria sentir
onde ela estava?  como quando se dirige da escola para casa, ou para algum
lugar aonde voc vai todo dia, e voc se lembra de sair do estacio mento e
logo depois est entrando na garagem e nem sabe como chegou
     Ela era o meu destino. Eu estava sempre a caminho de Lena, mesmo
quando no estava. Mesmo quando ela no estava a caminho de mim.
     -- Um pouco mais adiante.
     A curva seguinte revelou um corredor coberto de hera. Ergui minha
tocha e um lampio se acendeu no meio das folhas.
     -- Olha.
     A luz do lampio iluminou o contorno de uma porta escondida entre a
folhagem. Tateei pela parede at encontrar o ferro frio e redondo que era a
tranca. Tinha o formato de uma lua crescente. Uma lua Conjuradora.
     Ouvi a risada de novo. S podia ser Lena. Tem certas coisas que a gente
simplesmente conhece. Eu conhecia L. E sabia que meu corao no me
levaria ao lugar errado.
     Meu corao estava acelerado. Empurrei a porta, que era pesada e rangia.
Ela dava em um escritrio magnfico. Perto da parede mais afastada da porta,
uma garota estava deitada em uma enorme cama com dossel, escrevendo em
um caderninho vermelho.
     --L
     Ela olhou para a frente, surpresa.
     S que no era Lena.
     Era Liv.
                                  15 de junho   
                        Alma Obstinada

                                  

O
      primeiro momento ficou pairando no ar, silencioso e constrangedor. O
     segundo explodiu em uma confuso barulhenta. Link gritou com Liv, que
     gritou comigo, e eu gritei com Marian, que esperou at pararmos.
    -- O que voc est fazendo aqui?
    -- Por que vocs me largaram na feira?
    -- O que ela est fazendo aqui, tia Marian?
    -- Entrem.
    Marian abriu a porta completamente e deu um passo para trs para no
deixar passar. A porta se fechou atrs de mim e ouvi-a tranc-la. Senti uma
onda de pnico, ou de claustrofobia, coisa que no fazia o menor sentido,
pois o aposento no era pequeno. Mas dava a sensao de que era. O ar eia
pesado e tive a sensao de que estava em algum lugar particular, cone um
quarto. Como a risada, o local me pareceu familiar, mesmo no sendo. Como
o rosto na pedra.
    -- Onde estamos?
    -- Uma pergunta de cada vez, EW. Respondo uma pergunta sua e voc
responde uma pergunta minha.
     -- O que Liv est fazendo aqui? -- No sei por que eu estava zangado,
mas estava. Ser que algum na minha vida podia ser uma pessoa normal?
Todo mundo precisava ter uma vida secreta?
     -- Sente-se. Por favor. -- Marian apontou para a mesa circular no centro
do aposento.
     Liv pareceu irritada e se levantou de onde estava, a cama em frente a uma
lareira estranhamente acesa, com o fogo ardendo branco e reluzente em vez de
laranja e queimando.
     -- Olivia est aqui porque  minha assistente de pesquisas durante o
vero. Agora tenho uma pergunta para voc.
     -- Espere. Essa no  uma resposta de verdade. Disso eu j sabia.
     Eu era to teimoso quanto Marian. Minha voz ecoou no recinto e percebi
um candelabro cheio de detalhes pendurado no teto alto e abobadado. Era
feito de algum tipo de chifre branco, liso e polido; ou ser que era osso? A
parte de metal abrigava velas finas que iluminavam o aposento com uma luz
bruxuleante e suave, mostrando alguns cantos enquanto deixava outros
escuros e protegidos. Nas sombras de um dos cantos, reparei nos eixos de
uma com dossel alta e feita de bano. Eu j tinha visto uma cama exatamente
assim em algum lugar. Tudo hoje era um gigantesco dj vu e isso estava me
deixando louco.
     Marian se sentou em sua cadeira, inabalada.
     --Ethan, como voc encontrou este lugar?
     O que eu podia dizer com Liv parada ao meu lado? Que pensei ter ouvido
Lena, t-la sentido? Mas que meus instintos me levaram a Liv em vez de Lena?
Eu mesmo no entendia.
     Olhei para o outro lado. Estantes de madeira preta iam do cho ao teto,
entupidas de livros e objetos curiosos que obviamente compunham a coleo
pessoal de algum que tinha viajado pelo mundo mais vezes do que eu tinha
ido ao Pare & Roube. Uma coleo de garrafas e frascos antigos estava
alinhada em uma das prateleiras, como uma antiga botica. Outra estava de
livros. Aquilo me fazia lembrar do quarto de Amma, sem as pilhas de jornais
velhos e vidros cheios de terra do cemitrio. Mas um livro se destacou dos
outros: Trevas e Luz: As origens da magia.
     Eu o reconheci -- assim como reconheci a cama, a biblioteca e a
arrumao imaculada das belas coisas. Aquele quarto s podia pertencer a uma
, que nem era uma pessoa.
     -- Este era o quarto de Macon, no era?
     --  possvel.
     Link deixou cair uma estranha adaga cerimonial com a qual estava
brincando. Ela fez um barulho metlico ao cair no cho, e ele tentou recoloc-
la na prateleira, perturbado. Morto ou no, Macon Ravenwood ainda lhe dava
muito medo.
     -- Suponho que o tnel Conjurador liga este quarto diretamente quarto
dele em Ravenwood. -- Aquele quarto era quase uma imagem idntica do
quarto dele em Ravenwood, com exceo das pesadas cortinas bloqueavam a
luz do sol.
     -- Talvez.
     -- Voc trouxe aquele livro pra c porque no queria que eu o
encontrasse depois que tive a viso na sala do arquivo.
     Marian respondeu com cautela.
     -- Vamos dizer que voc esteja certo e que este seja o escritrio
particular de Macon, o lugar para onde ele vinha para refletir. Ainda assim,
como voc nos achou?
     Passei o p pelo grosso tapete indgena debaixo de mim. Ele era p e
branco, bordado em um padro complexo. Eu no queria explicar como tinha
encontrado aquele lugar. Era confuso. E se eu falasse, podia ser verdade. Mas
como? Como meus instintos podiam me levar a qualquer outra pessoa que
no fosse Lena?
     Por outro lado, se eu no contasse a Marian, provavelmente nunca sairia
daquele aposento. Ento decidi contar uma meia-verdade.
     -- Eu estava procurando Lena. Ela est aqui embaixo com Ridley e o
amigo dela, John, e acho que est com problemas. Lena fez uma coisa hoje, na
feira...
     -- Vamos s dizer que Ridley estava sendo Ridley. Mas Lena tambm
estava sendo Ridley. Os pirulitos devem estar fazendo hora extra. -- Link
abria uma embalagem de Slim Jim, ento no reparou que eu olhava para
baixo. Eu no pretendia contar os detalhes a Marian ou a Liv.
     -- Estvamos no meio das estantes e ouvi uma garota rindo. Ela parecia,
no sei, feliz, eu acho. Eu a segui at aqui. Quero dizer, segui a voz. No
consigo explicar. -- Lancei um olhar para Liv. Vi o rubor na sua pele clara.
Ela olhava para um ponto vazio na parede.
     Marian bateu as mos ao uni-las, sinal de uma grande descoberta.
     --Suponho que a risada pareceu familiar.
     --E voc a seguiu sem pensar. Foi mais por instinto.
     -- Pode-se dizer que sim. -- Eu no tinha certeza de aonde isso ia levar,
mas Marian tinha aquele olhar de cientista maluca no rosto.
      -- Quando voc est com Lena, s vezes consegue falar com ela sem
palavras?
     -- Voc quer dizer por meio de Kelt?
     Liv olhou para mim, chocada.
     -- Como um Mortal comum poderia saber sobre Kelt?
     --  uma excelente pergunta, Olivia. -- O modo como as duas se
entreolhavam me irritou. -- Uma que merece resposta.
     Marian andou at as prateleiras, investigando a biblioteca de Macon como
se estivesse procurando as chaves do carro na bolsa. V-la mexer nos livros
dele me incomodou, embora Macon no estivesse mais ali.
     -- Simplesmente aconteceu. Ns meio que encontramos um ao outro em
nossas mentes.
     -- Voc consegue ler mentes e no me contou? -- Link olhou para mim ,
se tivesse acabado de descobrir que eu era o Surfista Prateado. Ele coou a
cabea com nervosismo. -- Olha, cara, sabe todas aquelas coisas sobre Lena?
Eu estava s brincando. -- Ele olhou para o outro lado. -- Voc fazendo
agora? Est, no est? Cara, saia da minha cabea. -- Ele se afastou de mim,
se aproximando de uma estante.
     -- No consigo ler sua mente, seu idiota. Lena e eu conseguimos ouvir os
pensamentos um do outro s vezes. -- Link pareceu aliviado, mas no ia se
safar to facilmente. -- O que voc pensou sobre Lena?
     -- Nada. Eu estava implicando com voc. -- Ele pegou um livro de uma
prateleira e fingiu l-lo.
     Marian tirou o livro das mos de Link.
     -- A est. Exatamente o que eu estava procurando.
     Ela abriu o livro surrado e folheou as pginas amareladas to rapidamente
que ficou bvio que ela estava procurando alguma coisa especfica.
     Parecia um velho livro-texto ou manual de referncia.
     -- Pronto. -- Ela estendeu o livro para Liv. -- Alguma parte disso
parece familiar? -- Liv se inclinou mais para perto e elas comearam a virar as
pginas juntas, assentindo. Marian se empertigou e pegou o livro das mos de
Liv. -- Ento, como um Mortal comum consegue se comunicar por Kelt,
Olivia?
     -- No consegue. A no ser que no seja um Mortal comum, professora
Ashcroft.
     Elas estavam sorrindo para mim como se eu fosse uma criana que
tivesse dado seus primeiros passos, ou como se algum estivesse prestes a me
dizer que eu tinha uma doena terminal, e o efeito das duas coisas combinadas
me fez querer sair dali correndo.
     -- Vocs se importam de me incluir na piada?
     -- No  piada. Por que voc no v por si mesmo? -- Marian me
entregou o livro.
     Olhei a pgina. Eu estava certo sobre a parte de ser um livro-texto. Era
um tipo de enciclopdia Conjuradora, com desenhos e lnguas que eu no
entendia por todas as pginas. Mas parte estava em ingls.
     -- O Obstinado. -- Olhei para Marian. --  isso que voc acha que sou?
     -- Prossiga.
     -- O Obstinado: o que conhece o caminho. Sinnimos: condutor,
explorador, piloto. General. Explorador. Navegador. Aquele que trilha o
caminho. -- Olhei para a frente, sem entender.
     Pela primeira vez, Link no parecia confuso.
     -- Ento ele  como uma bssola humana? Se o assunto  superpoderes,
esse  bem idiota. Voc  o equivalente Conjurador ao Aquaman.
     -- Aquaman? -- Marian no costumava ler quadrinhos.
     -- Ele fala com os peixes. -- Link sacudiu a cabea. -- No  como ter
viso de raio-X.
     -- No tenho superpoderes. -- Ser que eu tinha?
     -- Continue lendo. -- Marian apontou para a pgina.
     -- Desde antes das Cruzadas, ns servimos. J tivemos muitos nomes,
assim como nenhum. Como o sussurro no ouvido do primeiro imperador da
China quando ele contemplava a Grande Muralha, ou o companheiro ao lado
do mais valoroso cavaleiro da Esccia quando ele trabalhava pela
independncia de seu pas, Mortais com um propsito maior sempre m quem
os guiasse. Como as naus perdidas de Colombo e de Vasco da Gama tiveram
quem as guiasse para o Novo Mundo, existimos para Conjuradores que
trilham caminhos de grande significado. Somos...
     --Eu no conseguia entender o significado das palavras.
     Ento ouvi a voz de Liv ao meu lado, como se tivesse decorado as linhas.
     -- Quem encontra o que est perdido. Quem sabe o caminho.
     -- Termine. -- Marian de repente ficou sria, como se as palavras fossem
uma espcie de profecia.
     -- Somos feitos para coisas grandiosas, para propsitos grandiosos, fins
grandiosos. Somos feitos para coisas graves, para propsitos graves, para fins
graves. -- Fechei o livro e o entreguei a Marian. No queria saber de mais
nada.
     A expresso de Marian era difcil de interpretar. Ela virou o livro nas
mos vrias vezes e olhou para Liv.
     -- Voc acha?
     --  possvel. J houve outros.
     No para um Ravenwood. Muito menos para um Duchannes.
     -- Mas voc mesma disse, professora Ashcroft. A deciso de Lena leva
sequncias. Se ela escolher ir para a Luz, todos os Conjuradores das Trevas da
famlia dela morrero, e se ela escolher ir para as Trevas... -- Liv no
terminou. Todos ns sabamos o fim. Todos os Conjuradores da Luz da
famlia dela morreriam. -- Voc no diria que ela trilha um caminho de grande
significado?
     Eu no estava gostando do rumo que a conversa tomava, embora no
completamente certo de onde ela ia dar.
     -- Oi? Estou sentado bem aqui. Ser que vocs podem me ajudar a
entender?
     Liv falou lentamente, como se eu fosse uma criana que foi  biblioteca
ouvir histrias.
     -- Ethan, no mundo Conjurador, s os que tm um grande propsito
tm um Obstinado. Obstinados no aparecem com frequncia, talvez uma vez
a cada sculo, e nunca  por acidente. Se voc  um Obstinado, est aqui por
um motivo, grande ou terrvel, inteiramente seu. Voc  uma ponte entre os
mundos dos Conjuradores e dos Mortais, e precisa ser cuidado com tudo o
que fizer.
     Sentei-me na cama e Marian se sentou ao meu lado.
     -- Voc tem um destino, assim como Lena. O que quer dizer que coisas
podem ficar bem complicadas.
     -- Voc acha que esses ltimos meses no foram complicados?
     -- Voc no faz ideia das coisas que j vi. Das coisas que sua me viu.. --
Marian olhou para o outro lado.
     -- Ento voc acha que sou um desses Obstinados? Que sou uma sola
humana ou algo assim, como Link falou?
     --  mais do que isso. Obstinados no sabem apenas o caminho. Eles
so o caminho. Eles guiam Conjuradores pelo caminho que esto de
destinados a tomar, um caminho que talvez no encontrassem sozinhos. Voc
a pode ser o Obstinado de um Ravenwood ou de um Duchannes. No
momento, no est claro de qual dos dois. Liv pareceu saber do que e falando,
o que no fazia sentido. Era a isso que meu pensamento sempre voltava
enquanto eu tentava entender o que elas falavam.
     -- Tia Marian, diga pra ela. No posso ser um desses Obstinados. Meus
pais so Mortais comuns.
     Ningum disse o bvio, que minha me tinha sido parte do mundo
Conjurador, como Marian, mas de uma forma sobre a qual ningum falava,
pelo menos no comigo.
     -- Obstinados so Mortais, uma ponte entre o mundo Conjurador e o
nosso. -- Liv esticou a mo para pegar outro livro. --  claro que sua me
no era exatamente o que podemos chamar de Mortal comum, assim como eu
e a professora Ashcroft.
     -- Olivia! -- Marian ficou paralisada.
     -- Voc no quer dizer...
     -- A me dele no queria que ele soubesse. Eu prometi que, se alguma
coisa acontecesse...
     -- Pare! -- Bati na mesa com o livro. -- No estou com pacincia suas
regras. No hoje.
     Liv mexeu em seu relgio/experimento cientfico com nervosismo.
     -- Sou uma idiota.
     -- O que sabe sobre minha me? -- perguntei a Liv. -- Pode me contar
     Marian se encolheu na cadeira ao meu lado. Os pontos rosados nas
bochechas de Liv ficaram ainda mais intensos.
     -- Desculpe -- e balanou a cabea, olhando de Marian para mim,
impotente .
     Marian ergueu uma das mos.
     -- Olivia sabe tudo sobre sua me, Ethan.
     Eu me virei para Liv. Sabia o que ela ia me contar antes mesmo que
comeasse a falar. A verdade vinha tentando se infiltrar na minha mente. Liv
sabia coisas demais sobre Conjuradores e Obstinados, e ela estava ali, nos no
escritrio de Macon. Se eu no estivesse to confuso sobre o que pensavam
que eu fosse teria me dado conta do que Liv era. No sei por que demorei
tanto para perceber.
     -- Ethan.
     -- Voc,  um deles, como tia Marian e minha me.
     -- Deles? -- perguntou Liv.
     -- Voc  uma Guardi.
     As palavras tornaram tudo real, e eu sentia tudo e nada ao mesmo tempo.
Minha me, ali embaixo nos tneis com o enorme molho de chaves
Conjuradoras de Marian. Minha me com sua vida secreta, nesse mundo
secreto onde meu pai e eu jamais tnhamos estado e do qual jamais
poderamos fazer parte.
      -- No sou uma Guardi. -- Liv parecia constrangida. -- Ainda no. Um
dia, talvez. Estou em treinamento.
      -- Em treinamento para ser mais do que a bibliotecria do condado de
Glatin, que  o motivo de voc estar aqui, no meio do nada, com sua pomposa
bolsa de estudos. Se  que ela existe. Ou isso tambm  mentira?
      -- Sou uma pssima mentirosa. Tenho sim uma bolsa de estudos, mas 
paga por uma sociedade de acadmicos que existe muito antes da
Universidade de Duke.
      -- E da escola de Harrow.
      Ela assentiu.
      -- E de Harrow.
      -- E quanto ao Ovomaltine? Isso era verdade?
      Liv sorriu com tristeza.
      -- Sou de Kings Langley e adoro Ovomaltine, mas para ser
completamente honesta, passei a preferir Quik desde que cheguei a Gatlin.
      Link se sentou na cama, sem saber o que dizer.
      -- No entendo uma palavra do que ela est dizendo.
      Liv virou as pginas do livro at chegar a uma linha do tempo de
Guardies. O nome da minha me saltou aos meus olhos.
      --A professora Ashcroft est certa. Eu estudei Lila Evers Wate. Sua me
era uma brilhante Guardi, uma escritora fantstica. Ler as notas deixadas
pelos Guardies que me antecederam  parte do meu trabalho de curso.
      Notas? Minha me tinha escrito notas que Liv tinha lido, mas eu no?
Resisti ao impulso de dar um soco na parede.
      -- Por qu? Para que voc no cometa os mesmos erros que eles? Para
que no termine morta em um acidente que ningum viu e ningum sabe
como explicar? Para que no deixe sua famlia para trs se perguntando sobre
sua vida secreta e o motivo pelo qual nunca falou nada sobre ela?
      Dois pontos rosados apareceram na bochecha de Liv novamente. Eu
estava me acostumando a eles.
     -- Para que eu possa dar continuidade ao trabalho deles e manter suas
vozes vivas. Para que um dia, quando me tornar uma Guardi, saiba como
proteger o arquivo Conjurador: a Lunae Libri, os pergaminhos, os registros dos
prprios Conjuradores. Isso no  possvel sem as vozes dos Guardies que
existiram antes de mim.
     -- Por que no?
     -- Porque eles so meus professores. Aprendo com a experincia deles,
com o conhecimento que reuniram enquanto eram Guardies. Tudo 
interligado, e sem os registros deles, no posso entender as coisas que
descubro sozinha.
     Balancei minha cabea.
     -- No entendo.
     -- Voc no entende? De que diabos estamos falando? -- perguntou
Link de onde estava, na cama.
     Marian ps a mo no meu ombro.
     A voz que voc ouviu, a risada no corredor, imagino que tenha sido de
sua me. Lila trouxe voc aqui, provavelmente porque queria que tivssemos
essa conversa. Para que voc entendesse seu propsito, assim como Lena e de
Macon. Porque voc est ligado a uma das casas deles e a um destinos deles.
S no sei o de quem ainda.
     Pensei no rosto na coluna, na risada e na sensao de dj vu no
escritrio de Macon. Ser que era minha me? Eu esperava havia meses por
um sinal dela, desde a tarde no escritrio em que Lena e eu encontramos a
mensagem nos livros.
     Ser que ela finalmente estava tentando fazer contato comigo?
     E se no estivesse?
     Ento me dei conta de outra coisa:
     -- Se eu for um desses Obstinados... mas vejam bem, no estou dizendo
que acredito em nada disso... ento sou capaz de encontrar Lena, certo?
Tenho que tomar conta dela porque sou a bssola dela, ou coisa do tipo.
     --No temos certeza ainda. Voc est ligado a algum, mas no sabemos
quem.
     Empurrei a cadeira para trs e andei at a estante. O livro de Macon na
beirada da prateleira.
     --Aposto que sei quem sabe -- disse, estendendo a mo para peg-lo.
     --Ethan, pare! -- gritou Marian. Meus dedos mal tinham tocado na capa
quando senti o cho dar lugar ao nada de outro mundo.
     No ltimo segundo, a mo de algum segurou a minha.
     --Me leve com voc, Ethan.
     --Liv, no...

      Uma garota com cabelos compridos e castanhos estava agarrada desesperadamente a
um garoto alto, o rosto afundado no peito dele. Os galhos de um enorme carvalho os
envolviam, dando a impresso de que estavam sozinhos em vez de a alguns metros dos
prdios cobertos era da Universidade de Duke.
      Ele aninhou o rosto manchado de lgrimas com delicadeza entre as mos.
      -- Voc acha que isso  fcil para mim? Amo vocs Jane, e sei que nunca sentirei o
mesmo por mais ningum. Mas no temos escolha. Voc sabia que chegaria um momento em
que teramos que dizer adeus.
      Jane ergueu o queixo, decidida.
      -- Sempre h escolhas, Macon.
      -- No nessa situao. No h escolha alguma que no colocaria voc em perigo.
      -- Mas sua me disse que talvez haja um meio. E a profecia?
      Macon bateu a palma da mo contra a rvore, frustrado.
      -- Droga, Jane. Isso  conto de fadas. No h meio algum que no termine com voc
morta.
      -- Ento no podemos ficar juntos fisicamente... No ligo para isso. Ainda podemos
ficar juntos. Isso  tudo o que importa.
      Macon se afastou, o rosto contorcido de dor.
      -- Depois que eu mudar, serei perigoso, um Incubus de Sangue. Eles tm sede de
sangue, e meu pai diz que serei um deles, como ele e o pai dele. Como todos os homens da
minha famlia, desde o me tatarav Abraham.
      -- Vov Abraham, o que acreditava que o maior pecado imaginvel era um
Sobrenatural se apaixonar por uma Mortal, que mancharia a linhagem da famlia? E voc
no pode confiar no seu pai. Ele pensa da mesma forma. Ele quer nos separar para que voc
volte para Gatlin, aquela cidade horrvel, para que fique se escondendo nos subterrneos
como seu irmo. Como um monstro.
      --  tarde demais. J consigo sentir a Transformao. Fico acordado a noite inteira
ouvindo pensamentos de Mortais, com fome. Em breve, terei fome de mais do que os
pensamentos deles. J sinto como meu corpo no conseguisse suportar o que h dentro de
mim, como se a besta pudesse literalmente irromper para a liberdade.
      Jane se virou para o outro lado, os olhos se enchendo de lgrimas novamente. Mas
Macon no ia deixar que ela o ignorasse dessa ver... Ele a amava. E por isso precisava
faz-la entender por que no podiam ficar juntos.
      --At mesmo parado aqui, a luz est comeando a queimar minha pele. Agora posso
sentir o calor do sol com muita intensidade, o tempo todo. J estou mudando, e s vai piorar.
      Jane escondeu o rosto nas mos e comeou a chorar.
      -- Voc s est dizendo isso para me assustar, porque no quer encontrar uma
soluo.
      Macon segurou os ombros de Jane, forando-a a olhar para ele.
      -- Voc est certa. Estou tentando assustar voc. Voc sabe o que meu irmo fez com
a namorada Mortal dele depois da Transforma Macon fez uma pausa. -- Ele a rasgou ao
meio.
      Sem aviso, a cabea de Macon se virou, os olhos amarelo-dourados brilhando ao redor
de estranhas pupilas negras, como o eclipse de sis gmeos. Ele virou a cabea para longe de
Jane.
      --Nunca se esquea, Ethan. As coisas nunca so o que parecem.


Abri meus olhos, mas no consegui ver nada at a neblina dissipar. O teto
abobadado do escritrio entrou em foco.
    -- Isso foi apavorante, cara. Apavorante no estilo O Exorcista.
    Link estava balanando a cabea. Estendi o brao e ele me puxou. Meu
corao ainda estava disparado, e tentei no olhar para Liv. Eu nunca tinha
compartilhado uma viso com ningum a no ser Lena e Marian, e no estava
 vontade por ter feito isso agora. Toda vez que eu olhava para ela, s
conseguia pensar no momento em que entrei naquele aposento. No momento
em que pensei que ela fosse Lena.
     Liv se sentou, grogue.
     --Voc me contou sobre as vises, professora Ashcroft. Mas eu no fazia
ideia de que elas eram to reais.
     -- Voc no devia ter feito isso. -- Senti como se estivesse traindo
Macon ao levar Liv para a vida particular dele.
     -- Por que no? -- disse e esfregou os olhos, tentando acostumar a vista
     -- Talvez voc no devesse ver isso.
     -- O que eu vejo em uma viso  totalmente diferente do que voc v.
Voc no  um Guardio. Sem querer ofender, mas voc no tem preparo
algum.
     -- Por que voc diz que no quer ofender quando est planejando me
ofender?
     -- Chega. -- Marian olhou para ns com expectativa. -- O que
aconteceu?
     Mas Liv estava certa. Eu no entendia o que a viso queria dizer, exceto
que um Incubus no devia ficar com uma Mortal, assim como Conjuradores.
     -- Macon estava l com uma garota e falava sobre virar um Incubus de
Sangue.
     Liv parecia presunosa.
     -- Macon estava passando pela Transformao. Ele pareceu estar um
estado muito vulnervel. No sei por que a viso nos mostrou aquele
momento em particular, mas deve ser significativo.
     -- Voc tem certeza de que no estava vendo Hunting em vez de Macon?
-- perguntou Marian.
     -- No -- dissemos, nossas vozes sobrepostas. Olhei para Liv. -- Macon
no era como Hunting.
     Liv pensou por um momento, depois pegou o caderno sobre a cama. Ela
escreveu alguma coisa e o fechou.
     timo. Outra garota com um caderno.
     -- Sabe de uma coisa? Vocs so as especialistas. Vou deixar que
decifrem essa. Vou encontrar Lena antes que Ridley e o amigo dela a
convenam a fazer alguma coisa da qual ela v se arrepender.
     -- Est sugerindo que Lena est sob a influncia de Ridley? Isso no 
possvel, Ethan. Lena  uma Natural. Uma Sirena no pode control-la. --
Marian dispensou a ideia.
     Mas ela no sabia sobre John Breed.
     -- E se Ridley tivesse ajuda?
     -- Que tipo de ajuda?
     -- Um Incubus que pode andar na luz do dia, ou um Conjurador com a
fora de Macon e a habilidade de Viajar. No tenho certeza de qual dai dois.
-- No era a melhor explicao, mas eu no sabia o que John Breed era
realmente.
     -- Ethan, voc deve estar enganado. No h registros de um Incubus ou
Conjurador com habilidades assim. -- Marian j estava tirando um da
prateleira.
     -- Agora h. O nome dele  John Breed. -- Se Marian no sabia o que
John era, no amos descobrir a resposta em um daqueles livros.
     -- Se o que voc est descrevendo est certo, e acho difcil acreditar que
esteja, no tenho certeza sobre o que ele pode ser capaz de fazer.
     Olhei para Link. Ele estava retorcendo a corrente presa  carteira.
Estvamos pensando a mesma coisa.
     -- Preciso encontrar Lena. -- No esperei por uma resposta.
     Link destrancou a porta.
     Marian se levantou.
     -- Voc no pode ir atrs dela.  perigoso demais. H Conjuradores e
criaturas de poder inimaginvel nesses tneis. Voc s esteve aqui uma vez e
as sees que viu so pequenas passagens em comparao aos tneis res. Eles
so como outro mundo.
     Eu no precisava de permisso. Minha me podia ter me guiado at ali,
ela ainda estava morta.
     -- Voc no pode me impedir porque no pode se envolver, certo? S
pode ficar aqui sentada, observando enquanto eu estrago tudo e escrevem
sobre os acontecimentos para que algum como Liv possa estudar sobre
depois.
      -- Voc no sabe o que vai encontrar, e quando encontrar, no poderei
ajud-lo.
      No importava. Eu j estava  porta antes de Marian terminar. Liv me
seguia.
      -- Eu vou, professora Ashcroft. Vou cuidar para que nada acontea a
eles.
      Marian foi at a porta.
      -- Olivia. Este no  o seu lugar.
      -- Eu sei. Mas eles vo precisar de mim.
      -- Voc no pode mudar o que acontecer. Tem que ficar de fora. No
importa o quanto doer em voc, O papel de um Guardio  apenas registrar e
ser testemunha, no pode mudar o que acontece.
      -- Voc  como um inspetor. -- Link sorriu. -- Como Fatty
      Liv apertou os olhos. Eles deviam ter inspetores na Inglaterra tambm.
      -- Voc no precisa me explicar a Ordem das Coisas, professora
Ashcroft. Aprendo isso desde meus estudos bsicos. Mas como posso
testemunhar o que nunca tenho permisso de ver?
      -- Voc pode ler sobre tudo isso nos Pergaminhos Conjuradores, como
todos ns.
      -- Eu posso? A Dcima Sexta Lua? A Invocao que podia ter quebrado
a maldio dos Duchannes? Voc poderia ter lido sobre qualquer uma dessas
coisas em um pergaminho? -- Liv olhou para seu relgio da lua. -- Tem
alguma coisa acontecendo. Esse Sobrenatural com poder sem precedentes, as
vises de Ethan... E h anomalias cientficas. Mudanas sutis que perca no
meu selenmetro.
      Sutis, o mesmo que no existentes. Eu reconhecia uma armao quando
via uma. Olivia Durand estava to aprisionada quanto o restante de ns, e
ramos a sada dela. Ela no estava preocupada comigo e com Link nos tneis.
Ela queria ter uma vida. Como outra garota que conheci no tempo antes.
      -- Lembre-se...
      A porta se fechou antes que Marian pudesse terminar, e fomos embora.
                                   15 de junho   
                                   Exlio

                                  

A
       porta se fechou atrs de ns. Liv ajeitou a mochila velha de couro e
      pegou uma tocha na parede do tnel. Eles estavam prontos para me at
      o grande desconhecido, mas, em vez disso, estvamos ali parados,
olhando uns para os outros.
     -- E a? -- Liv olhou para mim com expectativa. -- No  to complica.
Ou voc sabe o caminho ou voc...
     -- Shh. D um segundo a ele. -- Link colocou a mo sobre a boca de Liv
-- Use a fora, jovem Skywalker.
     Essa coisa de Obstinado tinha certo peso. Eles realmente achavam que eu
sabia para onde ir. O que s nos deixava com um problema. Eu no sabia.
     -- Por aqui. -- Teria de ir improvisando no caminho.

Marian disse que os tneis Conjuradores eram infinitos, um mundo por baixo
do nosso, mas nunca entendi de verdade o que ela queria dizer at e momento.
Quando viramos a primeira esquina, a passagem mudou, se estreitando em
paredes circulares mais midas e escuras que pareciam um tubo do que um
tnel. Coloquei as mos nas paredes para me impulsionar para a frente e
minha tocha caiu na lama.
     -- Merda. -- Segurei o cabo de madeira da tocha entre os dentes e fui em
frente.
     -- Que saco -- murmurou Link atrs de mim quando sua tocha apagou.
      Liv estava atrs dele.
      -- A minha tambm se apagou.
      Estvamos completamente no escuro. O teto era to baixo que
precisvamos nos encolher sob a pedra lamacenta.
      -- Isso est me apavorando. -- Link nunca tinha gostado do escuro.
      Liv falou s nossas costas:
      -- A qualquer momento vocs vo chegar no...
      Bati minha cabea contra uma coisa dura e pontuda, no meio escurido.
      --Ai!
      -- ... portal.
      Link deve ter tirado a lanterna do bolso, porque um crculo de luz fraca
pousou sobre a porta redonda  minha frente. Era alguma espcie de metal
frio, no a madeira podre nem a pedra esburacada das outras portas tnhamos
visto. Parecia mais uma tampa de bueiro na parede. Empurrei meu ombro
contra a porta, mas ela nem se mexeu.
      -- E agora? -- falei para Liv, minha substituta de Marian em assuntos
relacionados a Conjuradores. Ouvi-a folhear o caderno.
      -- No sei. Talvez empurrar com mais fora?
      -- Voc precisou verificar seu caderninho pra dizer isso? -- Eu estava
irritado.
      -- Quer que eu v at a e faa por voc? -- Liv tambm no estava feliz.
      -- Vamos, crianas. Eu empurro Ethan, voc me empurra e Ethan
empurra a porta.
      -- Brilhante -- disse Liv.
      -- Ombro a ombro, MJ.
      -- Como?
      -- Marian Jnior. Era voc que queria aventura. Tem alguma ideia
melhor?
      A porta no tinha maaneta e nenhum tipo de dispositivo. Estava
encaixada em um vo perfeito, um crculo de metal em um portal circular.
Nem uma fresta de luz escapava pelas fendas.
      -- Link est certo. No temos escolha e no vamos voltar agora -- apoiei
ento meu ombro contra a porta. -- Um, dois, trs. Empurrem!
     Quando as pontas dos meus dedos tocaram a porta, ela se abriu como se
pele fosse, de alguma forma, o reconhecimento gentico, a chave que a abria.
Link se chocou contra mim e Liv caiu em cima de ns dois. Bati a cabea
contra o que parecia ser pedra quando ca no cho. Fiquei tonto, no
conseguia ver nada. Quando abri os olhos, estava encarando um poste de luz.
     -- O que aconteceu? -- Link parecia to desorientado quanto eu.
     Tateei as pedras com as pontas dos dedos. Paraleleppedo.
     -- Apenas toquei a porta e ela se abriu.
     -- Impressionante. -- Liv ficou de p, absorvendo tudo o que via.
     Eu estava cado em uma rua de uma cidade que parecia Londres ou
alguma cidade antiga sada diretamente de um livro de histria. Atrs de mim,
dava para ver o portal redondo, no fim da rua. Havia uma placa de lato ao
lado dela que dizia PORTAL OCIDENTAL, BIBLIOTECA CENTRAL.
     Link se sentou ao meu lado, esfregando a cabea.
     -- Puta merda. Parece um daqueles becos onde as pessoas eram atacadas
por Jack, o Estripador.
     Ele estava certo. Poderamos estar na entrada de um beco na Londres do
sculo XIX. A rua estava escura, iluminada apenas pelo suave brilho de alguns
postes. O beco tinha de cada lado os fundos de casas de tijolos altas e
idnticas.
     Liv ficou de p e andou pela rua de paraleleppedos deserta, olhando uma
placa velha de ferro: A FORTALEZA.
     -- Deve ser o nome desse tnel. Inacreditvel. A professora Ashcroft me
contou, mas nunca imaginei. Acho que livros jamais podem ser precisos o
bastante, no ?
     -- , no parece igual aos cartes postais. -- Link se levantou. -- S
saber onde foi parar o teto. -- O arco curvo do teto do tnel sumira, seu lugar
havia um cu noturno escuro, to grande e real e cheio de estrelas quanto
qualquer outro que eu j tivesse visto.
     Liv pegou o caderno e comeou a escrever.
     -- Vocs no entendem? Esses so tneis Conjuradores. No so uma
linha de metr sobrenatural, para que os Conjuradores possam rastejar por
baixo de Gatlin e pegar livros emprestados na biblioteca.
     -- Ento o que so? -- perguntei, passando a mo pelo tijolo spero na
lateral da casa mais prxima.
     -- Esto mais para estradas para outro mundo. Ou, de certa forma, um
outro mundo s deles .
     Ouvi um barulho e meu corao deu um salto. Achei que Lena estivesse
usando Kelt para se reconectar comigo. Mas eu estava errado.
      Era msica.
     -- Est ouvindo? -- perguntou Link, e me senti aliviado.
     Pelo menos agora a msica no estava vindo de dentro da minha cabea.
Vinha da entrada do beco. O som parecia com a msica Conjuradora da festa
em Ravenwood no ltimo Halloween, na noite em que salvei Lena do ataque
psquico de Sarafine.
     Fiquei atento para tentar ouvir Lena, sentir a presena dela, me
lembrando daquela noite. Nada.
     Liv verificou o selenmetro e escreveu outra coisa no caderno.
     -- Carmen. Eu estava transcrevendo isso ontem.
     -- Ingls, por favor. -- Link ainda olhava para o cu, tentando entender
tudo.
     -- Desculpe. Significa Msica Encantada  msica Conjuradora.
     Sa andando, seguindo o som at o fim do beco.
     -- Seja o que for, est vindo daqui.
     Marian estava certa. Uma coisa era vagar pelos tneis midos da Lunae
Libri, mas isso era completamente diferente. No fazamos ideia de onde
tnhamos nos metido. Eu j percebia isso.
     Conforme eu caminhava pelo beco, a msica ia ficando mais os
paraleleppedos se transformaram em asfalto debaixo dos meus ps e a rua
mudou da Londres de antigamente para uma rua moderna de bairro pobre.
Era uma rua que podia ser encontrada em qualquer cidade grande, num bairro
velho e esquecido. As construes pareciam armazns abandonados, onde
grades de ferro cobriam as janelas quebradas e os remanescentes de placas
luminosas piscavam suas luzes fluorescentes na escurido. Havia guimbas de
cigarro e lixo pela rua toda, e uma espcie estranha de pichao Conjuradora
-- smbolos que eu no conseguia nem comear a entender -- cobria as
laterais dos prdios. Mostrei aquilo para Liv.
     -- Voc sabe o que essas coisas significam?
     Ela balanou a cabea.
     -- No, nunca vi nada assim. Mas significam alguma coisa. No mundo
Conjurador, todo smbolo tem significado.
     -- Esse lugar  mais apavorante do que a Lunae Libri. -- Link estava
tentando parecer controlado na frente de Liv, mas no estava tendo muito
sucesso.
     -- Voc quer voltar? -- Eu queria que ele fosse embora, mas sabia que
tinha tanto motivo quanto eu para estar ali. S que o motivo dele era louro.
     -- Est me chamando de covarde?
     -- Shh, cala a boca. -- Eu a estava ouvindo.
     A musica Conjuradora sumiu no ar, a melodia sedutora substituda por
outra coisa. Dessa vez, eu era o nico que conseguia ouvir a letra.

    Dezessete luas, dezessete medos,
    Dor da morte e vergonha das lgrimas,
    Encontre o marcador, caminhe a distncia,
    Dezessete conhece s exlio...

     -- Estou ouvindo. Devemos estar perto. -- Segui a msica enquanto ela
se repetia na minha cabea.
     Link me olhou como se eu estivesse louco.
     -- Ouvindo o qu?
     -- Nada. Apenas me siga.
     As enormes portas de metal que se repetiam ao longo da rua imunda
todas iguais: amassadas e arranhadas, como se tivessem sido atacadas por um
animal enorme ou coisa pior. Exceto pela ltima porta, de onde vinha
Dezessete Luas. Estava pintada de preto e coberta de mais pichao
Conjuradora. Porm, um dos smbolos era diferente, e no estava pintado na
porta com spray. Estava entalhado nela. Passei meus dedos pelas depresses
na madeira.
     -- Este  diferente, parece quase celta.
     A voz de Liv era um sussurro.
     -- Celta no. Nidico.  uma antiga lngua Conjuradora. Muitos dos
pergaminhos antigos da Lunae Libri esto escritos nessa lngua.
     -- O que ele diz?
     Ela examinou o smbolo com cuidado.
     -- Nidico no se traduz diretamente em palavras. Quero dizer, no se
pode pensar nas palavras como palavras, no exatamente. Este smbolo
significa lugar, ou momento, tanto no espao fsico quanto no temporal. --
Ela passou o dedo sobre uma reentrncia na madeira. -- Mas essa linha o
corta, esto vendo? Ento agora o lugar se torna uma falta de lugar, lugar
nenhum.
     -- Como um lugar pode ser lugar nenhum? Ou voc est em um Iugar ou
no est. -- Mas enquanto eu falava, sabia que no era verdade. Eu estava em
um lugar nenhum havia meses, assim como Lena.
     Ela olhou para mim.
     -- Acho que quer dizer alguma coisa como Exlio.
     Dezessete conhece s exlio.
     --  exatamente isso que significa.
     Liv me lanou um olhar estranho.
     --Voc no tem como saber isso, ou ser que de repente fala nidico?--
Ela tinha um brilho no olhar, como se isso fosse mais uma prova de que eu
era um Obstinado.
     -- Ouvi numa msica. -- Estendi a mo para a porta, mas Liv pegou
meu brao. -- Ethan, isso no  um jogo. No  o concurso de tortas da feira
do condado. Voc no est mais em Gatlin. H coisas perigosas embaixo,
criaturas muito mais perigosas do que Ridley e seus pirulitos.
     Eu sabia que ela estava tentando me assustar, mas no estava
conseguindo. Desde a noite do aniversrio de Lena, eu sabia mais sobre os
perigos do mundo Conjurador do que qualquer bibliotecria poderia saber,
fosse Guardi ou no. Eu no a culpava por ter medo. Voc precisaria ser
burro para no ter medo -- como eu.
      -- Voc est certa. No estamos na biblioteca. Vou entender se no
quiserem entrar, mas eu preciso ir. Lena est em algum lugar l dentro.
      Link abriu a porta e entrou como se ali fosse o vestirio da Jackson High.
      -- Tudo bem. Curto criaturas perigosas.
      Dei de ombros e o segui. Liv apertou a ala da mochila, pronta para
lana-la na cabea de algum, se necessrio. Deu um passo hesitante e a porta
se fechou atrs dela.
      Dentro estava ainda mais escuro do que na rua. Enormes candelabros de
cristal, completamente deslocados entre os canos expostos, eram a nica de
luz. O restante do aposento era um puro delrio industrial. Era um nico
espao gigantesco, com cabines circulares cobertas de veludo vermelho-escuro
espalhadas por todo lado. Algumas eram cercadas por cortinas pesadas presas
a trilhos no teto de forma a poderem ser fechadas em torno da cabine, do
modo como se fecham cortinas ao redor de camas de hospital. Havia um bar
no fundo, em frente a uma porta cromada redonda com maaneta.
      Link tambm a viu.
      -- Aquilo  o que acho que ?
      Assenti.
      -- Um cofre.
      Os candelabros esquisitos, o bar que mais parecia um balco, as enormes
janelas cobertas de qualquer jeito com fita adesiva preta, o cofre. Aquele lugar
podia ter sido um banco no passado, se os Conjuradores tivessem bancos.
Fiquei curioso sobre o que haviam guardado atrs daquela porta talvez eu no
quisesse saber.
      Mas as nada era mais estranho do que as pessoas, ou fosse l o que elas
fossem. A multido ia e vinha como em uma das festas de Macon, onde o
tempo parecia desaparecer e aparecer, dependendo de para que lado voc
olhasse. De cavalheiros vestindo ternos da virada do sculo e que pareciam
com Mark Twain, de colarinhos brancos engomados e gravatas listradas de
seda, a punks com aparncia gtica vestidos com roupas de couro; todos
estavam bebendo, danando e interagindo.
      --Cara, me diga que essas pessoas apavorantes e transparentes no so
fantasmas.
     Link se afastou de uma pessoa translcida, quase esbarrando em outra.
Eu no queria dizer a ele que elas eram exatamente isso. Pareciam com
Genevieve no cemitrio, parcialmente materializadas, s que ali havia pelo
menos uma dzia delas. Mas nunca tnhamos visto Genevieve se mover. Esses
fantasmas no estavam flutuando como fazem os fantasmas de desenho
animado. Estavam andando, danando e se movendo como pessoas normais,
s que estavam fazendo isso acima do cho; no mesmo ritmo e nas mesmas
passadas, s que seus ps no tocavam o cho. Uma olhou para onde
estvamos e ergueu um copo vazio de cima de uma mesa como se estivesse
propondo um brinde.
     -- Estou vendo coisas ou aquele fantasma ergueu um copo? -- Link deu
uma cotovelada em Liv.
     Ela deu um passo e ficou entre ns, seus cabelos encostando no meu
pescoo. A voz dela estava to baixa que tivemos que nos inclinar para ouvi-la.
     -- Tecnicamente, no so chamados de fantasmas. So Espectros, almas
que no conseguiram cruzar para o Outro Mundo porque tm coisas no
concludas no mundo Conjurador ou no mundo Mortal. No tenho ideia de
por que h tantos aqui hoje. Eles normalmente so reservados. Alguma coisa
est estranha.
     -- Tudo nesse lugar  estranho. -- Link ainda estava observando o
Espectro que segurava o copo. -- E voc no respondeu a pergunta.
     -- Sim, eles conseguem pegar qualquer coisa que queiram. Como acha
que batem portas e arrastam mveis em casas mal-assombradas?
     Eu no estava interessado em casas mal-assombradas.
     -- Que tipo de coisas no concludas? -- Eu conhecia muitas pessoas
mortas com coisas no concludas. No queria encontrar nenhuma hoje.
     -- Alguma coisa que deixaram sem resolver quando morreram: uma
maldio poderosa, um amor perdido, um destino destrudo. Use sua
imaginao.
     Pensei em Genevieve e no medalho, e me perguntei quantos segredos
perdidos, quantos negcios no terminados havia nos cemitrios e mausolus
de Gatlin.
     Link olhou para uma garota bonita com marcas desenhadas ao redor do
pescoo. Pareciam com as tatuadas em Ridley e John.
     -- Eu gostaria de ter alguma coisa no concluda com ela.
     -- Ela tambm gostaria. Faria voc pular de um precipcio sem pensar
duas vezes. -- Examinei o local.
     No havia sinal de Lena. Quanto mais eu olhava, mais ficava agradecida
pela escurido. As cabines estavam se enchendo de casais, bebendo e beijando,
enquanto a pista de dana estava cheia de garotas, girando e danando como
se estivessem tecendo algum tipo de teia. Dezessete Luas no estava mais
tocando, se  que tinha mesmo tocado. Agora a msica era mais pesada, mais
intensa, uma verso Conjuradora de Nine Inch Naus. As rotas estavam todas
vestidas de formas diferentes, uma com um vestido medieval, outra de couro
grudado ao corpo. Havia tambm as Ridleys -- rotas de minissaia e blusas
pretas, com mechas vermelhas, azuis ou roxas no cabelo, deslizando uma ao
redor da outra, tecendo um tipo de teia diferente. Talvez fossem todas Sirenas.
Eu no conseguia saber. Mas eram todas bonitas, e todas tinham alguma
verso da tatuagem preta de Ridley.
     -- Vamos ver l atrs.
     Deixei Link ir na frente para que Liv pudesse ficar entre ns dois.
Embora estivesse observando cada canto do lugar como se quisesse se
lembrar de tudo, eu sabia que estava nervosa. Aquele no era lugar para uma
garota nem para um cara Mortal, e me senti responsvel por ter arrastado Link
e Liv para aquela situao. Ficamos perto da parede, contornando a rea. Mas
o salo estava lotado e senti meu ombro esbarrar em algum. Algum com
corpo.
     -- Desculpe -- falei instintivamente.
     -- Tudo bem. -- O cara parou, reparando em Liv. -- Alis, o oposto
disso. -- Ele piscou para ela. -- Est perdida? -- Ele sorriu, os olhos
luminosos e pretos brilhando na escurido. Ela ficou paralisada. O lquido
vermelho balanou no copo dele quando ele se inclinou mais para perto.
     Liv limpou a garganta.
     -- No. Estou bem, obrigada. S estou procurando uma amiga.
     -- Posso ser seu amigo -- e sorriu. Os dentes brancos brilhavam de uma
maneira nada natural na luz fraca da boate.
     -- Um... tipo diferente de amiga. -- Eu via a mo de Liv tremendo
enquanto segurava a ala da mochila.
     -- Se voc encontr-la, estarei aqui. -- Ele se voltou novamente para o
bar, no qual Incubus se alinhavam para encher os copos com um lquido
vermelho de uma estranha torneira de vidro. Tentei no pensar naquilo.
     Link nos puxou contra uma das cortinas de veludo na parede.
     -- Estou comeando a sentir que isso foi uma m ideia.
     -- Quando voc chegou a essa brilhante concluso? -- O sarcasmo de
Liv passou despercebido a Link.
     -- No sei, acho que na hora em que vi a bebida do cara. Acho que no
era ponche. -- Link olhou ao redor. -- Como podemos saber se eles esto
aqui, cara?
     -- Eles esto.
     Lena tinha de estar ali, Eu estava prestes a contar para Link sobre como
eu havia escutado a msica e podia sentir que ela estava ali quando uma tira de
cabelo cor-de-rosa e louro entrou na pista de dana.
     Ridley.
     Quando ela nos viu, parou de girar, e pude ver o outro lado da pista de
dana, atrs dela. John Breed estava danando com uma garota, os braos dela
ao redor do pescoo dele e as mos dele nos quadris dela. Os corpos estavam
apertados um contra o outro e eles pareciam estar num mundo prprio. Pelo
menos foi assim que pareceu quando eram as minhas mos apoiadas naqueles
quadris. Minhas mos se fecharam com fora e meu estmago deu um n. Eu
sabia que era ela antes mesmo de ver os cachos pretos.
     Lena...
     Ethan?
                                   15 de junho   
                           Atormentado

                                  

N       o  o que voc est pensando.
              O que estou pensando?
              Ela afastou John enquanto eu cruzava a pista de dana. Ele se
virou, os olhos pretos e ameaadores. Ento sorriu para mostrar que eu no
era ameaa. Ele sabia que eu no era preo para ele fisicamente, e depois de
v-lo com Lena na pista de dana, aposto que ele no me considerava mais
qualquer tipo de ameaa.
     O que eu estava pensando?
     Eu sabia que estava no momento antes da coisa acontecer -- a coisa que
muda sua vida para sempre. Era como se o tempo tivesse parado, embora
tudo ao meu redor ainda se movesse. A coisa que eu temia havia meses estava
realmente acontecendo. Lena estava escorregando pelos meus dedos. E no
era por causa do seu aniversrio, nem por causa da me dela e de Hunting, e
nem de maldio alguma ou de algum conjuro ou ataque.
     Era outro cara.
     Ethan! Voc precisa ir embora.
     No vou a lugar algum.
     Ridley entrou na minha frente; os danarmos se moviam ao nosso redor.
     -- Calma a, Namorado. Eu sabia que voc era corajoso, mas isso 
loucura. -- Ela parecia tensa, como se realmente se preocupasse com o que
aconteceria comigo. Era uma mentira, como tudo em relao a ela.
     -- Saia do meu caminho, Ridley.
     -- Chega, Palitinho.
     -- Lamento, mas os pirulitos no funcionam comigo, ou seja l o que
voc e John esto usando para manipular Lena.
     Ela segurou meu brao, os dedos gelados afundando na minha pele. Eu
tinha esquecido o quanto ela era forte e fria. Ela baixou a voz.
     -- No seja burro. Voc est muito longe do seu territrio e
completamente fora de si.
     -- Como se voc soubesse.
     Ela apertou mais meu brao.
     -- Voc no quer fazer isso. No devia estar aqui. V para casa antes
que...
     -- Antes que o qu? Antes que voc possa causar mais problemas do que
o habitual?
     Link tinha me alcanado. Ridley pousou o olhar no dele. Por um segundo,
pensei ter visto um leve brilho nos olhos dela, como se ver Link tivesse
despertado uma coisa quase humana. Algo que a tornava to vulnervel
quanto ele. Mas desapareceu com tanta rapidez quanto surgiu.
     Ridley estava agitada e comeando a entrar em pnico. Eu percebia pelo
jeito como ela estava abrindo um pirulito antes mesmo de conseguir que as
palavras sassem pela boca.
     -- Que diabos voc est fazendo aqui? Saia daqui agora, e leve-o com
voc. -- O tom brincalho tinha desaparecido. -- Saiam! -- Ela nos
empurrou com o mximo de fora que conseguiu.
     No me mexi.
     -- No vou embora enquanto no falar com Lena.
     -- Ela no o quer aqui.
     -- Ela mesma vai ter que me dizer isso.
     Diga na minha cara, L.
     Lena estava passando pelo meio da multido. John Breed ficou para trs,
os olhos fixos em ns. Eu no queria imaginar o que ela devia ter dito a ele
pra mant-lo parado. Que ela cuidaria disso? Que no era nada, s um cara
que no conseguia se esquecer dela? Um Mortal desesperado que no podia
competir com tudo o que ela possua agora?
     Como ele.
     Ela possua John, e ele tinha ganhado de mim da nica maneira que
importava. Ele era parte do mundo dela.
     No vou embora enquanto voc no disser.
     Ridley baixou a voz, falando mais srio do que eu jamais a tinha visto
fazer.
     -- No temos tempo pra brincadeiras. Sei que est irritado, mas voc no
entende. Ele vai te matar, e se voc tiver sorte, os outros no vo se juntar a
ele s por diverso.
     -- Quem, o Garoto Vampiro? Ns podemos encar-lo. -- Link estava
mentindo, mas ele no seria derrotado sem revidar, em minha defesa ou em
defesa dela.
     Ridley balanou a cabea, empurrando-o ainda mais.
     -- Voc no pode, seu idiota. Aqui no  lugar para dois escoteiros.
Saiam daqui.
     Ela estendeu a mo em direo  bochecha de Link, mas ele agarrou seu
pulso antes que ela pudesse toc-lo. Ridley era como uma bela cobra: no se
podia deixar que chegasse perto sem o risco de ser picado. Lena estava a
poucos metros de distncia.
     Se voc no me quer aqui, diga isso pra mim voc mesma.
     Uma parte de mim acreditava que, se estivssemos prximos o bastante,
eu podia romper o controle que Ridley e John tinham sobre ela.
     Lena parou atrs de Ridley. A expresso dela estava indecifrvel, mas eu
podia ver uma linha prateada da nica lgrima que cara.
     Fale, L. Fale ou venha comigo.
     Os olhos de Lena brilharam e ela olhou para o local s minhas costas,
onde Liv estava, na beirada da pista de dana.
     -- Lena, voc no devia estar aqui. No sei o que Ridley e John esto
fazendo com voc...
     -- Ningum est fazendo nada comigo, e no sou eu quem est em
perigo aqui. No sou Mortal. -- Lena olhou para Liv.
     Como ela.
     O rosto de Lena escureceu e pude ver os cachos soltos comeando a se
mexer.
     -- Voc tambm no  como eles, L.
     As luzes no bar piscaram e as lmpadas sobre a pista de dana
estouraram, fazendo voar fagulhas e pequenos pedaos de vidro sobre ns. A
multido, at mesmo aquela, comeou a se afastar de ns.
     -- Voc est errado. Sou como eles. Aqui  meu lugar.
     -- Lena, podemos encontrar uma soluo.
     -- No podemos, Ethan. No pra isso.
     -- No conseguimos passar por todas as outras coisas juntos?
     -- No. Juntos no. Voc no sabe mais nada sobre mim. -- Por um
segundo, alguma coisa tomou o rosto dela. Tristeza, talvez? Arrependimento?
     Queria que as coisas pudessem ser diferentes, mas no so.
     Ela comeou a se afastar.
     No posso ir para onde voc est indo, Lena.
     Eu sei.
     Voc estar sozinha.
     Ela no se virou.
     J estou sozinha, Ethan.
     Ento me mande ir embora. Se  isso que voc realmente deseja.
     Ela parou de andar e se virou lentamente para me olhar.
     -- No quero voc aqui, Ethan. -- Lena desapareceu na pista de dana,
indo para longe de mim. Antes que eu pudesse dar um passo, ouvi o rudo de
coisa rasgando...
     John Breed se materializou na minha frente, com jaqueta de couro preto e
tudo.
     -- Nem eu.
     Estvamos a centmetros de distncia.
     -- Vou embora, mas no por sua causa.
     Ele sorriu e os olhos verdes brilharam.
     Virei-me e abri caminho pelo meio da multido. Eu no me importava se
iria irritar algum que podia beber meu sangue ou me fazer pular de m
precipcio. Continuei andando porque, mais do que qualquer coisa, eu queria
sair dali. A porta pesada de madeira se fechou com fora, isolando a msica, as
luzes e os Conjuradores.
     Mas no aquilo que eu queria que tivesse isolado. A imagem das mos
dele nos quadris dela, o movimento acompanhando a msica, o cabelo preto
se mexendo. Lena nos braos de outro cara.
     Mal reparei quando a rua passou de asfalto e imundcie dos dias
modernos a paraleleppedos novamente. H quanto tempo aquilo vinha
acontecendo e o que tinha se passado entre eles? Conjuradores e Mortais no
podem ficar juntos. Era isso que as vises estavam me dizendo, como se o
mundo Conjurador achasse que eu ainda no tinha entendido.
     Ouvi o som de passos ecoando contra os paraleleppedos atrs de mim.
     -- Ethan, voc est bem? -- Liv colocou a mo no meu ombro. Eu no
tinha me dado conta de que ela estava me seguindo.
     Eu me virei, mas no sabia o que dizer. Estava parado numa rua sada do
passado, em um tnel Conjurador subterrneo, pensando em Lena com um
cara que era o oposto de mim. Um cara que podia roubar tudo o que eu tinha,
quando quisesse. Isso tinha ficado claro hoje.
     -- No sei o que fazer. Essa no  Lena. Ridley e John tm algum tipo de
controle sobre ela.
     Liv mordeu o lbio inferior, nervosa.
     -- Sei que no  o que voc quer ouvir, mas Lena est tomando suas
prprias decises.
     Liv no entendia. Ela nunca tinha visto Lena antes de Macon morrer e
John Breed aparecer.
     -- Voc no pode ter certeza. Ouviu tia Marian. No sabemos que tipo
de poder John tem.
      -- No consigo sequer imaginar o quanto isso  difcil pra voc. -- Liv
estava falando de forma absoluta, e no tinha nada de absoluto no que estava
acontecendo entre mim e Lena.
      -- Voc no a conhece...
      A voz dela virou um sussurro.
      -- Ethan, os olhos dela so dourados.
      As palavras ecoaram na minha cabea como se eu estivesse embaixo
d`gua. Minhas emoes despencaram como uma pedra enquanto a lgica e a
razo lutavam para chegar  superfcie.
      Os olhos dela so dourados.
      Era um detalhe to pequeno, mas significava tudo. Ningum podia for-
la a ir para as Trevas, nem fazer os olhos dela ficarem dourados.
      Lena no estava sendo controlada. Ningum estava usando o Poder de
Persuaso para manipul-la e faz-la pular na garupa da moto de John.
Ningum a estava forando a ficar com ele. Ela estava tomando as prprias
decises, e elas eram a favor dele. No quero voc aqui, Ethan. Ouvi as
palavras vrias vezes, sem parar. E essa nem era a pior parte. Ela tinha falado
srio.
      Tudo parecia nebuloso e lento, como se nada pudesse realmente estar
acontecendo.
      O rosto de Liv estava cheio de preocupao quando me encarou com
aqueles olhos azuis. Havia alguma coisa tranquilizante na intensidade daquele
azul -- no era o verde de um Conjurador da Luz, o preto de um Incubus,
nem o dourado de um Conjurador das Trevas. Ela era diferente de Lena do
jeito mais importante. Era Mortal. Liv no ia para a Luz nem para as Trevas,
nem ia fugir com um cara com fora sobre-humana que podia sugar seu
sangue ou roubar seus sonhos enquanto voc dormia. Liv estava sendo
treinada para ser uma Guardi, mas, mesmo ento, ainda seria apenas uma
observadora. Como eu, ela nunca realmente faria parte do mundo Conjurador.
Naquele momento, no havia nada que eu quisesse mais do que estar o mais
distante possvel daquele mundo.
      -- Ethan?
     Mas eu no respondi. Afastei o cabelo louro e brilhante do rosto dela e
me inclinei, nossos rostos a centmetros de distncia, Ela inspirou suavemente,
nossos lbios to prximos que eu podia sentir o hlito dela e o aroma de sua
pele, como madressilva na primavera. Ela tinha cheiro de ch doce e livros
velhos, como se sempre tivesse morado aqui.
     Coloquei os dedos entre o cabelo dela e o segurei contra a nuca. Sua pele
era macia e quente, como a de uma garota Mortal. No havia corrente eltrica,
no havia choque. Podamos nos beijar pelo tempo que quisssemos. Se
brigssemos, no haveria uma inundao ou um furaco, nem mesmo uma
tempestade. Eu no a encontraria no teto do quarto. Nenhuma janela se
quebraria. Nenhuma prova pegaria fogo.
     Liv ergueu o rosto, pronta para ser beijada.
     Ela me queria. Nada de limo e alecrim, nada de olhos verdes e cabelo
preto. Olhos azuis e cabelo louro...
     No me dei conta de que estava usando Kelt, buscando algum que no
estava l. Afastei-me com tanta rapidez que Liv no teve tempo de reagir.
     -- Desculpe. Eu no devia ter feito isso.
     A voz de Liv soou trmula e ela colocou a mo na nuca, onde minhas
mos tinham estado um segundo antes.
     -- Tudo bem.
     Mas no estava tudo bem. Observei as emoes transparecerem nos
olhos dela: decepo, constrangimento, arrependimento.
     -- No  nada demais. -- Ela estava mentindo. As bochechas dela
estavam ruborizadas e ela olhava para o cho. -- Voc est aborrecido por
causa de Lena. Eu entendo.
     -- Liv, eu...
     A voz de Link interrompeu minha tentativa fracassada de pedir desculpas.
     -- Ei, cara, bela sada. Obrigado por me deixar pra trs. -- Ele fingiu
estar brincando, mas o tom era tenso. -- Pelo menos sua gata esperou por
mim. -- Lucille caminhava casualmente atrs dele.
     -- Como ela chegou aqui? -- Eu me abaixei para fazer um carinho na
cabea de Lucille e ela ronronou. Liv no olhou para nenhum de ns.
     -- Vai saber? Essa gata  to maluca quanto suas tias-avs. Ela
provavelmente estava te seguindo.
     Comeamos a andar e at Link podia sentir o peso do silncio.
     -- O que aconteceu l? Lena estava com o Garoto Vampiro ou no?
     Eu no queria pensar nisso, mas dava para perceber que ele tambm
estava tentando no pensar em uma pessoa. Ridley no estava s na mente
dele. Estava em todos os poros.
     Liv andava alguns metros  frente, mas continuava ouvindo.
     -- No sei. Foi o que pareceu. -- No fazia sentido tentar negar.
     -- O portal deve estar ali na frente. -- Liv ergueu a cabea e quase
tropeou em um paraleleppedo. Eu sabia como as coisas ficariam
constrangedoras entre ns. Quantas besteiras um cara podia fazer em um dia?
Eu provavelmente tinha batido algum tipo de recorde.
     Link colocou a mo no meu ombro.
     -- Lamento, cara. Isso  realmente... -- Liv parou to de repente que
nenhum de ns dois percebeu, at que Link deu um encontro nela. -- Ei, o
que foi, MJ? -- Link deu uma cotovelada brincalhona em Liv.
     Mas ela no se mexeu e no fez barulho algum. Lucille ficou paralisada, os
pelos das costas eriados, os olhos arregalados. Segui o olhar dela para ver
para onde olhava, mas no fazia ideia do que era. Havia uma sombra do outro
lado da rua, dentro de uma passagem de pedra em forma de arco. A sombra
no tinha forma, era como uma neblina densa, mudando constantemente de
uma maneira que dava formato a ela. Estava envolta em algum tipo de
material, como um manto ou capa. No tinha olhos, mas eu podia perceber
que estava nos observando.
     Link deu um passo para trs.
     -- Mas que...
     -- Shh -- sibilou Liv. -- No atraia a ateno dele. -- A cor sumiu do
rosto dela.
     -- Acho que  tarde demais -- sussurrei. A coisa, fosse o que fosse, se
moveu levemente, chegando mais perto da rua e de ns.
     Peguei a mo dela sem pensar. Estava zumbindo, e percebi que no era a
mo dela mas o instrumento em seu pulso. Todos os ponteiros giravam. Liv
observou o mostrador e soltou a tira de plstico para olhar melhor.
     -- Est dando resultados insanos -- sussurrou ela.
     -- Pensei que voc tivesse inventado isso.
     -- Eu inventei -- sussurrou ela de novo. -- Ao menos no comeo.
     -- E ento o qu? O que isso significa?
     -- No fao ideia. -- Ela no conseguia tirar os olhos do aparelho, mas a
sombra preta se movia mais para perto de ns.
     -- Detesto ter que incomodar voc quando est se divertindo tanto com
seu relgio, mas o que  aquela coisa? Um Espectro?
     Ela tirou os olhos dos mostradores em movimento, a mo tremendo na
minha.
     -- Quem dera.  um Tormento. S li sobre eles. Nunca vi um e esperava
com todas as foras jamais ver.
     -- Fascinante. Por que no samos correndo e falamos sobre isso depois?
-- O portal estava  vista, mas Link j estava se virando, disposto a se arriscar
com os Conjuradores das Trevas e as criaturas no Exlio.
     -- No corra. -- Liv colocou a mo no brao de Link. -- Eles podem
Viajar, desaparecer e se materializar em qualquer lugar mais rpido do que
voc pode piscar.
     -- Como um Incubus.
     Ela assentiu.
     -- Isso explicaria por que vimos tantos Espectros no Exlio.  possvel
que estivessem respondendo a algum tipo de perturbao da ordem natural. O
Tormento provavelmente  essa perturbao.
     -- Fale ingls, ingls de verdade. -- Link estava entrando em pnico.
     -- Tormentos so parte do mundo dos Demnios, do Subterrneo. So a
coisa mais perto do mal puro no mundo Conjurador e no Mortal. -- A voz de
Liv estava trmula.
     O Tormento continuava a se mover aos poucos, como se estivesse sendo
soprado pelo vento. Mas no chegou mais perto. Parecia estar esperando
alguma coisa.
     -- No so Espectros, ou fantasmas, como voc os chama. Tormentos
no tm um corpo fsico, a no ser que possuam o de um ser vivo. Eles
precisam ser convocados a sair do Subterrneo por algum muito poderoso,
para as tarefas mais das Trevas.
     -- Oi? J estamos no subterrneo. -- Link no tirava os olhos do
     -- No o tipo de Subterrneo do qual estou falando.
     -- O que ele quer com a gente? -- Link arriscou uma olhada ao longo da
rua, calculando a distncia at o Exlio.
     O Tormento comeou a se mover, se dissolvendo em neblina e voltando
ser sombra.
     -- Acho que estamos prestes a descobrir. -- Apertei a mo de Liv, eu
mesmo tremendo.
     A neblina preta, o Tormento em si, se lanou para a frente como
mandbulas abertas e furiosas. E um som, alto e estridente, saiu de dentro dele.
Era impossvel de descrever -- feroz e ameaador como um rugido, mas
apavorante como um grito. Lucille sibilou, as orelhas achatadas contra a
cabea. O som se intensificou e o Tormento recuou, se erguendo sobre ns
como se planejasse um ataque. Empurrei Liv para o cho e tentei proteg-la
com meu corpo. Cobri meu pescoo, como se estivesse prestes a ser devorado
por um urso-cinzento em vez de um Demnio arrebatador de corpos..
     Pensei em minha me. Foi assim que ela se sentiu quando soube que
estava prestes a morrer?
     Pensei em Lena.
     O grito foi aumentando, e ouvi outro som acima dele, uma voz familiar.
Mas no era da minha me ou de Lena.
     -- Demnio das Trevas, curve-se  Nossa vontade e saia deste lugar!
     -- Olhei para cima e os vi de p atrs de ns, debaixo da luz do poste.
Ela estava segurando um fio com contas e um osso em frente a si como um
crucifixo e eles estavam reunidos ao redor dela, brilhantes e luminosos, com
um propsito no olhar.
     Amma e os Grandes.
     No consigo explicar como foi ver Amma com quatro geraes de
espritos dos seus ancestrais acima dela, como rostos de velhas fotos em preto
e branco. Reconheci Ivy por causa das vises, a pele escura brilhando, uma
blusa de gola alta e uma saia de algodo. Mas ela parecia mais intimidante do
que nas vises, e a nica que parecia ainda mais ameaadora estava  direita
dela, com a mo em seu ombro. Portava um anel em cada dedo e usava um
vestido longo que parecia ter sido costurado a partir de echarpes de seda, com
um pequeno pssaro bordado no ombro. Eu estava olhando para Sulla, a
profeta, e ela fazia Amma parecer to inofensiva quanto uma professora de
escola dominical.
     Havia duas outras mulheres, provavelmente tia Delilah e a Irm, e um
velho com o rosto castigado pelo sol parado mais atrs, uma barba que daria
inveja a Moiss. Tio Abner. Queria ter usque Wild Turkey para ele.
     Os Grandes se juntaram mais ao redor de Amma, cantarolando o mesmo
verso sem parar, em gullah, a lngua original da famlia deles. Amma repetia o
mesmo verso em ingls, sacudindo as contas e o osso, gritando para os cus.
     -- De Vingana e Ira, Encante o Suspenso, Apresse-o para seu caminho.
     O Tormento se ergueu ainda mais, a neblina e a sombra rodopiando
acima de Amma e dos Grandes. O grito dele era ensurdecedor, mas Amma
nem se mexeu. Ela fechou os olhos e ergueu a voz para se equiparar ao grito
demonaco.
     -- De Vingana e Ira, Encante o Suspenso, Apresse-o para seu caminho.
     Sulla ergueu o brao coberto de pulseiras, rodopiando uma vara longa
com dezenas de pequenos amuletos para a frente e para trs entre os dedos.
Ela tirou a mo do ombro de Ivy e o apoiou no de Amma, a pele luminosa e
transparente brilhando na escurido. No momento em que a mo dela
encostou no ombro de Amma, o Tormento soltou um ltimo grito estridente
e foi sugado para o vazio do cu noturno.
     Amma se virou para os Grandes.
     -- Estou muito agradecida.
     Os Grandes desapareceram, como se nunca tivessem estado ali.

Provavelmente teria sido melhor se eu tivesse desaparecido com os Grandes,
porque um olhar para o rosto de Amma deixou claro que ela s nos salvou
para que pudesse nos matar em seguida. Teramos tido melhores chances
contra o Tormento.
     Amma estava em ebulio, os olhos apertados e concentrados nos alvos
principais: Link e eu.
     -- A-T-O-R-M-E-N-T-A-D-O. -- Ela nos pegou pelas golas das camisas
ao mesmo tempo, como se pudesse nos lanar ao mesmo tempo pelo portal
atrs de si. -- O mesmo que problema. Preocupado. Perturbado. Irritado.
Preciso continuar?
     Balanamos as cabeas.
     -- Ethan Lawson Wate. Wesley Jefferson Lincoln. No sei o que vocs
dois pensam que tm a ver com esses tneis. -- Ela estava sacudindo o dedo
ossudo em nossa direo. -- Vocs no tm um pingo de juzo, mas acham
que esto prontos para lutar contra as foras das Trevas.
     Link tentou explicar. Grande erro.
     -- Amma, no estvamos tentando lutar contra nenhuma fora das
Trevas. De verdade. S estvamos...
     Amma deu um passo  frente, o dedo a poucos centmetros dos olhos de
Link.
     -- No me conte. Quando eu terminar com vocs, vai desejar que eu
tivesse contado  sua me sobre o que voc fazia no meu poro quando tinha
9 anos. -- Ele andou para trs at chegar  parede, ao lado do portal. Amma o
acompanhou, passo a passo. -- Aquela histria  to triste quanto se pode
imaginar.
     Amma se virou para Liv.
     -- E voc est estudando para ser Guardi. Mas no tem mais juzo do
que eles. Sabendo as coisas que sabe, deixou esses garotos arrastarem voc
para essa empreitada perigosa. Voc est com problemas at o pescoo com
Marian. -- Liv se encolheu alguns centmetros.
     Amma se virou para mim.
     -- E voc. -- Ela estava to furiosa que falava com o maxilar travado. --
Acha que no sei o que est tramando? Acha que por que sou velha pode me
enganar? Voc precisa viver umas trs vidas antes de conseguir me passar a
perna. Assim que Marian me contou que vocs estavam aqui embaixo,
encontrei-os imediatamente.
     No perguntei como ela nos achou. Fosse pelos ossos de galinha, pelas
cartas de tar ou pelos Grandes, ela sempre tinha o jeito dela. Amma era a
coisa mais prxima que eu conhecia de um Sobrenatural sem realmente ser
um.
     No a olhei nos olhos. Era como evitar um ataque de cachorro. No faa
contato visual. Mantenha a cabea abaixada e a boca fechada. O que fiz foi
continuar andando, Link olhando para trs, em direo  Amma, a cada
poucos passos. Liv ficou atrs de ns, confusa. Eu sabia que ela no esperava
encontrar com um Tormento, mas Amma era mais do que ela podia encarar.
     Amma andou atrs de ns, murmurando sozinha ou com os Grandes.
Quem podia dizer?
     -- Pensa que  o nico que consegue achar alguma coisa? No precisa ser
Conjurador para ver o que os tolos tm em mente. -- Eu podia ouvir os ossos
batendo contra as contas. -- Por que voc acha que me chamam de Vidente?
Por que posso ver a confuso em que se metem assim que entram nela.
     Ela ainda balanava a cabea quando desapareceu pelo portal, sem uma
mancha de lama sequer nas mangas ou um amassado no vestido. O que nos
parecera uma toca de coelho quando descemos era uma larga escadaria na
subida, como se tivesse se expandido por respeito  Srta. Amma.
     -- Enfrentar um Tormento, como se um dia com essa criana no fosse
problema o bastante... -- ia bufando a cada passo.
     Foi assim durante todo o trajeto de volta. Deixamos Liv no caminho, mas
Link e eu continuamos andando. No queramos ficar perto demais daquele
dedo e nem daquelas contas.
                                    16 de junho   
                               Revelaes

                                   

Q   uando deitei na cama, j estava quase na hora de o sol nascer. Eu teria que
    ouvir muito mais quando Amma me visse de manh, mas tinha a sensao
    de que Marian no esperava que eu chegasse pontualmente para trabalhar.
Ela tinha tanto medo de Amma quanto todo mundo. Tirei os sapatos e
adormeci antes de encostar a cabea no travesseiro.

Luz ofuscante.
     Fui inundado pela luz. Ou foi pelo escuro?
     Senti meus olhos doerem, como se estivesse olhando para o sol por muito
tempo, criando pontos pretos. S conseguia identificar uma silhueta,
bloqueando a luz. Eu no estava com medo. Conhecia essa sombra
intimamente, a cintura fina, as mos e os dedos delicados. Cada mecha de
cabelo se movendo na Brisa Conjuradora.
     Lena deu um passo  frente, estendendo os braos para mim. Eu
observei, paralisado, enquanto as mos dela iam da escurido at a luz onde eu
estava. A luz subiu pelos braos dela at alcanar a cintura, o ombro, o peito.
     Ethan.
     O rosto dela ainda estava escondido na sombra, mas agora seus dedos me
tocavam, mexendo nos meus ombros, no meu pescoo e, por fim, no meu
rosto. Segurei a mo dela contra minha bochecha e isso me queimou, embora
no pelo calor, mas pelo frio.
     Estou aqui, L.
     Eu amei voc, Ethan. Mas preciso ir.
     Eu sei.
     Na escurido, eu podia ver as plpebras dela subindo e o brilho dourado
-- os olhos da maldio. Os olhos de uma Conjuradora das Trevas.
     Eu tambm amei voc, L.
     Estendi a mo e fechei os olhos dela com delicadeza. O toque frio de sua
mo desapareceu do meu rosto. Olhei para o outro lado e me forcei a acordar.
     Eu estava preparado para a ira de Amma quando desci a escada. Meu pai
tinha ido at o Pare & Roube comprar um jornal e s estvamos ns dois em
casa. Ns trs, se contasse Luciie, que estava olhando para a rao seca no
prato, coisa que provavelmente nunca tinha visto antes. Acho que Amma
estava furiosa com ela tambm.
     Amma estava em frente ao fogo, tirando uma torta do forno. A mesa
estava posta, mas ela no estava fazendo o caf da manh. No havia canjica
ou ovos, nem mesmo uma fatia de torrada. Era pior do que eu pensava. A
ltima vez em que ela tinha feito tortas de manh em vez de providenciar o
caf foi no dia seguinte ao aniversrio de Lena e, antes disso, um dia depois
que minha me morreu. Amma sovava massa como uma lutadora campe. A
fria dela podia gerar biscoitos o bastante para alimentar os batistas e os
metodistas juntos. Eu esperava que a massa tivesse levado todo o peso da faria
dela essa manh.
     -- Desculpa, Amma. No sei o que aquela coisa queria conosco.
     Ela bateu a porta do forno, as costas viradas para mim.
     --  claro que no sabe. Tem muita coisa que voc no sabe, mas isso
no o impediu de ir passear onde no devia. Impediu? -- Ela pegou uma
tigela, misturando os ingredientes com a Ameaa de Um Olho, como se no a
tivesse usado para assustar e domar Ridley no dia anterior.
     -- Fui l embaixo procurar Lena. Ela est andando com Ridley e acho
que est com problemas.
     Amma se virou.
     -- Voc acha que ela est com problemas? Tem alguma ideia do que era
aquela coisa? A que ia tirar voc deste mundo e levar pro outro? -- Ela se
mexia com irritao.
     -- Liv disse que o nome era Tormento e que tinha sido chamado por
algum poderoso.
     -- E das Trevas. Algum que no quer voc e seus amigos xeretando
naqueles tneis.
     -- Quem ia querer nos manter longe dos tneis? Sarafine e Hunting? Por
qu?
     Amma bateu a tigela na bancada.
     -- Por qu? Por que voc sempre fica fazendo tantas perguntas sobre
coisas que no so da sua conta? Acho que  minha culpa. Deixei voc me
perturbar com suas perguntas quando nem tinha altura o suficiente para
enxergar por cima dessa bancada -- e balanou a cabea. -- Mas esse  um
jogo de tolos. No pode haver vencedor.
     timo. Mais charadas.
     -- Amma, de que voc est falando?
     Ela apontou o dedo para mim de novo, do mesmo modo que na noite
anterior.
     -- No tem nada da sua conta nos tneis, est ouvindo? Lena est
passando por um momento difcil e sinto muitssimo, mas ela precisa resolver
isso tudo sozinha. No tem nada que voc possa fazer. Ento fique fora
daqueles tneis. H coisas piores do que Tormentos l. -- Amma se voltou
novamente para a torta, colocando o recheio que estava na tigela em cima da
massa. A conversa havia terminado. -- Agora v trabalhar e mantenha seus
ps na superfcie.
     -- Sim, senhora.

                                     ***
Eu no gostava de mentir para Amma, mas, tecnicamente, no estava
mentindo. Pelo menos foi o que disse a mim mesmo. Eu ia trabalhar. Logo
depois que passasse por Ravenwood. Depois da noite de ontem, no havia
mais nada a dizer, mas ao mesmo tempo, havia tudo.
     Eu precisava de respostas. H quanto tempo Lena vinha mentindo para
mim e fazendo coisas pelas minhas costas? Desde o enterro, a primeira vez em
que os vi juntos? Ou desde o dia em que ela tirou a foto da moto dele no
cemitrio? Estvamos falando sobre meses, semanas ou dias? Para um cara,
essas diferenas importavam. At que eu descobrisse, isso me corroeria por
dentro e destruiria o pouco de orgulho que eu ainda tinha.
     Porque o problema era o seguinte: eu a tinha ouvido, por dentro e por
fora. Ela tinha falado aquelas palavras, e eu a vi com John. No quero voc aqui,
Ethan. Estava acabado. A nica coisa que jamais achei que acabaria.

Encostei o carro em frente aos portes de ferro retorcidos de Ravenwood e
desliguei o motor. Fiquei sentado no carro com as janelas fechadas, embora
estivesse um calor infernal do lado de fora. O calor ficaria sufocante em
minuto ou dois, mas eu no conseguia me mexer. Fechei os olhos, tentando
ouvir as cigarras. Se eu no sasse do carro, no precisaria saber. Eu no tinha
que passar por aqueles portes. A chave ainda estava na ignio.
     E podia fazer a volta e dirigir at a biblioteca.
     E ento nada disso estaria acontecendo.
     Girei a chave e o rdio ligou. No estava ligado quando desliguei o carro.
O rdio do Volvo no pegava muito melhor do que o do Lata-Velha, mas mvi
uma coisa perdida no meio da esttica.
     Dezessete luas, dezessete esferas,
     A lua aparece antes de seu tempo,
     Coraes iro embora e estrelas iro atrs,
     Um est quebrado, um est vazio...
     O motor morreu e a msica sumiu junto. No entendi a parte da lua,
exceto que estava chegando, o que eu j sabia. E eu no precisava que a
msica me dissesse qual de ns tinha ido embora.
     Quando finalmente abri a porta do carro, o calor sufocante da Carolina
do Sul pareceu fresco em comparao. Os portes rangeram quando entrei.
Quanto mais perto eu chegava da casa, mais ela parecia infeliz, agora que
Macon tinha morrido. Estava pior do que da ltima vez em que estive l.
     Subi os degraus da varanda, ouvindo cada tbua ranger sob meus ps. A
casa provavelmente estava to abandonada quanto o jardim, mas eu no
conseguia v-la. Para todo lugar que eu olhava, a nica coisa que via era Lena.
Tentando me convencer a ir para casa na noite em que conheci Macon,
sentada nos degraus com a roupa de priso laranja na semana anterior ao
aniversrio. Parte de mim queria ir at Greenbrier, at o tmulo de Genevieve,
para que eu pudesse me lembrar de Lena encolhida ao meu lado com um
velho dicionrio de latim enquanto tentvamos entender O Livro das Luas.
     Mas tudo isso eram fantasmas agora.
     Observei os entalhes acima da porta e encontrei a familiar lua
Conjuradora. Passei o dedo na salincia de madeira sobre a porta e hesitei.
No tinha certeza do quo bem-recebido seria, mas apertei assim mesmo. A
porta se abriu e tia Dei sorriu para mim.
     -- Ethan! Eu estava torcendo para voc aparecer antes de irmos
embora.-- Ela me puxou e me deu um abrao rpido.
     Do lado de dentro, estava escuro. Reparei numa montanha de malas ao
lado da escada. Lenis cobriam a maior parte da moblia e as persianas
estavam fechadas. Era verdade. Eles estavam indo embora. Lena no tinha
falado uma palavra sequer sobre a viagem desde o ltimo dia de escola, e com
tudo mais que tinha acontecido, eu quase havia esquecido. Pelo menos, era o
que eu queria. Lena nem tinha mencionado que estavam fazendo as malas.
Havia muitas coisas que ela no me contava mais.
     --  por isso que voc est aqui, no ? Tia Del apertou os olhos,
confusa. -- Para se despedir?
     Sendo uma Palimpsesta, ela no conseguia separar as camadas do tempo,
ento estava sempre um pouco perdida. Ela podia ver tudo o que tinha
acontecido ou aconteceria em um aposento no minuto em que entrava nele,
mas via tudo de uma vez. s vezes eu me perguntava o que ela via quando eu
entrava nesta sala. Talvez eu no quisesse saber.
     -- , eu queria me despedir. Quando vocs vo embora?
     Reece estava separando livros na sala de jantar, mas eu ainda assim
conseguia v-la fazer cara feia. Olhei para o outro lado, por puro hbito. A
ltima coisa de que eu precisava era Reece lendo no meu rosto tudo o que
tinha acontecido na noite anterior.
     -- No antes de domingo, mas Lena nem fez as malas. No a distraia --
gritou Reece.
     Dois dias. Ela iria embora em dois dias e eu no sabia. Ser que estava
planejando ao menos se despedir de mim?
     Abaixei a cabea e entrei no salo para dizer oi a vov. Ela era uma fora
firme sentada em sua cadeira de balano, com uma xcara de ch e o jornal,
como se o burburinho da manh no dissesse respeito a ela. Ela sorriu,
dobrando o jornal ao meio. Eu tinha suposto que era o The Stars and Stripes,
mas estava escrito em uma lngua que no reconheci.
     -- Ethan. Queria que voc pudesse ir com a gente. Vou sentir saudade, e
tenho certeza de que Lena ficar contando os dias at nossa volta -- ento se
levantou da cadeira e me abraou.
     Lena poderia contar os dias, mas no pelo motivo que vov pensava. A
famlia dela no tinha mais ideia do que se passava entre ns, e nem com Lena,
na verdade. Eu tinha a sensao de que eles no sabiam que ela andava
frequentando boates Conjuradoras subterrneas como o Exlio, e nem
pegando carona na moto de John. Talvez nem soubessem sobre John Breed.
     Lembrei-me de quando conheci Lena, da longa lista de lugares onde ela
morou, amigos que nunca fez, escolas que nunca pde frequentar. Eu me
perguntei se ela ia voltar para uma vida assim.
     Vov me olhava com curiosidade. Colocou a mo na minha bochecha.
Era macia, como as luvas que as Irms usavam para ir  igreja.
     -- Voc mudou, Ethan.
     -- Senhora?
     -- No consigo identificar exatamente o que foi, mas alguma coisa est
diferente.
     Olhei para o outro lado. No fazia sentido fingir. Ela sentiria que Lena e
eu no estvamos mais ligados, se ainda no tivesse sentido. Vov era como
Amma. Costumava ser a pessoa mais forte em um aposento, por pura fora de
vontade.
     -- No fui eu quem mudou, senhora.
     Ela voltou a se sentar, pegando novamente o jornal.
     -- Besteira. Todo mundo muda, Ethan. A vida  assim. Agora v dizer 
minha neta para comear a fazer as malas. Precisamos ir antes que as mars
mudem e fiquemos presos aqui para sempre. -- Ela sorriu como se eu
entendesse a piada. S que eu no entendia.


A porta de Lena estava com uma fresta aberta. As paredes, o teto, a moblia
-- tudo estava preto. As paredes no estavam mais cobertas de tinta de caneta
permanente. Agora a poesia dela estava escrita com giz branco.. As portas do
armrio, cobertas com as mesmas palavras, repetidas muitas vezes:
correndoatficarparada correndoatficarparadacorrendoatficarparada,Fiquei
olhando para as palavras, separando-as como eu costumava fazer quando se
tratava dos escritos de Lena. Reconheci como parte da letra de uma msica
antiga do U2 e me dei conta do quanto eram verdadeiras.
     Era o que Lena vinha fazendo esse tempo todo, todos os minutos, desde
que Macon morreu.
     A priminha dela, Ryan, estava sentada na cama, segurando o rosto de
Lena com as mos. Ryan era uma Taumaturga e s usava seus poderes de cura
quando algum estava com muita dor. Normalmente era eu, mas hoje era
Lena.
     Eu mal a reconheci. Ela parecia no ter dormido na noite anterior. Vestia
uma camiseta enorme, preta e desbotada, como camisola. Os cabelos estavam
embaraados e os olhos, vermelhos e inchados.
     -- Ethan! -- No minuto em que Ryan me viu, voltou a ser uma criana
normal de novo. Pulou nos meus braos e eu a peguei no colo, balanando
suas pernas de um lado para outro. -- Por que voc no vem conosco? Vai
ser to chato. Reece vai ficar mandando em mim o vero inteiro, e Lena
tambm no  nada divertida.
     -- Preciso ficar aqui e cuidar de Amma e do meu pai, Chicken Little. --
Coloquei Ryan no cho com delicadeza.
     Lena parecia irritada. Ela se sentou na cama desarrumada, as pernas
cruzadas embaixo de si, e fez sinal para Ryan deixar o quarto.
     -- Saia agora. Por favor.
     Ryan fez uma careta.
     -- Se vocs dois fizerem alguma coisa nojenta e precisarem de mim,
estarei l embaixo. -- Ryan tinha salvado minha vida em mais de uma ocasio
em que Lena e eu tnhamos ido longe demais e a corrente eltrica entre ns
quase tinha feito meu corao parar.
     Lena jamais teria esse problema com John Breed. Fiquei me perguntando
se a camiseta que ela estava usando era dele.
     -- O que est fazendo aqui, Ethan? -- Lena olhou para o teto e segui o
olhar dela at as palavras nas paredes. Eu no conseguia olhar para ela.
Quando voc olha para cima| Voc v o cu azul do que poderia acontecer
|Ou a escurido do que jamais poder acontecer | Voc me v?
     -- Quero falar sobre a noite de ontem.
     -- Est falando sobre o motivo de voc estar me seguindo? -- A voz
dela estava rspida, e isso me irritou.
     -- Eu no segui voc. Estava te procurando porque estava preocupado.
Mas posso ver o quanto isso  inconveniente, j que estava ocupada ficando
com John.
     O maxilar de Lena se contraiu e ela ficou de p, a camiseta chegando-lhe
aos joelhos.
     -- John e eu somos apenas amigos. No estvamos ficando.
     -- Voc fica to ntima de todos os seus amigos assim?
     Lena deu um passo na minha direo, as pontas dos cachos comeando a
se mover sobre os ombros. O candelabro pendurado no teto comeou a
balanar.
     -- Voc tenta beijar todas as suas amigas? -- Ela me olhou bem nos
olhos.
     Houve um brilho de luz e fagulhas, depois a escurido. As lmpadas do
candelabro explodiram e pequenos cacos caram na cama dela. Ouvi o som de
chuva no telhado.
     --O que voc...?
     -- No se d ao trabalho de mentir, Ethan. Eu sei o que voc e sua
parceira de biblioteca fizeram do lado de fora do Exlio. -- A voz na minha
cabea estava aguda e amarga.
     Eu ouvi voc. Voc estava usando Kelt. "Olhos azuis e cabelo louro? Parece familiar?
     Ela estava certa. Eu tinha usado Kelt e ela ouvira todas as palavras.
     No aconteceu nada.
     O candelabro caiu na cama, quase me atingindo. O cho pareceu sumir
embaixo de mim. Ela tinha me ouvido.
     Nada aconteceu? Voc achou que eu no saberia? Achou que eu no sentiria?
     Era pior do que olhar nos olhos de Reece. Lena podia ver tudo e no
precisava de seus poderes para isso.
     Perdi a cabea quando vi voc com aquele tal de John e no conseguia pensar direito.
     -- Voc pode dizer isso para si mesmo, mas tudo acontece por um
motivo. Voc quase a beijou e fez porque queria.
     Talvez eu s quisesse irritar voc, porque te vi com outro cara.
     Cuidado com o que deseja.
     Observei o rosto dela, as olheiras ao redor dos olhos, a tristeza.
     Os olhos verdes que eu amava tanto tinham sumido -- tinham virado os
olhos dourados de uma Conjuradora das Trevas.
     O que voc est fazendo comigo, Ethan?
     No sei mais.
     O rosto de Lena se desarmou por um segundo, mas ela se controlou.
     -- Voc andava louco pra botar isso pra fora, no ? Agora voc pode
sair com sua namoradinha Mortal sem culpa nenhuma. -- Ela falou Mortal
como se mal suportasse pronunciar essa palavra. -- Aposto que mal pode
esperar para ir para o lago com ela. -- Lena estava furiosa. Pedaos inteiros do
teto comeavam a se soltar ao redor do ponto onde estava o candelabro.
      A dor que ela sentia, fosse qual fosse, agora estava totalmente eclipsada
pela raiva.
      -- Voc vai voltar ao time de basquete quando as aulas recomearem, e
ela pode entrar para a equipe de lderes de torcida. Emily e Savannah vo
ador-la.
      Ouvi um som de rachadura e outro pedao de gesso caiu no cho ao meu
lado.
      Meu peito se apertou. Lena estava errada, mas eu no conseguia no
pensar sobre como seria fcil namorar uma garota normal, uma garota Mortal.
      Eu sempre soube que era isso o que queria. Agora voc pode ter.
      Outro estalo. Eu estava coberto com a poeira fina do teto que
despencava, e pedaos quebrados cobriam o cho ao meu redor.
      Ela estava lutando contra as lgrimas.
      No era isso que eu queria dizer, e voc sabe.
      Sei? S sei que no devia ser to difcil. Amar algum no devia ser to difcil.
      Nunca liguei pra isso.
      Pude senti-la se afastando, me tirando da sua mente e do seu corao.
      -- Voc devia ficar com algum como voc e eu devia ficar com algum
como eu, algum que entenda pelo que estou passando. No sou a mesma
pessoa de alguns meses atrs, mas acho que ns dois sabemos disso.
      Por que voc no pode parar de se punir, Lena? No foi sua culpa. Voc no podia t-
lo salvo.
      Voc no sabe o que est dizendo.
      Sei que voc acha que  sua culpa o fato de seu tio estar morto e que se torturar  algum
tipo de penitncia.
      No h penitncia para o que eu fiz.
      Ela comeou a se virar.
      No fuja.
      No estou fugindo. J fui embora.
      Eu mal conseguia ouvir a voz dela na minha cabea. Cheguei mais per.
No importava o que Lena havia feito e nem que as coisas entre ns tivessem
acabadas. Eu no podia v-la se autodestruir.
     Puxei-a contra meu peito e enlacei-a com meus braos, como se ela
tivesse se afogando e eu s quisesse tir-la da gua. Eu sentia cada centmetro
do frio intenso dela contra mim. As pontas dos seus dedos se encostaram nos
meus. Meu peito estava dormente no ponto onde; o rosto dela se pressionava.
     No importa se estamos juntos ou no. Voc no  uma deles, L.
     Tambm no sou uma de vocs.
     As ltimas palavras dela foram um sussurro. Enfiei minhas mos nos seus
cabelos. No havia parte alguma de mim que pudesse deix-la. Acho que ela
estava chorando, mas no tenho certeza. Enquanto observava o teto, os
ltimos pedaos de gesso ao redor do buraco comearam a se partir com mil
rachaduras, como se o restante do teto pudesse cair sobre ns a qualquer
minuto.
     Ento acabou?
     A resposta era sim, mas eu no queria que ela respondesse. Queria ficar
naquele momento um pouco mais. Queria me agarrar a ela e fingir que ainda
era minha.
     -- Minha famlia viaja em dois dias. Quando acordarem amanh, no
estarei mais aqui.
     -- L, voc no pode...
     Ela tocou minha boca.
     -- Se voc alguma vez me amou, e sei que sim, deixe quieto. No vou
deixar que mais ningum de quem gosto morra por minha causa.
     -- Lena.
     -- Essa  minha maldio.  minha. Deixe-me lidar com ela.
     -- E se eu disser que no?
     Ela olhou para mim, o rosto escurecendo em uma sombra nica.
     -- Voc no tem escolha. Se vier a Ravenwood amanh, garanto que no
vai ter vontade de conversar. E tambm no vai conseguir.
     -- Est dizendo que vai lanar um Conjuro contra mim? -- Era um
limite no dito entre ns que ela nunca havia cruzado.
     Ela sorriu e colocou um dedo sobre meus lbios.
     -- Silentium.  a palavra em latim para silncio e  o que voc vai ouvir
se tentar contar a algum que vou embora antes que eu consiga ir.
     -- Voc no faria isso.
     -- Acabei de fazer.
     Finalmente. Tinha acontecido. A nica coisa que ainda havia entre ns era
o poder inimaginvel que ela nunca tinha usado contra mim. Os olhos dela
brilhavam com intensidade dourada. No havia um trao sequer de verde. Eu
sabia que ela falava com sinceridade.
     -- Jure que no vai voltar aqui. -- Lena saiu dos meus braos e se virou
de costas. Ela no queria mais me mostrar os olhos e eu no suportava v-los.
     -- Eu juro.
     Ela no falou uma palavra. Apenas assentiu e limpou as lgrimas que
desciam por seu rosto. Quando fui embora, estava chovendo gesso.




Andei pelos corredores de Ravenwood pela ltima vez. A casa foi ficando
cada vez mais escura  medida que eu andava. Lena estava me deixando.
Macon tinha morrido. Todo mundo estava indo embora e a casa me parecia
morta. Passei os dedos pelo corrimo de mogno polido. Eu queria me lembrar
do cheiro da cera, da sensao macia da madeira velha, talvez do leve aroma
dos charutos importados de Macon, de jasmim-estrela, de laranjas e livros.
     Parei em frente  porta do quarto de Macon. Pintada de preto, ela podia
ser qualquer porta da casa. Mas no era qualquer porta, e Boo dormia em
frente a ela, esperando por um dono que nunca voltaria para casa. Ele no
parecia mais com um lobo, s com um cachorro comum. Sem Macon, ele
estava to perdido quanto Lena. Boo olhou para mim, mal movendo a cabea.
     Coloquei uma das mos na maaneta e abri a porta. O quarto de Macon
estava exatamente como eu lembrava. Ningum tinha ousado colocar lenis
em cima de nada dali. A cama de dossis de bano brilhava no centro do
quarto, como se tivesse sido laqueada mil vezes pela Casa ou pela Cozinha, a
equipe invisvel de Ravenwood. Persianas pretas mantinham o quarto
completamente escuro, de forma que era impossvel diferenciar o dia da noite.
Castiais altos portavam velas pretas e um candelabro preto de ferro batido
estava pendurado no teto. Reconheci o padro Conjurador impresso no ferro.
A princpio no pude identificar de onde, mas ento me lembrei.
     Eu o tinha visto em Ridley e em John Breed, no Exlio. A marca de um
Conjurador das Trevas. A tatuagem que todos eles tinham. Cada uma era
diferente, mas ao mesmo tempo inconfundivelmente parecida. Era mais como
uma cicatriz, como se tivesse sido queimada na pele em vez de tatuada.
     Tremi e peguei um pequeno objeto de cima de uma cmoda preta. Era
um porta-retrato com uma foto de Macon e uma mulher. Macon estava de p
ao lado dela, mas na escurido e eu s conseguia ver o contorno da silhueta
dela, uma sombra presa no filme. Eu me perguntei se seria Jane.
     Quantos segredos Macon tinha carregado para o tmulo? Tentei colocar
o porta-retrato de volta, mas estava to escuro que errei a distncia e a foto
caiu. Quando me abaixei para peg-la, reparei que a ponta do tapete estava
dobrada. Era exatamente igual ao tapete que eu tinha visto no quarto de
Macon nos tneis.
     Levantei a ponta, e debaixo havia um retngulo perfeitamente cortado no
piso, grande o bastante para caber um homem. Era outra porta para os tneis.
Puxei as tbuas do piso e a porta se abriu. Eu podia ver o escritrio de Macon
abaixo, mas no havia escada e o cho de pedra parecia longe demais para
pular sem o risco de um traumatismo craniano grave.
     Eu me lembrei da porta escondida na Lunae Libri. No havia como
descobrir a no ser tentando. Segurei na beirada da cama e coloquei o p para
baixo com cuidado. Dei um pequeno tropeo, depois senti uma coisa slida
debaixo do meu p. Um degrau. Embora eu no pudesse v-lo, sentia a escada
de madeira sob meus ps. Segundos depois, eu estava de p no piso de pedra
do escritrio de Macon.
     Ele no passava todos os dias dormindo. Ele os passava nos tneis,
provavelmente com Marian. Eu podia visualizar os dois pesquisando obscuras
lendas Conjuradoras antigas, debatendo decoraes de jardim pr-guerra,
tomando ch. Ela provavelmente tinha passado mais tempo com Macon do
que qualquer outra pessoa alm de Lena.
     Eu me perguntei se Marian era a mulher na foto e se o nome dela era
Jane, na verdade. Eu no tinha pensado nisso antes, mas isso explicaria muitas
coisas. Por que os incontveis pacotes marrons da biblioteca ficavam
empilhados no escritrio de Macon. Por que uma professora de Duke se
esconderia como bibliotecria, at mesmo como Guardi, em uma cidade
como Gatlin. Por que Marian e Macon eram inseparveis durante a maior
parte do tempo, pelo menos considerando que ele era um Incubus recluso que
no ia a lugar algum.
     Talvez eles tivessem se amado durante todos esses anos.
     Olhei ao redor at encontrar a caixa de madeira que guardava os
pensamentos e segredos de Macon. Estava na prateleira onde Marian a tinha
colocado.
     Fechei os meus olhos e estiquei os braos para peg-la...




Era a coisa que Macon menos queria e mais queria -- ver Jane uma ltima vez. Fazia
semanas que ele no a via, a no ser que levssemos em conta as noites em que ele a tinha
seguido pelo caminho da biblioteca at a casa, observando-a de longe, desejando poder toc-la.
      No agora, no quando a Transformao estava to prxima. Mas ela estava ali,
embora ele a tivesse mandado ficar longe.
      -- Jane, voc precisa sair daqui. No  seguro.
      Ela andou lentamente pelo aposento at onde ele estava.
      -- Voc no entende? No consigo ficar longe.
      -- Eu sei. -- Ele a puxou contra si e a beijou uma ltima vez.
      Macon tirou um objeto de uma pequena caixa no fundo do armrio. Ele colocou-o na
mo de Jane, fechando os dedos dela em seguida. Era redondo e suave, uma esfera perfeita.
Ele fechou a mo ao redor da dela e falou com a voz sria.
      -- No posso proteger voc depois da Transformao, no da nica coisa que oferece a
maior ameaa  sua segurana. Eu. -- Macon olhou para as mos deles, gentilmente
acalentando o objeto que ele havia escondido com tanto cuidado. -- Se alguma coisa
acontecer e voc estiver em perigo.., use isto.
      Jane abriu a mo. A esfera era preta e translcida, como uma prola. Mas enquanto
ela observava, a esfera comeou a mudar e a brilhar. Ela podia sentir o tremor de pequenas
vibraes que emanavam dela.
      --O que  isto?
      Macon deu um passo atrs, como se no quisesse tocar na esfera agora que ela tinha
ganhado vida.
      --  um Arco Voltaico.
      -- Para que serve?
      -- Se chegar um momento em que eu me torne um perigo para voc, voc estar
indefesa. No h maneira de voc conseguir me matar ou me ferir. S outro Incubus pode
fazer isso.
      Os olhos de Jane se enevoaram. A voz dela se tornou um sussurro.
      -- Eu jamais machucaria voc.
      Macon estendeu a mo e tocou no rosto dela com carinho.
      -- Eu sei, mas mesmo se voc quisesse, seria impossvel. Um Mortal no pode matar
um Incubus.  por isso que voc precisa do Arco Voltaico.  a nica coisa que consegue
conter minha espcie. O nico meio pelo qual voc poderia me deter se...
      -- O que voc quer dizer com conter?
      Macon se virou.
      --  como uma jaula, Jane. A nica jaula que consegue nos segurar.
      Jane olhou para a esfera escura que brilhava na palma de sua mo. Agora que sabia o
que era, trazia a sensao de que estava queimando e abrindo um buraco na sua mo e no
seu corao. Colocou-a sobre a escrivaninha, e ela rolou por cima do tampo, o brilho sumindo
at que ficasse preta.
      -- Voc acha que vou aprisionar voc nessa coisa, como um animal?
      -- Vou ser pior do que um animal.
      Lgrimas rolaram pelo rosto de Jane e por cima de seus lbios. Ela segurou o brao de
Macon,forando-o a encar-la.
      -- Quanto tempo voc ficaria ali dentro?
      -- Provavelmente para sempre.
      Ela balanou a cabea.
      -- No farei isso. Eu jamais o condenaria a isso.
      Parecia que as lgrimas estavam se acumulando nos olhos de Macon, embora Jane
soubesse que isso era impossvel. Ele no tinha lgrimas para derramar, mas ainda assim
ela podia jurar que as via brilhando.
      -- Se alguma coisa acontecesse a voc, se eu a machucasse, voc estaria me condenando
a um destino, a uma eternidade bem pior do que qualquer coisa que eu pudesse encontrar
aqui. -- Macon pegou o Arco Voltaico e o ergueu entre os dois. -- Se chegar a hora e voc
tiver que us-lo, precisa me prometer que o usar.
      Jane engoliu as lgrimas, a voz trmula.
      -- No sei se...
      Macon encostou a testa na dela.
      -- Prometa, Janie. Se me ama, prometa.
      Jane afundou o rosto no pescoo quente dele. Ela respirou fundo.
      -- Eu prometo.
      Macon ergueu a cabea e olhou por cima do ombro dela.
      -- Uma promessa  uma promessa, Ethan.




Acordei deitado em uma cama. Entrava luz por uma janela, ento eu soube
que no estava mais no escritrio de Macon. Olhei para o teto e no havia
candelabro preto estranho, ento eu tambm no estava no quarto dele em
Ravenwood.
     Eu me sentei, grogue e confuso. Estava em minha prpria cama, no meu
quarto. A janela estava aberta e a luz da manh brilhava nos meus olhos.
Como eu podia ter desmaiado l e vindo parar aqui, horas depois? O que tinha
acontecido com o tempo e o espao e todos os elementos da fsica nesse
intervalo? Que Conjurador ou Incubus era poderoso o bastante para fazer
isso?
     As vises nunca tinham me afetado assim antes. Tanto Abraham quanto
Macon tinham me visto. Como isso era possvel? O que Macon estava
tentando me dizer? Por que ele queria que eu tivesse essas vises? Eu no
conseguia entender, exceto por uma coisa. Ou as vises estavam mudando, ou
eu estava. Lena tinha se certificado disso.
                                   17 de junho   
                                Herana

                                  

F
     iquei longe de Ravenwood, como prometera. J pela manh, no sabia
     onde Lena estava e nem para onde ia. Fiquei me perguntando se John e
     Ridley estavam com ela.
     A nica coisa que eu sabia era que Lena tinha esperado a vida toda para
tomar controle do prprio destino -- para encontrar um jeito de se Invocar,
apesar da maldio. No seria eu a ficar no caminho dela agora. E, como ela
mesma observou, no ia permitir que eu fizesse isso.
     O que me deixava com meu prprio destino imediato: ficar em casa o dia
inteiro sentindo pena de mim mesmo. Eu e alguma revista em quadrinhos,
qualquer coisa menos Aquaman.
     Gatlin pensava de outra maneira.
     A feira do condado significava um dia de concursos de beleza e tortas e
uma noite ficando com algum, se voc tivesse sorte. O Dia de Finados era
bem diferente. Era uma tradio em Gatlin. Em vez de passar o dia de short e
chinelo na feira, todo mundo da cidade ia para o cemitrio com suas melhores
roupas de domingo prestar homenagem aos parentes mortos, os seus e os de
todo mundo. Esquea o fato de que o Dia de Finados  na verdade um feriado
catlico que acontece em novembro. Em Gatlin, temos nosso jeito de fazer as
coisas. Ento o transformamos em nosso dia de recordao, culpa e
competio para ver quem conseguia empilhar mais flores de plstico e anjos
nos tmulos dos antepassados.
     Todo mundo participava do Dia de Finados: os batistas, os metodistas,
at os evanglicos e pentecostais. Antigamente, as duas nicas pessoas da
cidade que no apareciam no cemitrio eram Amma, que passava o Dia de
Finados na casa da famlia em Wader`s Creek, e Macon Ravenwood. Eu me
perguntei se esses dois alguma vez passaram o Dia de Finados juntos, em um
pntano com os Grandes. Eu achava que no. No conseguia imaginar Macon
ou os Grandes apreciando flores de plstico.
     Pensei se os Conjuradores tinham sua prpria verso do Dia de Finados,
se Lena estava em algum lugar se sentindo do mesmo jeito que eu agora. Se ela
estava com vontade de se esconder na cama at que o dia terminasse. No ano
anterior no fui ao Dia de Finados, pois pouco tempo tinha se passado. Nos
anos precedentes, passei o dia sobre os tmulos de Wates que nunca conheci
ou dos quais mal me lembrava.
     Mas hoje eu ficaria sobre o tmulo de uma pessoa em quem eu pensava
todos os dias. Minha me.




Amma estava na cozinha usando sua melhor blusa branca, com o colarinho de
renda, e a saia azul longa. Estava segurando uma daquelas bolsinhas de
senhora.
     -- melhor voc ir logo para a casa das suas tias. -- Ela apertou o n da
minha gravata. -- Sabe como elas ficam nervosas quando voc se atrasa.
     -- Sim, senhora.
     Peguei as chaves do carro do meu pai, que estavam em cima da bancada.
Eu o tinha deixado nos portes do Jardim da Paz Perptua uma hora antes.
Ele queria passar um tempo sozinho com minha me.
     -- Espere um segundo.
     Fiquei paralisado. No queria que Amma olhasse dentro dos meus olhos.
Eu no conseguiria falar sobre Lena agora e no queria que ela tentasse
arrancar isso de mim.
     Amma mexeu na bolsa e tirou uma coisa que eu no conseguia ver. Ela
abriu minha mo e a corrente caiu na palma. Era fina e de ouro, com um
pequeno pssaro pendurado no meio. Era bem menor do que os do enterro
de Macon, mas o reconheci imediatamente.
     --  um pardal para sua me. -- Os olhos de Amma estavam brilhando
como a estrada depois da chuva. -- Para os Conjuradores, os pardais
significam liberdade, mas para uma Vidente, eles significam uma jornada
segura. Os pardais so inteligentes. Eles conseguem Viajar longas distncias,
mas sempre encontram o caminho de casa.
     O n aumentava em minha garganta.
     -- Acho que minha me no vai mais fazer viagem alguma.
     Amma limpou os olhos e fechou a bolsinha.
     -- Bem, voc tem certeza de tudo, no tem, Ethan Wate?




Quando parei na entrada coberta da garagem de cascalho das Irms e abri a
porta do carro, Lucille ficou sentada no banco do passageiro em vez de pular
para fora. Ela sabia onde estvamos e sabia que tinha sido exilada. Fiz com
que sasse do carro, mas ela ficou sentada na calada onde o cimento e a grama
se encontravam.
     Thelma abriu a porta antes que eu batesse. Ela olhou para trs de mim,
para a gata, cruzando os braos.
     --Ol, Lucille.
     Lucille lambeu a pata preguiosamente, depois se ocupou em cheirar o
rabo. Teria dado no mesmo se tivesse mostrado o dedo do meio para Thelma.
     -- Veio dizer que gosta dos pezinhos de Amma mais do que dos meus?
Lucille era o nico gato que eu conhecia que comia pezinhos com molho em
vez de rao. Ela miou, como se tivesse poucas palavras a dizer sobre o
assunto.
     Thelma se virou para mim.
      -- Oi, queridinho. Ouvi voc chegar -- e me deu um beijo na bochecha,
o que sempre deixava intensas marcas cor-de-rosa de batom que nenhuma
palma da mo suada conseguia apagar. -- Voc est bem?
      Todo mundo sabia que o dia de hoje no seria fcil para mim.
      -- Estou bem sim. As Irms esto prontas?
      Thelma ps uma das mos no quadril.
      -- Essas garotas j ficaram prontas para alguma coisa na vida? -- Thelma
sempre chamava as Irms de garotas embora elas fossem mais velhas do que
ela; mais do dobro da sua idade.
      Uma voz gritou da sala de estar:
      -- Ethan?  voc? Entre aqui. Precisamos que voc d uma olhada em
uma coisa.
      No havia como saber o que aquilo queria dizer. Elas podiam estar
fazendo a partir do The Stars and Stripes para uma famlia de guaxinins ou
piando o quarto (ou seria quinto?) casamento de tia Prue.  claro que havia a
terceira possibilidade, na qual eu no tinha pensado, e ela me envolvia.
      -- Entre -- acenou Tia Grace para mim. -- Mercy, d a ele alguns desses
adesivos azuis.
      Ela estava se abanando com um velho folheto de igreja, provavelmente
do enterro do marido de uma delas. Como as Irms no deixavam ningum
ficar com os folhetos durante a missa, elas tinham vrios espalhados pela casa.
      -- Eu mesma pegaria, mas preciso ter cuidado por causa do meu
acidente. Tenho complicaes.
      Era a nica coisa sobre a qual ela falava desde a feira do condado. Metade
da cidade sabia que ela havia desmaiado, mas pelo modo como tia Grace
contava, ela havia sofrido uma complicao quase fatal que faria com que
Thelma, tia Prue e tia Mercy fizessem tudo o que ela mandasse at o fim seus
dias.
      -- No, no. A cor de Ethan  vermelha, j disse. D a ele os adesivos
vermelhos. -- Tia Prue estava escrevendo como louca em um bloco amarelo.
      Tia Mercy me passou uma folha de adesivos redondos e vermelhos.
      -- Agora, Ethan, ande pela sala e coloque um desses adesivos debaixo
coisas que voc quer. V, ande. -- Ela ficou olhando para mim com
expectativa, como se fosse sentir-se ofendida caso eu no colocasse um deles
testa dela.
      -- Do que a senhora est falando, tia Mercy?
      Tia Grace pegou da parede uma foto emoldurada de um cara velho
usando um uniforme Confederado.
      -- Este  o general Robert Charles Tyler, o ltimo general Rebelde morto
na Guerra entre os Estados. Passe-me um desses adesivos. Esse vai valer
alguma coisa.
      Eu no fazia ideia do que elas estavam tramando e tinha medo de
perguntar.
      -- Precisamos ir. Esqueceram que hoje  Dia de Finados?
      Tia Prue franziu a testa.
      --  claro que no esquecemos.  por isso que estamos colocando
nossas coisas em ordem.
      --  para isso que servem os adesivos. Todo mundo tem uma cor. A da
Thelma  amarela, a sua  vermelha, a do seu pai, azul. -- Tia Mercy fez uma
pausa, como se tivesse perdido a linha do pensamento.
      Tia Prue a silenciou com um olhar. Ela no gostava de ser interrompida.
      -- Coloque esses adesivos na parte de baixo das coisas que voc quer.
Assim, quando morrermos, Thelma saber exatamente quem vai ficar com o
qu.
      -- Foi por causa do Dia de Finados que pensamos nisso. -- Tia Grace
sorriu com orgulho.
      -- No quero nada e nenhuma de vocs est morrendo. -- Coloquei a
folha de adesivos sobre a mesa.
      -- Ethan, Wade vir ms que vem, e ele  mais ganancioso do que uma
raposa em um galinheiro. Voc precisa escolher primeiro. -- Wade era o filho
ilegtimo do meu tio Landis, outra pessoa da minha famlia que jamais chegaria
 rvore Genealgica dos Wate.
      No havia sentido em discutir com as Irms quando elas estavam assim.
Ento passei meia hora colando adesivos vermelhos debaixo de cadeiras de
jantar que no combinavam e de objetos da Guerra Civil, mas ainda tive
tempo enquanto esperava as Irms escolherem seus chapus para o Dia de
Finados. Escolher o chapu certo era coisa sria, e a maior parte das damas da
cidade j tinha ido a Charleston fazer suas compras semanas antes. Ao v-las
subindo a colina, usando na cabea todo tipo de coisa, de penas de pavo a
rosas recm-cortadas, voc poderia pensar que as damas de Gatlin estavam
indo para uma festa ao ar livre em vez de para um cemitrio.
     A casa estava uma baguna. Tia Prue deve ter feito Thelma tirar todas
caixas do poro, cheias de roupas velhas, colchas e lbuns de fotografia.
Folheei um lbum que estava por cima. Fotos velhas estavam grudadas em
folhas marrons: tia Prue e seu marido; tia Mercy de p em frente  antiga na
rua Dove; minha casa, a propriedade Wate, na poca em que meu av era
criana. Virei a ltima pgina e outra casa pareceu olhar para mim.
     Ravenwood.
     Mas no a Ravenwood que eu conhecia. Essa era a Ravenwood perfeita
para o Registro da Sociedade Histrica. Ciprestes ladeavam o caminho que
levava  varanda branca. Cada pilar, cada janela estava recm-pintada. No
havia sinais de crescimento exagerado de plantas, da escada torta de Macon
Ravenwood. Debaixo da foto, havia uma inscrio, cuidadosamente feita com
caligrafia delicada.

    Propriedade Ravenwood, 1865


     Eu estava olhando para Abraham Ravenwood.
     -- O que voc pegou a? -- Tia Mercy chegou perto usando o maior e
mais rosado chapu de flamingo que eu j tinha visto. Havia um tipo de
redinha estranha na frente, como um vu, adornada com um pssaro muito
irreal em cima de um ninho cor-de-rosa. Quando ela se moveu um pouco, a
coisa toda meio que tremeu, como se fosse levantar voo direto da cabea dela.
No, isso no daria munio a Savannah e ao esquadro de lderes de torcida.
     Tentei no olhar para o pssaro esvoaante.
     --  um velho lbum de fotos. Estava em cima dessa caixa. -- Passei o
lbum para ela.
     -- Prudence Jane, traga meus culos!
     Houve um barulho no corredor e tia Prue apareceu na porta, usando um
chapu to grande e perturbador quanto o de tia Mercy. O dela era preto, com
um vu que fazia tia Prue parecer a me de um chefe da mfia ao enterro dele.
     -- Se voc os pendurasse no pescoo, como j falei...
     Tia Mercy ou tinha baixado o volume do aparelho de surdez ou ignorou
tia Prue.
     -- Veja o que Ethan encontrou. -- O lbum ainda estava aberto na
mesma pgina. A Ravenwood do passado parecia olhar para ns.
     -- Deus misericordioso, veja s isso. A oficina do Diabo, se  que j vi
uma.
     As Irms, assim como a maioria das pessoas idosas de Gatlin, tinham
certeza de que Abraham Ravenwood tinha feito algum tipo de negociao
com o Diabo para salvar a fazenda Ravenwood da campanha incendiria do
General Sherman, em 1865, que havia deixado todas as outras fazendas ao
longo do rio em cinzas. Se as Irms soubessem o quanto isso estava prximo
da verdade...
     --No foi o nico mal que Abraham Ravenwood fez. -- Tia Prue se
afastou do lbum.
     -- O que a senhora quer dizer? -- Noventa por cento do que as Irms
diziam era besteira, mas os outros dez valiam a pena ouvir. Foram as Irms
que me contaram sobre meu antepassado misterioso, Ethan Carter Wate, que
morreu durante a Guerra Civil. Talvez elas soubessem alguma coisa sobre
Abraham Ravenwood.
     Tia Prue balanou a cabea.
     -- Nenhum bem pode advir de falar sobre ele.
     Mas tia Mercy nunca conseguia resistir a uma oportunidade de desafiar
sua irm mais velha.
     -- Nosso av costumava dizer que Abraham Ravenwood jogava contra o
certo e o errado, desafiava o destino. Ele estava em conluio com o Demnio
mesmo, praticando bruxaria, se unindo aos espritos do mal.
     -- Mercy! Pare de falar essas coisas!
     -- Parar o qu? De falar a verdade?
     -- No arraste a verdade para dentro desta casa! -- Tia Prue estava
perturbada.
     Tia Mercy me olhou nos olhos.
     -- Mas o Demnio foi para cima dele depois que Abraham terminou de
cumprir as suas ordens, e quando o Demnio terminou, Abraham nem era
mais homem. Era outra coisa.
     No que dizia respeito s Irms, todo ato do mal, enganao ou ato
criminoso eram trabalho do Diabo, e eu no ia tentar convenc-las do
contrrio.
     Porque depois do que eu tinha visto Abraham Ravenwood fazer, sabia
que ele era mais do que mau. Eu tambm sabia que no tinha nada a ver com
o Diabo.
     -- Agora voc est contando histrias, Mercy Lynne, e  melhor parar
antes que o Bom Deus lance um raio em voc aqui nesta casa, justamente no
Dia de Finados. E eu no quero ser atingida por um raio. -- Tia Prue bateu na
cadeira de tia Mercy com sua bengala.
     -- Voc acha que esse garoto no sabe sobre as coisas estranhas que
acontecem em Gatlin? -- Tia Grace apareceu na porta usando seu prprio
chapu lils sado de um pesadelo. Antes de deu nascer, algum cometeu o
erro de dizer para tia Grace que lils era a cor dela, e quase tudo o que ela
usava era dessa cor desde ento. -- No adianta tentar colocar de volta na
jarra o leite derramado.
     Tia Prue bateu a bengala no cho. Elas estavam falando em charadas,
como Amma, o que significava que sabiam de alguma coisa. Talvez no
soubessem que havia Conjuradores vagando por tneis embaixo da casa delas,
mas sabiam de alguma coisa.
     -- Algumas bagunas podem ser arrumadas com mais facilidade do que
outras. No quero participar dessa. -- Tia Prue passou por tia Grace com um
empurro antes de sair da sala. -- Hoje no  um dia para se falar dos mortos.
     Tia Grace andou em nossa direo. Segurei-a pelo cotovelo e a guiei at o
sof. Tia Mercy esperou que o barulho da bengala de tia Prue ecoasse no
corredor.
     -- Ela foi embora? O volume do meu aparelho auditivo est baixo.
     Tia Grace assentiu.
     -- Acho que sim.
     As duas se inclinaram como se fossem me passar cdigos para o
lanamento de msseis nucleares.
     -- Se eu contar uma coisa a voc, promete no contar ao seu pai? Porque
se contar, ns provavelmente vamos parar na Casa. -- Ela estava se referindo
 Casa de Idosos Assistidos de Summervile, o inferno dos infernos, na opinio
das Irms.
     Tia Grace assentiu, concordando.
     -- O que ? No vou dizer nada pro meu pai. Prometo.
     -- Prudence Jane est errada. -- Tia Mercy baixou a voz at chegar a um
sussurro. -- Abraham Ravenwood ainda est entre ns, com tanta certeza
quanto eu estou aqui sentada hoje.
     Eu queria dizer que elas estavam malucas. Eram duas senhoras idosas e
senis alegando ter visto um homem, ou o que a maior parte das pessoas
julgava ser um homem, que ningum avistava havia cem anos.
     -- Como assim, ainda est entre ns?
     -- Eu o vi com meus prprios olhos ano passado. Atrs da igreja, veja
voc! -- Tia Mercy se abanou com o leno, como se pudesse desmaiar s de
pensar. -- Depois da igreja de tera esperamos por Thelma na entrada porque
ela d aulas de estudos bblicos na mesma rua, na Primeira Igreja Metodista.
Soltei Harlon James da bolsinha para que ele pudesse esticar as perninhas...
Voc sabe que Prudence Jane me faz carreg-lo. Mas assim o botei no cho,
ele correu para trs da igreja.
     -- Voc sabe que aquele cachorro no sabe cuidar da prpria vida. -- Tia
Grace balanou a cabea em reprovao.
     Tia Mercy olhou para a porta antes de prosseguir.
     -- Bem, eu tive de segui-lo, porque voc sabe como Prudence Jane  com
aquele cachorro. Ento fui para trs da igreja, e assim que fiz a curva e
comecei a gritar por Harlon James, eu o vi. O fantasma de Abraham
Ravenwood. No cemitrio atrs da igreja. Aqueles progressistas da Igreja
Redonda de Charleston acertaram em uma coisa.
     O pessoal de Charleston dizia que a Igreja Redonda foi construda
daquele jeito para que o Diabo no conseguisse se esconder nos cantos.
Nunca mencionei o bvio, que o Diabo normalmente no tinha problema
algum em andar pelo corredor central, ao menos no que dizia respeito s
nossas congregaes locais.
     --Eu tambm o vi -- sussurrou tia Grace. -- E sei que era ele, porque
era igual a foto que est na parede da Sociedade Histrica, onde jogo cartas
com as garotas. Bem no Crculo dos Fundadores, pelo fato de os Ravenwood
terem sido os primeiros a chegar a Gatlin. Abraham Ravenwood, claro como
dia.
     Tia Mercy fez sinal para a irm parar de falar. Com tia Prue fora da sala,
era a vez dela de comandar o show.
     -- Era ele sim. Estava l com o filho de Silas Ravenwood. No Macon. O
outro, Phinehas. -- Eu me lembrava do nome na rvore Genealgica dos
Ravenwood. Hunting Phinehas Ravenwood.
     -- Est falando de Hunting?
     -- Ningum chamava aquele garoto pelo nome de batismo. Todos os
chamavam de Phinehas. Est na Bblia. Sabe o que significa? -- Ela fez uma
pausa dramtica. -- Lngua de serpente.
     Por um segundo, prendi a respirao.
     -- No tinha como confundir o fantasma daquele homem, Com o Bom
Deus como testemunha, samos correndo de l mais rpido do que um gato
com o rabo em chamas. Deus sabe que eu no conseguiria correr daquele jeito
atualmente. No desde minhas complicaes...
     As Irms eram malucas, mas o habitual era se basearem em uma verso
maluca da histria. No havia como saber qual verso da verdade elas estavam
contando, mas normalmente era uma verso. Qualquer verso dessa histria
era perigosa. Eu no tinha como saber, mas se eu aprendera uma coisa esse
ano era que mais cedo ou mais tarde eu teria que descobrir.
     Lucille miou, arranhando a porta de tela. Acho que ela j tinha ouvido o
bastante. Harlon James rosnou debaixo do sof. Pela primeira vez, me
perguntei o que os dois tinham visto depois de terem passado tanto tempo
naquela casa.
     Mas nem todo cachorro era Boo Radley. s vezes um cachorro era s um
cachorro. s vezes um gato era s um gato. Ainda assim, abri a porta de tela e
colei um adesivo vermelho na cabea de Lucille.
                                   17 de junho   
                                  Guarda

                                  

S
     e havia uma fonte confivel de informao por aqui, era o pessoal de
     Gatlin. Em um dia como hoje, voc no precisava se esforar muito para
     ver quase todo mundo da cidade dentro da mesma rea de 800 metros. O
cemitrio estava lotado quando chegamos, atrasados como sempre graas s
Irms. Lucille no queria entrar no Cadillac, depois tivemos que parar nos
Jardins do den porque tia Prue queria comprar flores para todos os falecidos
maridos, mas nenhuma das flores estava boa o bastante, e quando finalmente
voltamos ao carro, tia Mercy no queria que eu passasse de 30 quilmetros por
hora. Fazia meses que eu temia o dia de hoje. Agora ele tinha chegado.
     Subi o caminho de cascalho do Jardim da Paz Perptua, empurrando a
cadeira de rodas de tia Mercy. Thelma estava atrs de mim, com tia Prue em
um brao e tia Grace no outro. Lucille estava atrs delas, andando em meio s
pedras, com o cuidado de ficar longe. A bolsa de couro estampada de tia
Mercy balanava no brao da cadeira de rodas, batendo na minha barriga a
cada dois passos. Eu j estava suando, pensando naquela cadeira de rodas
prendendo na grama grossa. Havia uma grande possibilidade de que Link e eu
tivssemos de carregar a cadeira com tia Mercy sentada.
     Chegamos a tempo de ver Emily exibindo seu novo vestido branco frente
nica. Todas as garotas compravam um vestido novo para usar no Dia de
Finados. Ningum usava chinelo nem blusa, s as melhores roupas
dominicais. Era como uma grande reunio de famlia, s que dez vezes maior,
que praticamente a cidade inteira e boa parte do condado tinham algum tipo
de parentesco com voc, com seu vizinho ou com o vizinho do seu vizinho.
     Emily ria e se pendurava em Emory.
     -- Voc trouxe cerveja?
     Emory abriu a jaqueta e mostrou uma garrafinha prateada.
     -- Melhor do que isso.
     Eden, Charlotte e Savannah estavam paradas perto do lote da famlia
Snow; com localizao privilegiada, no centro das fileiras de lpides. Estava
coberto com flores de plstico de cores vibrantes e de querubins. Havia at
pequeno fauno de plstico comendo grama perto da lpide mais alta. Decorar
tmulos era outro dos concursos de Gatlin -- um modo de provar voc e
seus familiares, at mesmo os mortos, eram melhores do que s vizinhos e os
familiares deles. As pessoas faziam tudo o que podiam. Coroas de plstico
enroladas em vinhas de nylon verde, coelhos e esquilos brilhantes, at mesmo
fontes ornamentais, to quentes por causa do sol que podiam queimar os
dedos. Nada era considerado exagero. Quanto mais brega, melhor.
     Minha me costumava rir dos seus favoritos.
     -- So instantneos da vida, obras de arte como as pinturas de mestres
holandeses e flamengos, s que feitos de plstico. O sentimento  o mesmo.
-- Minha me conseguia rir das piores tradies de Gatlin e respeitar as
melhores delas. Talvez tenha sido assim que sobreviveu aqui.
     Ela gostava muito das cruzes que brilhavam no escuro e se iluminavam 
noite. Em algumas noites de vero, ns dois deitvamos na colina do
cemitrio e observvamos as cruzes se iluminarem ao pr do sol, como se sem
estrelas. Uma vez perguntei por que ela gostava de ficar ali.
     -- Isso  histria, Ethan. A histria das famlias, das pessoas que elas
amavam, das que perderam. Essas cruzes, flores e animais idiotas de plstico
foram colocados a para nos lembrar de algum de quem sentem saudade. 
uma bela coisa de se ver e  nosso dever fazer isso. -- Nunca contamos ao
meu pai sobre essas noites no cemitrio. Era uma daquelas coisas que
fazamos s ns dois.
     Eu teria de passar pela maior parte dos alunos da Jackson High e por
cima de um ou dois coelhos de plstico para chegar ao lote da famlia Wate, na
extremidade do gramado. Essa era a outra coisa sobre o Dia de Finados. No
havia muita recordao envolvida. Em uma hora, todos com mais de 21 anos
estariam por a fofocando sobre os vivos, logo depois que acabassem de
fofocar sobre os mortos, e todos com menos de 30 anos estariam se
embebedando atrs dos mausolus. Todos menos eu. Eu estaria ocupado
demais me recordando.
     -- Oi, cara. -- Link correu ao meu lado e sorriu para as Irms. -- Boa-
tarde, senhoras.
     --Como voc est hoje, Wesley? Est crescendo como as rvores, hein!
-- Tia Prue estava bufando e suando.
     -- Sim, senhora. -- Rosalie Watkins estava de p atrs de Link, acenando
para tia Prue.
     --Ethan, por que voc no vai com Wesley? Estou vendo Rosalie e
preciso perguntar a ela que tipo de farinha usa no bolo beija-flor. -- Tia Prue
enfiou a bengala na grama e Thelma ajudou tia Mercy a sair da cadeira de
rodas.
     -- Tem certeza de que ficaro bem?
     Tia Prue me olhou de cara feia.
     --  claro que ficaremos bem. Cuidamos de ns mesmas desde antes de
voc nascer.
     -- Desde antes do seu pai nascer -- corrigiu tia Grace.
     -- Quase esqueci. -- Tia Prue abriu a bolsinha e tirou uma coisa de
dentro. -- Achei a medalha da coleira daquela maldita gata. -- Ela olhou para
Lucille com reprovao. -- No que isso tenha ajudado. Tem algumas pessoas
que no ligam para anos de lealdade e para todas aquelas caminhadas em seu
prprio varal. Acho que isso no compra uma gota de gratido, quando se
trata de algumas pessoas. -- A gata foi embora sem nem um olhar para trs.

    Olhei para a placa de metal com o nome de Lucille gravado e a enfiei no
bolso.
    -- Falta o aro.
     --  melhor colocar na sua carteira, caso precise provar que ela no tem
raiva. Ela gosta de morder. Thelma vai arrumar outro.
     -- Obrigado.
     As Irms deram os braos e aqueles chapus colossais bateram uns nos
outros enquanto elas andavam em direo  amiga. At mesmo as Irms
tinham amigas. Minha vida era uma droga.
     -- Shawn e Earl trouxeram cerveja e usque Jim Bean. Todo mundo vai
se reunir atrs da cripta Honeycutt. -- Pelo menos eu tinha Link.
     Ns dois sabamos que eu no ficaria me embebedando em lugar algum.
Em alguns minutos, eu estaria em frente ao tmulo da minha me. Eu
pensaria sobre o modo como ela sempre ria quando eu falava sobre o Sr. Lee e
sua verso distorcida da histria dos EUA, ou histeria dos EUA, como ela
dizia. Como meu pai e ela danavam James Taylor na cozinha, descalos.
Como minha me sabia exatamente o que dizer quando tudo estava dando
errado, tipo a hora em que minha ex-namorada preferia ficar com um
Sobrenatural mutante a ficar comigo.
     Link ps a mo no meu ombro.
     -- Voc est bem?
     -- Estou, sim. Vamos dar uma volta. -- Eu ficaria em frente ao tmulo
dela hoje, mas no estava pronto. Ainda no.
     L, onde voc...
     Percebi o que estava fazendo e tentei afastar a mente. No sei por que eu
ainda a procurava. Hbito, talvez. Mas, em vez da voz de Lena, ouvi a de
Savannah. Ela estava parada na minha frente usando maquiagem demais, mas
ainda assim conseguindo ficar bonita. O cabelo dela estava brilhoso e os cujos,
grossos, e havia pequenas alas amarradas no vestido dela que provavelmente
s estavam l para fazer algum cara pensar em desamarr-las. Isso se voc no
soubesse o quanto ela era uma vadia, ou se no se importasse.
     -- Sinto muito sobre sua me, Ethan -- disse e limpou a garganta,
constrangida.
     A me dela provavelmente a fizera ir at ali, sendo a Sra. Snow um pilar
da comunidade. Naquela noite, embora pouco mais de um ano tivesse se
passado desde que minha me morreu, eu encontraria mais do que uma panela
de ensopado em nossos degraus, como no dia seguinte ao enterro. O tempo
passava devagar em Gatlin, como anos de cachorro, s que ao contrrio. E,
como no dia seguinte ao enterro, Amma deixaria cada uma das panelas l fora
para os gambs.
     Parece que gambs nunca enjoavam de ensopado de presunto e ma.
     Ainda assim, era a coisa mais simptica que Savannah tinha falado para
mim desde setembro. Embora eu no ligasse para o que ela pensava de mim,
hoje era bom ter uma coisa a menos para fazer eu me sentir mal.
     -- Obrigado.
     Savannah deu seu sorriso falso e foi embora, os saltos tremendo ao
ficarem presos na grama. Link afrouxou a gravata, que estava torta e era curta
demais. Reconheci-a da formatura do sexto ano. Por baixo, ele tinha colocado
sem ningum ver uma camiseta que dizia ESTOU COM O IDIOTA, com
setas apontando em todas as direes. Isso resumia bem como eu me sentia
hoje. Cercado de idiotas.
     Mais golpes se seguiram. Talvez as pessoas estivessem se sentindo
culpadas por eu ter um pai maluco e uma me morta. Era mais provvel que
tivessem medo de Amma. De qualquer forma, eu devo ter superado Loretta
West -- viva trs vezes, cujo ltimo marido morreu depois de um crocodilo
ter lhe dado uma mordida na barriga -- como a pessoa mais pattica do Dia
de Finados. Se prmios fossem dados, eu teria ganhado o lao azul. Dava para
perceber pelo modo como as pessoas balanavam a cabea quando eu passava.
Que pena, Ethan Wate no tem mais me.
     Era desse jeito que a Sra. Lincoln balanava a cabea agora, enquanto
andava em minha direo com Pobre garoto desencaminhado e Sem me
estampado no rosto. Link saiu de perto antes que ela alcanasse o alvo.
     -- Ethan, eu queria dizer o quanto ns todas sentimos falta da sua me.
-- Eu no sabia ao certo sobre quem ela estava falando: das amigas dela do
FRA, que detestavam minha me, ou das mulheres que ficavam sentadas no
Snip n` Curl falando que minha me lia livros demais e que nada de bom
podia advir disso. A Sra. Lincoln limpou uma lgrima inexistente do olho. --
Ela era uma boa mulher. Sabe, eu me lembro do quanto ela gostava de
jardinagem. Sempre ficava no jardim, cuidando das rosas com o corao
gentil.
     -- Sim, senhora.
     O mais prximo que minha me chegava de jardinagem era quando
picava pimenta caiena sobre os tomates para que papai no matasse o coelh
que vivia comendo-os. As rosas eram de Amma. Todo mundo sabia asso.
Desejei que a Sra. Lincoln fizesse o comentrio do corao gentil na frente
de Amma.
     -- Gosto de pensar que ela est l em cima com os anjos, cuidando do
doce Jardim do den agora. Podando e aparando a rvore do Conhecimento,
com os querubins e as...
     Cobras?
     -- Preciso encontrar meu pai, senhora. -- Eu precisava sair de perto da
me de Link antes que um raio a atingisse; ou atingisse a mim, por desejar que
isso acontecesse.
     Pude ouvir a voz dela s minhas costas.
     -- Diga a seu pai que vou deixar um dos meus famosos ensopados de
presunto e ma para ele!
     Aquilo encerrava a conversa. Eu ia ganhar o lao azul, com certeza. Mal
podia esperar para ficar longe dela. Mas, no Dia de Finados, no havia
escapatria. Assim que voc conseguia se livrar de um parente ou vizinho
desagradvel, surgia outro logo  frente. Ou, no caso de Link, um pai
desagradvel.
     O pai de Link passou o brao ao redor do pescoo de Tom Watkins.
     -- Earl era o melhor de ns. Tinha o melhor uniforme, as melhores
formaes de batalha... -- O pai de Link se engasgou com alguns soluos de
bbado choro. -- E ele fazia a melhor munio. -- Coincidentemente, Big
Earl tinha morrido fazendo essa munio, e o Sr. Lincoln o tinha substitudo
como lder da Cavalaria na Encenao da Batalha de Honey Hill. Parte dessa
culpa estava presente hoje em forma de usque.
     -- Eu queria trazer minha arma e saudar Earl de maneira apropriada, mas
Droga Doreen a escondeu de mim. -- A esposa de Ronnie Weeks era
conhecida como Droga Doreen, algumas vezes abreviada para DD, por ser
isso o que ele sempre dizia para ela. Ele tomou outro gole de usque.
     -- A Earl! -- Eles se abraaram pelo pescoo, erguendo latas e garrafas
acima do tmulo de Earl. Cerveja e usque Wild Turkey caram sobre a lpide,
o tributo de Gatlin aos mortos em batalha.
     -- Nossa, espero no terminar assim um dia. -- Link se afastou e fui
atrs. Os pais dele nunca falhavam quando o assunto era envergonh-lo. --
Por que meus pais no podiam ser como os seus?
     -- Quer dizer, malucos? Ou mortos? No leve a mal, mas acho que a
parte maluca j est garantida.
     -- Seu pai no  mais maluco, pelo menos no mais do que qualquer
outra pessoa daqui. Ningum liga se voc anda de pijama depois que sua
esposa morre. Meus pais no tm desculpa. Eles tm alguns parafusos a
menos.
     -- No vamos terminar assim. Porque voc ser um baterista famoso em
Nova York e eu farei... sei l, alguma coisa que no envolva um uniforme da
Confederao e Wild Turkey. -- Tentei parecer convincente, mas eu no sabia
o que era mais improvvel, Link se tornar um msico famoso ou eu sair de
Gatlin.
     Eu ainda tinha o mapa na parede do quarto, o que tinha as linhas verdes
ligando todos os lugares sobre os quais eu havia lido, os lugares aonde eu
queria ir. Eu tinha passado a vida toda pensando em estradas que levam a
qualquer lugar bem longe de Gatlin. Ento conheci Lena, e foi como se o
mapa nunca tivesse existido. Acho que eu conseguiria lidar com a ideia de ficar
preso em qualquer lugar, at mesmo aqui, desde que ficssemos juntos.
Engraado como o mapa parecia ter perdido seu apelo quando eu mais
precisava dele.
     --  melhor eu ir logo ver minha me. -- Falei como se fosse passar na
biblioteca para v-la na sala do arquivo. -- Voc sabe o que quero dizer.
     Link bateu os ns dos dedos nos meus.
     -- Encontro voc depois. Vou dar uma volta. -- Dar uma volta? Link
no dava voltas. Ele tentava se embebedar e dar em cima de garotas que no
queriam ficar com ele.
     -- O que est acontecendo? Voc no vai sair  procura da prxima Sra.
Lincoln, vai?
     Link passou a mo pelo cabelo louro espetado.
     -- Quem me dera. Sei que sou idiota, mas s tem uma garota na minha
cabea agora. -- A nica que no devia estar l. O que eu podia dizer? Sabia
como era estar apaixonado por algum que no queria nada com voc.
     -- Lamento, cara, Acho que Ridley no  muito fcil de esquecer.
     -- Pois , e v-la ontem  noite no ajudou -- e balanou a cabea,
frustrado. Sei que ela  das Trevas e tal, mas no consigo ignorar a sensao de
que o que tivemos foi mais do que fingimento.
     -- Sei o que voc quer dizer.
     ramos dois perdedores patticos. Embora eu no achasse que Ridley
fosse capaz de qualquer coisa real, no queria faz-lo se sentir pior. De
qualquer forma, Link no estava procurando por uma resposta.
     -- Sabe aquela coisa que voc me disse sobre Conjuradores e Mortais
derem ficar juntos porque isso pode matar o Mortal?
     Assenti. Isso era s uns oitenta por cento do que eu tinha na cabea.
     -- O que tem?
     -- Chegamos perto mais de uma vez  disse e chutou a grama, criando
um ponto marrom no gramado perfeito.
     -- Informao demais...
     -- Meu ponto : no fui eu que acionei o freio. Foi Rid. Eu achava que a
s estava se divertindo comigo, como se eu s servisse pra pegao e mais
nada. -- Link andava de um lado para o outro. -- Mas agora, quando penso
nisso, vejo que talvez eu estivesse errado. Talvez ela no quisesse me
machucar. Link obviamente tinha pensado muito naquilo.
     -- No sei. Ela continua sendo uma Conjuradora das Trevas.
      Link deu de ombros.
     -- , eu sei, mas um cara pode sonhar.
     Eu queria dizer a Link o que estava acontecendo, que Ridley e Lena tal
tivessem ido embora. Abri a boca e a fechei em seguida, sem emitir algum. Eu
preferia no saber se Lena tinha lanado um Conjuro contra mim ou no.
     Eu s tinha visitado o tmulo da minha me uma vez depois do enterro,
mas no fora no Dia de Finados. Eu no conseguiria encarar isso com to
pouco tempo passado desde o acidente, no ano anterior. Eu no sentia que eia
estava realmente ali, perambulando pelo cemitrio como Genevieve ou os
Grandes. O nico lugar onde eu a sentia era no arquivo ou no escritrio de
casa. Aqueles eram os lugares que ela amava, os lugares onde eu podia
imagin-la passando os dias, fosse onde fosse que ela estivesse agora.
     Mas no aqui, no debaixo do cho, sobre o qual meu pai estava
ajoelhado com o rosto entre as mos. Ele estava ali havia horas, dava para
perceber.
     Limpei a garganta para que ele percebesse a minha presena. Senti como
se estivesse bisbilhotando um momento ntimo entre eles. Ele limpou o rosto
e se levantou.
     -- Como voc est?
     -- Acho que estou bem. -- Eu no sabia o que estava sentindo, mas no
estava bem.
     Ele colocou as mos nos bolsos, olhando para a lpide. Uma delicada flor
branca estava na grama abaixo dela. Jasmim-estrela. Li as letras curvas
entalhadas na pedra.

    LILA EVERS WATE
    AMADA ESPOSA E ME
    SCIENTIAE CUSTOS

    Repeti a ltima linha. Reparei nela da ltima vez em que estive ali, no
meio de julho, algumas semanas antes do meu aniversrio. Mas eu tinha ido
sozinho, e quando cheguei em casa estava to anestesiado por ficar olhando o
tmulo de minha me que esqueci da citao.
    -- Scientiae Custos.
    --  latim. Significa Guardi do Conhecimento Marian que sugeriu.
Encaixa, no acha? -- Se ele soubesse o quanto...
    Forcei um sorriso.
    -- . Parece com ela.
      Meu pai colocou um brao ao redor dos meus ombros e apertou, como
costumava fazer quando meu time de beisebol infantil perdia um jogo.
      -- Sinto muita saudade dela. Ainda no consigo acreditar que ela se foi.
      Eu no conseguia dizer nada. A respirao parecia presa na garganta, meu
peito estava to apertado que pensei que fosse desmaiar. Minha me estava
morta. Eu jamais a veria de novo, independentemente de quantas nas ela
abrisse nos livros dela ou de quantas mensagens ela me enviasse.
      -- Sei que tem sido muito difcil pra voc, Ethan. Eu queria dizer que 0
muito por no ter estado ao seu lado ao longo deste ano, como deveria. Eu
s...
      -- Pai. -- Eu podia sentir meus olhos se enchendo de lgrimas, mas no
queria chorar. Eu no daria essa satisfao  fbrica de ensopados da cidade.
Ento o cortei. -- Tudo bem.
      Ele deu um ltimo aperto no meu ombro.
      -- Vou deixar voc ter um tempinho a ss com ela. Vou dar uma
caminhada.
      Fiquei olhando para a lpide, com o pequeno smbolo celta de Awen
entalhado. Era um smbolo que eu conhecia, um que minha me sempre
amara. Trs linhas representando raios de luz, convergindo no topo. Ouvi a
voz de Marian atrs de mim.
      -- Awen.  uma palavra galesa que significa inspirao potica ou
iluminao potica ou iluminao espiritual` Duas coisas que sua me
respeitava.
      Pensei nos smbolos acima da porta em Ravenwood, nos smbolos do
Livro das Luas e no que ficava na porta do Exlio. Smbolos significavam as.
Em alguns casos, mais do que palavras. Minha me sabia disso. Eu me
perguntei se foi essa a razo pela qual ela se tornou Guardi, ou se ela havia
aprendido isso com os Guardies anteriores a ela. Havia tanto sobre ela que
eu jamais saberia.
      -- Ethan, lamento muito. Voc quer ficar sozinho?
      Deixei que Marian me abraasse.
      -- No. No sinto que ela esteja aqui. Sabe o que quero dizer?
     -- Sei, sim. -- Marian beijou minha testa e sorriu, tirando um tomate
verde do bolso. Ela o equilibrou em cima da lpide.
     Inclinei-me para trs e sorri.
     -- Se voc fosse amiga de verdade, o teria fritado.
     Marian passou o brao pela minha cintura. Ela estava usando seu melhor
vestido, como todo mundo, mas o melhor vestido dela era bem melhor. Era
leve e amarelo, da cor de manteiga, com um lao frouxo perto do pescoo. A
saia tinha mil pequenas pregas, como as de um vestido de filme antigo. Parecia
algo que Lena usaria.
     -- Lua sabe que eu no faria isso. -- Ela me apertou com mais fora. --
S vim aqui para ver voc.
     -- Obrigado, tia Marian. Os ltimos dias foram difceis.
     -- Olivia me contou. Um bar Conjurador, um Incubus e um Tormento,
tudo na mesma noite. Infelizmente acho que Amma nunca mais vai deixar
voc me visitar. -- Ela no mencionou o quanto eu achava que Liv devia estar
encrencada.
     -- Tem outra coisa. -- Lena. Eu no conseguia dizer o nome dela.
Marian afastou meu cabelo dos olhos.
     -- Eu soube e sinto muito. Trouxe uma coisa pra voc. -- Ela abriu a
bolsa e tirou uma pequena caixa de madeira com um desenho gasto entalhado
na superfcie. -- Como falei, vim aqui para te ver e te dar isso. -- Ela esticou
a mo com a caixa. -- Era da sua me, um dos objetos mais valiosos que ela
possua.  mais velho do que o restante da coleo dela. Acho que ia querer
que voc ficasse com isso.
     Eu a peguei. A caixa era mais pesada do que parecia.
     -- Cuidado.  delicada.
     Ergui a tampa com cuidado, esperando encontrar outras das amadas
relquias da Guerra Civil da minha me -- um fragmento de bandeira, uma
bala, um pedao de renda. Algo marcado pela histria e pelo tempo. Mas
quando abri a caixa, era outra coisa, marcada por outro tipo de histria e
tempo. Eu soube o que era no momento em que vi.
     O Arco Voltaico das minhas vises.
     O Arco Voltaico que Macon Ravenwood deu para a garota que amava.
     Lila Jane Evers.
     Eu tinha visto isso bordado em um velho travesseiro que pertenceu 
minha me quando ela era pequena: Jane. Minha tia Caroline disse que s
minha av a chamava assim, mas ela morreu antes de eu nascer, ento nunca
tinha ouvido. Tia Caroline estava errada. Minha av no era a nica que a
chamava de Jane.
     O que significava...
     Que minha me era a garota das vises.
     E Macon Ravenwood era o amor da vida da minha me.
                                    17 de junho   
                          O Arco Voltaico

                                    

M
        inha me e Macon Ravenwood. Soltei o Arco Voltaico como se ele
        tivesse me espetado. A caixa caiu e a bola rolou pela grama, como um
        brinquedo de criana em vez de um tipo de priso sobrenatural.
     -- Ethan? O que foi?
     Estava bvio que Marian no tinha ideia de que eu tinha reconhecido o
Arco Voltaico. Eu no o mencionei quando contei a ela sobre as vises. Nem
tinha pensado muito sobre isso. Era mais um pequeno detalhe que eu no
entendia sobre o mundo Conjurador.
     Mas esse pequeno detalhe era importante.
     Se este era o Arco Voltaico da viso, ento minha me tinha amado
Macon do modo como eu amava Lena. Do modo como meu pai a amava.
     Eu precisava saber se Marian sabia onde minha me o tinha conseguido,
ou quem o tinha dado a ela.
     -- Voc sabia?
     Ela se inclinou e pegou a esfera, cuja superfcie escura brilhava na luz do
sol. Ela a colocou de volta na caixa.
     -- Sabia o qu? Ethan, voc est falando coisas sem sentido.
     As perguntas estavam vindo mais rapidamente do que eu podia process-
las. Como minha me conheceu Macon Ravenwood? Quanto tempo ficaram
juntos? Quem mais sabia? E a maior de todas...
     E meu pai?
     -- Voc sabia que minha me era apaixonada por Macon Ravenwood?
     A expresso de Marian desmoronou, o que me revelou tudo. Ela s
pretendia me dar um presente que pertenceu  minha me, no queria entre
maior segredo dela.
     -- Quem te disse isso?
     -- Voc. Quando me deu o Arco Voltaico que Macon entregou para a
garota que ele amava. Minha me.
     Os olhos de Marian se encheram de lgrimas, mas elas no caram.
     --As vises. Elas eram sobre Macon e sua me. -- Ela estava comeando
a entender, a juntar as peas.
     Eu me lembrei da noite em que conheci Macon. Lila Evers, dissera ele.
Lila Evers Wate, corrigi.
     Macon tinha mencionado o trabalho da minha me, mas alegou no
conhec-la. Outra mentira. Minha cabea girava.
     -- Ento voc sabia. -- No era uma pergunta. Balancei a cabea,
desejando poder tirar dela tudo o que tinha acabado de descobrir. -- Meu pai
sabe?
     -- No. E voc no pode contar a ele, Ethan. Ele no entenderia. -- O
desespero era evidente na voz dela.
     -- Ele no entenderia? Eu no entendo! -- Vrias pessoas pararam de
fofocar e olharam para ns.
     -- Lamento muito. Nunca pensei que essa seria uma histria que eu teria
de contar. Era a histria da sua me, no a minha.
     -- Caso voc no tenha reparado, minha me est morta. Ela no pode
exatamente responder perguntas. -- Minha voz estava dura e implacvel, o
que resumia bem como eu me sentia.
     Marian olhou para a lpide da minha me.
     -- Voc est certo. Precisa saber.
     -- Quero a verdade.
     --  o que pretendo dar a voc. -- A voz dela estava trmula. -- Se sabe
sobre o Arco Voltaico, suponho que saiba por que Macon o deu  sua me.
     -- Para que ela pudesse se proteger dele.
     Eu tinha sentido pena de Macon antes. Agora me sentia enojado. Minha
me era a Julieta de uma pea distorcida na qual Romeu era um Incubus, ainda
que esse Incubus fosse Macon.
     -- Isso mesmo. Macon e Lila lutaram com a mesma realidade que voc e
Lena. Tem sido difcil ver voc e ela nesses ltimos meses sem fazer certas...
comparaes. No consigo imaginar o quanto foi difcil para Macon.
     -- Por favor, pare.
     -- Ethan, entendo que  difcil pra voc, mas isso no muda o que
aconteceu. Sou uma Guardi e esses so os fatos. Sua me era uma Mortal.
Macon era um Incubus. Eles no podiam ficar juntos, no depois que Macon
mudou e se tornou a criatura das Trevas que nasceu para ser. Macon no
confiava em si mesmo. Ele tinha medo de machucar sua me, ento deu a ela
o Arco Voltaico.
     -- Fatos. Mentiras. Sei l. -- Eu estava muito cansado daquilo tudo.
     -- Fato. Ele a amava mais do que  prpria vida. -- Por que Marian o
estava defendendo?
     -- Fato. No matar o amor da sua vida no faz de voc um heri. -- Eu
estava furioso.
     -- Isso quase o matou, Ethan.
     -- ? Bem, olhe ao redor. Minha me est morta. Ambos esto. Ento o
plano de Macon no ajudou muito, ajudou?
     Marian respirou fundo. Eu conhecia aquele olhar, e um sermo estava a
caminho. Ela me puxou pelo brao e nos afastamos do cemitrio, para longe
de todos que estavam acima e abaixo da terra.
     -- Eles se conheceram em Duke. Ambos estudavam Histria dos
Estados Unidos. E se apaixonaram, como duas pessoas comuns.
     -- Voc quer dizer, como uma estudante inocente e um Demnio em
evoluo. Se formos nos ater aos fatos.
     -- Na Luz h Trevas e nas Trevas h Luz Sua me costumava dizer
isso. Eu no estava interessado em ideias filosficas sobre a natureza do
mundo Conjurador.
     -- Quando ele deu o Arco Voltaico a ela?
     -- Chegou um ponto em que Macon contou a Lua o que ele era e o que
se tornaria, que um futuro entre os dois seria impossvel. -- Marian falava
devagar e com cuidado. Eu me perguntei se era to difcil falar quanto era
escutar, e senti pena de ns dois.
     -- Isso partiu o corao dos dois. Ele deu o Arco Voltaico a ela, que
felizmente nunca precisou us-lo. Ele deixou a universidade e voltou para
casa, para Gatlin.
     Ela esperou que eu dissesse algo cruel. Tentei pensar em alguma coisa,
mas apesar de tudo, eu estava curioso.
     -- O que aconteceu depois que Macon voltou? Eles voltaram a se ver?
     -- Infelizmente no.
     Lancei-lhe um olhar incrdulo.
     -- Infelizmente?
     Marian balanou a cabea negativamente para mim.
     -- Foi triste, Ethan. Nunca vi sua me to triste. Fiquei muito
preocupada e no sabia o que fazer. Pensei que ela fosse morrer de
infelicidade, por causa do corao partido.
     Caminhvamos ao redor do Paz Perptua. Agora estvamos cercados de
rvores e fora do campo de viso da maior parte de Gatlin.
     -- Mas... -- Eu tinha que saber o fim, mesmo se doesse.
     -- Mas sua me seguiu Macon at Gatlin, pelos tneis. Ela no conseguia
suportar ficar longe dele e jurou encontrar um jeito de ficarem juntos. Um
jeito pelo qual Conjuradores e Mortais pudessem passar a vida juntos. Vivia
obcecada por essa ideia.
     Eu entendia. No gostava, mas entendia.
     -- A resposta a essa pergunta no estava no mundo Mortal, mas no
Conjurador. Ento sua me encontrou um meio de se tornar parte dele,
mesmo no podendo ficar com Macon.
     Voltamos a andar.
     -- Est falando sobre o trabalho de Guardi, certo?
     Marian assentiu.
     -- Lila encontrou um trabalho que a permitia estudar o mundo
Conjurador e suas leis, sua Luz e suas Trevas. Um meio de procurar a
resposta.
     -- Como ela conseguiu o trabalho? -- Eu achava que no havia Pginas
Amarelas Conjuradoras, mas como Carlton Eaton entregava nossas Pginas
Amarelas na superfcie e a correspondncia Conjuradora no subterrneo, por
que no?
     -- Naquela poca, no havia Guardio em Gatlin. -- Marian fez uma
pausa, desconfortvel. -- Mas um poderoso Conjurador requisitou um, pois a
Lunae Libri fica aqui e, em certa poca, O Livro das Luas tambm.
     Agora tudo fazia sentido.
     -- Macon. Ele pediu que fosse ela, no foi? No conseguia ficar longe, no
fim das contas.
     Marian limpou o rosto com um leno.
     -- No. Foi Arelia Valentin, a me de Macon.
     -- Por que a me de Macon ia querer que minha me fosse Guardi?
Mesmo sentindo pena do filho, ela sabia que eles no podiam ficar juntos.
     -- Arelia  uma poderosa Adivinhadora, capaz de ver fragmentos do
futuro.
     -- Como uma verso Conjuradora de Amma?
     Marian secou o rosto.
     -- Acho que podemos dizer que sim. Arelia percebeu uma coisa na sua
me, sua habilidade de descobrir a verdade, de ver o que est escondido. Acho
que Arelia tinha esperanas de que ela encontrasse a resposta, um modo pelo
qual Conjuradores e Mortais pudessem ficar juntos. Conjuradores da Luz
sempre tiveram esperana de que isso fosse possvel. Genevieve no foi a
primeira Conjuradora a se apaixonar por um Mortal. -- Marian olhou para
longe, onde famlias comeavam a arrumar piqueniques na grama. -- Ou
talvez tenha feito aquilo pelo filho.
     Ela parou de andar. Tnhamos caminhado mais um pouco, em forma
circular, e estvamos no tmulo de Macon. Eu podia ver o anjo chorando ao
longe. S que o tmulo no se parecia em nada com o modo que estava no
enterro dele. Onde s havia terra agora havia um jardim selvagem, tudo sob a
sombra de dois limoeiros absurdamente altos, e cada lado da lpide. Um
canteiro de jasmim e emaranhados de alecrim crescia. Eu me perguntei se
algum o tinha visitado aquele dia para reparar nisso tudo.
     Apertei as mos contra as tmporas, tentando evitar que minha cabea
explodisse. Marian colocou gentilmente a mo nas minhas costas.
     -- Sei que  muita coisa para absorver, mas isso no muda nada. Sua me
amava voc.
     Eu me mexi para tirar a mo de Marian das minhas costas.
     -- , ela s no amava meu pai.
     Marian puxou meu brao, me forando a encar-la. Minha me podia ter
sido minha me, mas tambm tinha sido a melhor amiga de Marian, e eu no
ia me safar por questionar a integridade dela na sua frente. Nem naquele dia,
nem nunca.
     --No diga isso, EW. Sua me amava seu pai.
     -- Mas ela no se mudou para Gatlin pelo meu pai. Ela se mudou para c
por causa de Macon.
     -- Seus pais se conheceram em Duke quando estvamos trabalhando na
nossa dissertao. Como Guardi, sua me vivia nos tneis embaixo de Gatlin,
viajando entre a Lunae Libri e a universidade para trabalhar comigo. Ela no
estava morando na cidade, no mundo do PRA e da Sra. Lincoln. Ento, sim,
ela se mudou para Gatlin por causa de seu pai. Ela saiu da escurido para a
Luz, e acredite, foi uma grande mudana para ela. Seu pai a salvou de si
mesma quando nenhum de ns podia fazer isso. Nem eu. Nem Macon.
     Olhei para os limoeiros fazendo sombra no tmulo de Macon e depois
para alm deles, para o local do tmulo da minha me. Pensei em meu pai
ajoelhado ali. Pensei em Macon, enfrentando o Jardim da Paz Perptua,
apenas para que pudesse descansar a uma rvore de distncia da minha me.
     -- Ela se mudou para uma cidade onde ningum a aceitava porque seu
pai no queria sair daqui e ela o amava. -- Marian segurou meu queixo entre o
polegar e os outros dedos. -- Ela s no o amou primeiro.
    Respirei fundo. Pelo menos minha vida inteira no era uma completa
mentira. Ela amava meu pai, embora amasse Macon Ravenwood tambm.
Peguei o Arco Voltaico da mo de Marian. Eu queria segur-lo, queria ter um
pedao deles dois.
    -- Ela nunca descobriu a resposta, um jeito para que Mortais e
Conjuradores pudessem ficar juntos.
    -- No sei se h um jeito. -- Marian colocou o brao em torno do meu
corpo e encostei a cabea no ombro dela. --  voc que talvez seja o
Obstinado, EW. Voc que pode me dizer.
    Pela primeira vez desde que vi Lena parada na chuva, quase um ano atrs,
eu no sabia. Da mesma forma que minha me, eu no descobri resposta
alguma. A nica coisa que encontrei foram problemas. Teria sido isso que ela
encontrou tambm?
    Olhei para a caixa nas mos de Marian.
    -- Foi por isso que minha me morreu? Tentando encontrar uma
resposta?
    Marian pegou minha mo e pressionou a caixa contra ela, dobrando meus
dedos ao seu redor junto com os dela.
    -- Contei o que sabia. Tire suas concluses, eu no posso interferir.
Essas so as regras. Na grande Ordem das Coisas, no sou importante. Os
Guardies nunca so.
    -- Isso no  verdade. -- Marian era importante para mim, mas eu no
podia dizer isso. Minha me era importante. Essa parte eu no precisava dizer.
    Marian sorriu quando ergueu a mo, deixando a caixa na minha.
    -- No estou reclamando. Escolhi esse caminho, Ethan. Nem todo
mundo pode escolher seu lugar na Ordem das Coisas.
    -- Est falando de Lena? Ou de mim?
    -- Voc  importante, quer goste ou no, e Lena tambm. Isso no  uma
escolha. -- Ela afastou meu cabelo dos olhos, do jeito que minha me
costumava fazer. -- A verdade  a verdade. Raramente pura e nunca
simples, como diria Oscar Wilde.
    -- No entendi.
     -- Todas as verdades so fceis de entender depois que so descobertas;
o difcil  descobri-las`
     -- Mais Oscar Wilde?
     -- Galileu, o pai da astronomia moderna. Outro homem que rejeitou seu
lugar na Ordem das Coisas, a ideia de que o Sol no girava em torno da Terra.
Ele sabia, talvez melhor do que todo mundo, que no escolhemos o que 
verdade. S escolhemos o que fazer sobre ela.
     Peguei a caixa, porque no fundo eu sabia o que ela queria dizer, mesmo
no sabendo nada sobre Galileu e muito menos sobre Oscar Wilde. Eu era
parte de tudo aquilo, querendo ou no. Eu no podia fugir, assim como no
podia impedir as vises.
     Agora eu precisava decidir o que fazer com tudo isso.
                                    17 de junho   
                                     Pule

                                   

Q    uando deitei na cama aquela noite, j estava com medo dos meus sonhos.
     Dizem que sonhamos sobre a ltima coisa em que estvamos pensando
     logo antes de adormecer, mas quanto mais eu tentava no pensar em
Macon e minha me, mais eu pensava neles. Exausto de tanto pensar em no
pensar, foi apenas questo de tempo at eu afundar no colcho e cair na
escurido, e minha cama se tornou um barco...
     Os salgueiros se balanavam sobre minha cabea.
     Eu sentia que balanava para a frente e para trs. O cu estava azul, sem
nuvens, surreal. Virei minha cabea e olhei para o lado. Madeira velha, pintada
com um tom de azul que parecia muito o teto do meu quarto. Eu estava em
um bote ou barco a remo, flutuando sobre o rio.
     Eu me sentei e o barco balanou. Uma pequena mo branca caiu para o
lado, arrastando um dedo fino sobre a gua. Olhei para as ondulaes que
perturbavam o reflexo do cu perfeito, tranquilo e calmo como um vidro.
     Lena estava deitada  minha frente, na ponta do barco. Ela usava um
vestido branco, do tipo que se via em filmes antigos, onde tudo  preto e
branco. Com rendas, laos e pequenos botes de prolas. Segurava uma
sombrinha preta e seus cabelos, unhas e at os lbios estavam pretos. Estava
deitada de lado, encolhida, cada sobre o barco, a mo se arrastando atrs de
ns enquanto seguamos flutuando.
     -- Lena?
     Ela no abriu os olhos, mas sorriu.
     -- Estou com frio, Ethan.
     Olhei para a mo dela, que estava agora submersa na gua at o pulso.
     --  vero. A gua est quente. -- Tentei rastejar at ela, mas o barco
balanou e ela escorregou para mais perto da beirada, deixando  vista o All
Star preto debaixo do vestido.
     Eu no podia me mexer.
     Agora a gua ia at o brao dela e eu via mechas do seu cabelo
comeando a flutuar na superfcie.
     -- Sente-se, L! Voc vai cair!
     Ela riu e soltou a sombrinha, que flutuou, girando, nas ondas atrs de ns.
Fui em direo a ela e o barco balanou violentamente.
     -- No te contaram? Eu j ca.
     Pulei para cima dela. Isso no podia estar acontecendo, mas estava. Eu
sabia, porque esperava pelo som da queda dela na gua.
     Quando cheguei na extremidade do barco, abri meus olhos. O mundo
1ava se balanando e ela havia desaparecido. Olhei para baixo e s conseguia
ver a gua marrom-esverdeada do Santee e o cabelo preto dela. Enfiei a mo
na gua. No podia pensar.
     Pule ou fique no barco.
     O cabelo flutuou para baixo, incontrolvel, silencioso, surpreendente, mo
algum tipo de criatura mtica do mar. Havia um rosto branco, embaado pela
profundeza do rio. Preso debaixo do vidro.
     -- Me?


Eu me sentei na cama, encharcado e tossindo. O luar entrava pela minha
janela. Estava aberta de novo. Fui at o banheiro e bebi gua com as mos em
concha at que a tosse diminusse. Olhei para o espelho. Estava escuro e eu
mal conseguia ver minhas feies. Tentei encontrar meus olhos em meio s
sombras. Mas, em vez disso, vi outra coisa... uma luz ao longe.
     Eu no conseguia mais ver o espelho ou as sombras no meu rosto. S a
luz e fragmentos de imagens que passavam rapidamente.
     Tentei me concentrar e entender o que via, mas tudo estava aparecendo
rpido demais, quase voando, passando para cima e para baixo, como se eu
estivesse em uma montanha-russa. Vi a rua -- molhada, brilhante e escura.
Estava a poucos centmetros de mim, o que fazia parecer que eu estava
rastejando no cho. Mas isso era impossvel, porque tudo se movia muito
rapidamente. Esquinas altas entravam no meu campo de viso, a rua subindo
para se encontrar comigo.
     Tudo o que eu conseguia ver era a luz e a rua que estava to estranha-
mente perto. Senti a porcelana fria quando segurei as laterais da pia, tentando
no cair. Eu estava tonto e os pontos de luz vinham na minha direo,
chegando mais perto. Minha viso mudou de repente, como se eu tivesse
virado a esquina em um labirinto, e tudo comeou a ficar devagar.
     Duas pessoas estavam apoiadas na lateral de um prdio sujo de tijolos,
debaixo de um poste de luz. Era a luz que entrava e saa de foco. Eu estava
olhando para eles de baixo, como se estivesse deitado no cho. Olhei para as
silhuetas  minha frente.
     -- Eu devia ter deixado um bilhete. Minha av vai ficar preocupada. --
Era a voz de Lena. Ela estava bem na minha frente. Isso no era uma viso,
no como as do medalho e do dirio de Macon.
     -- Lena! -- gritei o nome dela, mas ela nem se mexeu.
     A outra pessoa chegou mais perto. Eu sabia que era John antes de ver o
rosto dele.
     -- Se voc tivesse deixado um bilhete, eles poderiam us-lo para nos
encontrar com um simples Conjuro Localizador. Principalmente sua av. Ela
tem um poder absurdo. -- Ele a tocou no ombro. -- Acho que  de famlia.
     -- No me sinto poderosa. No sei o que sinto.
     --No est em dvida, est? -- John estendeu a mo e pegou a dela,
segurando-a aberta para que pudesse ver a palma. Enfiou a outra mo no
bolso, pegou uma caneta permanente e comeou a escrever distraidamente na
mo dela.
     Lena balanou a cabea, olhando enquanto ele escrevia.
     -- No. L no  mais o meu lugar. Eu acabaria machucando-os.
Machuco todo mundo que me ama.
     -- Lena,.. -- No adiantava. Ela no podia me ouvir.
     -- No ser assim quando chegarmos  Grande Barreira. No h Luz ou
Trevas, nem Naturais ou Cataclistas, s magia em sua forma mais pura. O que
significa nada de rtulos ou julgamentos.
     Eles estavam olhando para a mo dela enquanto John movia a caneta ao
redor do pulso de Lena. Pelo modo como as cabeas deles estavam inclinadas,
eles estavam quase se tocando. Lena girou o pulso lentamente na mo dele.
     -- Estou com medo.
     -- Eu jamais deixaria alguma coisa acontecer a voc. -- Ele prendeu uma
mecha de cabelo dela atrs da orelha, como eu costumava fazer. Eu me
perguntei se ela se lembrava.
     --  difcil imaginar que um lugar assim realmente exista. As pessoas me
julgaram a vida toda -- riu Lena, mas pude ouvir a tenso na voz dela.
     --  por isso que vamos. Para que finalmente possa ser voc mesma.
     O ombro de John se contorceu de forma estranha e ele o segurou,
fazendo uma careta. Ele se recomps antes que Lena percebesse. Mas no
antes que eu percebesse.
     -- Eu mesma? Nem sei quem  essa pessoa. -- Lena deu um passo para
longe da parede e olhou para a noite. A luz do poste delineou seu perfil e pude
ver o cordo brilhando.
     -- Eu gostaria de saber. -- John se inclinou na direo de Lena. Ele
estava falando to baixo que eu mal conseguia ouvir.
     Lena parecia cansada, mas reconheci o meio-sorriso de lado.
     -- Posso apresent-la a voc se algum dia vier a conhec-la.
     -- Esto prontos para ir, gatos? -- Ridley saiu do prdio, chupando um
pirulito vermelho de cereja.
     Lena se virou e, quando fez isso, a luz bateu na mo dela -- a mo onde
John tinha escrito. Mas no havia palavra alguma. Ela estava coberta de
desenhos pretos. Eram os mesmos que eu tinha visto nas mos dela na feira e
nas beiradas do caderno dela. Antes que eu conseguisse ver qualquer outra
coisa, eles saram do meu campo de viso e tudo o que pude distinguir foi uma
rua larga e os paraleleppedos molhados  minha frente. Depois, nada.


No sei por quanto tempo fiquei ali, me segurando na pia. Parecia que se
soltasse desmaiaria. Minhas mos estavam tremendo, minhas pernas, bambas.
O que tinha acabado de acontecer? No era uma viso. Eles estavam to perto
que eu podia ter esticado a mo e tocado nela. Por que ela no conseguia me
ouvir?
     No importava. Ela realmente tinha feito o que tinha dito: fugido. Eu no
sabia onde ela estava, mas tinha visto o bastante dos tneis para reconhec -
los.
     Ela tinha ido embora em direo  Grande Barreira, fosse ela o que fosse.
No tinha mais nada a ver comigo. Eu no queria sonhar nem ver ou ouvir
sobre isso.
     Esquecer tudo. Voltar a dormir. Era o que eu precisava.
     Pule ou fique no barco.
     Que sonho maluco. Como se dependesse de mim. Esse barco estava
afundando, com ou sem mim.
     Soltei a pia por tempo o bastante para me apoiar no vaso sanitrio e
cambalear at meu quarto. Andei at as pilhas de caixas de sapato alinhadas na
parede, as que continham tudo o que era importante para mim ou qualquer
coisa que eu quisesse esconder. Por um segundo, fiquei ali parado. Eu sabia o
que estava procurando, mas no sabia em que caixa estava.
     gua como vidro. Pensei nisso quando me lembrei do sonho.
     Tentei me lembrar onde encontrar. Mas isso era ridculo, porque eu sabia
o que havia em cada uma daquelas caixas. Pelo menos at o dia anterior eu
sabia. Tentei pensar, mas tudo o que podia ver eram as 78 caixas empilhadas
ao meu redor. Adidas preta, New Balance verde... Eu no conseguia me
lembrar.
     Eu j tinha aberto umas 12 caixas quando achei a preta de All Star. A
caixa de madeira entalhada ainda estava l dentro. Ergui a esfera lisa e delicada
do forro de veludo. A marca da esfera permaneceu no tecido, escuro e
amassado, como se ela tivesse ficado ali por mil anos.
     O Arco Voltaico.
     Tinha sido o bem mais valioso da minha me e Marian o tinha dado a
mim. Por que agora?
     Na minha mo, o globo plido comeou a refletir o quarto ao meu redor
at que a superfcie curva ganhou vida e se encheu de cores. Estava brilhando
num verde plido. Eu podia ver Lena de novo na minha mente e ouvi-la.
Machuco todo mundo que amo.
     O brilho comeou a sumir e mais uma vez o Arco Voltaico ficou preto e
opaco, frio e sem vida na minha mo. Mas eu ainda podia sentir Lena. Podia
sentir onde ela estava, como se o Arco Voltaico fosse algum tipo de bussola
me guiando at ela. Talvez esse negcio de Obstinado no fosse uma
completa loucura, afinal.
     Mas isso no fazia sentido, porque o ltimo lugar onde eu queria estar era
no qual Lena e John estavam. Ento por que eu os estava vendo?
     Minha mente estava a mil. A Grande Barreira? Um lugar onde no havia
Luz e nem Trevas? Seria isso possvel?
     No fazia sentido tentar dormir agora.
     Vesti uma camisa amassada com estampa de Atari. Eu sabia o que
precisava fazer.
     Juntos ou no, isso era maior do que Lena e eu. Talvez fosse to grande
quanto a Ordem das Coisas, ou quanto Galileu concluindo que a Terra girava
em torno do Sol. No importava que eu no queria ver. No havia
coincidncias. Eu estava vendo Lena, John e Ridley por um motivo.
     Mas eu no tinha ideia de que motivo era esse.
     E era por isso que eu precisava falar com o prprio Galileu.


Quando sa andando na escurido, podia ouvir os pomposos galos do Sr.
Mackey comeando a cacarejar. Eram 4h45 e o sol no estava nem perto de
nascer, mas eu caminhava pela cidade como se fosse o meio da tarde. Ouvi o
som dos meus ps enquanto andava pela calada rachada e pelo asfalto
grudento.
     Aonde eles estavam indo? Por que eu os via? Por que era importante?
     Ouvi um barulho. Quando me virei, Lucille inclinou a cabea e se sentou
no cho atrs de mim. Balancei a cabea e continuei andando. Aquela gata
maluca ia me seguir, mas eu no ligava. Provavelmente ramos os nicos
acordados na cidade.
     Mas no ramos, O Galileu de Gatlin estava acordado tambm. Quando
dobrei a esquina da rua de Marian, pude ver a luz no quarto de hspedes
acesa. Quando me aproximei, vi uma segunda luz piscar na varanda da frente.
     -- Liv. -- Subi os degraus correndo e ouvi um som metlico na
escurido.
     -- Caramba! -- A lente de um enorme telescpio girou em direo 
minha cabea e eu me abaixei. Liv pegou a extremidade da lente, as tranas
desarrumadas se balanando atrs de si. -- No chegue sorrateiramente desse
jeito! -- Ela girou um boto e o telescpio se prendeu no lugar, no alto trip
de alumnio.
     -- Chegar pelos degraus da frente no  exatamente sorrateiro.
     Tentei no olhar para o pijama dela, uma espcie de cueca feminina e uma
camiseta com uma foto do Pluto e as palavras o PLANETA DOS ANES
DIZ: ESCOLHA ALGUM DO SEU TAMANHO.
     -- Eu no te vi. -- Liv ajustou a ocular e olhou no telescpio. -- O que
voc est fazendo aqui, afinal? Est maluco?
     --  o que estou tentando descobrir.
     -- Deixe-me poupar seu tempo. A resposta  sim.
     -- No estou brincando.
     Ela me observou, depois pegou o caderno vermelho e comeou a
escrever.
     Estou ouvindo. S preciso escrever algumas coisas.
     Olhei por cima do ombro dela.
     -- O que voc est olhando?
     -- O cu. -- Ela olhou de novo pelo telescpio e depois para o
selenmetro. Escreveu outra lista de nmeros.
     -- Isso eu sei.
     -- Aqui. -- Ela deu um passo para o lado e fez sinal para que eu me
aproximasse. Olhei pela lente. O cu explodiu em luz e estrelas e a poeira de
uma galxia que nem remotamente se parecia com o cu de Gatlin. -- O que
voc v?
     -- O cu. Estrelas. A Lua.  incrvel.
     -- Agora olhe. -- Ela me afastou da lente e olhei para o cu. Embora
ainda estivesse escuro, eu no conseguia enxergar nem metade das estrelas que
vi pelo telescpio.
     -- As luzes no so to intensas. -- Olhei novamente pelo telescpio.
Mais uma vez, o cu se encheu de estrelas brilhantes. Eu me afastei da lente e
olhei para a noite. O cu real era mais escuro, mais plido, como um espao
perdido e solitrio. --  estranho. As estrelas parecem to diferentes pelo
telescpio.
     --  porque nem todas esto l.
     -- O que voc est dizendo? O cu  o cu.
     Liv olhou para a Lua.
     -- Menos quando no .
     -- O que isso quer dizer?
     -- Ningum sabe na verdade. H constelaes Conjuradoras e
constelaes Mortais. Elas no so as mesmas. Pelo menos no parecem as
mesmas para o olho Mortal. E isso, infelizmente,  s o que eu e voc temos.
-- Ela sorriu e mudou uma das configuraes. -- E j me disseram que as
constelaes Mortais no podem ser vistas por Conjuradores.
     -- Como isso  possvel?
     -- Como qualquer coisa  possvel?
     -- Nosso cu  real? Ou ele s parece real? -- Eu me senti como uma
abelha carpinteira no momento em que descobriu que tinha sido enganada
para pensar que uma camada de tinta azul no teto era o cu.
     -- Faz alguma diferena? -- Ela apontou para o cu escuro. -- Est
vendo aquilo? O Grande Carro. Voc conhece esse, certo?
     Assenti.
     -- Se voc olhar diretamente para baixo, duas estrelas a partir da
maaneta, v aquela estrela brilhante?
     --  a Estrela do Norte. -- Qualquer ex-escoteiro de Gatlin podia ter
respondido essa.
     -- Exatamente. Polaris. Agora est vendo onde termina o fundo da
caamba, o ponto mais baixo? V alguma coisa ali?
     Balancei minha cabea.
     Ela olhou no telescpio, primeiro girando um boto, depois um outro.
     -- Agora olhe. -- Ela deu um passo para trs.
     Pela lente, eu podia ver o Grande Carro, exatamente como era no cu
comum, s que brilhando com mais intensidade.
     --  a mesma coisa. De um modo geral.
     -- Agora olhe para o fundo da caamba. Para o mesmo lugar. O que voc
v?
     Eu olhei.
     -- Nada.
     Liv pareceu irritada.
     -- Olhe de novo.
     -- Por qu? No tem nada l.
     -- O que voc quer dizer? -- Liv se inclinou e olhou pela lente. -- Isso
no  possvel Tem de haver uma estrela de sete pontas, o que os Mortais
chamam de heptagrama.
     Uma estrela de sete pontas. Lena tinha uma no cordo.
     --  o equivalente Conjurador  Estrela do Norte. Ela no marca o
norte, mas o sul, que tem importncia mstica no mundo Conjurador. Eles a
chamam de Estrela do Sul. Espere, vou encontr-la pra voc. -- Ela se
inclinou para o telescpio de novo. -- Mas continue falando. Tenho certeza
de que voc no veio ouvir um sermo sobre heptagramas. O que est
acontecendo?
     No fazia sentido adiar mais.
     -- Lena fugiu com John e Ridley. Eles esto em algum lugar nos tneis.
     Agora eu tinha a ateno dela.
     -- O qu? Como voc sabe?
     --  difcil explicar. Eu os vi em uma viso estranha que no era uma
viso.
     -- Como quando voc tocou o dirio no escritrio de Macon?
     Balancei a cabea.
     -- No toquei em nada. Em um minuto eu estava olhando para o meu
reflexo no espelho e um segundo depois tudo o que eu podia ver eram coisas
passando por mim como se eu estivesse correndo. Quando parei, eles estavam
em um beco a alguns centmetros de mim, mas no podiam me ver nem ouvir.
-- Eu estava falando de forma incoerente.
     -- O que estavam fazendo? -- perguntou Liv.
     -- Conversando sobre um lugar chamado a Grande Barreira. Onde tudo
vai ser perfeito e eles podero viver felizes para sempre, de acordo com John.
-- Tentei no parecer amargo.
     -- Eles chegaram mesmo a dizer que iam para a Grande Barreira? Tem
certeza?
     -- Tenho. Por qu? -- Eu podia sentir o Arco Voltaico, repentinamente
quente no meu bolso.
     -- A Grande Barreira  um dos mitos Conjuradores mais antigos. Um
lugar de magia antiga e poderosa, bem anterior  poca de Luz e Trevas, uma
espcie de nirvana. Nenhuma pessoa de bom-senso acredita que ele realmente
exista.
     -- John Breed acredita.
     Liv olhou para o cu.
     -- Ou ele diz que acredita.  besteira, mas  uma besteira poderosa.
Como pensar que a Terra  achatada. Ou que o Sol se move em torno da
Terra. -- Como Galileu.  claro.
     Eu tinha ido at l procurando um motivo para voltar para a cama, voltar
para a Jackson e minha vida. Uma explicao sobre o motivo de eu poder ver
Lena no espelho do meu banheiro que no significasse que estou louco. Uma
resposta que no me levasse de volta a Lena. Mas encontrei o oposto.
     Liv continuou falando, sem saber da pedra que parecia crescer dentro do
meu estmago e da que esquentava o meu bolso.
     -- As lendas dizem que, se voc seguir a Estrela do Sul, vai acabar
encontrando a Grande Barreira.
     -- E se a estrela no estiver l? -- Com esse pensamento, outro comeou
a nascer, e depois outro, todos se embolando na minha mente.
     Liv no respondeu porque estava ajustando freneticamente o telescpio.
     -- Tem que estar l. Deve ter alguma coisa errada com meu telescpio.
     -- E se tiver sumido? A galxia muda toda hora, certo?
     --  claro. Por volta do ano 3000, Polaris no vai ser mais a Estrela do
Norte, e sim Alrai. Significa o pastor em rabe, j que perguntou.
     -- Por volta do ano 3000?
     -- Exatamente. Daqui a mil anos. Uma estrela no pode sumir de
repente, no sem uma exploso csmica intensa. No  uma coisa sutil.
     --  assim que o mundo termina, no com um estrondo mas com um
gemido. -- Lembrei de um verso de um poema de T.S. Eliot. Lena no
conseguia tir-lo da cabea antes do aniversrio.
     -- Sim, bem, eu amo o poema, mas a cincia  um pouco diferente.
     No com um estrondo mas com um gemido. Ou era no com um gemido mas
com um estrondo? Eu no conseguia me lembrar das palavras exatas, mas
Lena as tinha escrito em forma de poema na parede do quarto quando Macon
morreu.
     Ser que ela sabia desde o comeo aonde isso tudo ia dar? Eu tinha uma
sensao ruim no estmago. O Arco Voltaico estava to quente que queimava
a minha pele.
     -- No tem nada de errado com seu telescpio.
     Liv observou o selenmetro.
     -- Acho que tem alguma coisa estranha. No  s o telescpio. At os
nmeros no esto batendo.
     -- Coraes iro embora e Estrelas iro atrs -- falei sem pensar, como
se fosse uma msica antiga que no saa da minha cabea.
     -- O qu?
     -- Dezessete Luas No  nada, s uma msica que vivo ouvindo. Tem
a ver com a Invocao de Lena.
     -- Uma msica sinalizadora? -- Ela olhou para mim, incrdula.
     -- Essa msica  isso? -- Eu devia saber que provavelmente tinha um
nome.
     -- Ela prev o que est por vir. Voc tinha uma msica sinalizadora o
tempo todo? Por que no me contou?
     Dei de ombros. Porque eu era um idiota. Porque no gostava de falar
com Liv sobre Lena. Porque coisas terrveis eram ditas na msica. Pode
escolher.
     -- Conte-me o verso todo.
     -- Tem alguma coisa a ver com esferas e uma lua antes do seu tempo
chegar. Depois tem a parte sobre as estrelas indo aonde os coraes forem...
No me lembro do restante.
     Liv se sentou no degrau mais alto da varanda.
     -- Uma lua antes que seu tempo chegue.  exatamente isso que a msica
diz?
     Assenti.
     -- Primeiro a lua. Depois as estrelas vo atrs. Tenho certeza.
     O cu agora estava manchado de luz.
     -- Chamar uma Lua Invocadora antes da hora. Isso pode explicar.
     -- O qu? A estrela que sumiu?
     Liv fechou os olhos.
     --  mais do que a estrela. Chamar uma lua antes da hora poderia mudar
toda a Ordem das Coisas, de cada campo magntico e cada campo mgico.
Isso explicaria qualquer mudana no cu Conjurador. A ordem natural do
mundo Conjurador  to delicadamente equilibrada quanto a do nosso.
     -- O que poderia provocar isso?
     -- Voc quer dizer quem. -- Liv abraou os joelhos.
     Ela s podia estar falando de uma pessoa.
     -- Sarafine?
     -- No h registros de um Conjurador poderoso o bastante para chamar
a lua. Mas se algum est chamando a lua fora de hora, no d pra saber
quando ser a prxima Invocao. E nem onde. -- Uma Invocao. O que
significava Lena.
      Eu me lembrei do que Marian disse no arquivo. No escolhemos o que 
verdade. S escolhemos o que fazer sobre ela.
      -- Se estamos falando de uma Lua Invocadora, estamos falando de Lena.
Devamos acordar Marian. Ela pode nos ajudar. -- Mas, no momento em que
falei, soube a verdade. Ela talvez pudesse nos ajudar, mas isso no significava
que ajudaria. Como Guardi, ela no podia se envolver.
      Liv estava pensando a mesma coisa.
      -- Voc acha mesmo que a professora Ashcroft vai nos deixar ir atrs de
Lena pelos tneis, depois do que aconteceu na ltima vez em que estivemos
l? Ela vai nos trancar na sala de livros raros pelo restante do vero.
      Ou pior, ela ia chamar Amma, e eu teria que levar as Irms para a igreja
todos os dias no Cadillac velho de tia Grace.
      Pule ou fique no barco.
      No era uma deciso de verdade, ao menos no mais. Eu a tinha tomado
havia muito tempo, quando sa do carro na autoestrada 9 uma certa noite, na
chuva. Eu tinha pulado. No havia como ficar no barco, no eu,
independentemente de Lena e eu estarmos juntos ou no. Eu no ia deixar
John Breed, Sarafine, uma estrela desaparecida, o tipo errado de lua ou os
loucos cus Conjuradores me impedirem agora. Eu devia isso  garota da
autoestrada 9.
      -- Liv, posso encontrar Lena. No sei como, mas posso. Voc consegue
rastrear a lua com seu selenmetro, certo?
      -- Posso medir as variaes na atrao magntica da lua, se  isso que
voc est perguntando.
      -- Ento voc pode encontrar a Lua Invocadora?
      -- Se meus clculos estiverem corretos, se o tempo no mudar, se os
corolrios tpicos entre as constelaes Conjuradoras e Mortais permanecerem
verdadeiros...
      -- Era mais uma pergunta do tipo sim ou no.
      Liv puxou uma das tranas, pensando.
      -- Sim.
      -- Se vamos fazer isso, temos que ir antes que Amma e Marian acordem.
      Liv hesitou. Como Guardi em treinamento, ela no devia se envolver.
Mas todas as vezes em que estvamos juntos, acabvamos nos encrencando.
      -- Lena pode estar correndo muito perigo.
      -- Liv, se voc no quiser ir...
      --  claro que quero. Estudo as estrelas e o mundo Conjurador desde
que tinha 5 anos. Sempre quis fazer parte disso. At algumas semanas atrs, a
nica coisa que eu tinha feito era ler sobre o assunto e observar pelo meu
telescpio. Estou cansada de observar. Mas a professora Ashcroft...
      Eu estava errado sobre Liv. Ela no era como Marian. No ficaria
satisfeita s em arquivar Pergaminhos Conjuradores. Queria provar que o
mundo no era achatado.
      -- Pule ou fique no barco, Guardi. Voc vem? -- O sol estava nascendo
e estvamos ficando sem tempo.
      -- Voc tem certeza de que quer que eu v? -- Ela no olhou para mim e
eu no olhei para ela. A lembrana do beijo que nunca aconteceu pairava entre
ns.
      -- Voc conhece algum com um selenmetro e um mapa mental de
estrelas Conjuradoras desaparecidas?
      Eu no tinha certeza se as discrepncias, os corolrios e os clculos dela
iam me ajudar. Mas sabia que a msica nunca estava errada e as coisas que vi
naquela noite provavam isso. Eu precisava de ajuda e Lena tambm, mesmo
nosso relacionamento estando terminado. Eu precisava de uma Guardi,
mesmo que fosse uma fujona com um relgio maluco e procurando ao em
qualquer lugar que no fosse um livro.
      -- Eu pulo -- disse Liv suavemente. -- No quero mais ficar no barco.
-- Ela girou a maaneta da porta de tela devagar, sem fazer sequer um dique.
O que significava que ia entrar para pegar as coisas dela. O que significava que
iria comigo.
      -- Tem certeza? -- Eu no queria ser o motivo de ela ir, pelo menos no
o nico. Isso foi o que eu disse para mim mesmo, mas eu pensava muita
besteira.
     -- Voc conhece alguma outra pessoa burra o bastante para procurar um
lugar mitolgico onde uma Sobrenatural do mal est tentando chamar uma
Lua Invocadora? -- Ela sorriu, abrindo a porta.
     -- Para falar a verdade, conheo.
                                     18 de junho   
                           Portas externas

                                    

E
     SCOLA DE VERO: NUNCA PARE DE APRENDE SE VOC
     QUER COMEAR A GANHA DINHEIRO.
          Era o que o letreiro dizia, onde normalmente estava escrito, VAMOS
L WILDCATZ. Liv e eu olhamos para ele dos arbustos que ladeavam os
degraus da entrada principal da Jackson High.
     -- Tenho quase certeza de que tem um r em aprender e ganhar.
     -- Provavelmente o r acabou. Tem r em formatura, reavaliao
escolar, cair fora de Gatlin. -- Isso ia ser difcil. Fosse ou no vero, a Srta.
Hester ainda estaria sentada na sala de controle de frequncia, observando a
porta de entrada. Se algum ficasse reprovado em alguma matria, tinha que se
matricular na escola de vero. Mas isso no significava que no podia matar
aula, se conseguisse passar pela Srta. Hester. Embora o Sr. Lee nunca tivesse
cumprido sua ameaa de nos reprovar por no aparecer na encenao da
Batalha de Honey Hili, Link tinha ficado reprovado em biologia, o que
significava que eu tinha que achar um jeito de entrar.
     -- Vamos ficar aqui nos arbustos a manh toda? -- Liv estava ficando
mal-humorada.
     -- Calma, um segundo. Passei minha vida toda pensando em meios de
sair da Jackson. Nunca pensei muito em como entrar. Mas no podemos ir
sem Link.
     Liv sorriu.
    -- Nunca subestime o poder do sotaque britnico. Observe e aprenda.

A Srta. Hester olhou por cima dos culos para Liv, que tinha enrolado o
cabelo louro em um coque. Era vero, o que significava que a Srta. Hester
vestia uma de suas blusas sem mangas, um short de polister at os joelhos e
tnis Keds brancos. De onde eu estava escondido, debaixo da bancada ao lado
de Liv, eu tinha uma viso clara da parte de baixo do short verde da Srta.
Hester e dos seus ps inchados.
     -- Desculpe. Quem voc disse que representa?
     -- O CEB. -- Liv me chutou e fui em direo ao corredor.
     --  claro. E o que  isso?
     Liv suspirou com impacincia.
     --  o Consulado Educacional Britnico. Como falei, estamos
procurando escolas de alto nvel funcional nos Estados Unidos para usar
como modelo na reforma educacional.
     -- De alto nvel funcional? -- A Srta. Hester parecia confusa. Fui em
frente e dobrei a esquina engatinhando.
     -- No acredito que a senhora no foi avisada de minha visita. Posso
falar com seu superior, por favor?
     -- Superior? -- Quando a Srta. Hester descobriu o que Liv queria dizer,
eu j estava subindo a escada. Por trs da loura, por trs at da inteligncia, Liv
era uma garota com muitos talentos escondidos.
     --Tudo bem, chega de piadas sobre A menina e o porquinho. Peguem seus
espcimes com firmeza em uma das mos e faam a inciso na barriga, de
cima para baixo, com a tesoura. -- Eu podia ouvir a Sra. Wilson pela porta.
Sabia o que estava acontecendo na aula de biologia de hoje s pelo cheiro.
Sem mencionar o burburinho.
     --Acho que vou desmaiar...
     -- Wilbur, no!
       -- Eca!
     Olhei pela janelinha que havia na porta. Fetos rosados de porcos estavam
enfileirados nas bancadas do laboratrio. Eles eram pequenos e estavam
presos a tbuas pretas enceradas em cima de bandejas de metal. Menos o de
Link.
     O porco de Link era enorme. Ele ergueu uma das mos.
     -- Hum, Sra. Wilson? No consigo chegar  abertura do esterno com a
tesoura. Tank  grande demais para isso.
     -- Tank?
     -- Tank, meu porco.
     -- Voc pode usar a tesoura de jardinagem que est no fundo da sala.
     Bati no vidro. Link passou direto e no me ouviu. Eden estava sentado
em frente  longa bancada preta do laboratrio ao lado de Link, tapava o nariz
com uma das mos e com a outra cutucava o interior do porco usando uma
pina. Fiquei surpreso por ela estar ali junto com os reprovados, no por ser
inteligente nem nada, mas porque eu esperaria que a me dela e a mfia do
FRA dessem um jeito de tir-la dessa.
     Eden puxou um longo cordo amarelo de dentro do porco.
     -- O que  essa coisa amarela? -- Ela parecia que ia vomitar.
     A Sra. Wilson sorriu. Esse era o seu momento favorito do ano.
     -- Srta. Westerly, quantas vezes j foi ao Dar-ee Keen esta semana?
Tomou um milk-shake com seu hambrguer e suas batatas fritas? Comeu
anis de cebola? Uma torta de sobremesa?
     -- O qu?
     --  gordura. Agora vamos procurar a bexiga.
     Bati de novo quando Link passou carregando uma enorme tesoura de
jardinagem. Ele me viu e abriu a porta.
     -- Sra. Wilson, preciso ir ao banheiro.
     Samos pelo corredor, com tesoura e tudo. Quando chegamos  esquina,
em frente  sala de controle de frequncia, Liv sorriu para a Srta. Hester e
fechou seu caderno.
     -- Muitssimo obrigada. Entrarei em contato.
     Ela desapareceu pela porta da frente atrs de ns, o cabelo louro caindo
do coque. Era preciso ter distrbio mental para no perceber que Liv era s
uma adolescente de jeans rasgado.
     A Srta. Hester observava atordoada, balanando a cabea.
    -- Soldados britnicos.


                               
O bom de Link  que ele nunca perguntava os detalhes. Apenas acompanhava.
Link me acompanhou quando tentamos cortar um pneu de verdade para fazer
um balano de pneu. E quando o fiz me ajudar a construir uma armadilha de
jacar no meu quintal e em todas as vezes em que roubei o Lata-Velha para ir
atrs de uma garota que a escola toda achava uma aberrao. Era uma tima
qualidade em um melhor amigo e s vezes eu me perguntava se faria a mesma
coisa por ele se a situao estivesse invertida. Porque era sempre eu que pedia
e ele que topava.
     Em cinco minutos, estvamos descendo a rua Jackson. Chegamos at a
Dove e ento paramos no Dar-ee Keen. Olhei meu relgio. quela altura,
Amma j saberia que eu no estava em casa. Marian estaria esperando por Liv
na biblioteca, se no tivesse sentido falta dela no caf da manh. E a Sra.
Wilson teria mandado algum tirar Link do banheiro. Estvamos ficando sem
tempo.
     O plano no foi traado at estarmos sentados com comida gordurosa em
travessas amarelas oleosas sobre nossa mesa vermelha oleosa.
     -- No acredito que ela fugiu com o Garoto Vampiro.
     -- Quantas vezes preciso repetir? Ele  um Incubus -- corrigiu Liv.
     -- D na mesma.  um Incubus de Sangue, pode sugar seu sangue. 
tudo igual. -- Link enfiou um pozinho na boca enquanto passava outro na
piscina de molho que havia em seu prato.
     -- Um Incubus de Sangue  um Demnio. Vampiro  coisa de cinema.
     Eu no queria fazer isso, mas tinha uma coisa que precisava deixar clara.
     -- Ridley tambm est com eles.
     Link suspirou e amassou o papel dos pezinhos. A expresso dele no
mudou, mas eu sabia que estava sentindo o mesmo peso no estmago que eu.
     -- Bem, isso  um saco. -- Ele jogou o papel no lixo, ele bateu na
beirada e caiu no cho. -- Tem certeza de que esto nos tneis?
     -- Foi o que pareceu. -- A caminho do Dar-ee Keen, contei a Link sobre
a viso, mas deixei de fora a parte de ter visto pelo espelho do banheiro. --
Esto indo para um lugar chamado Grande Barreira.
     --Um lugar que no existe. -- Liv estava balanando a cabea e
verificando os mostradores que giravam no seu pulso.
     Link afastou o prato, ainda com comida.
     -- Ento me deixem entender. Vamos descer at os tneis e encontrar
essa lua fora de hora com o relgio bacana de Liv?
     -- Selenmetro. -- Liv no tirou os olhos do caderno, no qual anotava
os nmeros dos mostradores.
     -- Tanto faz. Por que no contamos o que est acontecendo  famlia de
Lena? Talvez possam nos tornar invisveis ou nos emprestar umas armas
Conjuradoras loucas.
     Uma arma. Como a que eu tinha comigo naquele momento.
     Eu podia sentir a curvatura do Arco Voltaico no meu bolso. No tinha
ideia de como ele funcionava, mas talvez Liv tivesse. Ela sabia ler o cu
Conjurador.
     --No vai nos tornar invisvel, mas eu tenho isto. -- Segurei a esfera
acima da mesa de plstico brilhante.
     -- Cara. Uma bola?  srio? -- Link no se impressionou.
     Liv estava estupefata. Ela estendeu a mo, hesitante, a mo pairando
acima do objeto.
     -- Isso  o que estou pensando?
     --  um Arco Voltaico. Marian me deu no Dia de Finados. Pertenceu 
minha me.
     Liv tentou esconder a irritao.
     --A professora Ashcroft tinha um Arco Voltaico esse tempo todo e
nunca me mostrou?
     -- Aqui est. Divirta-se. -- Coloquei a esfera nas mos de Liv. Ela a
segurou com cuidado, como se fosse um ovo.
     -- Cuidado! Voc tem alguma ideia do quanto isso  raro? -- Liv no
conseguia tirar os olhos da superfcie lustrosa.
     Link tomou o restante da Coca-Cola pelo canudo at chegar ao gelo.
     -- Algum vai me dizer do que se trata? O que isso faz?
     Liv estava hipnotizada.
     -- Esta  uma das armas mais poderosas do mundo Conjurador.  uma
priso metafsica para um Incubus, se souber como usar. -- Olhei para ela,
esperanoso. -- O que, infelizmente, no sei.
     Link cutucou o Arco Voltaico.
     --  tipo criptonita pra Incubus?
     Liv assentiu.
     -- Algo do tipo.
     No havia dvida de que o Arco Voltaico era poderoso, mas no ia nos
ajudar com o problema atual. Eu estava sem ideias.
     -- Se essa coisa no pode nos ajudar, como entramos nos tneis?
     -- No  feriado. -- Liv me entregou o Arco Voltaico com relutncia. --
Se vamos entrar nos tneis Conjuradores, tem que ser por uma das portas
externas. No podemos entrar pela Lunae Libri.
     -- Ento h outros meios? Por uma dessas coisas externas a? -- per!= U
Link.
     Liv fez que sim com a cabea.
     -- Sim. Mas s Conjuradores e poucos Mortais, como a professora
Ashcroft, sabem onde elas ficam. E ela no vai nos contar. Tenho certeza de
que est fazendo minhas malas nesse momento.
     Eu esperava que Liv tivesse a resposta, mas foi Link que surgiu com uma
     -- Sabe o que isso significa? -- Ele sorriu e passou o brao sobre os
ombros de Liv. -- Voc finalmente vai ter sua chance.  hora do tnel do
amor.


 rea da feira depois que foi desmontada era s um descampado. Chutei
amontoado de terra e ervas daninhas.
    -- Olhe, ainda d pra ver as marcas de onde ficaram os brinquedos --
mostrou Liv, com Lucille andando atrs dela.
    -- , mas como voc sabe de que brinquedo  cada marca? -- Pareceu
boa ideia no Dar-ee Keen, mas agora estvamos parados em um campo vazio.
     Link gritou e acenou de alguns metros de distncia.
     -- Acho que aqui era a roda gigante. D pra saber pelas guimbas de
cigarro. Aquele operador fumava que nem uma chamin.
     Fomos at ele. Liv mostrou uma marca preta um pouco mais
     -- No foi ali que Lena nos viu?
     -- O qu? -- Fui pego de surpresa pelo ns.
     -- Quero dizer, me viu. -- Ela corou. -- Acho que foi onde ela passou e
a mquina de pipoca explodiu. Antes de estourar o balo do palhao e fazer as
criancinhas chorarem. -- Como pude esquecer?
     Foi difcil encontrar as marcas debaixo da grama alta. Eu me inclinei e
afastei a grama, mas no havia nada. S algumas embalagens de papel e
ingressos. Quando me levantei, senti o Arco Voltaico esquentar no me de
novo e um leve tremor. Tirei-o do bolso e ele estava brilhando num tom azul
lmpido.
     Fiz sinal para Liv se aproximar.
     -- O que voc acha que isso significa?
     Ela examinou a esfera, observando a cor se intensificar.
     -- No fao ideia. Nunca li sobre eles mudarem de cor.
     -- O que est rolando, crianas? -- Link limpou o suor da testa a
camiseta velha do Black Sabbath. -- Opa. Quando esse troo comeou a
funcionar igual a um anel de humor?
     -- H um segundo. -- No sei por que, mas comecei a andar lentamente,
poucos passos de cada vez. Enquanto eu andava, o brilho do Arco Voltaico
aumentou.
     -- Ethan, o que voc est fazendo? -- Liv estava bem atrs de mim.
     -- No sei ao certo. -- Mudei de direo e a cor comeou a sumir. A que
estava mudando?
     Virei-me e fui na outra direo. No havia a menor dvida de que com
cada passo o Arco Voltaico ficava mais quente na minha mo e a vibrao
ficava maior.
     -- Olhe. -- Abri a mo para que Liv pudesse ver a cor azul profunda que
irradiava dele.
     -- O que est acontecendo?
     Dei de ombros.
     -- Parece que quanto mais perto chegamos, mais louco ele fica.
     -- Voc no acha... -- Ela olhou para os tnis de cano alto prateados e
poeirentos, pensando. Estvamos achando a mesma coisa.
     Virei o objeto na minha mo.
     -- Ser que ele pode ser algum tipo de bssola?
     Liv observou a esfera brilhar com tanta intensidade que Lucille deu saltos
ao nosso lado, como se estivesse tentando pegar vaga-lumes.
     Quando chegamos a uma parte mais clara da grama, Liv parou.
     O Arco Voltaico estava mostrando um redemoinho azul-escuro, cor de
tinta de caneta. Olhei para o cho com cuidado.
     -- No tem nada aqui.
     Liv se inclinou, empurrando a grama para o lado.
     -- No tenho tanta certeza. -- Uma forma apareceu quando Liv afastou
a terra.
     -- Olhe para as linhas.  uma porta. -- Link estava certo.
     Era como a porta do alapo que ficava debaixo do tapete, no quarto de
Macon. Eu me ajoelhei ao lado deles e passei a mo pelas beiradas da porta,
afastando o restante da terra. Olhei para Liv.
     -- Como sabia?
     -- Voc quer dizer, fora o fato de que o Arco Voltaico est
enlouquecido? -- Ela parecia orgulhosa. -- As portas externas no so to
difceis de achar se souber o que est procurando.
     -- Espero que no sejam muito difceis de abrir tambm. -- Link
apontou para o centro da porta. Havia um buraco de fechadura.
     Liv suspirou.
     -- Est trancada. Precisamos de uma chave Conjuradora. No podemos
entrar sem uma.
     Link puxou do cinto a enorme tesoura de jardinagem que roubou do
laboratrio de biologia. Link nunca botava nada de volta no lugar.
     -- Chave Conjuradora  o cacete.
     -- No vai funcionar. -- Liv se agachou ao lado de Link sobre a grama.
--  uma fechadura Conjuradora, no a da porta do seu armrio de cola.
     Link bufou enquanto enfiava a tesoura no buraco.
     -- Voc no  daqui. No h uma porta nesse pas que no possa ser
aberta com um alicate ou uma escova de dente afiada.
     Olhei para Liv.
     -- Voc sabe que ele inventa essas coisas, no ?
     -- ? -- Link sorriu para ns quando a porta se abriu com um gemido
ressentido. Ele ergueu a mo para mim. -- Bate aqui.
     Liv estava chocada.
     -- Bem, isso no est nos livros.
     Link se inclinou e olhou para dentro.
     -- Est escuro e no tem escada. Parece uma queda grande.
     -- D um passo. -- Eu sabia o que estava por vir.
     -- Est maluco?
     -- Confie em mim.
     Link tateou com o p e um segundo depois estava de p no ar.
     -- Cara, onde os Conjuradores arrumam essas coisas? Existem
carpinteiros Conjuradores? Um sindicato dos construtores sobrenaturais? --
Ele desapareceu de vista. Um segundo depois, a voz dele ecoou pelo buraco.
-- No  to longe do cho. Vocs vm ou no?
     Lucille olhou para a escurido e pulou no buraco. Aquela gata deve ter
absorvido mais do que um pouco de loucura depois de viver com minhas tias
por tantos anos. Olhei para a beirada e pude ver a luz bruxuleante de uma
tocha. Link estava parado abaixo de ns, com Lucille sentada a seus ps
     -- As damas primeiro.
     -- Por que os homens s dizem isso quando se trata de alguma coisa
horrvel ou perigosa? .-- Liv colocou um p no buraco, insegura. -- Sem
ofensas.
     Sorri para ela.
     -- No me ofendi.
     Os tnis prateados pairaram no ar por um minuto e ela se balanou, sem
equilbrio. Segurei a mo dela.
     -- Sabe, se encontrarmos Lena, ela pode estar completamente...
     -- Eu sei. -- Olhei dentro dos olhos azuis e calmos de Liv, que jamais
ficariam dourados ou verdes. O sol iluminou o cabelo dela, louro como mel.
     Ela sorriu para mim e soltei a mo dela.
     Percebi que era ela quem estava me apoiando.
     Quando desapareci na escurido atrs dela, a porta se fechou atrs de
mim, bloqueando o cu.


A entrada do tnel era mida e coberta de musgo, como a que levava da Lunae
Libri at Ravenwood. O teto acima da escada era baixo e as paredes de pedra
eram velhas e gastas como as de um tipo de masmorra. Cada gota de gua e
cada som ecoava nas paredes.
     No p da escada, nos vimos em um cruzamento. No um cruzamento
proverbial, mas um de verdade.
     -- Para que lado vamos? -- Link olhou para os dois tneis. O caminho
estava mais complicado do que o do Exlio. Aquele tinha sido um trajeto reto,
mas dessa vez havia escolhas a serem feitas.
     Escolhas que eu tinha que fazer.
     O tnel  esquerda parecia mais uma campina do que um tnel.
Conforme se alargava, podia-se ver salgueiros chores sobre uma trilha
empoeirada, ladeada por emaranhados de flores selvagens e grama alta.
Colinas espalhavam sob um cu azul sem nuvens. Quase dava para imaginar
os pssaros trinando e os coelhos roendo a grama, se esse no fosse um tnel
Conjurador, onde nada era o que parecia.
     O que estava  direita no era um tnel e sim uma rua curva de cidade
baixo de outro cu Conjurador. A rua escura era um contraste intenso m a
cena de campo ensolarada do primeiro tnel. Liv estava tomando tas no
caderno. Olhei por cima do ombro dela. Fusos horrios assncronos em tneis
adjacentes.
     A nica luz vinha de um sinal luminoso de motel no final da rua. Havia
prdios altos com pequenas varandas de ferro e escadas de incndio de cada
lado da rua. Longos fios se cruzavam sobre a rua, indo de prdio a prdio,
formando uma teia intrincada com algumas peas de roupas presas nela. Um
caminho de trilhos abandonado podia ser visto afundado no asfalto.
     -- Para que lado vamos? -- Link estava nervoso. Vagar por tneis
Conjuradores assustadores no combinava com ele. -- Voto pelo caminho do
Mgico de Oz. -- Ele foi em direo ao caminho ensolarado.
     -- Acho que no precisamos votar. -- Tirei o Arco Voltaico do bolso e
seu calor esquentou minha mo antes mesmo que eu reparasse na luz. A
superfcie de bano comeou a brilhar em um tom verde-plido.
     Os olhos de Liv estavam arregalados.
     -- Incrvel.
     Dei alguns passos em direo  rua escura e a luz se intensificou.
     Link veio atrs de ns.
     -- Al? Eu estava andando pra l. Vocs no vo me impedir?
     -- Veja isso. Ergui o Arco Voltaico o bastante para que ele visse e
continuasse andando.
     -- Bela lanterna.
     Liv verificou o selenmetro.
     -- Voc estava certo. Ele est nos guiando como uma bssola. Minhas
leituras confirmam. A atrao magntica da lua  mais forte nessa direo, o
que  completamente errado para essa poca do ano. Link balanou a cabea.
     -- Eu devia saber que precisaramos ir pela rua assustadora.
Provavelmente vamos ser mortos por outro daqueles Tormentos.
     Cada vez que eu dava um passo para mais perto da rua, o Arco Voltaico
brilhava num tom mais forte e profundo de verde.
     -- Vamos por este caminho.
     --  claro que vamos.

Depois que Link se convenceu de que estvamos indo para a morte certa, a
rua escura no mostrou ser nada mais do que uma rua escura. A caminhada
curta at onde estava aplaca luminosa do motel ocorreu sem incidentes. Era
um beco sem sada que levava a uma porta, debaixo da placa. Havia outra rua
perpendicular a ela, cheia de portas no iluminadas. Entre a placa do motel e o
prdio ao lado, havia uma escadaria ngreme de pedra. Outro portal.
     -- Devemos ir para a esquerda ou para a direita? -- perguntou Liv,
andando at a rua.
     Olhei para a luz incandescente do Arco Voltaico, agora verde-esmeralda.
     -- Nem um nem outro. Vamos subir.
     Empurrei a pesada porta no topo da escadaria. Samos de um enorme
arco de pedra para a luz do sol que se filtrava pelos galhos de um carvalho
gigantesco. Uma mulher de short e cabelos brancos pedalava uma bicicleta
branca com um poodle branco sentado em uma cestinha branca. Um enorme
golden retriever corria atrs da bicicleta. O cachorro puxava o homem que
segurava sua coleira. Lucille olhou o cachorro e fugiu para os arbustos.
     -- Lucille! -- Eu me inclinei entre os arbustos, mas ela tinha sumido. --
timo. Perdi a gata da minha tia de novo.
     -- Tecnicamente, Lucille  sua gata. Ela mora com voc. -- Link andou
por cima das azaleias. -- No se preocupe. Ela vai voltar. Gatos tm bom
senso de direo.
     --Como voc sabe? -- Liv parecia se divertir.
     -- Semana do Gato.  como a Semana do Tubaro, mas sobre gatos. --
Olhei para ele.
     Link ficou vermelho.
     -- O que foi? Minha me v muita coisa estranha na TV.
     -- Vamos.
     Quando samos detrs das rvores, uma garota com cabelo roxo esbarrou
em Link, quase deixando cair um bloco de desenho enorme. Estvamos
cercados por cachorros, pessoas, bicicletas e skatistas em um parque cheio de
azaleias e sob as sombras de enormes carvalhos. Havia uma fonte ornamental
feita de pedra no meio, com esculturas de homens do mar nus cuspindo gua
uns nos outros. Havia caminhos irradiando em todas as direes.
     -- O que aconteceu com os tneis? Onde estamos? -- Link estava mais
confuso do que o habitual.
     -- Estamos em alguma espcie de parque -- falou Liv.
     Eu sabia exatamente onde estvamos, ento sorri.
     -- No em algum parque. No parque Forsyth. Estamos em Savannah.
     -- O qu? -- Liv estava revirando a bolsa.
      --Savannah, Gergia. Vinha aqui com minha me quando era pequeno.
      Liv abriu um mapa do que parecia ser o cu Conjurador. Reconheci a
Estrela do Sul, a de sete pontas que tinha sumido.
      -- No faz sentido. Se a Grande Barreira existe, o que no estou dizendo
que acredito, definitivamente no fica no meio de uma cidade Mortal.
      Dei de ombros.
      -- Foi aqui que ele nos trouxe. O que posso dizer?
      -- Ns andamos por uns 15 minutos. Como podemos estar em
Savannah? -- Link ainda no tinha assimilado a ideia de que as coisas eram
diferentes nos tneis.
      Liv apertou a extremidade da caneta e murmurou para si mesma:
      -- Lugar e tempo no sujeitos  fsica Mortal.
      Duas pequenas senhoras empurravam dois pequenos cachorros em
carrinhos. Com certeza estvamos em Savannah. Liv fechou o caderno
vermelho.
      -- Tempo, espao, distncia, tudo  diferente aqui embaixo. Os tneis
so parte do mundo Conjurador, no do Mortal.
      Como se esperando uma deixa, o brilho do Arco Voltaico desapareceu e
ele ficou preto e lustroso. Enfiei-o de volta no bolso.
      -- Mas que...? Como sabemos para onde ir a partir daqui? -- Link entrou
em pnico, mas eu no.
      -- No precisamos dele. Acho que sei aonde temos que ir.
      Liv ergueu a sobrancelha.
      -- Como?
      -- S conheo uma pessoa em Savannah.
                                     18 de junho   
                       Atravs do espelho

                                    

M
         inha tia Caroline morava na rua East Liberty, perto da catedral de So
         Joo Batista. Eu no ia  casa dela fazia alguns anos, mas sabia que
         tinha e seguir pela rua Buli, porque a casa ficava no percurso do Tour
de Bonde pela Savannah Histrica, que passava pela rua Bull. Alm disso, as
ruas iam o parque at o rio e havia uma praa pblica a cada duas quadras. Era
difcil se perder em Savannah, fosse voc um Obstinado ou no.
     Entre Savannah e Charleston, era possvel encontrar um tour histrico
sobre qualquer assunto. Tours por fazendas, tours de culinria sulista, tours
das Filhas da Confederao, tours fantasmas (meus favoritos) e o clssico:
tours por casas histricas. A casa de tia Caroline fazia parte deste ltimo desde
que eu conseguia me lembrar. A ateno dela aos detalhes era famosa, no s
dentro da nossa famlia, mas em toda Savannah. Ela era a curadora do Museu
de Histria de Savannah e sabia tanto sobre o passado de cada prdio, ponto
de referncia e escndalo da Cidade dos Carvalhos quanto a minha me sabia
sobre a Guerra Civil. No era coisa pouca, considerando que os escndalos
eram to comuns quanto os tours por ali.
     -- Tem certeza de que sabe aonde est indo, cara? Acho que devamos
fazer uma pausa e comer alguma coisa. Fao qualquer coisa por um
hambrguer. -- Link tinha mais f na capacidade de navegao do Arco
Voltai- co do que na minha. Lucille, que tinha reaparecido, se sentou aos ps
dele e virou a cabea de lado. Ela tambm no tinha certeza.
     -- Vamos continuar em direo ao rio. Chegaremos  East Liberty mais
cedo ou mais tarde. Vejam. -- Apontei para a torre de uma catedral a algumas
quadras. -- Aquela  a catedral. Estamos quase l.
     Vinte minutos depois, ainda estvamos andando em crculos perto da
catedral. Link e Liv estavam perdendo a pacincia e eu no os culpava.
     Olhei para a rua East Liberty em busca de alguma coisa familiar.
     --  uma casa amarela.
     -- Amarelo deve ser uma cor popular. A cada duas casas dessa rua, uma 
amarela. -- At Liv estava irritada comigo. Eu tinha feito com que
andssemos ao redor do mesmo quarteiro trs vezes.
     Pensei que fosse perto da praa Lafayette.
     -- Acho que devamos procurar um catlogo telefnico e localizar o
nmero dela. -- Liv limpou o suor da testa.
     Apertei os olhos para enxergar uma pessoa ao longe.
     -- No precisamos de catlogo telefnico. A casa dela  aquela no fim do
quarteiro.
     Liv revirou os olhos.
     -- Como voc sabe?
     Porque tia Del est parada em frente a ela.
     No tinha nada mais estranho do que ir parar em Savannah depois de
andar apenas poucas horas nos tneis Conjuradores, numa espcie de tempo
alterado. Exceto chegar  casa de tia Caroline e encontrar a tia de Lena, tia
Del, de p na calada, acenando. Eia estava nos esperando.
     -- Ethan! Estou to feliz por finalmente te encontrar. J fui a todos os
lugares: Atenas, Dublin, Cairo...
     -- Voc procurou por ns no Egito e na Irlanda? -- Liv parecia to
confusa quanto eu, mas isso era uma coisa que eu podia esclarecer.
     -- Na Gergia. Atenas, Dublin e Cairo so cidades da Gergia. -- Liv
corou. s vezes eu esquecia que ela era to estrangeira em Gatlin quanto Lena,
mas de uma maneira diferente.
     Tia Del pegou minha mo e deu tapinhas afetuosos.
     -- Arelia tentou Adivinhar sua localizao, mas ela s conseguiu
identificar a Gergia. Infelizmente, a Adivinhao  mais uma arte do que uma
cincia. Graas s estrelas, encontrei voc.
     -- O que est fazendo aqui, tia Del?
     -- Lena sumiu. Tnhamos esperana de ela estar com voc. -- Ela
suspirou ao perceber que estava errada.
     -- Ela no est, mas acho que posso encontr-la.
     Tia Del passou a mo sobre a saia amassada.
     -- Ento posso te ajudar.
     Link coou a cabea. Ele conhecia tia Del, mas nunca tinha visto uma
demonstrao dos poderes dela de Palimpsesta. Estava claro que no
conseguia imaginar como uma senhora idosa e dispersa nos ajudaria. Depois
de passar uma noite escura com eia no tmulo de Genevieve Duchannes,
sabia do que ela era capaz.
     Bati a pesada aldrava de metal contra a porta. Tia Caroline abriu, secando
a mo no avental com as letras GS. Garotas Sulistas. Ela sorriu e seus olhos
formaram pequenas rugas nos cantos.
     -- Ethan, o que est fazendo aqui? No sabia que vinha para Savannah.
     Eu no tinha planejado tanto a ponto de ter uma boa mentira, ento tive
que me contentar com uma ruim.
     -- Estou na cidade visitando... um amigo.
     -- Onde est Lena?
     -- Ela no pde vir. -- Eu me afastei da porta para distra-Ia com raes.
-- Voc conhece Link, e estas so Liv e a tia de Lena, Delphine. -- Eu tinha
certeza de que a primeira coisa que tia Caroline faria eu fosse embora seria
ligar para o meu pai e dizer o quanto tinha sido Bom me ver. E minha
tentativa de que Amma no soubesse onde eu estava e minha pretenso de
viver at meu dcimo stimo aniversrio j eram.
     --  bom v-la de novo, senhora.
     Eu sempre podia contar com Link para ser um bom menino quando que
fosse. Tentei pensar em algum de Savannah que minha tia no conhecesse,
como se isso fosse possvel. Savannah era maior do que Gatlin, mas todas as
cidades do sul so iguais. Todo mundo se conhece.
     Tia Caroline nos fez entrar. Em questo de segundos, ela desapareceu e
reapareceu com ch gelado e um prato de Benne Babies, biscoitos de mapple
que eram mais doces do que o ch.
     -- Hoje est sendo um dia muito estranho.
     -- Como assim?
     -- Hoje de manh, quando eu estava no museu, algum invadiu minha
casa, mas essa nem  a parte mais estranha. No levaram nada. Reviraram o
sto inteiro e nem encostaram no restante da casa.
     Olhei para Liv. No existiam coincidncias. Tia Del devia estar pensando
a mesma coisa, mas era difcil saber. Ela parecia meio tonta, como se estivesse
tendo dificuldade de entender todas as coisas diferentes que tinham
acontecido naquele aposento desde que a casa fora construda, em 1820. Ela
provavelmente estava vendo duzentos anos todos de uma vez enquanto
estvamos sentados comendo biscoitos. Eu me lembrei do que ela dissera
sobre seu dom na noite no cemitrio, com Genevieve. A Palimpsestria era
uma grande honra, mas um peso ainda maior.
     Fiquei me perguntando o que tia Caroline podia ter que valesse a pena
roubar.
     -- O que tem no sto?
     -- Na verdade, nada. Enfeites de Natal, alguns planos arquitetnicos para
a casa, alguns dos papis velhos de sua me. -- Liv deu uma cutucada no meu
p por debaixo da mesa. Eu estava pensando a mesma coisa. Por que eles no
estavam no arquivo?
     -- Que tipo de papis?
     Tia Caroline serviu mais biscoitos. Link os estava comendo mais rpido
do que ela conseguia servir.
     -- No tenho certeza. Mais ou menos um ms antes de sua me morrer,
ela me perguntou se podia guardar algumas caixas aqui. Voc sabe como sua
me era com os arquivos dela.
     -- Voc se importa se eu der uma olhada? Estou trabalhando na
biblioteca este vero junto com tia Marian e ela pode se interessar por alguns
deles. -- Tentei parecer casual.
    -- Fique  vontade, mas est uma baguna l em cima. -- Ela pegou o
prato vazio. -- Preciso fazer algumas ligaes e ainda preciso terminar de
preencher o documento da polcia. Mas estarei aqui embaixo se precisar de
mim.


Tia Caroline estava certa; o sto estava uma baguna. Roupas e papis
espalhados por todo lado. Algum devia ter despejado o contedo de todas a
caixas que haviam ali em uma enorme pilha. Liv pegou alguns papis
espalhados pelo cho.
     -- Mas como... -- Link olhou para tia Del, sem graa. -- Como vamos
achar qualquer coisa aqui? O que estamos procurando? -- Ele chutou para
uma caixa vazia.
     -- Qualquer coisa que pode ter sido da minha me. Algum estava
procurando alguma coisa aqui. -- Cada um comeou a revirar uma parte
diferente da pilha.
     Tia Del achou uma caixa de chapu cheia de cartuchos vazios e balas
redondas.
     -- J houve um lindo chapu aqui.
     Peguei o antigo anurio escolar da minha me e um guia de campo para a
batalha de Gettysburg. Reparei como o guia estava gasto em comparao ao
anurio. Aquela era minha me.
     Liv se ajoelhou sobre uma pilha de papis.
     -- Acho que encontrei alguma coisa. Quero dizer, parece que
pertenceram  sua me, mas na verdade no so nada, s velhos desenhos da
casa Ravenwood e algumas notas sobre a histria de Gatlin.
     Qualquer coisa relacionada a Ravenwood era importante. Ela me passou
os blocos e dei uma olhada nas pginas. Registros da Guerra Civil de Gatlin,
desenhos amarelados da casa de Ravenwood e dos prdios mais antigos da
cidade: a Sociedade Histrica, o velho quartel dos bombeiros, at mesmo
nossa casa, a propriedade Wate. Mas nenhuma dessas coisas parecia levar a
nada.
     -- Aqui, gatinho, gatinho. Ei, encontrei um amigo para... -- Link ergueu
um gato conservado pela arte sulista da taxidermia, depois o largou quando se
deu conta de que era um gato morto e empalhado, o pelo preto imundo. -- ...
Lucille.
    -- Tem que haver alguma outra coisa. Quem esteve aqui no estava
procurando registros da Guerra Civil.
    -- Talvez tenham encontrado o que vieram procurar. -- Liv deu de
ombros.
    Olhei para tia Del.
    -- S h um jeito de descobrir.




Alguns minutos depois, estvamos todos sentados de pernas cruzadas no
cho, como se estivssemos em um crculo de acampamento. Ou em uma
sesso esprita.
     -- No tenho muita certeza de que isso seja uma boa ideia.
     --  o nico jeito de descobrirmos quem entrou aqui e por qu.
     Tia Del assentiu, mas no muito convencida.
     --Tudo bem. Lembrem-se, se ficarem enjoados, coloquem a cabea entre
os joelhos. Agora deem as mos.
     Link olhou para mim.
     -- O que ela quer dizer? Por que ficaramos enjoados?
     Peguei a mo de Liv, fechando o crculo. A mo dela estava macia e
quente envolvida pela minha. Mas antes que eu conseguisse pensar no fato de
que estvamos de mos dadas, imagens comearam a surgir na frente dos
meus olhos...
     Uma depois da outra, se abrindo e fechando como portas. Cada imagem
dava lugar  seguinte, como peas de domin, ou um daqueles livros de
folhear rpido que eu tinha quando criana.
     Lena, Ridley e John virando caixas no sto...
     -- Tem que estar aqui. Continuem procurando. -- John jogando livros velhos
no cho.
     -- Como voc pode ter tanta certeza? -- Lena enfiando a mo em outra caixa,
a mo coberta de desenhos pretos.
     -- Ela sabia como encontrar sem a estrela.
     Outra porta se abriu. Tia Caroline, arrastando caixas pelo cho do sto.
     Ela se ajoelha em frente a uma caixa, segurando uma antiga foto da minha
me, e passa a mo sobre a foto, soluando.
      outra. Minha me, o cabelo descendo sobre os ombros, preso na
cabea pelos culos vermelhos de leitura. Eu podia v-la to claramente
quanto se ela estivesse parada na minha frente. Ela escreve loucamente em um
dirio de couro surrado, depois rasga a pgina, dobra-a e a coloca dentro de
um envelope. Escreve alguma coisa na frente do envelope e o coloca dentre as
ltimas pginas do dirio. Depois afasta um velho ba da parede. Atrs do
ba, ela puxa uma tbua solta dos lambris. Olha ao redor, como se
pressentisse que algum podia estar olhando, e coloca o dirio na abertura
estreita.
     Tia Del soltou minha mo.
     -- Puta merda!
     Link j tinha passado, e muito, do ponto de se lembrar de tomar cuidado
com o que dizia em frente a uma dama. Ele estava verde e enfiou a cabea re
os joelhos imediatamente, como se estivesse em um acidente de avio. no o
via assim desde o dia em que Savannah o desafiou a beber uma garrafa velha
de licor de menta.
     -- Lamento muito. Sei que  difcil se recuperar depois de uma viagem.
     -- Tia Del dava tapinhas nas costas de Link. -- Voc est indo bem para
primeira vez.
     Eu no tinha tempo para pensar em tudo o que tinha visto. Ento me
concentrei em uma coisa: Ela sabia como encontrar sem a estrela. John estava
falando sobre a Grande Barreira. Ele achava que minha me sabia alguma
coisa sobre ela, algo que talvez tivesse escrito no dirio. Liv e eu devamos
estar pensando a mesma coisa, porque botamos a mo no velho ba na
mesma hora.
     -- Est pesado. Cuidado. -- Comecei a afast-lo da parede. Parecia que o
tinha enchido de tijolos.
     Liv foi at a parede e soltou a tbua. Porm, no enfiou a mo na
abertura. Coloquei a minha l dentro e imediatamente encostei no couro
surrado.
     Puxei o dirio, sentindo seu peso na minha mo. Era um pedao da
minha me. Fui at as pginas finais. Sua caligrafia delicada parecia me olhar
da frente do envelope.
       Macon
     Eu o abri e desdobrei a nica folha de papel.
       Se voc estiver lendo isso, significa que no consegui chegar at voc a tempo de contar
pessoalmente. As coisas esto bem piores do que qualquer um de ns dois podia ter
imaginado. Pode ser tarde demais. Mas, se houver uma chance, voc  o nico que saber
como impedir que nossos piores medos se tornem realidade.
       Abraham est vivo. Est se escondendo. E no est sozinho. Sarafine est com ele e 
uma discpula to devota quanto seu pai.
       Voc precisa det-los antes que seja tarde.
       - LG




Meus olhos percorreram o final da pgina. LJ. Lila Jane. Reparei em uma outra
coisa: a data. Senti como se levasse um chute no estmago. 21 de maro. Um
ms antes do acidente da minha me. Antes de ela ser assassinada.
     Liv se afastou, sentindo que estava testemunhando uma coisa particular e
dolorosa. Folheei o dirio, procurando respostas. Havia outra cpia da rvore
genealgica de Ravenwood. Eu a tinha visto anteriormente no arquivo, mas
esta parecia diferente. Alguns dos nomes estavam riscados.
     Enquanto eu virava as pginas, um pedao de papel solto escorregou e
flutuou at o cho. Eu o peguei e desdobrei a folha frgil. Era papel velino,
fino e levemente transparente, como papel de seda. Havia estranhas formas
desenhadas a caneta em um dos lados. Ovais deformadas, com depresses e
ondulaes, como se uma criana estivesse desenhando nuvens. Eu me virei
para Liv, segurando o velino aberto para que ela pudesse ver os desenhos. Ela
balanou a cabea sem dizer uma palavra. Nenhum de ns sabia o que
significava.
     Dobrei o papel delicado e o recoloquei no dirio, indo at o final. Fui
para a ltima pgina. Havia uma outra coisa que no fazia sentido, pelo menos
para mim.

    In Luce Caecae Caligines sunt,
    Et in Caliginibus, Lux.
    In Arcu imperium est,
    Et in imperio, Nox.

     Instintivamente, arranquei a pgina e a enfiei no bolso. Minha me estava
morta por causa da carta e possivelmente pelo que estava escrito nessas
pginas. Elas pertenciam a mim agora.
     -- Ethan, voc est bem? -- A voz de tia Del estava cheia de
preocupao.
     Eu estava to longe de bem que no conseguia lembrar como era estar
bem. Eu tinha que sair daquele lugar, tinha que me afastar do passado da
minha me, tinha que sair da minha cabea.
     -- Volto j.
     Desci a escada correndo at o quarto de hspedes e me deitei na cama,
com minhas roupas sujas. Olhei para o teto, pintado de azul como o cu,
exatamente como o do meu quarto. Abelhas burras. A piada era sobre elas e
elas nem sabiam.
     Ou talvez fosse sobre mim.
     Eu estava dormente, do modo como se fica quando se tenta sentir tudo
de uma vez. Eu estava como tia Del quando entrou nessa velha casa.
     Abraham Ravenwood no era uma pea do passado. Estava vivo, se
escondendo nas sombras com Sarafine. Minha me sabia e Sarafine a tinha
matado por causa disso.
     Minha viso estava embaada. Limpei os olhos, esperando encontrar
lgrimas, mas no havia nada l. Fechei bem os olhos, mas quando os abri,
tudo o que pude ver eram cores e luzes piscando, como se eu estivesse
correndo. Vi pedaos de coisas -- uma parede, latas de lixo prateadas e
amassadas, guimbas de cigarro. Aquilo que eu tinha vivenciado quando estava
olhando o espelho do banheiro estava acontecendo de novo. Tentei ficar de
p, mas estava tonto demais. Os pedaos de coisas continuavam voando por
mim, finalmente ficando mais devagar para que minha mente conseguisse
acompanhar.
     Eu estava em um aposento, um quarto, talvez. Era difcil dizer do meu
ponto de vista. O cho era de concreto cinza e as paredes brancas, coberto
com os mesmos desenhos pretos que eu tinha visto nas mos de Lena.
Quando olhei para eles, pareceram se mexer.
     Observei o quarto. Lena tinha que estar em algum lugar por ali.
     -- Sinto-me to diferente de todo mundo, at de outros Conjuradores.
Era a voz dela. Olhei para cima, seguindo o som.
     Eles estavam acima de mim, deitados no teto pintado de preto. Lena e
John estavam com as cabeas encostadas, falando sem se olhar. Olhavam o
cho do mesmo jeito que eu olhava para o teto  noite quando no conseguia
dormir. O cabelo de Lena caa ao redor de seu ombro, achatado contra o teto
como se ela estivesse deitada no cho.
     Pareceria impossvel se eu j no tivesse visto isso. S que, dessa vez, ela
era a nica no teto. E eu no estava ali para pux-la para baixo.
     -- Ningum consegue me explicar meus poderes, nem a minha famlia.
Por que eles no sabem. -- Ela parecia infeliz e distante. -- E todo dia eu e
consigo fazer coisas que no conseguia no dia anterior.
     --  a mesma coisa comigo. Um dia acordei e pensei em um lugar aonde
ir, e um segundo depois eu estava l. -- John jogava alguma coisa no ar e
pegava de volta, sem parar. S que ele jogava em direo ao cho em vez de
em direo ao teto.
     -- Est dizendo que voc no sabia que podia Viajar?
     --No at fazer. -- Ele fechou os olhos, mas no parou de jogar a bola.
     --E os seus pais? Eles sabiam?
     -- No conheci meus pais. Eles fugiram quando eu era pequeno. At
Sobrenaturais reconhecem uma aberrao quando veem uma. -- Se ele tava
mentindo, no dava para perceber. A voz dele estava amarga e magoada, e isso
me pareceu genuno.
     Lena se virou de lado e se apoiou no cotovelo para que pudesse olh-lo.
     -- Lamento. Isso deve ter sido horrvel. Pelo menos eu tinha minha av
para tomar conta de mim. -- Ela olhou para a bola, que ficou parada no ar. --
Agora no tenho ningum.
     A bola caiu no cho. Quicou algumas vezes e rolou para debaixo da cama.
John se virou para olh-la.
     -- Voc tem Ridley. E eu.
     -- Acredite em mim, quando voc me conhecer, vai querer sair correndo
imediatamente.
     Eles estavam a poucos centmetros de distncia.
     -- Voc est errada. Sei como  se sentir sozinho at quando se est com
outras pessoas.
     Ela no disse nada. Ser que era assim quando estava comigo? Ser que
ela se sentia sozinha mesmo quando estvamos juntos? Quando estava nos
meus braos?
     -- L? -- Fiquei enjoado quando ele falou isso. -- Quando chegarmos 
Grande Barreira vai ser diferente, eu prometo.
     -- A maior parte das pessoas diz que ela no existe.
     -- Isso  porque no sabem como encontr-la. S d pra chegar pelos
tneis. Vou levar voc at l. -- Ele ergueu o queixo de Lena para que ela
pudesse olhar nos seus olhos. -- Sei que est com medo. Mas voc tem a
mim, se quiser.
     Lena olhou para o outro lado, limpando um dos olhos com as costas das
mos. Eu podia ver os desenhos pretos, que pareciam mais escuros agora.
Pareciam menos com caneta permanente e mais com as tatuagens de Ridley e
John. Ela estava olhando diretamente para mim, mas no podia me ver.
     -- Preciso ter certeza de que no vou mais machucar ningum. No
importa o que eu queira.
     -- Importa pra mim. -- John passou o polegar debaixo do olho dela,
pegando as lgrimas e se inclinando para mais perto. -- Voc pode confiar em
mim. Eu jamais te machucaria. -- Ele a puxou contra o peito e ela apoiou a
cabea em seu ombro.
     Posso mesmo?
     Eu no consegui ouvir mais nada e ficou mais difcil v-la, como se eu
estivesse sendo afastado de alguma forma. Pisquei com fora, tentando manter
o foco, mas quando abri os olhos de novo, s pude ver o teto azul. Virei para
o lado e olhei a parede.
     Eu estava de volta ao quarto da casa de tia Caroline e eles tinham sumido.
Juntos, onde quer que estivessem.
     Lena estava seguindo em frente. Estava se abrindo para John e ele
alcanava uma parte dela que eu pensei no existir mais. Talvez eu no
estivesse destinado a alcan-la.
     Macon tinha vivido nas Trevas e, minha me, na Luz.
     Talvez no estivssemos destinados a encontrar um jeito de os Mortais e
os Conjuradores poderem ficar juntos porque no era para acontecer.
     Algum bateu na porta, embora ela estivesse aberta.
     -- Ethan? Voc est bem? -- Liv. Os passos dela soavam baixos, mas eu
podia ouvi-los. No me mexi.
     A beirada da cama afundou quando ela se sentou. Senti sua mo quando
massageou minha nuca. Era calmante e familiar, como se tivesse feito isso mil
vezes. Isso era o interessante com relao a Liv: era como se eu a conhecesse
desde sempre. Ela sempre parecia sentir o que eu precisava, como se soubesse
coisas sobre mim mesmo que nem eu sabia.
     -- Ethan, tudo vai ficar bem. Vamos descobrir o que significa, prometo.
     -- Eu sabia que ela estava sendo sincera.
     Rolei para o lado. O sol tinha se posto e o quarto estava escuro. Eu no
tinha me dado ao trabalho de acender a luz. Mas conseguia ver a silhueta dela
enquanto me olhava.
     -- Pensei que voc no pudesse se envolver.
     -- No devia. Foi a primeira coisa que a professora Ashcroft me ensinou.
-- Ela fez uma pausa. -- Mas no consigo evitar.
     -- Eu sei.
     Ficamos olhando um para o outro na escurido, a mo dela no meu
queixo, onde tinha ido parar quando me virei. Mas eu a estava vendo de
verdade, a possibilidade que ela era, pela primeira vez. Eu sentia alguma coisa.
No havia como negar, e Liv sentia tambm. Eu percebia em todas as vezes
que ela me olhava.
     Liv escorregou para a cama e se aconchegou contra mim, apoiando a
cabea no meu ombro.
     Minha me tinha encontrado um jeito de seguir em frente depois de
Macon. Tinha se apaixonado pelo meu pai, o que parecia provar que  possvel
perder o amor da sua vida e se apaixonar de novo.
     No ?
     Ouvi um sussurro baixinho, no dentro da minha cabea, mas quase no
meu ouvido. Liv chegou mais perto.
     -- Voc vai achar uma soluo, assim como com todas as outras coisas.
Alm do mais, voc tem algo que a maioria dos Obstinados no tem.
     -- ? O qu?
     -- Uma tima Guardi.
     Deslizei minha mo at a nuca de Liv. Madressilva e sabonete -- era esse
cheiro dela.
     -- Foi por isso que voc veio? Porque eu precisava de uma Guardi? Ela
no respondeu imediatamente. Eu podia sentir que estava tentando decidir. O
quanto devia dizer, o que devia arriscar. Sabia que era isso que estava fazendo,
porque eu estava fazendo a mesma coisa.
     -- No  o nico motivo, mas devia ser.
     -- Porque voc no deve se envolver?
     Eu sentia o corao dela batendo contra o meu peito. Ela se encaixava
perfeitamente debaixo do meu ombro.
     -- Porque no quero me magoar. -- Ela estava com medo, mas no de
Conjuradores das Trevas, Incubus mutantes ou olhos dourados. Ela estava
com medo de uma coisa mais simples, mas to perigosa quanto tudo isso.
Menor, mas infinitamente mais poderosa.
     Puxei-a mais para perto.
     -- Nem eu. -- Porque eu tambm estava com medo.
     No dissemos mais nada. Abracei-a com fora e pensei sobre todos os
modos pelos quais uma pessoa pode se machucar. Sobre os modos pelos quais
eu podia mago-la e me magoar. As duas coisas estavam interligadas de
alguma maneira.  difcil explicar, mas quando se fica to fechado para o
mundo como eu fiquei nos meses anteriores, se abrir dava uma sensao to
errada quanto ficar nu na igreja.
     Coraes iro embora e estrelas iro atrs, Um est quebrado, um est vazio.
     Aquela tinha sido nossa msica, minha e de Lena. E eu tinha sido
quebrado. Ser que isso significava que eu tinha de permanecer vazio? Ou
havia alguma coisa diferente para mim por a? Talvez uma msica nova?
     Pink Floyd, para variar um pouco? Risadas vazias em corredores de mrmore.
     Sorri na escurido, ouvindo o som rtmico da respirao dela at que
fosse ficando mais suave por causa do sono. Eu estava exausto. Embora
estivssemos de volta ao mundo Mortal, eu ainda sentia como se fosse parte
do mundo Conjurador e que Gatlin estava incrivelmente longe. Eu no
conseguia entender como tinha chegado a este lugar tanto quanto no
conseguia medir as milhas que havia percorrido ou a distncia que ainda tinha
percorrer.
     Ca na inconscincia sem saber o que faria quando chegasse l.
                                    19 de junho   
                             Bonaventure

                                   
E
     u estava correndo, sendo perseguido. Cambaleando em beiradas e
     deslizando por ruas vazias e quintais. A nica constante era a adrenalina.
     No havia pausa.
     Ento vi a Harley, vindo diretamente para cima de mim, as luzes ficando
cada vez mais prximas. No eram amarelas, mas sim verdes, reluzindo com
tanta intensidade nos meus olhos que tive de cobrir o rosto com as mos...
     Acordei. Tudo o que eu podia ver era o verde, acendendo e apagando.
     Eu no soube onde estava at perceber que o brilho verde vinha do Arco
Voltaico, agora iluminado como o cu no dia 4 de julho. Ele estava no
colcho, para onde devia ter rolado ao sair do meu bolso. S que o colcho
parecia diferente e a luz estava piscando fora de controle.
     Lembrei-me devagar: as estrelas, os tneis, o sto, o quarto de hspedes.
Ento percebi por que o colcho estava diferente.
     Liv no estava mais l.


No demorei muito para descobrir onde Liv estava.
     -- Voc no dorme nunca?
     -- No tanto quanto voc, ao que parece. -- Como sempre, Liv no
tirou os olhos do telescpio, embora esse fosse de alumnio e muito menor do
que o da varanda de Marian.
     Eu me sentei ao lado dela, no degrau de trs. O jardim estava to calmo
quanto a minha tia, um tranquilo pedao verde que crescia debaixo de uma
magnlia.
     -- O que est fazendo acordado?
     -- Recebi um chamado que me acordou.
     Tentei parecer casual em vez de como realmente me sentia. Esquisito. Fiz
sinal para a janela do quarto de hspedes no segundo andar. Mesmo dali dava
para ver a luz verde pulsando e brilhando pelas vidraas.
     -- Estranho. Acho que tambm recebi um. D uma olhada pelo
celestron. -- Ela me passou o telescpio em miniatura. Ele parecia com uma
lanterna, a no ser pela lente grande encaixada em uma das pontas.
     Nossas mos se tocaram quando o peguei. Nem um choquinho sequer.
     -- Voc tambm fez esse?
     Ela sorriu.
     -- A professora Ashcroft me deu. Agora pare de falar e olhe. L.
     Ela apontou para um ponto bem acima da magnlia, para um local que,
meus olhos de Mortal, parecia um trecho escuro de cu sem estrelas.
     Acomodei o telescpio no olho. Agora, o cu acima da rvore estava
manchado de luz, uma espcie de aura fantasmagrica que ia em direo ao
cho no muito longe de ns.
     -- O que , uma estrela cadente? Estrelas cadentes deixam rastros assim?
     -- Talvez. Se fosse uma estrela cadente.
     -- Como sabe que no ?
     Ela bateu no telescpio.
     -- Pode estar caindo, mas  uma estrela Conjuradora caindo no cu
Conjurador, lembra? Seno ns poderamos v-la sem o telescpio.
     --  isso que seu relgio maluco est dizendo?
     Ela o pegou do degrau ao seu lado.
     -- No tenho certeza sobre o que ele est dizendo. Achei que estivesse
quebrado at que vi o cu.
     O Arco Voltaico ainda piscava na janela, uma luz estroboscpica verde
constante.
     Ento me lembrei de uma coisa do sonho. Parecia que a Harley estava
indo diretamente para cima de mim.
     -- No podemos ficar aqui. Alguma coisa est acontecendo. Alguma
coisa aqui, em Savannah.
     Liv prendeu o selenmetro de volta ao pulso.
     -- Seja o que for, parece estar acontecendo ali. -- Ela colocou o
telescpio na mochila e apontou para um local ao longe. Era hora de ir.
     Estendi a mo, mas ela se levantou sozinha.
     -- V acordar Link. Vou pegar minhas coisas.
     -- Ainda no entendo por que isso no pode esperar at de manh. --
Link estava mal-humorado e seu cabelo espetado estava apontando para todos
os lados.
     -- Essa coisa parece que pode esperar at de manh? -- O Arco Voltaico
brilhava tanto agora que iluminava a rua toda  nossa frente.
     -- No d pra diminuir o controle de intensidade? Desligar os raios
intensos? -- Link protegeu os olhos.
     -- Acho que no est funcionando. -- Sacudi o Arco Voltaico, mas a luz
verde piscante no parou.
     -- Cara, voc quebrou a Bola 8 Mgica.
     -- No quebrei. Eu... -- Deixei para l, colocando-a no meu bolso. -- ,
est quebrada mesmo. -- A luz brilhava atravs do meu jeans.
     --  possvel que alguma espcie de poder Conjurador o tenha acionado
e mudado o equilbrio normal de como o Arco Voltaico funciona. -- Liv
estava intrigada.
     Link no.
     -- Tipo um alarme? Isso no  bom.
     -- No sabemos se foi isso.
     -- Voc est brincando? Nunca  bom quando o Comissrio Gordon
ativa o Bat-Sinal. Nem quando o Quarteto Fantstico v o nmero quatro no
cu.
     -- Entendi a ideia.
     -- ? Pode ter uma que nos leve aonde estamos tentando ir, agora que
Ethan quebrou a Bola 8?
      Liv consultou o selenmetro e comeou a andar.
      -- Posso nos guiar at a rea geral onde a estrela caiu. -- Ela olhou para
mim. -- Quero dizer, se  que foi uma estrela. Mas Link pode estar certo. No
sei exatamente para onde vamos, nem o que encontraremos quando
chegarmos l.
      -- Quase faz um cara desejar ter sua prpria tesoura de jardinagem --
falei, seguindo Liv pela rua.
      -- Falando em coisas que no so normais, vejam quem est aqui. --
Link apontou para o meio-fio em frente a uma casa com persianas vermelhas.
Lucille estava sentada na beirada da calada, olhando para ns como w a
estivssemos atrasando. -- Eu disse que ela ia voltar.
      Lucille lambeu as patas marrons demoradamente, esperando.
      -- No conseguiu viver sem mim, n, garota? Provoco isso nas mulheres.
-- Link sorriu, fazendo carinho na cabea dela. Ela afastou os dedos com a
pata.
      -- Vamos l. Voc no vem? -- Lucille nem se mexeu.
      -- . Ele provoca isso nas mulheres -- falei para Liv quando Lucille se
espreguiou, parada na frente da casa.
      -- Ela vai mudar de ideia -- disse Link. -- Elas sempre mudam.
      Foi quando Lucille saiu correndo pela rua, na direo oposta ao caminho
que seguimos.


Era madrugada e estava escuro como breu quando nos vimos saindo da
cidade. Parecia que estvamos andando havia horas. A rua principal ficava
durante o dia. Agora estava deserta. O que fazia sentido, considerando para
onde ela nos tinha levado.
    -- Tem certeza?
    -- Nem um pouco.  s uma aproximao baseada nos dados
disponveis. -- Liv verificava o pequeno telescpio a cada cinco quadras. No
havia como duvidar dos dados.
    -- Adoro quando ela fala como nerd. -- Link puxou a trana de Liv e ela
deu um tapa na mo dele.
     Olhei para as altas colunas de pedra ladeando a entrada do famoso
cemitrio Bonaventure, que ficava nos arredores de Savannah. Era um dos
cemitrios mais famosos do sul e um dos mais bem protegidos. Isso era um
problema, pois ele tinha fechado ao entardecer.
     -- Cara, isso  uma piada, certo? Vocs tm certeza de que  para c que
precisamos vir? -- Link no pareceu muito feliz com a ideia de vagar pelo
cemitrio  noite, principalmente com um segurana na entrada e uma
patrulha que passava pelos portes da frente de tempos em tempos.
     Liv olhou para a esttua de uma mulher se segurando em uma cruz.
     -- Vamos acabar logo com isso.
     Link puxou a tesoura de jardinagem.
     -- Acho que essa belezinha no vai conseguir fazer o servio.
     -- No pelos portes. -- Apontei para a parede do outro lado das
rvores. -- Por cima deles.
     Liv conseguiu pisar em todas as partes do meu corpo, chutar meu
pescoo e enfiar o tnis com fora na minha clavcula antes de eu empurrar
seu peso por cima do porto. Ela perdeu o equilbrio quando estava l em
cima e caiu com um baque surdo.
     -- Estou bem. No se preocupem -- gritou do outro lado da parede.
     Link e eu nos olhamos e ele se inclinou.
     -- Voc primeiro. Vou subir do jeito difcil.
     Subi nas costas dele, me segurando  parede. Ele se ergueu at ficar
completamente de p.
     -- ? Como vai fazer isso?
     -- Tenho que procurar uma rvore perto o bastante da parede. Tem que
ter uma por aqui. No se preocupe. Encontro vocs.
     Eu estava no alto. Agarrei a parede com as duas mos.
     -- No matei aula todos esses anos pra nada.
     Sorri e me soltei.
     Cinco minutos e sete rvores depois, o Arco Voltaico nos levou mais para
dentro do cemitrio, alm das lpides desmoronando dos Confederados e das
esttuas que guardavam os lares dos que tinham sido esquecidos. Havia um
agrupamento de carvalhos cobertos de musgo, cujos galhos cruzados criavam
um arco acima do caminho, por onde mal conseguiramos nos espremer. O
Arco Voltaico estava piscando e pulsando.
     -- Chegamos.  aqui, certo? -- Olhei para o selenmetro por cima do
crebro de Liv.
     Link olhou ao redor.
     -- Onde? No vejo nada. -- Apontei para o espao entre as rvores. --
Srio?
     Liv tambm parecia nervosa. Ela no queria ter que passar no meio de
uma cortina de musgo espanhol em um cemitrio escuro.
     -- No consigo leitura alguma agora. Est tudo maluco.
     -- No importa.  aqui, tenho certeza.
     -- Voc acha que Lena, Ridley e John esto a? -- Link parecia estar
planejando voltar e esperar por ns na entrada, ou talvez em um restaurante
comendo uma costela.
     -- No sei. -- Empurrei o musgo e passei pelo meio.
     Do outro lado, as rvores eram ainda mais sinistras, inclinadas sobre
nossas cabeas, criando um cu prprio. Havia uma clareira  nossa
frente,com uma enorme esttua de um anjo suplicante no centro dos tmulos.
Os tmulos eram feitos de pedra, que contornavam a largura de cada um.
Quase dava para ver os caixes enterrados abaixo delas.
     -- Ethan, olhe. -- Liv apontou para o ponto atrs da esttua. Eu podia
ver silhuetas emolduradas por uma fina camada de luz da lua. Elas estavam se
movendo.
     Tnhamos companhia.
     Link balanou a cabea.
     -- Isso no pode ser bom.
     Por um segundo, no pude me mexer. E se fossem Lena e John? O que
eles estavam fazendo em um cemitrio  noite, sozinhos? Segui o caminho
ladeado por mais esttuas ainda -- anjos ajoelhados olhando para os cus, ou
outros que olhavam para ns enquanto choravam.
     Eu no tinha ideia do que esperar, mas quando as duas formas se
tornaram visveis, eram as ltimas pessoas que eu esperava ver.
     Amma e Arelia, a me de Macon. A ltima vez em que eu a tinha visto foi
no enterro dele. Elas estavam sentadas entre os tmulos. Eu era um homem
morto. Eu devia saber que Amma ia me encontrar.
     Havia outra mulher sentada na terra com elas. Eu no a reconheci. Era
um pouco mais velha do que Arelia, com a mesma pele dourada. Seu cabelo
estava arrumado com centenas de pequenas tranas e ela usava vinte ou trinta
cordes de contas -- algumas eram pedras e miangas coloridas, outras,
pequenos pssaros e animais. Havia pelo menos dez buracos em cada orelha e
longos brincos pendurados em cada um deles.
     As trs estavam sentadas de pernas cruzadas em um crculo, com lpides
pontuando a terra ao redor. As mos estavam unidas no centro do crculo.
Amma estava de costas para ns, mas eu no tinha dvida de que ela sabia que
eu estava l.
     -- Demorou muito. Estvamos esperando, e voc sabe que odeio
esperar. -- A voz de Amma no estava mais agitada do que o normal, o que
no fazia sentido, pois eu havia desaparecido sem nem deixar um bilhete.
     -- Amma, me desculpe...
     Ela sacudiu a mo como se estivesse espantando uma mosca.
     -- No temos tempo para isso agora. -- Amma balanou o osso em sua
mo. Um osso do cemitrio, eu estava disposto a apostar.
     Olhei para Amma.
     -- Voc nos trouxe aqui?
     -- No posso dizer que sim. Alguma outra coisa trouxe vocs, alguma
coisa mais forte do que eu. Eu s sabia que vocs estavam vindo.
     -- Como?
     Amma me lanou um olhar de desprezo.
     -- Como um pssaro sabe voar para o sul? Como uma lampreia sabe
nadar? No sei quantas vezes preciso lhe dizer, Ethan Wate. No me chamam
de Vidente sem motivo.
     -- Eu tambm previ sua chegada. -- Arelia estava relatando um fato, mas
isso irritou Amma mesmo assim. Deu para perceber pela expresso dela.
     Amma ergueu o queixo.
     -- Depois que eu mencionei. -- Amma estava acostumada a ser a nica
Vidente de Gatlin e no gostava de ser derrotada, mesmo por uma
Adivinhadora com poderes sobrenaturais.
     A outra mulher, que eu no conhecia, se virou para Amma.
     --  melhor comear, Amarie. Esto esperando.
     -- Venham sentar-se aqui. -- Amma fez sinal para ns. -- Twyla est
pronta. -- Twyla. Reconheci o nome.
     Arelia respondeu a pergunta antes que eu a fizesse.
     -- Esta  minha irm, Twyla. Ela veio de muito longe para estar aqui
conosco hoje. -- Eu lembrei. Lena tinha falado da tia-av Twyla, a que nunca
havia sado de Nova Orleans. At hoje.
     -- Isso mesmo. Agora venha se sentar ao meu lado, cher. No tenha
medo.  s um Crculo de Viso.
     Twyla bateu com a mo no espao vazio ao seu lado. Amma estava
sentada do Outro lado de Twyla, me lanando o Olhar. Liv deu um passo para
trs, parecendo bem assustada, mesmo para algum em treinamento para ser
Guardi. Link ficou logo atrs dela. Amma provocava isso nas pessoas, e pelo
que parecia, Twyla e Arelia tambm.
     -- Minha irm  uma poderosa Necromancer. -- A voz de Arelia estava
cheia de orgulho.
     Link fez uma careta e cochichou para Liv:
     -- Ela transa com gente morta? Esse  o tipo de coisa sobre a qual devia-
se manter segredo.
     Liv revirou os olhos.
     -- No  necrfila, seu burro. Ela  Necromancer, uma Conjuradora
capaz de chamar e se comunicar com os mortos.
     Arelia assentiu.
     --  isso mesmo, e precisamos da ajuda de algum que j deixou este
mundo.
     Eu soube imediatamente de quem ela estava falando, ou pelo menos
esperava saber.
     -- Amma, estamos tentando chamar Macon?
     A tristeza tomou conta do rosto dela.
     -- Gostaria de poder dizer que sim, mas no podemos ir at o local para
onde Melchizedek foi.
     -- Est na hora. -- Twyla tirou uma coisa do bolso e olhou para Amma e
Arelia. Dava para sentir a mudana no comportamento delas. As trs se
tornaram prticas, mesmo em se tratando de acordar os mortos.
     Arelia abriu as mos em frente aos lbios e falou baixinho dentro delas.
     -- Meu poder  seu poder, irms. -- Ela jogou pequenas pedras no
centro do crculo.
     -- Pedras da lua -- sussurrou Liv.
     Amma pegou um saco com ossos de galinha. Eu reconheceria aquele
cheiro em qualquer lugar. Era o cheiro da cozinha da minha casa.
     -- Meu poder  seu poder, irms.
     Amma jogou os ossos dentro do crculo com as pedras da lua. Twyla
abriu a mo, revelando uma pequena escultura em forma de pssaro. Ela falou
as palavras que lhe davam poder.
     -- Um para este mundo, um para o prximo.
     Abram a porta para o que est anexo.
     Ela comeou a cantarolar em voz alta e febril, as palavras desconhecidas
rachando o ar. Os olhos dela se reviraram para dentro, mas as plpebras
permaneceram abertas. Arelia comeou a cantarolar tambm, sacudindo
longos cordes franjados de contas.
     Amma segurou meu queixo para me olhar nos olhos.
     -- Sei que isso no vai ser fcil, mas tem coisas que voc precisa saber.
     O ar no centro do Crculo de Viso comeou a girar e se agitar, criando
uma nvoa branca e fina. Twyla, Arelia e Amma continuaram a cantarolar,
suas vozes aumentando de volume. A nvoa parecia agir de acordo com a
ordem delas, ganhando velocidade e densidade, rodopiando para cima como
um furaco em crescimento.
     Sem aviso, Twyla inspirou profundamente, como se estivesse dando seu
ltimo suspiro. A nvoa pareceu ser puxada, desaparecendo dentro da sua
boca. Por um minuto, achei que ia cair morta. Ela ficou ali, sentada com as
costas to eretas que parecia estar presa a um poste, os olhos voltados para
dentro da cabea, a boca ainda aberta.
      Link se afastou at uma distncia segura enquanto Liv tentava se
aproximar para ajudar, estendendo os braos na direo de Twyla. Mas Amma
pegou o brao dela no meio do caminho.
      -- Espere.
      Twyla expirou. A nvoa branca saiu dos lbios dela e se ergueu sobre o
crculo. Tomando forma. Ela subiu mais, criando um corpo  medida que se
movia. Os ps descalos aparecendo por baixo de um vestido branco, o corpo
preenchendo o vestido como se estivesse inflando um balo. Era um
Espectro, se erguendo da neblina. Observei a nvoa espiralar para cima,
criando um tronco, um pescoo delicado e finalmente um rosto.
      Era... minha me.
      Olhando para mim com a qualidade luminosa e etrea tpica dos
Espectros. Mas fora a translucidez, era exatamente igual  minha me. As
plpebras dela tremeram e ela olhou para mim. O Espectro no s parecia
minha me. Era minha me.
      Ela falou, e sua voz era to suave e melodiosa quanto eu me lembrava.
      -- Ethan, querido, estive esperando por voc.
      Fiquei olhando para ela, sem palavras. Em cada sonho que tive desde o
dia em que ela morreu, em cada foto, em cada lembrana, ela nunca foi to
real como agora.
      -- Tem tanta coisa que preciso contar a voc e tanto que no posso dizer.
Venho tentando mostrar o caminho, mandar as msicas...
      Ela me mandava as msicas. As que s Lena e eu podamos ouvir. Eu
falei, mas minha voz soou distante, como se no fosse minha. Dezessete
Luas, a msica sinalizadora.
      -- Foi voc esse tempo todo?
      Ela sorriu.
      -- Sim. Voc precisava de mim. Mas agora ele precisa de voc, e voc
precisa dele tambm.
      -- Quem? Est falando do papai? -- Mas eu sabia que ela no estava
falando do meu pai. Estava falando do outro homem que significava muito
para ns dois.
      Macon.
     Ela no sabia que ele tinha morrido.
     -- Est falando de Macon? -- Vi um brilho de reconhecimento nos
olhos dela. Eu tinha que contar. Se alguma coisa acontecesse a Lena, eu iria
querer que algum me contasse. No importava o quanto as coisas mudassem.
     -- Macon morreu, me. H alguns meses. Ele no pode me ajudar.
Observei o brilho dela  luz da lua. Ela estava to bonita quanto da ultima vez
em que a vi, quando me abraou na varanda sob a chuva antes eu ir para a
escola.
     -- Escute, Ethan. Ele sempre estar com voc. S voc pode redimi-lo.
-- A imagem dela comeou a desaparecer.
     Estendi o brao, desesperado para toc-la, mas minha mo pairou no ar.
     -- Me?
     -- A Lua Invocadora foi convocada. -- Ela estava desaparecendo, se
esvaindo na noite. -- Se as Trevas prevalecerem, a Dcima Stima Lua a
ltima. -- Eu quase no conseguia mais v-la. A nvoa voltou a rodopiar
lentamente, acima do crculo. -- Rpido, Ethan. Voc no tem muito t p0,
mas pode fazer isso. Eu tenho f. -- Ela sorriu e tentei memorizar a expresso
dela, porque sabia que ela estava indo embora.
     -- E se eu chegar tarde demais?
     Pude ouvir sua voz distante.
     -- Tentei mant-lo em segurana. Eu devia saber que no podia. Voc
sempre foi especial.
     Olhei para a neblina branca, que rodopiava como meu estmago.
     -- Meu doce garoto de vero. Sempre pensarei em voc. Amo...
     As palavras sumiram at virar nada. Minha me tinha vindo aqui.Por
alguns minutos, vi seu sorriso e ouvi sua voz. Agora ela tinha ido embora.
     Eu a tinha perdido de novo.
     -- Tambm amo voc, me.
                                   19 de junho   
                               Cicatrizes

                                  

--T
                  em uma coisa que preciso lhe contar. -- Amma apertava as
                  mos com nervosismo. --  sobre a noite da Dcima Sexta
                  Lua, do aniversrio de Lena. -- Demorei um segundo para
me dar conta de que ela estava falando comigo. Eu ainda olhava para o centro
do crculo, no qual minha me havia estado um momento antes.
     Dessa vez, minha me no mandara mensagens em livros ou em versos
de msica. Eu a tinha visto.
     -- Conte para o garoto.
     -- Silncio, Twyla. -- Arelia colocou a mo no brao da irm.
     -- Mentiras. Mentiras so onde as trevas crescem. Conte para o garoto.
Conte agora.
     -- De que vocs esto falando? -- Olhei de Twyla para Arelia. Amma
lanou-lhes um olhar que Twyla respondeu com um sacolejar das tranas
cheias de contas.
     -- Escute, Ethan Wate. -- A voz de Amma estava irregular e trmula. --
Voc no caiu do alto da cripta, pelo menos no do jeito que contamos a
voc.
     -- O qu? -- Ela no estava fazendo sentido. Por que estava falando
sobre o aniversrio de Lena depois de eu ter acabado de ver o fantasma da
minha me?
     -- Voc no caiu, entende? -- repetiu ela.
     -- O que est dizendo?  claro que ca. Acordei no cho, cado de costas.
     -- No foi assim que voc chegou l -- hesitou Amma. Foi a me de
Lena. Sarafine o esfaqueou. -- Amma olhou bem dentro dos meus olhos.
     -- Ela matou voc. Voc estava morto e ns o trouxemos de volta.
     EIa matou voc.
     Repeti as palavras na minha cabea, as peas se encaixando to
rapidamente que mal consegui entender o sentido delas. Em vez disso, elas se
encaixaram sozinhas at que eu visse...
     o sonho que no era um sonho, mas uma lembrana de no respirar e no
sentir e no achar e no ver...
     a terra e as chamas que dominaram meu corpo enquanto minha vida se
esvaa...
     -- Ethan! Voc est bem? -- Eu podia ouvir Amma, mas ela estava
longe, to longe quanto naquela noite, quando eu estava no cho.
     Eu podia estar no cho agora, como minha me e Macon.
     Devia estar.
     -- Ethan? -- Link me sacudia.
     Meu corpo se encheu de sensaes que eu no conseguia controlar e no
queria lembrar. Sangue na minha boca, sangue vibrando nos meus ouvidos...
     -- Ele est desmaiando. -- Liv segurava minha cabea.
     Tinha havido dor e barulho e mais uma coisa. Vozes. Formas. Pessoas.
     Eu tinha morrido.
     Enfiei a mo debaixo da camisa e passei-a sobre a cicatriz na minha
barriga. A cicatriz no local onde Sarafine havia me perfurado com uma faca de
verdade. Eu mal reparava nela, mas agora seria uma lembrana constante da
noite em que morri. Eu me lembrei de como Lena reagiu quando a viu.
     -- Voc ainda  a mesma pessoa e Lena ainda ama voc. O amor dela  o
motivo de voc estar aqui agora. -- Arelia soava gentil, sbia.
      Abri meus olhos, deixando as formas embaadas se tornarem pessoas
enquanto eu me recuperava e voltava a ser eu mesmo.
       Meus pensamentos estavam muito confusos. Mesmo agora, nada fazia
sentido.
      -- Como assim, o amor dela  o motivo de eu estar aqui agora?
      Amma falou baixinho e precisei me esforar para ouvi-la.
      -- Foi Lena que fez voc voltar. Eu a ajudei, eu e sua me.
      As palavras no se encaixavam, ento tentei repeti-las na minha cabea.
Lena e Amma me trouxeram de volta da morte, juntas. E juntas haviam
mantido segredo de mim at agora. Esfreguei a cicatriz na minha pele. A
sensao era bem verdadeira.
      -- Desde quando Lena sabe trazer os mortos de volta  vida? Se
soubesse, no acham que teria trazido Macon tambm?
      Amma olhou para mim. Eu nunca a tinha visto to assustada.
      -- Ela no fez isso sozinha. Ela usou o Feitio de Atar do Livro das Luas.
Que ata a morte  vida.
      Lena tinha usado O Livro das Luas.
      O Livro que tinha amaldioado Genevieve e toda a famlia de Lena havia
geraes, Invocando todas as crianas da famlia de Lena para a Luz ou para as
Trevas em seus dcimos sextos aniversrios. O Livro que Genevieve tinha
usado para trazer Ethan Carter Wate de volta  vida s por um segundo --
um ato pelo qual ela passou o restante da vida pagando.
      Eu no conseguia pensar. Minha mente comeou a desmoronar outra vez
e eu no conseguia acompanhar meus prprios pensamentos. Genevieve. Lena.
O preo.
      -- Como a senhora pde? -- E me empurrei para trs com os ps, me
afastando delas e do Crculo de Viso. J tinha visto o bastante.
      -- No tive escolha. Ela no conseguia deixar voc ir. -- Amma olhou
para mim, envergonhada. -- Eu tambm no.
      Fiquei de p e balancei a cabea.
      --  mentira. Ela no faria isso. -- Mas eu sabia que faria. As duas
fariam. Era exatamente o que elas fariam. Eu sabia, porque tambm teria feito
isso.
     No importava agora.
     Durante toda a minha vida eu nunca tinha ficado to furioso e nem to
decepcionado com Amma.
     -- A senhora sabia que o Livro no daria nada sem pedir algo em troca.
A senhora mesma me contou isso.
     -- Eu sei.
     -- Lena ter que pagar um preo por isso, por minha causa. Vocs duas
tero. -- Minha cabea parecia que se partiria no meio ou explodiria.
     Uma lgrima traidora ficou presa na bochecha de Amma. Ela colocou
dois dedos na testa e fechou os olhos, a verso de Amma do sinal da cruz,
uma orao silenciosa.
     -- Ela est pagando agora mesmo.
     Eu no conseguia respirar.
     Os olhos de Lena. A cena na feira. Fugir com John Breed. As palavras
encontraram a sada mesmo que eu tentasse segur-las.
     -- Ela est indo para as Trevas por minha causa.
     -- Se ela est indo para as Trevas, no  por causa daquele Livro. O Livro
fez um tipo diferente de troca. -- Amma parou, como se no pudesse
suportar me contar o restante.
     -- Que tipo de troca?
     -- Deu uma vida e levou outra. Sabamos que haveria consequncias. --
As palavras ficaram presas na garganta dela. -- S no sabamos que seria
Melchizedek.
     Macon.
     No podia ser verdade.
     Deu uma vida e levou outra. Um tipo diferente de troca.
     A minha vida pela de Macon.
     Tudo fazia sentido. O modo como Lena vinha agindo nos ltimos meses.
O modo como vinha se afastando de mim, de todo mundo. O modo como se
culpava pela morte de Macon.
     Era verdade. Ela o tinha matado.
     Para me salvar.
     Pensei no caderno dela e na pgina Enfeitiada que encontrei. O que as
palavras diziam? Amma? Sarafine? Macon? O Livro? Era a histria real
daquela noite. Eu me lembrei dos poemas escritos na parede dela. Ningum o
Morto e Ningum o Vivo. Dois lados da mesma moeda. Macon e eu.
     Nada verde pode permanecer. Meses atrs, eu achei que ela havia escrito o
poema de Frost errado. Mas  claro que no tinha sido isso. Ela estava falando
de si mesma.
     Pensei sobre como parecia doloroso para ela me olhar. No era de
surpreender que se sentisse culpada. No era de surpreender que tivesse
fugido. Eu me perguntei se algum dia ela suportaria olhar para mim de novo.
Lena tinha feito tudo por minha causa. No era culpa dela.
     Era minha.




Ningum disse nada. No havia como voltar atrs agora, para nenhum de ns.
O que Lena e Amma tinham feito naquela noite no podia ser desfeito. Eu
no devia estar ali, mas estava.
     -- a Ordem e voc no pode impedi-la. -- Twyla fechou os olhos
como se pudesse ouvir alguma coisa que eu no podia.
     Amma puxou um leno do bolso e secou o rosto.
     -- Lamento no ter contado, mas no lamento o que fizemos. Era o
nico jeito.
     -- A senhora no entende. Lena acha que est indo para as Trevas. Ela
fugiu com uma espcie de Conjurador das Trevas ou Incubus. Ela est em
perigo por minha causa.
     -- Besteira. Aquela garota fez o que precisava fazer porque ama voc.
     Arelia juntou as oferendas do cho; os ossos, o pardal, as pedras da
     -- Nada pode fazer Lena ir para as Trevas, Ethan. Ela precisa escolher.
     -- Mas ela pensa que  das Trevas porque matou Macon. Ela acha que
escolheu.
     -- Mas no escolheu -- disse Liv. Ela estava parada a alguns metros, para
nos dar um pouco de privacidade.
     Link estava sentado em um velho banco de pedra, alguns passos atrs
     -- Ento temos que encontr-la e dizer isso a ela. -- Ele no agiu como
se tivesse acabado de descobrir que morri e fui trazido de volta. Agiu como se
tudo estivesse igual. Fui at l e me sentei no banco, ao lado dele. Lv olhou
para mim.
     -- Voc est bem?
     Liv. Eu no conseguia olhar para ela. Eu estava com cimes e magoado,
tinha arrastado Liv para o meio da minha vida errada e confusa. Tudo porque
achava que Lena no me amava mais. Mas eu era burro e estava errada Lena
me amava tanto que estava disposta a arriscar tudo para me salvar.
     Eu tinha desistido de Lena depois de ela se recusar a abrir mo de mim.
     Eu devia minha vida a ela. Era simples assim.
     Meus dedos encostaram em alguma coisa entalhada na beirada do banco.
Palavras.

    IN THE COOL COOL COOL
    OF THE EVENING

     Era a msica que estava tocando em Ravenwood na noite em que conheci
Macon. A coincidncia era grande demais, principalmente para um mundo
sem coincidncias. Tinha que ser algum tipo de sinal.
     Sinal do qu? Do que eu tinha feito a Macon? Eu nem conseguia imaginar
como Lena devia ter se sentido ao perceber que o tinha perdido no meu lugar.
E se eu tivesse perdido minha me dessa forma? Ser que conseguiria olhar
para Lena viva sem ver minha me morta?
     -- S um minuto.
     Levantei do banco e fui correndo pelo, caminho entre as rvores, por
onde tnhamos chegado. Respirei o ar da noite at encher os pulmes, porque
ainda podia respirar. Quando finalmente parei de correr, olhei para as estrelas
e para o cu.
     Ser que Lena estava olhando para o mesmo cu, ou para um que eu
jamais conseguiria ver? Nossas luas eram mesmo to diferentes?
      Coloquei a mo no bolso e peguei o Arco Voltaico para que ele me
mostrasse como encontr-la, mas ele no mostrou. Em vez disso, me mostrou
outra coisa...
      Macon nunca havia sido como seu pai, Suas, e os dois sabiam disso. Ele sempre tinha
sido mais como a me, Arelia, uma poderosa Conjuradora da Luz por quem Suas tinha se
apaixonado profundamente enquanto estava fazendo faculdade em Nova Orleans. No
muito diferente do modo como Macon e Jane tinham se conhecido e se apaixonado quando ele
estudava em Duke. E, como Macon, seu pai tinha se apaixonado por sua me antes da
Transformao. Antes que o av de Silas tivesse se convencido de que um relacionamento
com uma Conjuradora da Luz era uma abominao contra a espcie deles.
      O av de Macon levou anos para conseguir afastar Arelia e Silas. Quando isso
aconteceu, Hunting e Leah j tinham nascido. Arelia tinha sido forada a usar seus poderes
de Adivinhadora para escapar da ira de Silas e de seu desejo incontrolvel por alimento. Ela
tinha fugido para Nova Orleans com Leah. Suas jamais teria deixado que ela levasse os
filhos.
      Arelia era a nica a quem Macon podia recorrer agora. A nica que entenderia que
ele tinha se apaixonado por uma Mortal, o maior ato de sacrilgio contra sua espcie, o
Incubus de Sangue.
      O Soldado do Demnio.
      Macon no tinha avisado a me que estava indo; ela, porm, o estaria esperando. Ele
subiu dos tneis at o calor doce de uma noite de vero em Nova Orleans. Vagalumes
piscavam na escurido e o cheiro de magnlias predominava. Ela esperava por ele na
varanda, bordando rendas em uma velha cadeira de balano. Fazia muito tempo.
      -- Me, preciso da sua ajuda.
      Ela colocou a agulha e a tela de lado e se ergueu da cadeira.
      -- Eu sei. Tudo est pronto, cher.
      S havia uma coisa poderosa o bastante para deter um Incubus, alm de um integrante
da prpria espcie.
      Um Arco Voltaico.
      Eram considerados aparatos medievais, armas criadas para controlar e aprisionar o
mais poderoso dos Perigosos, o Incubus. Macon nunca tinha visto um antes. Poucos
restavam e eram quase impossveis de achar.
      Mas sua me tinha um e Macon precisava dele.
      Macon seguiu-a at a cozinha. Ela abriu um pequeno armrio que servia de altar
para os espritos. Desembrulhou uma pequena caixa de madeira com escrita nidica, a
antiga lngua Conjuradora, em sua superfcie.
      QUEM PROCURA VAI ENCONTRAR
      A CASA DOS PROFANOS
      A CHAVE DA VERDADE
      -- Seu pai me deu isso antes da Transformao. Foi passado pela famlia Ravenwood
por geraes. Seu bisav dizia que pertenceu ao prprio Abraham, e eu acredito. Est
marcado pelo dio e pelo fanatismo dele.
      Ela abriu a caixa, revelando a esfera cor de bano. Macon podia sentir a energia,
mesmo sem toc-la -- a terrvel possibilidade de uma eternidade dentro das paredes
brilhantes dela.
      -- Macon, voc precisa entender. Quando um Incubus  preso dentro do Arco
Voltaico, no tem como sair de l sozinho. Voc precisa ser libertado. Se der isto a algum,
precisa ter certeza de que pode confiar nessa pessoa, porque estar colocando mais do que sua
vida nas mos dela. Estar dando a ela mil vidas.  assim que uma eternidade pareceria de
dentro disso.
      Ela segurou a caixa mais no alto de modo que ele pudesse ver, como se pudesse
imaginar o confinamento s de olhar a esfera.
      -- Eu entendo, me. Posso confiar em Jane. Ela  a pessoa mais honesta e com mais
princpios que j conheci, e ela me ama. Apesar do que sou.
      Arelia tocou a bochecha de Macon.
      -- No h nada de errado com quem voc , cher. Se houvesse, seria minha culpa. Eu
o condenei a esse destino.
      Macon se inclinou e beijou a testa dela.
      -- Amo voc, me. Nada disso  sua culpa.  culpa dele.
      Do pai dele.
      Silas era possivelmente uma ameaa maior a Jane do que Macon. Silas era escravo da
doutrina do primeiro Incubus de Sangue de Ravenwood. Abraham.
      -- No  culpa dele, Macon. Voc no sabe como seu av era. Como de pressionou
seu pai a acreditar na sua ideia deturpada de superioridade, de que Mortais eram inferiores
a Conjuradores e Incubus, nada mais do que uma fonte de sangue para satisfazer o desejo
deles. Seu pai foi doutrinado, assim como o pai dele.
      Macon no ligava. Tinha deixado de sentir pena do pai havia muito tempo, tinha
parado de se perguntar como sua me podia ter amado Silas.
      -- Diga-me como usar. -- Macon estendeu a mo, hesitante. -- Posso tocar?
      -- Sim. A pessoa que tocar em voc com ele  que precisa ter a inteno, e mesmo
assim ele  inofensivo sem o Carmen Defixionis.
      A me dele pegou um pequeno saco, uma bolsa de amuleto, a proteo mais forte que o
vodu podia oferecer, que estava na porta do poro e desapareceu pela escadaria escura.
Quando voltou, carregava algo embrulhado em um pedao poeirento de tecido. Ela colocou o
objeto sobre a mesa e o desembrulhou.
      O Responsum.
      Traduzido literalmente, significava "a Resposta".
      Estava escrito em nidico. Continha todas as leis que governavam sua espcie.
      Era o livro mais antigo que havia. S existiam algumas cpias no mundo. Arelia
virou as pginas delicadas com cuidado at chegar na que procurava.
      -- Carcer.
      A Priso.
      O desenho do Arco Voltaico era exatamente igual ao verdadeiro, e estava pousado na
caixa revestida de veludo em cima da mesa da mesa dela, ao lado do touffe que ela no
havia comido.
      -- Como funciona?
      --  bem simples. Uma pessoa s precisa tocar no Arco Voltaico e no Incubus que
ela deseja aprisionar e dizer o Carmen ao mesmo tempo. O Arco Voltaico faz o resto.
      -- O Carmen est no livro?
      -- No,  poderoso demais para ser confiado  palavra escrita. Voc precisa aprend-
lo com algum que o conhece e guard-lo na memria.
      Ela baixou a voz como se tivesse medo de que algum ouvisse. Ento sussurrou as
palavras que podiam conden-lo a uma eternidade de sofrimento.
      -- Comprehende, Liga, Cruci Fige.
      Capturar, Aprisionar e Crucificar.

     Arelia fechou a tampa da caixa e a entregou para Macon.
     -- Tome cuidado. No Arco h poder e no poder h Noite.
     Macon beijou-a na testa.
      -- Prometo.
      Ele se virou para ir embora, mas a voz de sua me o chamou de volta.
      -- Voc precisar disto.
      Ela rabiscou vrias linhas em um pedao de pergaminho.
      -- O que ?
      -- A nica chave para essa porta. -- Ela gesticulou para a caixa debaixo do brao
dele. -- O nico meio de tirar voc da.

     Abri os olhos. Eu estava de volta ao cho de terra, olhando para as
estrelas. O Arco Voltaico era de Macon, como Marian havia dito. Eu no sabia
onde ele estava, se no Outro Mundo ou no cu Conjurador. No sabia por
que estava me mostrando aquilo tudo, mas se eu tinha aprendido algo hoje,
era que tudo acontecia por um motivo.
     Eu precisava entender qual era antes que fosse tarde demais.

                                           ***


Ainda estvamos no cemitrio Bonaventure, embora agora estivssemos perto
da entrada. No me dei ao trabalho de dizer a Amma que no ia voltar com
ela. Ela parecia saber.
     --  melhor irmos. -- Abracei Amma.
     Ela pegou minhas mos e apertou com fora.
     -- Um passo de cada vez, Ethan Wate. Sua me pode dizer que isso 
uma coisa que voc tem que fazer, mas estarei observando cada passo do
caminho. -- Eu sabia como era difcil para ela me deixar ir em vez de me
colocar de castigo e me mandar para o quarto at o restante da minha vida.
     As coisas estavam to ruins quanto pareciam. Isso era a prova.
     Arelia deu um passo  frente e colocou um objeto na minha mo, uma
pequena boneca como as que Amma fazia. Era um amuleto vodu.
     -- Eu tinha f na sua me e tenho f em voc, Ethan. Este  meu jeito de
dizer boa sorte, porque no vai ser fcil.
     -- O certo e o fcil nunca so a mesma coisa -- repeti as palavras que
minha me tinha me dito centenas de vezes. Eu a estava canalizando, da
minha maneira.
     Twyla tocou minha bochecha com um dedo ossudo.
     -- A verdade em ambos os mundos.  preciso perder para ganhar. No
estamos aqui por muito tempo, cher. -- Era um aviso, quase como se ela
soubesse de alguma coisa que eu no sabia. Depois do que eu tinha visto
naquela noite, tinha certeza de que sim.
     Amma passou os braos magros ao meu redor em um ltimo abrao
esmagador.
     -- Vou trazer um pouco de sorte pra voc do meu jeito -- sussurrou e
virou-se para Link. -- Wesley Jefferson Lincoln,  melhor voc voltar inteiro,
ou vou contar para sua me o que voc fez no meu poro quando tinha 9
anos, est ouvindo?
     Link sorriu ao ouvir a ameaa familiar.
     -- Sim, senhora.
     Amma no disse nada para Liv, s assentiu rapidamente em direo a ela.
Era o seu jeito de mostrar a quem era leal. Agora que eu sabia o que Lena
tinha feito por mim, no tinha dvida sobre como Amma se sentia em relao
a ela.
     Amma limpou a garganta.
     -- Os guardas se foram, mas Twyla no pode segur-los para sempre.
melhor vocs irem.
     Abri o porto de ferro com Link e Liv atrs de mim.
     Estou indo, L. Quer voc me queira, quer no.
                                    19 de junho   
                              L embaixo

                                    

N
      ingum falou nada enquanto andvamos pela beira da estrada em direo
      ao parque e ao portal de Savannah. Decidimos no arriscar voltar para a
      casa da tia Caroline, pois tia Del estaria l e provavelmente no ia nos
deixar continuar sem ela. Fora isso, no parecia haver qualquer coisa que
valesse ser dita. Link tentou fazer o cabelo ficar de p com a ajuda de um gel e
Liv verificou o selenmetro e rabiscou no caderninho vermelho uma ou duas
vezes.
     As mesmas coisas de sempre.
     S que as mesmas coisas de sempre no eram as mesmas esta manh, na
escurido sombria que precedia o amanhecer. Minha mente estava dando
voltas e tropecei mais do que algumas vezes. Aquela noite estava pior do que
um pesadelo. Eu no podia acordar. Eu nem precisava fechar meus olhos para
ver o sonho, Sarafine e a faca, Lena gritando e chorando por mim.
     Eu tinha morrido.
     Fiquei morto, sabe-se l por quanto tempo.
     Minutos?
     Horas?
     Se no fosse por Lena, eu estaria sob a terra do Jardim da Paz Perptua
nesse momento. A segunda caixa de cedro lacrada em nosso lote familiar.
     Ser que eu tinha sentido coisas? Visto coisas? Ser que isso tinha me
mudado? Toquei na linha dura da cicatriz debaixo da minha camiseta. Era
mesmo minha cicatriz? Ou apenas a lembrana de uma coisa que tinha
acontecido a outro Ethan Wate, o que no voltou?
     Tudo era um borro confuso, como os sonhos que Lena e eu
compartilhvamos, ou a diferena entre os dois cus que Liv tinha me
mostrado na noite em que a Estrela do Sul desaparecera. Que parte era real?
Ser que sabia inconscientemente o que Lena havia feito? Ser que eu tinha
algo por baixo de tudo o mais que tinha acontecido conosco?
     Se ela soubesse o que estava escolhendo, ser que teria feito uma escolha
diferente?
     Eu devia minha vida a ela, mas no me sentia feliz. S sentia destruio.
O medo da terra e do nada e de ficar sozinho. A perda da minha me e de
Macon e, de certa forma, de Lena. E uma outra coisa.
     A tristeza debilitante e a incrvel culpa de ser aquele que sobreviveu.


O parque Forsyth era assustador ao amanhecer. Eu nunca o tinha visto sem
estar repleto de pessoas. Sem elas, quase no reconheci a porta para os tneis.
Nada de sinetas do bonde, nada de turistas. Nada de cachorros miniatura nem
de jardineiros podando azalias. Pensei em todas as pessoas vivas que
passariam pelo parque naquele dia.
     -- Voc no viu. -- Liv puxou meu brao.
     -- O qu?
     -- A porta. Voc passou direto.
     Ela estava certa. Tnhamos passado direto pela entrada antes de eu
identific-la. Quase esqueci como o funcionamento do mundo Conjura- dor
era sutil, sempre escondido. No dava para ver a porta externa do parque a
no ser que a estivesse procurando, e a passagem em forma de arco a deixava
numa sombra perptua, provavelmente tinha Conjuro prprio. Link comeou
a trabalhar, usando a tesoura de jardinagem no espao entre a porta e a
estrutura o mais rpido que pde, abrindo-a com um rudo. O interior
sombrio do tnel estava ainda mais escuro do que o amanhecer de vero.
     -- No consigo acreditar que isso funciona -- e balancei a cabea.
     -- Venho pensando sobre isso desde que samos de Gatlin -- disse Liv.
     -- Acho que faz muito sentido.
     -- Faz sentido que uma porcaria de tesoura de jardinagem consiga abrir ia
porta Conjuradora?
     -- Essa  a beleza da Ordem das Coisas. Eu te disse, h o universo
mgico e o universo material. -- Liv olhou para o cu.
     Meus olhos seguiram os dela.
     -- Como dois cus.
     -- Exatamente. Um no  mais real do que o outro em nada. Eles
coexistem.
     -- Ento uma tesoura enferrujada de metal pode dar conta de um portal
mgico? -- No sei por que fiquei surpreso.
     -- Nem sempre. Mas onde os dois universos se encontram, sempre
haver alguma espcie de fresta. Certo? -- Fazia sentido para Liv.
     Assenti.
     -- Queria saber se uma fora em um universo corresponde a uma
fraqueza no outro. -- Ela estava falando consigo mesma tanto quanto
comigo.
     -- Voc quer dizer que a porta  fcil para Link abrir porque  impossvel
para um Conjurador? -- Link vinha tendo uma estranha facilidade com os
portais. Por outro lado, Liv no sabia que Link arrombava fechaduras desde
que a me dele instituiu o primeiro toque de recolher, por volta do sexto ano.
     -- Possivelmente. Pode explicar o que est acontecendo com o Arco
Voltaico.
     -- E que tal isso? As portas Conjuradoras vivem se abrindo porque sou
um macho fenomenal. -- Link flexionou o brao.
     -- Ou os Conjuradores que construram estes tneis h centenas de anos
no estavam pensando em tesouras de jardinagem -- falei.
    -- Porque estavam pensando na minha macheza suprema, em ambos os
universos. -- Ele prendeu novamente a tesoura no cinto. -- Primeiro as
damas.
    Liv entrou no tnel.
    -- Como se isso me surpreendesse.


Seguimos pela escadaria, mergulhando no ar parado do tnel. Ele estava
completamente quieto, nem mesmo ouvia-se o eco dos nossos passos. O
silncio caiu sobre ns, denso e pesado. O ar abaixo do mundo Mortal no
tinha a leveza do ar de cima.
     No fundo do portal, nos vimos frente  mesma rua escura que nos tinha
levado a Savannah. A que tinha se dividido em duas direes: a rua sombria e
escura onde estvamos e o caminho da campina, tomado pela luz.
Diretamente  nossa frente, o velho letreiro de non do motel agora piscava,
mas essa era a nica diferena.
     Isso e Lucille deitada abaixo dele, a luz atingindo o pelo dela ao piscar.
Ela bocejou ao nos ver, se levantando lentamente, uma pata de cada vez.
     -- Voc est sendo muito irritante, Lucille. -- Link se abaixou para coar
as orelhas dela. Lucille miou, ou rosnou, dependendo de como se encarasse a
situao. -- Ah, eu te perdo. -- Tudo era um elogio para Link.
     -- E agora? -- Olhei para o cruzamento das ruas.
     -- Escadaria para o inferno ou Estrada de tijolos amarelos? Por que voc
no d uma sacudida na Bola 8 e v se ela est pronta pra brincar de novo? --
Link ficou de p.
     Tirei o Arco Voltaico do bolso. Ainda brilhava e piscava, mas a cor
esmeralda que nos levou at Savannah tinha sumido. Agora ele estava azul-
escuro, como uma daquelas fotos da Terra tirada por satlites.
     Liv tocou na esfera e a cor ficou mais escura.
     -- O azul  ainda mais intenso do que o verde. Acho que est ficando
mais forte.
     -- Ou seus superpoderes esto ficando mais fortes. -- Link me deu um
empurro e quase derrubei o Arco Voltaico.
     -- E voc tem dvida sobre o motivo dessa coisa ter parado de
funcionar? -- Eu me afastei dele, irritado.
     Link encostou o ombro em mim.
     -- Tente ler minha mente. Espere, no. Tente voar.
     -- Pare de provocar -- cortou Liv. -- Voc ouviu a me de Ethan. No
temos muito tempo. O Arco Voltaico vai funcionar, ou ento no vai. De
qualquer forma, precisamos de uma resposta.
     Link se empertigou. O peso do que tnhamos visto no cemitrio estava
sobre nossos ombros agora. O estresse comeava a aparecer.
     -- Shh. Escutem... -- Dei alguns passos para a frente, na direo do tnel
acarpetado com grama alta. Dava para ouvir pssaros gorjeando agora.
     Ergui o Arco Voltaico e prendi a respirao. Eu no teria me importado
se ele ficasse preto e nos mandasse pelo outro caminho, o que tinha as
sombras, as escadas de incndio enferrujadas descendo pelas laterais de
prdios escuros, as portas sem identificao. Desde que ele nos desse uma
resposta.
     No dessa vez.
     -- Tente para o outro lado -- disse Liv, sem tirar os olhos da luz. Refiz
meus passos.
     Nenhuma mudana.
     Nada de Arco Voltaico e nada de Obstinado. Porque l no fundo eu sabia
que, sem o Arco Voltaico, eu no conseguiria achar a sada de dentro de um
saco de papel, ainda mais dos tneis.
     -- Acho que essa  a resposta. Estamos ferrados. -- Coloquei a bola no
bolso.
     -- Que timo. -- Link comeou a seguir pelo caminho iluminado sem
pensar duas vezes.
     -- Aonde voc vai?
     -- No se ofenda, mas a no ser que voc tenha alguma pista secreta de
Obstinado sobre para onde ir, no vou por ali. -- Ele olhou para o caminho
mais escuro. -- No meu ponto de vista, estamos perdidos de qualquer jeito,
certo?
     -- Basicamente.
     -- Ou, se voc olhar por outro ngulo, temos uma chance de cinquenta
por cento de acertar em metade das vezes. -- No tentei corrigir a matemtica
dele. -- Ento acho que devemos nos arriscar e seguir para Oz, dizendo pra
ns mesmos que as coisas esto finalmente melhorando. Porque afinal, o que
temos a perder? -- Era difcil argumentar com a lgica distorcida de Link
quando ele tentava ser lgico.
     -- Tem alguma ideia melhor?
     Liv balanou a cabea.
     -- Surpreendentemente, no.
     Fomos em direo a Oz.
     O tnel realmente parecia ter sado direto de um dos surrados e velhos
livros de L. Frank Baum que minha me tinha. Havia salgueiros ao longo do
caminho poeirento e o cu subterrneo estava aberto, infinito e azul.
     O cenrio era tranquilizador, e isso tinha um efeito contrrio em mim. Eu
estava acostumado s sombras. Esse caminho parecia idlico demais. Eu
esperava que um Tormento viesse voando das colinas ao longe a qualquer
minuto.
     Ou que uma casa casse na minha cabea quando eu menos esperasse.
     Minha vida tinha dado uma virada estranha que eu jamais podia ter
imaginado. O que eu estava fazendo naquele caminho? Para onde estava indo,
de verdade? Quem era eu para assumir uma batalha entre poderes que eu no
entendia, armado de uma gata fujona, um baterista incrivelmente ruim, um par
de tesouras de jardinagem e uma Galileu adolescente bebedora de
Ovomaltine? Para salvar uma garota que no queria ser salva?
     -- Espere, sua gata burra! -- Link saiu atrs de Lucille, que tinha se
tornado a lder, ziguezagueando  nossa frente como se soubesse exatamente
aonde estvamos indo. Era irnico, porque eu no fazia ideia.


Duas horas depois, o sol ainda brilhava e minha sensao de desconforto
crescia. Liv e Link caminhavam  minha frente, o que era o jeito de Liv de me
evitar, ou pelo menos de evitar a situao. Eu no podia culp-la. Ela tinha
visto minha me e ouvido tudo o que Amma havia dito. Sabia o que Lena
tinha feito por mim, sabia como isso explicava o comportamento sombrio e
errtico dela. Nada tinha mudado, mas os motivos de tudo tinham. Pela
segunda vez naquele vero, uma garota de quem eu gostava, que gostava de
mim, no conseguia suportar me olhar nos olhos.
      Em vez disso, ela passava o tempo andando ao lado de Link, ensinando a
e xingamentos britnicos e fingindo rir das piadas dele.
      -- Seu quarto  asqueroso. Seu carro  desprezvel, talvez at imundo --
provocou Liv, mas ela no estava realmente envolvida na brincadeira.
      -- Corno sabe?
      -- S de olhar pra voc. -- Liv parecia distante. Provocar Link no
parecia distrao suficiente.
      -- E eu? -- Link passou a mo pelo cabelo espetado, para ter certeza de
que estava em p do jeito certo.
      -- Vamos ver. Voc  um asco, ignbil. -- Liv tentou forar um sorriso.
      -- So coisas boas, certo?
      --  claro. As melhores.
      O velho e bom Link. O charme sem charme, sua marca registrada, podia
salvar praticamente qualquer situao social desesperadora.
      -- Esto ouvindo isso? -- Liv parou de andar.
      Normalmente, quando eu ouvia algum cantando, era o nico, e a msica
era a de Lena. Dessa vez todo mundo ouviu, e a msica no se parecia em
nada com a hipntica Dezessete Luas. A voz era ruim, no estilo de um
animal morrendo. Lucille miou e seus pelos ficaram eriados.
      Link olhou ao redor.
      -- O que  isso?
      -- No sei. Parece quase... -- No terminei a frase.
      -- Com algum encrencado? -- Liv levou a mo at o ouvido.
      -- Eu ia dizer Leaning on the Everlasting Arms -- Era um antigo hino
religioso que cantavam na igreja das Irms. Eu estava meio certo.
      Quando fizemos a curva, tia Prue caminhava em nossa direo de brao
dado com Thelma, cantando como se fosse domingo e ela estivesse na igreja.
Usava seu vestido branco florido e luvas brancas, arrastando sapatos
ortopdicos bege. Harlon James saltitava atrs delas, quase do tamanho da
bolsa de couro envernizado de tia Prue. Parecia que os trs tinham sado para
uma caminhada em uma tarde ensolarada.
     Lucille miou e se sentou  nossa frente.
     Link coou a cabea, atrs dela.
     -- Cara, estou vendo coisas? Porque isso parece muito com sua tia
maluca e aquele saco de pulgas que  o cachorro dela.
     A princpio, no respondi. Estava ocupado demais tentando descobrir
chances de isso ser alguma espcie de truque mental Conjurador. Chegaramos
bem perto e ento Sarafine sairia da pele da minha tia e mataria ns trs.
     -- Talvez seja Sarafine. -- Eu estava pensando em voz alta, tentando
descobrir a lgica em uma coisa completamente ilgica.
     Liv balanou a cabea.
     -- Acho que no. Os Cataclistas conseguem se projetar em corpos de
outros, mas no podem habitar duas pessoas ao mesmo tempo. Trs, voc
contar o cachorro.
     -- Quem contaria aquele cachorro? -- Link fez uma careta.
     Parte de mim, a maior parte de mim, queria sair correndo e entenda
depois. Mas elas nos viram. Tia Prue, ou a criatura que estava assumindo a
identidade de tia Prue, sacudiu o leno no ar.
     -- Ethan!
     Link olhou para mim.
     -- Devamos sair correndo?
     -- Encontrar voc foi mais difcil do que domesticar gatos! -- gritou tia
Prue, arrastando os ps pela grama o mais rpido que conseguia. Lucille miou,
sacudindo a cabea. -- Vamos, Thelma, ande. -- Mesmo de longe, era
impossvel confundir a caminhada desequilibrada e o tom mando dela
     -- No,  ela mesma. -- Tarde demais para correr.
     -- Como chegaram aqui embaixo? -- Link estava to perplexo quanto
eu. Uma coisa era descobrir que Carlton Eaton entregava correspondncia na
Lunae Libri, mas ver minha tia-av de 100 anos andando pelos tneis usando o
vestido de ir  igreja era outra bem diferente.
     Tia Prue enfiava a bengala na grama, percorrendo o caminho.
     -- Wesley Lincoln! Voc vai ficar a parado observando uma velha
senhora caminhar na grama e ficar toda suja ou vai andar at aqui e me ajudar
a subir esta colina?
     -- Sim, senhora. Quero dizer, no, senhora. -- Link quase tropeou ao
correr para passar o brao pelo dela. Eu peguei o outro.
     O choque de v-la estava comeando a diminuir um pouco.
     -- Tia Prue, como a senhora chegou aqui embaixo?
     -- Do mesmo jeito que voc, espero. Vim por uma das portas. Tem uma
h atrs da Igreja Batista Missionria. Eu a usava para fugir das aulas de estudo
bblico quando era mais nova do que voc.
     -- Mas como a senhora soube dos tneis? -- Eu no conseguia entender.
Ser que havia nos seguido?
     -- J estive nesses tneis mais vezes do que um pecador blasfema. Acha 
o nico que sabe o que acontece nesta cidade? -- Ela sabia. Era uma deles
como minha me e Marian e Carlton Eaton; Mortais que, de alguma na,
tinham se tornado parte do mundo Conjurador.
     -- Tia Grace e tia Mercy sabem?
     --  claro que no. Aquelas duas no conseguem guardar segredo nem
para salvar as prprias vidas. Foi por isso que meu pai s contou para mim. E
nunca contei a ningum alm de Thelma.
     Thelma apertou o brao de tia Prue com afeio.
     -- Ela s me contou porque no conseguia mais descer as escadas
sozinha.
     Tia Prue bateu em Thelma com o leno.
     -- Thelma, sabe que no  verdade. No invente histrias.
     -- A professora Ashcroft a mandou atrs de ns? -- Liv olhou
nervosamente do caderno para ela.
     Tia Prue fungou.
     -- Ningum me manda a lugar algum, quase nunca. Estou velha demais
para ser mandada. Vim por minha conta. -- Ela apontou para mim. -- Mas e
melhor voc torcer para Amma no estar aqui embaixo procurando voc. Ela
anda fervendo ossos desde que voc sumiu.
     Se ela soubesse.
     -- Ento o que a senhora est fazendo aqui, tia Prue? -- Mesmo ela
sabendo, os tneis no pareciam um lugar muito seguro para uma senhora.
     -- Vim trazer isto para voc. -- Tia Prue abriu sua bolsinha e a estendeu
para que pudssemos olhar seu interior. Debaixo da tesoura de costura, dos
cupons de desconto e da Bblia de bolso havia uma grossa pilha de papis
amarelados, dobrados cuidadosamente. -- V em frente, pegue-os. -- Era
quase como se ela tivesse me mandado golpear a mim mesmo com a tesoura
de costura. No havia meio de eu enfiar a mo na bolsa da minha tia. Era a
violao mxima da etiqueta sulista.
     Liv pareceu entender o problema.
     -- Posso? -- Talvez os homens britnicos no mexessem em bolsas de
mulher tambm.
     -- Foi para isso que eu os trouxe.
     Liv tirou os papis da bolsa de tia Prue com cuidado.
     -- Eles so muito velhos. -- Ela os abriu delicadamente sobre a grama
macia. -- No podem ser o que acho que so.
     Eu me inclinei e os examinei. Os papis pareciam diagramas ou plantas
arquitetnicas. Estavam traados com vrias cores diferentes e escritos com
vrias caligrafias distintas. Tinham sido cuidadosamente desenhados em um
grfico, cada linha perfeitamente medida e reta. Liv esticou o papel e pude ver
as longas linhas se cruzando.
     -- Depende do que voc pensa que so, no ?
     As mos de Liv estavam tremendo.
     -- So mapas dos tneis. -- Ela olhou para tia Prue. -- A senhora se
importa que eu pergunte onde conseguiu isso? Nunca vi nada desse tipo, nem
mesmo na Lunae Libri.
     Tia Prue desembrulhou uma bala de hortel listrada de vermelho e branco
que tinha na bolsa.
     -- Meu pai me deu os mapas, assim como meu av os deu para ele. So
mais antigos do que se possa imaginar.
     Eu estava sem palavras. Por mais que Lena achasse que minha vida seria
normal sem ela, estava errada. Com ou sem maldio, minha rvore
genealgica estava toda entrelaada com Conjuradores.
     E com os mapas deles, para nossa sorte.
     -- No esto nem perto de prontos. Eu era uma tima desenhista
quando jovem, mas minha bursite acabou me vencendo.
     -- Tentei ajudar, mas no levo jeito, como sua tia. -- Thelma parecia se
desculpar. Tia Prue sacudiu o leno.
     -- Voc desenhou isso?
     -- Desenhei minha parte. -- Ela se apoiou na bengala, se empertigando
com orgulho.
     Liv olhava para os mapas com admirao.
     -- Como? Os tneis simplesmente no tm fim.
     -- Um pouquinho de cada vez. Esses mapas no mostram tudo dos
tneis. Uma boa parte das Carolinas e uma parte da Gergia. Foi at onde
chegamos. -- Era inacreditvel. Como minha tia maluquinha podia ter
detalhado mapas dos tneis Conjuradores?
     -- Como voc fez isso sem tia Grace e tia Mercy descobrirem? -- Eu
conseguia me lembrar de uma poca em que as trs no fossem to das a
ponto de no viverem esbarrando uma na outra.
     -- Nem sempre moramos juntas, Ethan. -- Ela baixou a voz, como se
Mercy e tia Grace pudessem estar ouvindo. -- E eu no jogo bridge s teras-
feiras.
     Tentei imaginar tia Prue desenhando tneis Conjuradores enquanto os
outros membros idosos do FRA jogavam cartas no hall social da igreja.
     -- Fique com eles. Acho que vai precisar se pretende ficar por aqui. Pode
ficar bem confuso depois de um tempo. Houve dias em que fiquei to confusa
que mal consegui voltar  Carolina do Sul.
     -- Obrigada, tia Prue. Mas... -- parei.
     No sabia como explicar tudo: o Arco Voltaico e as vises, Lena e John
Breed a Grande Barreira, a lua fora de poca e a estrela desaparecida, sem falar
nos mostradores malucos girando no pulso de Liv. Muito menos sobre
Sarafine Abraham. No era histria para uma das cidads mais antigas de
Gatlin.
     Tia Prue me interrompeu com um sacolejar do leno no meu rosto.
     -- Vocs esto to perdidos quanto um leito em um festival de caa aos
porcos. A no ser que queiram ser enfiados em um pozinho e besuntados
com Carolina Gold,  melhor prestarem ateno.
     -- Sim, senhora. -- Eu pensei que soubesse exatamente aonde esse sero
em particular ia. Mas estava to errado quanto Savannah Snow usando um
vestido de alcinha e mascando chiclete no coral jovem.
     -- Agora preste ateno, est ouvindo? -- e apontou o dedo ossudo rara
mim. -- Carlton veio investigar para ver o que eu sabia sobre algum
arrombar a porta Conjuradora do campo da feira. Logo depois fiquei sabendo
que a garota Duchannes sumiu, que voc e Wesley fugiram e que a garota que
est morando com Marian, a que coloca leite no ch, no est em canto algum.
Parecem coincidncias demais at mesmo para Gatlin.
     Grande surpresa. Carlton espalhando as notcias.
     -- Seja o que for, vocs precisam disso, e quero que fiquem com eles.
No tenho tempo para toda essa besteira. -- Eu tinha adivinhado mesmo.
     Ela sabia o que estvamos fazendo, quer permitisse ou no.
     -- Agradeo sua preocupao, tia Prue.
     -- No estou preocupada. Desde que voc fique com os mapas. -- Ela
deu um tapinha na minha mo. -- Vocs vo encontrar aquela Lena Du-
channes dos olhos dourados. At um esquilo cego s vezes encontra uma noz.
     -- Espero que sim, senhora.
     Tia Prue bateu na minha mo e pegou sua bengala.
     -- Ento  melhor parar de conversar com velhinhas e ir encontrar o
problema na metade do caminho, assim s tem que lidar com metade dele.
Com a beno do bom Deus e que o riacho no suba. -- Ela levou Thelma
para longe de ns.
     Lucille correu atrs delas por um minuto, o sino na coleira tilintando. Tia
Prue parou e sorriu.
     -- Vejo que voc ainda tem a gata. Eu estava esperando a hora certa para
solt-la do varal. Ela sabe um ou dois truques. Voc vai ver. Ainda tem a
medalha dela, no tem?
     -- Sim, senhora. Est no meu bolso.
     -- Precisamos de um aro para prend-la na coleira. Mas guarde-a bem e
arranjo um para voc. -- Tia Prue desembrulhou outra bala de hortel e a
jogou no cho para Lucille. -- Sinto muito por t-la chamado de desertora,
garota, mas voc sabe que Mercy jamais me deixaria dar voc se no fosse
assim.
     Lucille cheirou a bala.
     Thelma acenou e exibiu seu enorme sorriso de Dolly Parton.
     -- Boa sorte, docinho.
     Observei enquanto as duas desciam pela colina que havia atrs de ns,
curioso com o que mais eu no sabia sobre as pessoas da minha famlia. Quem
mais parecia senil e sem noo, mas, na verdade, estava observando cada
passo meu? Quem mais protegia segredos e Pergaminhos Conjura- dores em
seu tempo livre ou mapeava um mundo cuja existncia a maior parte de Gatlin
no conhecia?
     Lucille lambeu a bala. Se ela sabia, no ia contar.
     -- T, ento temos um mapa. Isso tem que ser alguma coisa, certo, MJ?
-- O humor de Link melhorou depois que tia Prue e Thelma desapareceram
pelo caminho.
     -- Liv? -- Ela no me ouviu. Estava folheando o caderno com uma das
mos e desenhando um caminho no mapa com a outra.
     -- Aqui est Charleston e aqui deve ser Savannah. Ento, se supusermos
que o Arco Voltaico vem nos ajudando a achar o caminho para o sul, em
direo  costa...
     -- Por que a costa? -- interrompi.
     -- Para o sul. Como se estivssemos seguindo a Estrela do Sul, lembra?
-- Liv se recostou, frustrada. -- Tem tantos caminhos. S estamos a poucas
horas do portal de Savannah, mas isso pode significar qualquer coisa aqui
embaixo. -- Ela estava certa. Se o tempo e a fsica no correspondiam
diretamente acima e abaixo do cho, quem podia garantir que no estvamos
na China agora?
     -- Mesmo se soubssemos onde estamos, poderamos levar dias para
encontrar o lugar neste mapa. No temos tempo.
     -- Bem,  melhor comearmos.  tudo o que temos.
     Mas era alguma coisa, algo que dava a sensao de que poderamos
realmente encontrar Lena. No tinha certeza se era porque eu acreditava que
os mapas podiam nos levar at l ou porque eu achava que podia.
     No importava, desde que eu encontrasse Lena a tempo.
     Com a bno do bom Deus e que o riacho no suba.
                                        19 de junho   
                            Garota Malvada

                                        
M
      eu otimismo durou pouco. Quanto mais eu pensava em encontrar
      Lena, mais eu pensava em John. E se Liv estivesse certa e Lena jamais
      voltasse a ser a garota que eu lembrava? E se j fosse tarde demais?
Pensei desenhos pretos e espiralados nas mos dela.
    Ainda estava pensando neles quando as palavras invadiram minha mente.
Chegaram baixinho no comeo. Por um segundo, pensei que - se a voz de
Lena. Mas quando ouvi a melodia familiar, soube que errado.

    Dezessete luas, dezessete anos
    Conhea a perda, mantenha os medos
    Espere por ele e ele aparece
    Dezessete luas, dezessete lgrimas...

     Minha msica sinalizadora. Tentei entender o que minha me esta
tentando me dizer. Voc no tem muito tempo. As palavras dela ecoava na minha
mente. Espere por ele e ele aparece... Ser que ela estava falando de Abraham?
     Se estivesse, o que eu faria?
     Eu estava to concentrado no verso que no percebi que Link falava
comigo.
     -- Voc ouviu isso?
     -- A msica?
     -- Que msica? -- Ele fez sinal para ficarmos quietos. Estava falando de
outra coisa. Pareciam folhas secas sendo amassadas atrs de ns e o som baixo
do vento. Mas no havia nem uma brisa.
     -- Eu no... -- comeou Liv, mas Link a calou.
     -- Shh!
     Liv revirou os olhos.
     -- Todos os norte-americanos so to corajosos quanto vocs dois?
     -- Eu tambm ouvi. -- Olhei ao redor, mas no havia nada, nem uma
nica alma viva. As orelhas de Lucille ficaram de p.
     Tudo aconteceu to rpido que foi impossvel acompanhar. Porque no
tinha sido uma coisa viva que eu tinha ouvido.
     Era Hunting Ravenwood, irmo de Macon -- e tambm seu assassino.


O sorriso ameaador e cruel de Hunting foi a primeira coisa que vi. Ele se
materializou a poucos metros de ns, to rapidamente que foi quase um
borro. Outro Incubus apareceu e depois outro. Eles surgiram do nada, um
aps o outro, como elos em uma corrente. A corrente se apertou e eles
formaram um crculo ao nosso redor.
     Eram todos Incubus de Sangue, com os mesmos olhos pretos e caninos
cor de marfim, exceto um deles. Larkin, primo de Lena e servo de Hunting,
tinha uma longa cobra marrom em torno do pescoo. A cobra possua os
sinos olhos amarelos dele.
     Ele assentiu para a cobra que deslizava pelo seu brao.
     -- Cabeas de cobre. Bichinhas terrveis. Voc no ia querer ser mordido
por uma dessas. Mas, por outro lado, h muitas maneiras de ser mordido.
     -- Tenho que concordar -- riu Hunting, mostrando os caninos. Um
animal que parecia contaminado por raiva estava abaixado ao lado dele. Tinha
o enorme focinho de um so - bernardo, mas em vez de grandes olhos cados,
tinha olhos astutos e amarelos. O pelo nas costas era eriado como o de um
lobo. Hunting tinha arrumado um cachorro, ou algo parecido.
     Liv se agarrou ao meu brao e enterrou as unhas na minha pele. Ela no
conseguia tirar os olhos de Hunting e do animal. Eu tinha certe de que ela s
tinha visto um Incubus de Sangue em um dos livros sobre Conjuradores.
     --  um co de matilha. So treinados para ir atrs de sangue. Fique
longe dele.
     Hunting acendeu um cigarro.
     -- Ah, Ethan, vejo que arrumou uma namorada Mortal. J era hora. E
acho que essa  pra se guardar. -- Ele riu da prpria piada ruim, soprando
grandes anis de fumaa em direo ao cu perfeitamente azul.
     -- Quase me faz querer deixar voc ir. -- O co de matilha rosnou baixo.
     -- Quase.
     -- Voc... voc pode nos deixar ir -- gaguejou Link. -- No vamos
contar pra ningum. A gente jura. -- Um dos Incubus riu. Hunting virou a
cabea de repente e o Demnio no emitiu mais nenhum som. Estava bvio
quem dava as ordens ali.
     -- Por que eu me importaria por voc contar a algum? Na verdade,
adoro um holofote. Sou um pouco teatral. -- Ele deu um passo na direo de
Link, mas era a mim que ele observava. -- Para quem voc contaria, de
qualquer modo? Agora que minha sobrinha matou Macon... Eu no esperava
por isso.
     O co de Hunting estava espumando pela boca, assim como seus outros
cachorros, os Incubus que s pareciam humanos. Um deles chegou mais perto
de Liv. Ela deu um pulo e apertou ainda mais o meu brao.
     -- Por que no para de tentar nos assustar? -- Tentei parecer duro, mas
no estava enganando ningum. Dessa vez, todos caram na gargalhada.
     -- Voc acha que estamos tentando assustar voc? Pensei que fosse mais
inteligente do que isso, Ethan. Meus rapazes e eu estamos com fome. No
tomamos caf da manh.
     A voz de Liv saiu baixinha:
     -- Voc no pode estar querendo dizer...
     Hunting piscou para Liv.
     -- No se preocupe, querida. Talvez a gente s morda esse seu pescoo
bonito e a transforme em uma de ns.
     Fiquei com a respirao presa na garganta. Nunca tinha me ocorrido que
os Incubus pudessem transformar humanos na espcie deles.
     Podiam?
     Hunting jogou o cigarro em um canteiro de jacintos. Por um segundo,
fiquei surpreso pela ironia da situao. Um bando de Incubus vestidos de
couro e fumando cigarros em uma colina sada diretamente de A novia
rebelde, esperando para nos matar enquanto os pssaros cantavam nas
rvores.
     -- Est divertido bater papo com vocs, mas estou ficando entediado.
Desconcentro com facilidade.
     Ele virou o pescoo para o lado, mais do que qualquer humano poderia
virar. Hunting ia me matar e seus amigos iam matar Link e Liv. Meu crebro
tentou processar essa informao enquanto meu corao se concentrava em
bater.
     -- Vamos em frente -- disse Larkin, mostrando uma lngua dividida,
semelhante a de uma cobra.
     Liv colocou o rosto contra o meu ombro. Ela no queria ver. Tentei
pensar. Eu no era adversrio para Hunting, mas todo mundo tinha um
calcanhar de Aquiles, certo?
     -- Quando eu contar trs -- rosnou Hunting. -- Sem sobreviventes.
     Minha mente disparou. O Arco Voltaico. Eu tinha a maior arma contra
um Incubus, mas no tinha ideia de como us-la. Levei a mo para mais perto
do bolso.
     -- No -- sussurrou Liv. -- No adianta.
     Ela fechou os olhos e puxei-a para mais perto. Meus ltimos
pensamentos foram sobre as duas garotas que eram to importantes para mim.
Lena, a que eu jamais salvaria. E Liv, a que ia morrer por minha causa.
     Mas Hunting no atacou.
     Em vez disso, ele inclinou a cabea para o lado de um jeito estranho,
como um lobo escutando o chamado de outro. Ento deu um passo para trs
e os outros Incubus acompanharam, at mesmo Larkin e o so-bernardo
demonaco. Os seguidores dele estavam desorientados, olhando uns para os
outros. Observaram Hunting, esperando instrues, mas ele no deu
nenhuma. O que fez foi andar para trs lentamente, e os outros o
acompanharam. Estavam ao nosso redor, mas se afastando. A expresso
deHunting mudou e ele parecia novamente com um homem, e no com o
Demnio que era realmente.
     -- O que est acontecendo? -- sussurrou Liv.
     -- No sei. -- Estava claro que Hunting e seus servos tambm estavam
confusos, porque ficaram andando lentamente em crculos, indo cada vez mais
para longe de ns. Alguma coisa os estava controlando, mas o qu? Hunting
prendeu o olhar no meu.
     -- Nos encontraremos de novo. Mais cedo do que voc imagina.
     Estavam indo embora. Hunting no parava de sacudir a cabea, como se
estivesse tentando tirar alguma coisa ou algum dela. A matilha tinha um novo
lder, algum que eles tinham que seguir, sem chance de escolha.
     Uma pessoa muito persuasiva.
     E muito bonita.
     Ridley estava recostada em uma rvore a alguns metros deles, lambendo
um pirulito. Os Incubus se desmaterializaram, um de cada vez.
     -- Quem  aquela?
     Liv reparou em Ridley, estranhamente no to deslocada com o cabelo
louro e cor-de-rosa, a minissaia estranha com uma espcie de suspensrio e
sandlia de salto fino. Parecia uma Chapeuzinho Vermelho Conjuradora,
levando bolinhos envenenados para a av malvada. Liv talvez no tivesse dado
uma boa olhada em Ridley no Exijo, mas era impossvel no reparar agora.
     Os olhos de Link se fixaram em Ridley.
     -- Uma garota muito m.
     Ridley andou lentamente at ns, cheia de confiana como sempre. Ela
jogou o pirulito na grama.
     -- Caramba, isso me deixou exausta.
     -- Voc nos salvou? -- Liv ainda estava abalada.
     -- Claro que sim, Mary Poppins. Pode me agradecer depois. Devamos
sair daqui. Larkin  um idiota, mas tio Hunting  poderoso. Minha influncia
no vai durar muito sobre ele.
     O irmo e o tio dela. Muitas mas podres tinham cado da rvore
genealgica de Lena. Ridley olhou diretamente para meu brao, ou melhor,
para o brao de Liv, enroscado no meu. Ela tirou os culos e seus olhos
amarelos brilharam.
     Liv mal notou.
     -- Qual  o problema de vocs? Sempre Mary Poppins. Ser que ela  a
nica personagem inglesa da qual os norte-americanos ouviram falar?
     -- Acho que no fomos devidamente apresentadas, embora eu ande te
vendo por toda parte. -- Ridley olhava para mim, apertando os olhos. -- Sou
a prima de Lena, Ridley.
     -- Sou Liv. Trabalho na biblioteca com Ethan.
     -- Bem, como j vi voc numa boate Conjuradora e agora num tnel
Conjurador, suponho que no estamos falando daquela biblioteca caipira de
Gat-lixo. Isso faria de voc uma Guardi. Estou esquentando?
     Liv soltou meu brao.
     -- Na verdade, sou uma Guardi em treinamento, mas minha preparao
tem sido bastante abrangente.
     Ridley observou Liv de cima a baixo e desembrulhou um chiclete.
     -- Obviamente, no to abrangente a ponto de reconhecer uma Sirena ao
encontrar uma. -- Ridley fez uma bola, que estourou perto do rosto de Liv.
-- Vamos andando antes que meu tio comece a pensar por si prprio
vamente.
     -- No vamos a lugar algum com voc.
     Ela revirou os olhos, enrolando o chiclete no dedo.
     -- Se prefere virar o almoo do meu tio, fique  vontade.  uma escolha
pessoal mas, preciso avisar: ele tem pssimos modos  mesa.
     -- Por que nos ajudou? Qual  a pegadinha? -- perguntei.
     -- Sem pegadinha. -- Ridley olhou para Link, que estava se recuperando
do choque de v-la. -- Eu no podia deixar nada acontecer com meu
brinquedinho.
     -- Porque sou muito importante pra voc, certo? -- falou Link.
     -- No fique magoado. Nos divertimos enquanto durou. -- Link talvez
estivesse magoado, mas era Ridley que parecia pouco  vontade.
     -- Voc que sabe, gata.
     -- No me chame de gata. -- Ridley jogou os cabelos para trs e
estourou outra bola. -- Vocs podem me seguir ou ficar aqui e tentar
enfrentar meu tio sozinhos. -- Ela andou at as rvores. -- A gangue do
Sangue vai atrs de vocs assim que eu sair das cabeas deles.
     A gangue do Sangue. Que timo. Eles tinham nome.
     Liv disse o que todos estvamos pensando.
     -- Ridley est certa. Se a gangue est atrs de ns, no vai demorar muito
para nos alcanar de novo. -- Ela olhou para mim. -- No temos escolha. --
Liv desapareceu na floresta atrs de Ridley.
     Por mais que eu no quisesse seguir Ridley, ser morto por uma gangue de
Incubus de Sangue no era uma alternativa atraente. No falamos sobre o
assunto, mas Link deve ter concordado, porque seguimos a delas em fila.
     Ridley parecia saber exatamente para onde estava indo, mas reparei que
Liv nunca largava os mapas. Ridley seguiu pela campina, ignorando a trilha, e
foi em direo a um grupo de rvores ao longe. As sandlias dela no pareciam
faz-la andar mais devagar, e o restante de ns teve dificuldade de
acompanhar.
     Link correu para alcan-la.
     -- O que est fazendo aqui de verdade, Rid?
     --  pattico admitir, mas estou aqui pra ajudar voc e seu bando bobos
alegres.
     Link sufocou uma risada.
     -- T, sei. Os pirulitos no funcionam mais. Tente de novo.
     A grama foi ficando mais alta conforme nos aproximvamos das rvores.
Estvamos andando to rpido que as folhas cortavam minhas canelas, mas
no diminu o ritmo. Eu queria saber tanto quanto Link o que Ridley estava
tramando.
     -- No tenho planos, gostoso. No vim aqui atrs de voc. Estou aqui
pra ajudar minha prima.
     -- Voc no liga pra Lena -- cortei.
     Ridley parou e se virou para me encarar.
    -- Sabe pra quem no ligo, Palitinho? Pra voc. Mas, por algum motivo,
voc e minha prima tm uma ligao, e voc pode ser a nica pessoa que a
convena a voltar antes que seja tarde demais.
    Parei de andar.
    Liv olhou para ela com frieza.
    -- Voc quer dizer antes que ela chegue  Grande Barreira? O lugar sobre
o qual voc contou a ela?
    Ridley apertou os olhos na direo de Liv.
    -- Deem um prmio pra essa garota. A Guardi sabe alguma coisa. --
Liv no sorriu. -- Mas no fui eu quem contou a ela sobre a barreira. Foi
John. Ele  obcecado com isso.
    -- John? Est falando do John que voc apresentou a ela? O cara com
quem voc a convenceu de fugir? -- Eu estava gritando sem me importar se
toda a gangue do Sangue ia ouvir.
    -- Devagar, Palitinho. Lena toma as prprias decises, quer voc acredite
ou no. -- A voz de Ridley perdeu um pouco da aspereza. -- Ela queria ir.
    Eu me lembrei de ter visto Lena e John, ouvido os dois conversarem
sobre um lugar onde poderiam ser aceitos como eram. Um lugar onde
poderiam ser eles mesmos.  claro que Lena queria ir para l. Era algo com
que sonhava a vida toda.
    -- Por que a repentina mudana de ideia, Ridley? Por que quer impedi-la
agora?
    -- A barreira  perigosa. No  o que ela pensa.
    -- Quer dizer que Lena no sabe que Sarafine est tentando chamar a
Dcima Stima Lua antes da hora? Mas voc sabia, no ?
    Ridley olhou para o outro lado. Eu estava certo.
    Ridley arrancava o esmalte roxo das unhas, um hbito que Conjuradores e
Mortais compartilhavam quando estavam nervosos. Ela assentiu.
    -- Sarafine no est fazendo isso sozinha.
    A carta de minha me para Macon surgiu em minha mente. Abraham.
Sarafine estava trabalhando com Abraham, uma pessoa poderosa o bastante
para ajud-la a chamar a lua.
    -- Abraham -- disse Liv baixinho. -- Bem, isso  adorvel.
     Link reagiu antes de mim.
     -- E voc no contou a Lena? Voc  mesmo to maluca e imbecil?
     -- Eu...
     Eu a interrompi.
     -- Ela  uma covarde.
     Ridley se empertigou e seus olhos amarelos brilharam de raiva.
     --Sou covarde porque no quero terminar morta? Sabe o que minha tia e
aquele monstro fariam comigo? -- A voz dela estava trmula, mas ela tentou
esconder. -- Eu gostaria de ver voc encarar aqueles dois, Palitinho. Abraham
faz a me de Lena parecer sua gatinha.
     Lucille sibilou.
     -- No importa, desde que Lena no chegue  Barreira. E se vocs
querem impedi-la, precisamos ir andando. No sei o caminho. S sei onde os
deixei.
     -- Ento como vocs planejavam chegar  Grande Barreira? -- Era
possvel dizer se ela estava mentindo.
     -- John sabe o caminho.
     -- John sabe que Sarafine e Abraham esto l? -- Ser que ele estava
armando contra Lena o tempo todo?
     Ridley sacudiu a cabea.
     -- No sei. O cara  difcil de decifrar. Ele tem... problemas.
     -- Como vamos convenc-la a no ir? -- Eu j havia tentando falar com
Lena para convenc-la a no fugir, mas a conversa no tinha ido bem.
     -- Esse  seu departamento. Talvez isso ajude. -- Ela jogou para mim
um caderno em espiral velho. Eu o teria reconhecido em qualquer lugar. Tinha
passado muitas tardes vendo Lena escrever nele.
     -- Voc roubou o caderno dela?
     Ridley jogou o cabelo para trs.
     -- Roubar  uma palavra muito feia. Peguei emprestado, e voc devia me
agradecer. Talvez haja alguma coisa til nesses rabiscos sentimentais nojentos.
     Abri minha mochila e coloquei o caderno l dentro. Era estranha a
sensao de ter um pedao de Lena nas minhas mos novamente. Agora eu
estava carregando os segredos de Lena na minha mochila e os da minha me
no bolso de trs. Eu no tinha certeza de quantos segredos mais podia
suportar.
     Liv estava mais interessada nos motivos de Ridley do que no caderno de
Lena.
     -- Espere. Agora devemos acreditar que voc  uma das mocinhas?
     -- De jeito nenhum. Sou m at o ltimo fio de cabelo. E no estou nem
a pro que voc acredita. -- Ridley me lanou um olhar com o canto do olho.
-- Na verdade, estou tendo dificuldade em entender o que voc est fazendo
aqui.
     Eu me intrometi antes que Ridley usasse outro pirulito para fazer Liv se
oferecer como lanche para Hunting.
     -- Ento  s isso? Voc quer nos ajudar a achar Lena?
     -- Isso mesmo, Palitinho. Podemos no gostar um do outro, mas temos
interesses em comum. -- Ela se virou para Liv, mas falou comigo. --
Amamos a mesma pessoa e ela est com problemas. Ento eu desertei. Agora
vamos andando antes que meu tio pegue vocs trs.
     Link ficou olhando para Ridley.
     -- Cara, por essa eu no esperava.
     -- No faa isso parecer maior do que . Voltarei a ser a velha e m
garota de sempre assim que fizermos Lena dar meia-volta.
     -- Nunca se sabe, Rid. Talvez o mgico te d um corao se matarmos a
bruxa m.
     Ridley se virou para o outro lado, enfiando os saltos da sandlia na lama.
     -- Como se eu quisesse um.
                                    19 de junho   
                           Consequncias

                                   

T
       entamos acompanhar Ridley, que costurava por entre as rvores. Liv
       estava atrs dela, consultando o mapa e o selenmetro constantemente.
       Ela no confiava em Ridley tanto quanto o restante de ns.
     Tinha uma coisa me incomodando. Parte de mim acreditava nela. Talvez
realmente se preocupasse com Lena. Era improvvel, mas se houvesse alguma
chance de Ridley estar falando a verdade, eu precisava segui-la. Tinha um
dbito com Lena que jamais conseguiria pagar.
     Eu no sabia se havia um futuro para ns. Se Lena algum dia voltaria a ser
a garota por quem me apaixonei. Mas no importava.
     O Arco Voltaico estava ficando quente no meu bolso. Peguei-o,
esperando ver uma piscina de luz iridescente, mas a superfcie estava preta.
Agora eu s conseguia ver o meu reflexo. O objeto parecia mais do que
quebrado. Ele tinha ficado completamente aleatrio.
     Os olhos de Ridley se arregalaram quando ela o viu, e Ridley parou de
andar pela primeira vez em um grande intervalo de tempo.
     -- Onde conseguiu isso, Palitinho?
     -- Marian o deu pra mim. -- Eu no queria que Ridley soubesse que
tinha sido da minha me e nem quem o tinha dado para ela.
     -- Bem, isso pode melhorar suas chances. Acho que voc no consegue
colocar meu tio Hunting a dentro, mas talvez um dos membros da gangue.
     -- No tenho certeza de como usar. -- Quase no contei isso a ela, mas
era verdade.
     Ridley ergueu uma sobrancelha.
     -- A Senhorita Sabe-Tudo no soube dizer? -- As bochechas de Liv
ficaram vermelhas. Ridley abriu outro chiclete cor-de-rosa e o colocou na
boca. -- Voc tem que tocar nele com a esfera. -- Ela deu um passo na
minha direo. -- O que significa que precisa chegar perto.
     -- Tudo bem. -- Link passou por ela. -- Somos dois. Podemos jogar a
esfera um pro outro.
     Liv colocou o lpis atrs da orelha depois de tomar notas.
     -- Link pode estar certo. Eu no ia querer chegar perto de nenhum deles.
Mas se no tivssemos escolha, valeria a pena tentar.
     -- Depois voc precisa lanar o Conjuro. Voc sabe, falar o feitio e tal.
     -- Ridley estava apoiada contra uma rvore, um sorrisinho nos lbios. Ela
ia que no conhecamos o Conjuro. Lucille estava sentada aos ps dela,
observando-a.
     -- Suponho que voc no vai nos contar qual  o Conjuro.
     -- Como eu poderia saber? No h muitos desse troo por a.
     Liv abriu o mapa sobre o colo, esticando-o com cuidado.
     -- Estamos no caminho certo. Se continuarmos indo pro leste, essa trilha
deve acabar levando para o mar. -- Ela apontou para um denso aglomerado
de rvores.
     -- Onde? Para aquela floresta? -- Link parecia inseguro.
     -- No tenha medo, gostoso. Eu encaro o Joo e voc, a Maria. --
Ridley piscou para Link, como se ainda tivesse poder sobre ele. E era verdade,
mas no tinha nada a ver com seus dons de Sirena.
     -- Ficarei bem sozinho. Por que no masca outro chiclete? -- Link
passou direto por ela.
     Talvez Ridley fosse como catapora: s se era contaminado uma vez.
      -- Quanto tempo se demora para mijar? -- Ridley jogou uma pedra na
direo de uns arbustos, ansiosa para seguir em frente.
     -- Estou ouvindo. -- A voz de Link veio dos arbustos.
     --  bom saber que pelo menos parte das suas funes corporais ainda
funciona.
     Liv olhou para mim e revirou os olhos. Quanto mais andvamos, mais
Link e Ridley se bicavam.
     -- Voc no est ajudando em nada.
     -- Precisa que eu v a ajudar?
     -- Voc fala demais, Rid -- gritou Link de trs dos arbustos. Ela
comeou a se levantar e Liv pareceu chocada. Ridley sorriu e voltou a se
sentar, satisfeita.
     Observei a esfera nas minhas mos enquanto as cores mudavam de preto
para um verde iridescente. Nada de til, s cores que pareciam em sobrecarga
perptua. Talvez Link estivesse certo. Talvez eu a tivesse quebrado.
     Ridley pareceu confusa ou interessada. Era difcil decifrar.
     -- Qual  a da luz?
     --  como uma bssola. Ela se acende se estamos indo pelo caminho
certo. -- Pelo menos era assim antes.
     -- Humm. Eu no sabia que eles faziam isso. -- Estava entediada de
novo.
     -- Tenho certeza de que h muitas coisas que voc no sabe -- Liv
sorriu inocentemente.
     -- Cuidado, ou posso convencer voc a dar um mergulho no rio.
Observei o Arco Voltaico. Havia algo de diferente nele. A luz comeou a
pulsar com um brilho e velocidade que eu no via desde o cemitrio
Bonaventure. Virei-me para mostrar a Liv.
     -- L, veja isso.
     A cabea de Ridley se virou na minha direo subitamente e eu fiquei
paralisado.
     Eu tinha chamado Liv de L
     S havia uma L na minha vida. Embora Liv no tivesse reparado, Ridley
reparou. Os olhos dela ficaram to enlouquecidos quanto a intensidade com
que ela chupava o pirulito. Estava olhando diretamente para mim, e eu pude
sentir minha fora de vontade sumindo. Deixei cair o Arco Voltaico e ele
rolou pelo cho de musgo da floresta.
     Liv se agachou acima do Arco Voltaico, apoiada nos calcanhares.
     -- Isso  estranho. Por que voc acha que est piscando em verde de
novo? Outra visita de Amma, Arelia e Twyla?
     -- Provavelmente  uma bomba.
     Ouvi a voz de Link, mas no consegui dizer uma palavra. Cai no cho aos
ps de Ridley. Fazia algum tempo que ela no usava seus poderes de Sirena em
mim. Tive um pensamento fugaz antes de meu rosto atingir a lama. Ou Link
estava certo e era imune a ela agora, ou ela andava realmente se controlando.
Se isso fosse verdade, era um comportamento novo para ela.
     -- Se magoar minha prima... se ao menos pensar em magoar minha
prima, vai passar o resto da sua vida infeliz como meu escravo. Entendeu,
Palitinho?
     Minha cabea se ergueu involuntariamente e virou, o que fez meu
pescoo parecer que ia se quebrar. Meus olhos se foraram a ficar abertos e
olhar nos olhos amarelos e brilhantes de Ridley. Eles ardiam com tanta fora
que comecei a ficar tonto.
     -- Pare com isso. -- Ouvi a voz de Liv e senti o peso do meu corpo
bater no cho antes de recuperar o controle sobre ele. -- Pelo amor de Deus,
Ridley, no seja burra.
     Liv e Ridley estavam de p, cara a cara. Os braos de Liv estavam
cruzados sobre o peito. Ridley segurava o pirulito no espao entre elas duas.
     -- Acalme-se, Poppins. Palitinho e eu somos amigos.
     -- No  o que parece. -- A voz de Liv estava ficando mais alta. -- No
se esquea que somos ns que estamos arriscando a vida pra salvar Lena.
     -- Os rostos delas estavam iluminados por raios de luz colorida. O Arco
Voltaico estava enlouquecido, pulsando cores entre as rvores.
     -- No fique nervosinha, colega. -- Os olhos de Ridley pareciam de ao.
     Os de Liv estavam escuros.
     -- No seja idiota. Se Ethan no ligasse pra Lena, ento o que estaramos
fazendo no meio dessa floresta no fim do mundo?
     -- Boa pergunta, Guardi. Sei o que estou fazendo aqui. Mas se voc no
liga pro Namorado, qual  sua desculpa? -- Ridley estava a centmetros de
Liv, mas ela no recuou.
     -- O que estou fazendo aqui? A Estrela do Sul sumiu e uma Cataclista
est chamando a lua fora de poca na mtica Grande Barreira e voc est me
perguntando o que estou fazendo aqui? Est falando srio?
     -- Ento isso no tem nada a ver com o Namorado?
     -- Ethan, que na verdade no  namorado de ningum, no sabe nada do
mundo Conjurador. -- Liv no estava abalada. -- Ele est com problemas.
Precisa de uma Guardi.
     -- Na verdade, voc  uma Guardi em treinamento. Pedir sua ajuda 
como pedir a uma enfermeira para fazer uma cirurgia cardaca. E, de acordo
com a descrio do seu trabalho, voc no deve se envolver. Ento, do meu
ponto de vista, voc no  uma boa Guardi. -- Ridley estava certa.. Havia
regras e Liv as estava quebrando.
     -- Isso pode ser verdade, mas sou uma excelente astrnoma. E sem
minhas leituras, no conseguiramos usar este mapa nem encontrar a Grande
Barreira e Lena.
     O Arco Voltaico ficou frio na minha mo. Estava completamente preto
novamente.
     -- Perdi alguma coisa? -- Link saiu dos arbustos, fechando o zper. As
garotas olharam para ele enquanto eu me levantava da lama. -- Ch gelado.
Sempre perco as coisas boas.
     -- O que... -- Liv bateu no selenmetro. -- Tem alguma coisa errada.
Os mostradores esto ficando malucos.
     Alm das rvores, um estrondo ecoou pela floresta. Hunting devia ter nos
alcanado. Ento tive outro pensamento, fugaz, mas que no fez eu me sentir
menos culpado.
     Talvez fosse outra pessoa, algum que no gostava da ideia de a estarmos
seguindo. Algum que podia controlar as coisas no mundo natural.
     -- Corram!
     O estrondo ficou mais alto. Sem aviso, as rvores de ambos os lados
caram na minha frente. Andei para trs. Da ltima vez em que rvores tinham
cado  minha frente, no tinha sido acidente.
     Lena!  voc?
     Alguns metros ao nosso redor, grandes carvalhos e pinheiros cobertos de
musgo foram arrancados da lama, com razes e tudo, caindo ao cho.
     Lena, no!
     Link cambaleou em direo a Ridley.
     -- Abra um pirulito, gata.
     -- J falei pra no me chamar de gata.
     Pela primeira vez em horas, consegui ver o cu. S que agora ele estava
escuro. As nuvens negras da magia Conjuradora tinham ido at ns. Ento
senti uma coisa, vinda de longe.
     Na verdade, ouvi uma coisa.
     Lena.
     Ethan, corra!
     Era a voz dela, a voz que estava silenciosa havia tanto tempo. Mas se
Lena estava me mandando correr, quem estava arrancando as rvores do
cho?
     L, o que est acontecendo?
     No consegui ouvir a resposta dela. S havia escurido, aquelas nuvens
Conjuradoras vindo em nossa direo como se nos perseguissem. At que vi o
que as nuvens eram de verdade.
     -- Cuidado! -- gritei, puxando Liv para trs e empurrando Link na
direo de Ridley bem a tempo.
     Camos sobre a vegetao na hora em que uma chuva de pinheiros
arrancados caiu do cu como chuva. Os galhos se espatifaram bem onde
estvamos parados um segundo antes. A poeira fazia meus olhos arderem e eu
no conseguia ver nada. A terra ficou presa na minha garganta quando tossi.
     A voz de Lena tinha sumido, mas ouvi outra coisa. Um som de zumbido,
como se tivssemos tropeado numa colmia com milhares de abelhas, todas
aquelas querendo matar em defesa de sua rainha.
     A poeira estava to densa que mal consegui identificar as formas ao meu
redor. Liv estava deitada do meu lado, a testa sangrando acima de um dos
olhos. Ridley estava choramingando encolhida contra Link, que estava preso
por um galho enorme de rvore.
     -- Acorde, Shrinky Dink. Acorde.
     Quando engatinhei em direo a eles, Ridley se encolheu. O rosto dela era
uma mscara de pavor. S que no olhava para mim. Estava olhando para
alguma coisa atrs de mim.
     O zumbido ficou mais alto. Senti o frio ardente da escurido Conjuradora
na minha nuca. Quando me virei, a enorme pilha de folhas de pinheiro que
quase nos enterrava tinha formado uma espcie de fogueira. A pirmide de
folhas criou uma pira, uma plataforma gigante apontando para nuvens pretas.
Mas as chamas no eram vermelhas e no produziam calo. Eram to amarelas
quanto os olhos de Ridley e s emitiam frio, sofrimento e medo.
     O choramingo de Ridley ficou mais alto.
     -- Ela est aqui.
     Olhei no momento em que uma plataforma de pedra emergia das chamas
amarelas e sibilantes da pira. Uma mulher estava deitada sobre a pedra. Ela
parecia quase em paz, como uma santa morta prestes a ser carregada pelas
ruas. Mas ela no era nenhuma santa.
     Sarafine.
     Seus olhos se abriram e os lbios se curvaram em um sorriso frio. Ela se
espreguiou, como um gato despertando de uma soneca, depois se levantou e
ficou de p sobre a pedra. De onde estvamos, l embaixo, ela parecia ter 50
metros de altura.
     -- Estava esperando outra pessoa, Ethan? Entendo a confuso. Voc
sabe o que dizem. Tal me, tal filha. Neste caso, cada dia mais.
     Meu corao estava disparado. Eu podia ver os lbios vermelhos de
Sarafine, o longo cabelo preto. Virei para o outro lado. No queria ver o rosto
dela, o rosto que se parecia tanto com o de Lena.
     -- Afaste-se de mim, bruxa.
     Ridley ainda estava chorando, encolhida ao lado de Link, se balanando
para a frente e para trs como uma louca.
     Lena? Voc consegue me ouvir?
     A voz terrvel de Sarafine se elevou acima do som das chamas, e l estava
ela de novo, de p sobre o fogo.
     --No vim aqui por sua causa, Ethan. Vou deixar voc para minha
querida filha. Ela amadureceu tanto este ano, no ? No h nada como ver os
filhos alcanarem seu verdadeiro potencial. Deixa uma me muito orgulhosa.
     Observei as chamas subirem pelas pernas dela.
     -- Voc est errada. Lena no  como voc.
     -- Acho que j ouvi isso antes. No aniversrio de Lena, talvez. S que
naquela poca voc acreditava nisso e agora est mentindo. Sabe que a perdeu.
Ela no pode mudar o que foi destinada a ser.
     As chamas estavam na cintura dela. Ela possua as perfeitas feies das
mulheres Duchannes, mas que pareciam desfiguradas em Sarafine.
     -- Talvez Lena no possa mudar, mas eu posso. Farei o que precisar para
proteg-la.
     Sarafine sorriu de novo, e me encolhi. O sorriso dela se parecia tanto com
o de Lena, ou como o sorriso de Lena estava ultimamente. Quando as chamas
chegaram ao seu peito, ela desapareceu.
     -- To forte e to parecido com sua me. As ltimas palavras dela foram
alguma coisa parecida com isso. Ou no? -- Ouvi um sussurro no meu
ouvido. -- Sabe, esqueci, porque no era importante.
     Fiquei paralisado. Sarafine estava parada ao meu lado agora, ainda envolta
em chamas. Mas eu sabia que no era um fogo real, pois quanto mais perto ela
chegava, mais frio eu sentia.
     -- Sua me no era importante. A morte dela no foi nobre ou
importante. Foi simplesmente uma coisa que tive vontade de fazer na poca.
No significou nada. -- As chamas chegaram ao pescoo e saltaram,
consumindo todo seu corpo. -- Assim como voc.
     Estendi a mo em direo ao pescoo de Sarafine. Eu queria arranc-lo.
Mas minha mo passou direto por ela, agarrando o ar. No havia nada ali. Ela
era uma apario. Eu queria mat-la, mas no conseguia m encostar nela.
     Sarafine riu.
     -- Voc acha que eu perderia tempo vindo at aqui em carne e osso,
Mortal? -- Ela se virou para Ridley, que ainda estava se balanando, as mos
cobrindo a boca. -- Divertido, no acha, Ridley? -- Sarafine ergueu a mo e
abriu os dedos.
     Ridley ficou de p, as mos apertando a prpria garganta. Observei os
saltos das sandlias de Ridley subirem no ar enquanto seu rosto ia ficando
roxo e ela se enforcava. Seu cabelo louro pendia da cabea como o de uma
boneca sem vida.
     A forma fantasmagrica de Sarafine se dissolveu no corpo de Ridley.
Ridley se iluminou com luz amarela -- a pele, os cabelos, os olhos. A luz era
to intensa que ela no tinha pupilas. Mesmo na escurido da floresta, tive de
proteger o rosto. A cabea de Ridley se ergueu, como a de uma marionete, e
ela comeou a falar.
     -- Meu poder est crescendo, e logo a Dcima Stima Lua vai estar sobre
ns, chamada fora de poca, como s uma me pode fazer. Eu decido quando
o sol se pe. Movi estrelas pela minha filha e ela vai se Invocar e se juntar a
mim. S minha filha poderia bloquear a Dcima Sexta Lua e s eu posso
erguer a Dcima Stima. No h outros como ns, em nenhum dos mundos.
Somos o comeo e o fim. -- O corpo de Ridley despencou no cho, como
um saco vazio.
     O Arco Voltaico estava quente no meu bolso. Eu torcia para que Sarafine
no conseguisse senti-lo. Lembrei do piscar -- o Arco Voltaico tentou me
avisar. Eu devia ter prestado ateno.
     -- Voc nos traiu, Ridley.  uma traidora. O Pai no  to misericordioso
quanto eu. -- O Pai. Sarafine s podia estar falando de uma pessoa: o pai da
linhagem de Incubus de Sangue de Ravenwood, o pai que comeou tudo.
Abraham.
     A voz de Sarafine ecoou acima do rudo das chamas.
     -- Voc ser julgada, mas no negarei a ele o prazer. Voc era minha
responsabilidade e agora  minha vergonha. Acho apropriado que eu te deixe
com um presente de despedida. -- Ela ergueu os braos bem acima da cabea.
-- Como voc est to dedicada a ajudar estes Mortais, deste momento em
diante vai viver como Mortal e morrer como Mortal. Seus poderes foram
devolvidos ao Fogo Negro, de onde vieram.
     Ridley ficou de p e gritou, sua dor ecoando pela floresta. Ento tudo
sumiu: as rvores cadas, o fogo, Sarafine, tudo. A floresta voltou a ser como
era alguns minutos antes. Verde e escura, cheia de pinheiros e carvalhos e lama
preta. Cada rvore, cada galho estava de volta em seu lugar, como se nada
tivesse acontecido.
     Liv jogava gua de uma garrafa de plstico na boca de Ridley. O rosto de
Liv ainda estava enlameado e sangrando, mas ela parecia bem. Ridley, por
outro lado, estava branca como um fantasma.
     -- Aquilo foi magia incrivelmente poderosa. Uma apario capaz de
possuir uma Conjuradora das Trevas. -- Liv balanou a cabea. Toquei o
sangue acima do olho dela, que fez uma careta de dor. -- E Conjurar ao
mesmo tempo, se o que ela disse sobre os poderes de Ridley for verdade.
     -- Olhei para Ridley, em dvida. Era difcil imagin-la sem seu Poder de
Persuaso. -- De qualquer forma, Ridley no vai ficar bem, no por algum
tempo. -- Liv molhou parte de seu moletom com a gua e limpou o rosto de
Ridley. -- No me dei conta do risco que ela estava correndo ao vir aqui. Ela
deve gostar muito de todos vocs.
     -- No de todos ns -- falei, tentando ajudar Liv a erguer Ridley.
     Ridley tossiu a gua e colocou as mos sobre a boca, manchando o batom
cor-de-rosa. Ela parecia uma lder de torcida que tinha ficado com muita gente
na feira da escola. Tentou falar.
     -- Link. Ele est...?
     Eu estava ajoelhado ao lado dele. O galho de rvore que tinha cado nele
havia desaparecido, mas Link ainda gemia de dor. Parecia impossvel de estar
ferido, ou qualquer um de ns, pois no havia sinal do que tinha acontecido ali
-- nada de rvores cadas, nenhum galho fora do lugar. Mas o brao de Link
estava roxo e com o dobro do tamanho normal, e sua cala estava rasgada.
     -- Ridley? -- Link abriu os olhos.
     -- Ela est bem. Estamos todos bem. -- Rasguei a perna da cala dele
ainda mais. O joelho estava sangrando.
     Link tentou rir.
     -- T olhando o qu?
     -- Sua cara feia. -- Eu me inclinei sobre ele, observando se os olhos dele
se focavam. Ele ia ficar bem.
     -- Voc no vai me beijar, vai?
   Naquele momento, fiquei to aliviado que quase podia ter feito isso
mesmo.
   -- Faz biquinho.
                                    14 de junho   
                     Ningum em especial

                                    

A
      quela noite, dormimos na floresta entre as razes de uma enorme rvore,
      a maior que j vi. O joelho de Link estava amarrado com uma atadura
      feita da outra camiseta que eu havia levado e o brao, em uma tipia feita
de parte do meu moletom da Jackson. Ridley estava deitada do lado oposto da
rvore com os olhos abertos, observando o cu. Fiquei me perguntando se ela
estava olhando para o cu Mortal agora. Ela parecia exausta, mas eu no
achava que conseguiria dormir.
     Queria saber o que estava pensando, se estava arrependida de ter nos
ajudado. Ser que Ridley tinha mesmo perdido seus poderes?
     Como pareceria ser Mortal quando sempre se foi outra coisa, algo maior?
Quando nunca se havia sentido a falta de poder da existncia humana, como
a Sra. English tinha falado numa aula do ano passado. Ela estava falando sobre
O homem invisvel, de H. G. Wells, mas agora Ridley parecia to invisvel
quanto o personagem.
     Algum poderia ser feliz se acordasse e de repente no fosse ningum
especial?
     Ser que Lena poderia? Seria assim que a vida comigo pareceria? Lena j
no tinha sofrido o bastante por mim?
     Como Ridley, no consegui adormecer, mas eu no queria olhar o cu.
Queria ver o que havia no caderno de Lena. Parte de mim sabia que invaso
da privacidade dela, mas eu tambm sabia que podia ter algo pginas
amassadas que talvez nos ajudasse. Depois de urna hora, me venci de que ler o
caderno seria para um bem maior, ento o abri.
     A princpio foi difcil ler, pois meu celular era a nica fonte de luz. Depois
que meus olhos se ajustaram, a caligrafia de Lena parecia me olhar dos espaos
entre as linhas azuis. Eu tinha visto a escrita familiar com bastante frequncia
nos meses que sucederam o aniversrio dela, achava que jamais me
acostumaria. Era um contraste to grande com a caligrafia de menina que ela
possua antes daquela noite. Foi ainda mais surpreendente ver uma escrita real,
depois de tantos meses de fotografias de lpides e desenhos pretos. Desenhos
de Conjuradores das Trevas, como aqueles nas suas mos, estavam rabiscados
nas margens. Mas os primeiros textos tinham data de apenas dias aps a morte
de Macon, quando ela ainda escrevia.
       vazioscheios dianoites|tudoigual (mais ou menos ) medo ( menos e mais ) temerosa |
esperando que a verdade me estrangule durante o sono |se eu dormisse
     Medo ( menos e mais ) temerosa. Eu entendia as palavras, porque era assim
que ela tinha se comportado. Com menos medo e mais temerosa. Como se
no tivesse nada a perder, mas tivesse medo de perder o que tem.
     Adiantei algumas pginas e parei quando uma data chamou a minha
ateno: 12 de junho. O ltimo dia de aula.
       a escurido se esconde e eu acho que consigo cont-la | esmag-la com a palma da
minha mo |mas quando olho minhas mos esto vazias | quietas enquanto os dedos dela
se dobram ao meu redor

    Eu li e reli. Ela estava descrevendo o dia no lago, o dia em que ela tinha
ido longe demais. O dia em que podia ter me matado. Quem era ela?
Sarafine?
    Quanto tempo ela havia lutado? Quando tinha comeado? Na noite em
que Macon morreu? Quando comeou a usar as roupas dele?
    Eu sabia que devia fechar o caderno, mas no conseguia. Ler aquelas
palavras era quase como ouvir os pensamentos dela novamente. Eu no os
conhecia havia tanto tempo, e queria tanto. Virei cada pgina, procurando
pelos dias que me assombravam.
     Como o dia da feira...
      coraes mortais e medos mortais | uma coisa que eles podem compartilhar eu o
desamarro como a um pardal

     Liberdade -- era o que o pardal significava para um Conjurador.
     O tempo todo eu achara que ela estava tentando se livrar de mim, mas ela
estava na verdade tentando me libertar. Como se am-la fosse uma jaula da
qual eu no conseguisse escapar.
     Fechei o caderno. Doa demais l-lo, principalmente com Lena to longe,
de todas as formas que importavam.
     A alguns metros de distncia, Ridley ainda olhava com olhar vazio as
estrelas Mortais. Pela primeira vez, vamos o mesmo cu.
     Liv estava aconchegada entre duas razes, comigo de um lado e Link do
outro. Depois que descobri a verdade sobre o que tinha acontecido no
aniversrio de Lena, acho que esperava que meus sentimentos por Liv
desaparecessem. Mas mesmo agora eu me via ponderando. Se as coisas fossem
diferentes, se eu no tivesse conhecido Lena, se no tivesse conhecido Liv...
     Passei as horas seguintes observando Liv. Quando ela dormia, parecia em
paz, bonita. No bonita no estilo de Lena, mas diferente. Ela parecia satisfeita
-- como um dia de sol, um copo de leite frio, um livro que nunca foi aberto,
antes do primeiro dano  lombada. No havia nada de atormentado nela. Ela
aparentava o modo como eu queria me sentir.
     Mortal. Esperanosa. Viva.
     Quando finalmente adormeci, me senti desse jeito, por apenas um
minuto...
     Lena estava me sacudindo.
     -- Acorde, dorminhoco. Precisamos conversar. -- Sorri e a puxei para
meus braos. Tentei beij-la, mas ela riu e se esquivou. -- Este no  desse
tipo de sonho.
     Eu me sentei e olhei ao redor. Estvamos na cama de Macon, nos tneis.
     -- Todos os meus sonhos so desse tipo de sonho, L. Tenho quase 17
anos.
     -- Este  meu sonho, no seu. E s tenho 16 h quatro meses.
     -- Macon no vai ficar zangado por estarmos aqui?
     -- Macon est morto, no lembra? Voc deve mesmo estar dormindo. --
Ela estava certa. Eu tinha esquecido tudo, e agora tudo voltou de repente.
Macon tinha morrido. A troca.
     E Lena tinha me deixado, s que no tinha. Ela estava aqui.
     -- Ento isso  um sonho? -- Eu estava tentando impedir que meu
estmago desse um n pela sensao de perda, de culpa por tudo que eu tinha
feito, de tudo o que eu devia a ela.
     Lena assentiu.
     -- Eu estou sonhando com voc ou voc est sonhando comigo?
     -- Faz alguma diferena quando se trata de ns? -- Ela evitava a
pergunta.
     Tentei de novo.
     -- Quando eu acordar, voc ter sumido?
     -- Sim. Mas eu precisava ver voc. Esse era o nico jeito de
conversarmos. -- Ela vestia uma camisa branca, uma das minhas mais antigas
e macias. Estava desgrenhada e linda, do jeito que eu mais amava, quando ela
achava que estava mais feia.
     Coloquei as mos na cintura dela e a puxei mais para perto.
     -- L, eu vi minha me. Ela me contou sobre Macon. Acho que ela o
amava.
     -- Eles se amavam. Tambm assisti s vises. -- Ento nossa conexo
ainda existia. Senti uma onda de alvio.
     -- Eles eram como ns, Lena.
     -- E no podiam ficar juntos. Como ns.
     Era um sonho, eu tinha certeza. Porque podamos dizer essas terrveis
verdades com um distanciamento estranho, como se estivessem acontecendo a
outras pessoas. Ela apoiou a cabea no meu peito, tirando lama da minha
camisa com os dedos. Como minha camisa tinha ficado to suja? Tentei
lembrar, mas no consegui.
     -- O que vamos fazer, L?
     -- No sei, Ethan. Estou com medo.
     -- O que voc quer?
     -- Voc -- sussurrou ela.
     -- Ento por que  to difcil?
     -- Estamos todos errados. Tudo est errado quando estou com voc.
     -- Isso parece errado? -- Abracei-a com mais fora.
     -- No. Mas o que sinto no importa mais. -- Senti-a suspirar contra
meu peito.
     -- Quem disse isso?
     -- Ningum precisou me dizer. -- Olhei nos olhos dela. Ainda estavam
dourados.
     -- Voc no pode ir para a Grande Barreira. Precisa voltar.
     -- No posso parar agora. Tenho que ver como termina.
     Brinquei com uma mecha do cabelo preto e encaracolado dela.
     -- Por que voc no tem que ver como as coisas terminam entre ns?
     Ela sorriu e tocou no meu rosto.
     -- Porque agora eu sei como termina com voc.
     -- Como termina?
     -- Assim.
     Ela se inclinou e me beijou, e o cabelo dela caiu ao redor do meu rosto
como chuva. Puxei as cobertas e ela entrou debaixo delas, nos meus braos.
Enquanto nos beijvamos, senti o calor do toque dela. Deitamos na cama. Eu
estava em cima dela, depois ela em cima de mim. O calor se intensificou a
ponto de eu no conseguir respirar. Pensei que minha pele estivesse em
chamas e, quando me afastei do beijo, estava mesmo.
     Estvamos os dois pegando fogo, cercados de chamas que iam mais alto
do que era possvel ver, e a cama no era uma cama, mas sim uma plataforma
de pedra. Tudo queimava ao nosso redor, com as chamas amarelas do fogo de
Sarafine.
     Lena gritou e se agarrou a mim. Olhei para baixo de onde estvamos, no
topo de uma enorme pirmide de rvores cadas. Havia um crculo estranho
esculpido na pedra em que estvamos deitados, alguma espcie de smbolo
Conjurador das Trevas.
     -- Lena, acorde! Essa no  voc. Voc no matou Macon. Voc no est
indo para as Trevas. Foi o Livro. Amma me contou tudo.
     A pira tinha sido para ns, no Sarafine. Eu pude ouvi-la rindo. Ou ser
que era Lena? Eu no conseguia mais perceber a diferena.
     -- L, me escute! Voc no precisa fazer isso...
     Lena estava gritando. No conseguia parar de gritar.
     Quando acordei, as chamas tinham consumido ns dois.
     -- Ethan? Acorde. Temos que ir.
     Eu me sentei, ofegante e pingando suor. Estendi as mos. Nada. Nem
uma queimadura, nem mesmo um arranho. Tinha sido um pesadelo. Olhei ao
redor. Liv e Link j estavam acordados. Esfreguei o rosto com as mos. Meu
corao ainda estava disparado, como se o sonho fosse real e eu quase tivesse
morrido. Eu me perguntei de novo se tinha sido um sonho meu ou de Lena. E
se era realmente assim que as coisas terminavam para ns. Fogo e morte,
como Sarafine queria.
     Ridley estava sentada em uma pedra, chupando um pirulito, o que era um
tanto pattico. Durante a noite, ela pareceu ter passado de um estado de
choque para um estado de negao. Agia como se nada tivesse acontecido.
Ningum sabia o que dizer. Ela era como um daqueles veteranos de guerra
sofrendo de sndrome de estresse ps-traumtico, que voltam para casa e
ainda acham que esto no campo de batalha.
     Ela estava encarando Link, jogando o cabelo e olhando para ele com
expectativa.
     -- Por que no vem at aqui, gostoso?
     Link mancou at minha mochila e pegou uma garrafa de gua.
     -- Eu passo.
     Ridley colocou os culos de sol no alto da cabea e olhou para ele com
mais intensidade, o que deixava claro que os poderes dela tinham sumido.
     Na luz do dia, os olhos de Ridley estavam to azuis quanto os de Liv.
     -- Eu disse para vir aqui. -- Ridley puxou a saia curta um pouco mais
para cima da coxa machucada. Senti pena. Ela no era mais uma Sirena, s
uma garota que parecia uma Sirena.
     -- Por qu? -- Link no estava entendendo.
     A lngua de Ridley estava vermelho-vivo quando ela deu uma ltima
lambida no pirulito.
     -- Voc no quer me beijar? -- Por um segundo, pensei que Link
poderia entrar na dela, mas isso s ia adiar o inevitvel.
     -- No, obrigado. -- Ele se virou e ficou bvio que se sentia culpado.
     Os lbios de Ridley tremeram.
     -- Talvez seja temporrio e meus poderes acabem voltando. -- Ela
estava tentando se convencer mais do que a qualquer pessoa.
     Algum tinha que contar a ela. Quanto mais cedo ela encarasse a
realidade, mais cedo seria capaz de seguir em frente. Se conseguisse.
     -- Acho que eles realmente sumiram, Ridley.
     Ela virou a cabea para me encarar, a voz trmula.
     -- Voc no sabe de nada. S porque saiu com uma Conjuradora no
quer dizer que saiba das coisas.
     -- Sei que Conjuradores das Trevas tm olhos amarelos.
     Ouvi a respirao dela ficar presa na garganta. Ela pegou a barra da
camisa suja e a puxou para cima. Sua pele ainda era macia e dourada, mas a
tatuagem que circulava seu umbigo tinha sumido. Ela passou a mo pela
barriga, depois desabou.
     --  verdade. Ela realmente tirou meus poderes. -- Ridley abriu os
dedos, deixando o pirulito cair na terra. No emitiu som algum, mas as
lgrimas correram por seu rosto em duas linhas prateadas.
     Link andou at ela e estendeu a mo para pux-la.
     -- Isso no  verdade. Voc ainda  bem m. Quero dizer, gostosa. Para
uma Mortal.
     Ridley ficou de p, histrica.
     -- Voc acha isso engraado? Que perder meus poderes  como perder
um dos seus jogos de basquete imbecis? Eles so quem eu sou, idiota! Sem
eles, no sou nada. -- Linhas pretas escorriam pelas bochechas dela. Ela
tremia.
     Link pegou o pirulito dela do cho. Abriu a garrafa de gua e o lavou.
     -- D tempo ao tempo, Rid. Vai desenvolver suas prprias tcnicas de
seduo. Voc vai ver. -- Ele devolveu o pirulito a ela. Ridley ficou olhando
para ele, confusa.
     Sem olhar, ela jogou o pirulito o mais longe que conseguiu.
                                    20 de junho   
                        Ponto em comum

                                    

E
      u quase no tinha dormido. O brao de Link estava inchado e roxo.
      Nenhum de ns tinha condies fsicas de andar pela floresta lamacenta,
      mas havia escolha.
      --Vocs esto bem? Temos que ir.
      Link encostou no brao e fez uma careta.
      -- J estive melhor. Tipo, sei l, todos os outros dias da minha vida.
      O corte no rosto de Liv j estava comeando a secar.
      --J estive pior, mas essa  uma longa histria, que envolve o Estdio de
Wembley, uma viagem ruim no metr e churrasco grego em excesso.
      Peguei minha mochila, toda enlameada.
      -- Onde est Lucille?
      Link olhou ao redor.
      -- Quem sabe? Aquela gata vive desaparecendo. Agora sei por que suas
tias a deixavam na coleira.
      Assobiei em direo s rvores, mas no havia sinal dela.
      -- Lucille! Ela estava aqui quando acordamos.
      -- No se preocupe, cara. Gatos tm sexto sentido, sabia?
      -- Ela provavelmente estava cansada de nos seguir, pois nunca chegas a
lugar algum -- disse Ridley. -- Aquela gata  muito mais inteligente ...que ns.
     Parei de prestar ateno  conversa deles. Estava ocupado demais
ouvindo a que se passava na minha cabea. Eu no conseguia parar de Lena e
no que ela havia feito por mim. Por que eu tinha demorado tanto para ver o
que estava bem na minha frente?
     Eu sabia que Lena estava se punindo o tempo todo. O isolamento
autoimposto, as fotos mrbidas de lpides coladas nas paredes, os sria das
Trevas no caderno e no corpo todo, o fato de usar as roupas morto, e at de
andar com Ridley e John -- nunca se tratou de mim. Era por causa de Macon.
     Mas nunca me dei conta de que eu era cmplice. Lena tinha algum que a
lembrava constantemente do crime pelo qual estava se culpando, o inteiro.
Algum que a lembrava constantemente do que tinha perdido.
     Eu.
     Ela tinha que olhar para mim todo dia e segurar minha mo e me beijar.
No surpreende que fosse to quente e to fria, me beijando num momento e
fugindo no seguinte. Pensei sobre a letra da msica, escrita um monte de vezes
nas paredes do quarto dela.
     Correndo at ficar parada.
     Ela no conseguia fugir e eu no a deixava. No meu ltimo sonho, disse
que sabia sobre a troca. Eu queria saber se ela tambm teve o sonha sabia que
eu conhecia o fardo secreto dela. Que ela no precisava mais reg-lo sozinha.
     Sinto muito, L.
     Procurei pela voz dela nos cantos da minha mente, pela menor
possibilidade de que ela estivesse ouvindo. No ouvi som algum, mas vi uma
coisa, imagens fugazes na minha viso perifrica. Fotos passando correndo
por mim como carros na pista expressa da rodovia interestadual...
     Eu estava correndo, pulando, me movendo to rapidamente que no
conseguia me concentrar. No at que minha viso se ajustasse, como tinha
acontecido antes, e eu conseguisse identificar as formas de rvores, folhas e
galhos passando ao meu lado. A princpio, eu s conseguia ouvir as folhas
sendo esmagadas embaixo de mim, o som do ar enquanto eu me deslocava.
Depois ouvi vozes.
     -- Precisamos voltar. -- Era Lena. Segui o som at o meio das rvores.
     -- No podemos. Voc sabe disso.
     A luz do sol passava com facilidade pelas folhas. Eu s conseguia ver
botas: as surradas de Lena e as pesadas e pretas de John. Estavam parados a
poucos metros.
     Ento vi os rostos deles. A expresso de Lena era de teimosia. Eu
conhecia aquele olhar.
     -- Sarafine os encontrou. Eles podem estar mortos!
     John chegou mais perto e fez uma careta, da mesma forma que fez
quando os vi no quarto. Era um reflexo involuntrio, uma reao a algum tipo
de dor. Ele olhou nos olhos dourados dela.
     -- Est falando de Ethan?
     Ela evitou o olhar.
     -- Estou falando de todos eles. Voc no est nem um pouco
preocupado com Ridley? Ela desapareceu. No acha que essas duas coisas
podem estar relacionadas?
     -- Que duas coisas?
     Os ombros de Lena ficaram tensos.
     -- O desaparecimento de minha prima e a apario repentina de Sarafine?
     Ele esticou o brao e pegou a mo dela, entrelaando os dedos como eu
costumava fazer.
     -- Ela sempre esteve em algum lugar, Lena. Sua me provavelmente  a
Conjuradora das Trevas mais poderosa do mundo. Por que ia querer
machucar Ridley, que  como ela?
     -- No sei. -- Lena balanava a cabea, sua determinao fraquejando.
     -- E s que...
     -- O qu?
     --Apesar de no estarmos juntos, no quero v-lo se machucar. Ele
tentou me proteger.
     -- De qu?
     De mim mesma.
     Ouvi as palavras, embora ela no as tenha dito.
     -- De muitas coisas. Era diferente naquela poca.
     -- Voc estava fingindo ser uma pessoa que no era, tentando fazer todo
mundo feliz. J pensou que ele no estava protegendo voc, e sim segurando?
-- Comecei a sentir meu corao bater mais rpido, meus msculos se
tensionando.
     Eu o estava segurando.
     -- Sabe, tive uma namorada Mortal uma vez.
     Lena pareceu chocada.
     -- Teve?
     John assentiu.
     -- Tive. Ela era adorvel e eu a amava.
     -- O que aconteceu? -- Lena prestava ateno a cada palavra.
     -- Era difcil demais. Ela no entendia como era minha vida. Que nem
sempre posso fazer o que quero... -- Ele parecia falar a verdade.
     -- Por que voc no podia fazer o que queria?
     -- Minha infncia foi o que se pode chamar de rgida. No estilo camisa de
fora. At as regras tinham regras.
     Lena parecia confusa.
     -- Est falando sobre sair com Mortais?
     John fez outra careta, encolhendo-se dessa vez.
     -- No, no era assim. O modo como fui criado foi porque eu era
diferente. O homem que me criou foi o nico pai que conheci, e ele no quer
que eu machucasse ningum.
     -- Eu tambm no quero machucar ningum.
     -- Voc  diferente. Quero dizer, ns somos.
     John pegou a mo de Lena e a puxou para seu lado.
     -- No se preocupe. Vamos encontrar sua prima. Ela deve ter fugido
com aquele baterista do Sofrimento. -- Ele estava certo sobre o baterista, mas
no esse que ele mencionou. Sofrimento? Lena estava andando com a espcie
de John, frequentando lugares chamados Exlio e Sofrimento. Ela achava que
era isso que merecia.
     Lena no disse mais nada, mas no largou a mo dele. Tentei me forar a
segui-los, mas no consegui. No tinha o controle. Isso estava bvio daquele
bizarro ponto de vista, to perto do cho. Eu sempre olhava para eles de
baixo. No fazia sentido. Mas no importava, porque agora eu estava correndo
de novo, por um tnel escuro. Ou era uma caverna? Eu sentia o cheiro do mar
enquanto as paredes negras passavam ao meu lado.

     Esfreguei os olhos, surpreso por estar andando atrs de Liv em vez de
deitado no cho. Era loucura pensar que eu podia estar observando Lena em
um lugar e seguindo Liv pelos tneis ao mesmo tempo. Como era possvel?
     As vises estranhas, com a perspectiva incomum e as imagens aceleradas
-- o que estava acontecendo? Por que eu conseguia ver Lena e John? Eu
precisava entender.
     Olhei para minhas mos. Eu no estava segurando nada alm do Arco
Voltaico. Tentei me lembrar da primeira vez que vi Lena dessa forma. Foi no
meu banheiro, e eu no tinha o Arco Voltaico naquela poca. A nica coisa
que eu estava segurando era a pia. Tinha de haver um ponto em comum, mas
eu no conseguia identific-lo.
      frente, o tnel se abriu em um hall de pedra, onde entradas de quatro
tneis convergiam.
     Link suspirou.
     -- Qual deles?
     No respondi. Porque quando olhei para o Arco Voltaico, vi outra coisa
logo alm.
     Lucille.
     Sentada na porta do tnel bem  nossa frente, esperando. Enfiei a mo no
bolso de trs e peguei a medalha de prata que tia Prue tinha me dado, com o
nome de Lucille gravado. Eu ainda podia ouvir a voz da tia Prue.
     Vejo que voc ainda tem a gata. Eu estava esperando a hora certa para solt-la do
varal. Ela sabe um ou dois truques. Voc vai ver.

     Em uma frao de segundo, tudo se encaixou e eu soube.
     Era Lucille.
     As imagens passando rapidamente por mim cada vez que eu estava em
direo a Lena e John. O cho to perto, muito mais do que se eu estivesse de
p. O ponto de vista incomum, como se eu estivesse deitado de barriga no
cho olhando para eles. Tudo fazia sentido. O modo como Lucille sempre
desaparecia e aparecia aleatoriamente. S que no era aleatrio.
     Tentei me lembrar das vezes em que Lucille tinha desaparecido,
analisando-as uma a uma. Na primeira vez em que vi Lena com John e Ridley,
eu estava olhando o espelho do meu banheiro. No me lembrava de Lucille
desaparecendo, mas lembrava dela sentada na minha varanda na manh
seguinte. O que no fazia sentido algum, porque nunca a soltvamos  noite.
     Na segunda vez, Lucille tinha sado correndo do parque Forsyth quando
chegamos a Savannah, e no reapareceu at depois de sairmos do Bonaventure
-- depois que vi Lena e John quando estava na casa de tia Caroline. E dessa
vez, Link reparou que Lucille tinha sumido quando voltamos aos tneis, mas
agora aqui estava ela, sentada  nossa frente, logo depois de ter acabado de ver
Lena.
     No era eu que estava vendo Lena.
     Era Lucille. Ela estava rastreando Lena, do mesmo modo que estvamos
seguindo os mapas ou as luzes ou a atrao da lua. Eu estava observando Lena
pelos olhos da gata, talvez do mesmo modo como Macon tinha observado o
mundo pelos de Boo. Como era possvel? Lucille no era uma gata
Conjuradora, assim como eu no era Conjurador.
     Ou era?
     -- O que voc , Lucille?
     A gata olhou nos meus olhos e inclinou a cabea para o lado.
     -- Ethan? -- Liv estava me observando. -- Voc est bem?
     -- Estou. -- Lancei um olhar expressivo para Lucille. Ela me ignorou e
cheirou a ponta do rabo graciosamente.
     -- Voc sabe que ela  um animal. -- Liv ainda me olhava com
curiosidade.
     -- Sim, sei.
     -- S confirmando.
     timo. No s eu estava falando com uma gata como tambm estava
falando sobre falar com a gata.
     -- Devamos ir andando.
     Liv respirou fundo.
      -- Sim, quanto a isso. Acho que no podemos.
      --Por que no?
      Liv fez sinal para que eu me aproximasse de onde os mapas de tia Prue
estavam abertos, sobre a terra.
      --Est vendo esta marcao aqui?  o portal mais prximo. Demorei um
pouco, mas entendi muitas coisas sobre esse mapa. Sua tia no estava
brincando. Ela deve ter passado anos desenhando nele.
      -- Os portais esto marcados?
      --  o que parece nos mapas. Est vendo esses ps vermelhos, com
pequenos crculos ao redor? -- Estavam em todo lugar. -- E essas linhas
vermelhas finas? Acredito que so os mais perto da superfcie. H um padro.
Parece que quanto mais escura  a cor, mais profundo .
      Apontei para uma rede de linhas pretas.
      --Est dizendo que estes so os mais profundos?
      Liv assentiu.
      -- Possivelmente tambm os mais das Trevas, O conceito de territrios
de Trevas e Luz dentro do Mundo Subterrneo  recente, na verdade. No 
amplamente conhecido.
      -- Ento qual  o problema?
      --Este. -- Ela apontou para duas palavras escritas na extremidade sul da
pgina maior. LOCA SILENTIA.
      Eu me lembrava da segunda palavra. Parecia com a que Lena disse
quando colocou o Conjuro em mim para que eu no pudesse contar  sua
famlia que ela ia embora de Gatlin.
      -- Est dizendo que o mapa est quieto demais?
      Liv balanou a cabea.
      -- Aqui  onde o mapa fica em silncio, infelizmente. Porque estamos no
fim. Chegamos  extremidade sul, o que significa que estamos fora do mapa.
Terra incgnita. -- Ela deu de ombros. -- Voc sabe o que dizem. Hic dracones
sunt.
      -- , ouo bastante isso. -- Eu no tinha ideia do que ela estava falando.
     -- Aqui h drages.  o que os marinheiros costumavam escrever nos
mapas de quinhentos anos atrs, quando o mapa terminava, mas o oceano
no.
     -- Eu preferia enfrentar drages a Sarafine. -- Olhei para o local onde
batia com o dedo. A teia de tneis por onde tnhamos vindo era to complexa
quanto um sistema de estradas. -- E agora?
     -- Estou sem ideias. No fiz nada alm de olhar para esse mapa que sua
tia o deu para ns e ainda no sei como chegar  Grande Barreira. Nem sei se
acredito que  um lugar real. -- Olhamos para o mapa juntos. -- Lamento. Sei
que decepcionei voc. Todo mundo, na verdade.
     Passei o dedo sobre o contorno da costa at chegar a Savannah, onde o
Arco Voltaico tinha parado de funcionar. A marca vermelha do portal de
Savannah ficava logo abaixo do primeiro L de LOCA SILENTIA. Enquanto
eu olhava para as letras e para os traos vermelhos ao redor delas, o padro
que faltava lentamente apareceu. Ele me lembrava o Tringulo das Bermudas,
uma espcie de vcuo onde tudo desaparecia magicamente.
     -- Loca silentia no significa onde o mapa fica em silncio`
     -- No?
     --Acho que significa alguma coisa tipo silncio de rdio, pelo menos para
um Conjurador. Pense nisso. Quando o Arco Voltaico parou de funcionar
pela primeira vez?
     Liv pensou.
     -- Em Savannah. Logo depois que ns... -- Ela olhou para mim e corou.
-- Logo depois que encontramos tudo no sto.
     -- Exatamente. Depois que entramos no territrio marcado Loca silentia,
o Arco Voltaico parou de nos guiar. Acho que estamos em uma espcie de
zona interditada ao voo, como o Tringulo das Bermudas, desde que fomos
para o sul de l.
     Liv olhou lentamente do mapa para mim, processando a informao.
     Quando falou, no conseguia esconder a empolgao na voz.
     -- A fresta. Estamos na fresta.  isso que  a Grande Barreira.
     -- A fresta de qu?
     -- O lugar onde dois universos se encontram. Liv olhou para o
mostrador em seu pulso. -- O Arco Voltaico podia estar em uma espcie de
sobrecarga mgica esse tempo todo.
     Pensei em tia Prue aparecendo, quando e onde apareceu.
     -- Aposto que tia Prue sabia que precisvamos dos mapas. Tnhamos
acabado de entrar em Loca silentia quando ela os entregou a ns.
     -- Mas o mapa termina e a Grande Barreira no est nele. Ento como
algum pode conseguir encontr-la? -- Liv suspirou.
     -- Minha me conseguiu. Ela sabia como encontr-la sem a estrela. --
Desejei que ela estivesse ali naquele momento, mesmo em uma verso
fantasmagrica feita de fumaa e terra de cemitrio e ossos de galinha.
     -- Voc leu isso nos papis dela?
     -- No. Foi uma coisa que John disse a Lena. -- Eu no queria pensar
naquilo, mesmo a informao sendo til. -- Onde estamos mesmo, de acordo
com o mapa?
     Ela apontou.
     -- Bem aqui.
     Tnhamos chegado  longa linha curva que se seguia ao pequeno recesso
da extremidade sul. Conexes Conjuradoras se cruzavam e se afastavam at se
reencontrarem na beira da gua como terminaes nervosas.
     -- O que so essas formas? Ilhas? -- Liv mordeu a ponta da caneta.
     -- Essas so as ilhas costeiras.
     Liv se inclinou por cima de mim.
     -- Por que parecem to familiares?
     -- Tambm estou pensando nisso. Achei que fosse de tanto olhar pro
mapa.
     Era verdade. Eu conhecia aquelas formas, se curvando para um lado e
para outro como um grupo de nuvens tortas. Onde eu as tinha visto antes?
     Peguei um punhado de papis -- papis da minha me -- do meu bolso
de trs. L estava, no meio das pginas. O pergaminho coberto por um
estranho desenho Conjurador que parecia com nuvens esquisitas.
     Ela sabia como encontrar sem a estrela.
     -- Espere...
      Coloquei o pergaminho em cima do mapa. Era como um papel de seda,
no como pele de cebola na tbua de Amma.
      -- Ser...
      Posicionei a folha transparente, o contorno de cada forma no pergaminho
se alinhando perfeitamente com cada forma no mapa abaixo. Menos uma, que
se materializou em uma espcie de silhueta fantasmagrica, s aparecendo
quando o contorno parcial do mapa se encontrava com o contorno parcial do
pergaminho. Sem o pergaminho e o mapa, as linhas pareciam rabiscos sem
sentido.
      Mas quando voc as unia da maneira certa, tudo se encaixava, e para ver a
ilha.
      Como duas metades de uma chave Conjuradora, ou dois universos
costurados um ao outro para um propsito em comum.
      A Grande Barreira estava escondida no meio de um arquiplago da costa
Mortal.  claro que estava.
      Olhei para a tinta na folha de papel e abaixo dela.
      L estava, O lugar mais poderoso do mundo Conjurador, aparecendo pela
caneta e pelo papel como se por mgica.
      Escondido a plena vista.
                                   20 de junho   
                       Plano de ningum

                                   

A
       porta em si no era to incomum.
           Nem o portal que levava a ela, nem a passagem curvilnea que
      tnhamos seguido para chegar at ali. Curva aps curva em corredores
feitos de pedras desmoronando e terra e madeira velha. Era assim que os
tneis deviam ser: midos e escuros e apertados. Era quase como no dia em
que Link e eu seguimos um cachorro de rua at um dos tneis de esgoto em
Summerville.
     Acho que o estranho era como tudo parecia normal, agora que tnhamos
entendido o segredo do mapa. Segui-lo era a parte fcil.
     At agora.
     --  isso. Tem que ser. -- Liv tirou os olhos do mapa. Olhei para alm a,
onde uma escadaria de madeira levava a raios de luz que formavam o
contorno de uma porta na escurido.
     -- Tem certeza?
     Ela assentiu e enfiou o mapa no bolso.
     -- Ento vamos ver o que tem l fora. -- Subi os degraus at a porta.
     -- No to rpido, Palitinho. O que voc acha que tem do outro lado da
porta? -- Ridley estava enrolando. Parecia to nervosa quanto eu.
     Liv observou a porta.
     -- De acordo com as lendas, magia antiga, nem da Luz nem das Trevas.
     Ridley balanou a cabea.
     -- Voc no tem ideia do que est dizendo, Guardi. Magia antiga, 
coisa selvagem. Infinita. Caos em sua mais pura forma. No exatamente a
combinao para um final feliz em sua pequena expedio.
     Cheguei mais perto da porta. Liv e Link estavam bem atrs de mim.
     -- Venha, Rid. Quer ajudar Lena ou no? -- A voz de Link ecoou nas
paredes.
     -- Eu s estava dizendo... -- Pude ouvir o medo na voz de Ridley.
Tentei no pensar sobre a ltima vez em que ela pareceu estar com tanto
como quando encarou Sarafine na floresta.
     Empurrei a porta e ela rangeu, a madeira gasta se entortando e
deformando. Outra tentativa e ela abriria. Estaramos l, fosse o que fosse a
Grande Barreira.
     Eu no estava com medo. No sei por qu. Mas no estava pensando em
entrar em um universo mgico quando forcei a porta at se abrir. Eu estava
pensando em minha casa. O painel de madeira no era to diferente da porta
externa que tnhamos encontrado no campo da feira, debaixo tnel do amor.
Talvez fosse um sinal -- alguma coisa do comeo reaparecendo no fim. Fiquei
em dvida se era um sinal bom ou ruim.
     No importava o que havia do outro lado da porta. Lena estava
esperando. Ela precisava de mim, quer soubesse disso ou no.
     No havia volta.
     Eu me apoiei no painel e ele se abriu. A fresta de luz se expandiu em um
campo branco cegante.
     Sa para a luz intensa, deixando a escurido para trs. Eu mal conseguia
ver os degraus atrs de mim. Inspirei o ar, pesado por causa do sal e azedo
pela maresia.
     Loca silentia. Agora eu entendia. Assim que samos da escurido dos tneis
e vimos o reflexo amplo e plano da gua, s havia luz e silncio.
     Lentamente, meus olhos comearam a se ajustar. Estvamos no que
parecia uma praia rochosa da costa da Carolina, coberta por uma camada de
conchas brancas e cinzas, emoldurada por uma linha irregular de pequenas
palmeiras. Uma passarela de madeira acompanhava o permetro da costa, de
frente para as ilhas. Estvamos parados ali agora, ns quatro, ouvindo o que
devia ter sido as ondas ou o vento ou mesmo uma gaivota no cu. Mas o
silncio era to denso que nos fez parar onde estvamos.
     A cena era perfeitamente comum e incrivelmente surreal, to vvida
quanto qualquer sonho. As cores eram intensas demais, a luz, clara demais. E
nas sombras alm da costa, a escurido era escura demais. Mas tudo era belo.
Mesmo a escurido. Foi a sensao que o momento passou que nos silenciou.
Magia se desenrolava  nossa frente, nos envolvendo como uma corda, nos
unindo uns aos outros.
     Quando comecei a andar em direo  passarela, as encostas curvilneas
das ilhas surgiram ao longe. Alm delas s havia uma neblina densa e espessa.
Tufos de grama do pntano se projetavam da gua e formavam bancos longos
e rasos em vrios pontos da lama costeira. Ao longo da praia, peres de
madeira castigados pelo tempo se estendiam sobre a gua azul e tranquila at
desaparecer nas profundezas escuras. Os peres se repetiam ao longo da costa
como dedos de madeira desgastados. Pontes para lugar nenhum.
     Olhei para o cu. Nem uma estrela avista. Liv olhou para o selenmetro,
cujo ponteiro rodopiava, e deu um tapinha nele.
     -- Nenhum desses nmeros significa mais nada. Estamos por conta
prpria agora. -- Ela tirou o relgio e o colocou no bolso.
     -- Acho que sim.
     -- E agora?
     Link se inclinou para pegar uma concha com o brao bom e a jogou para
longe. A gua a engoliu sem emitir nenhum som. Ridley estava de p ao lado
dele, com mechas de cabelo cor-de-rosa voando ao vento. Na extremidade do
per  nossa frente, a bandeira da Carolina do Sul (com a silhueta de uma eira e
uma lua crescente sobre um campo azul-escuro) parecia com uma bandeira
Conjuradora enquanto balanava presa a um fino mastro. Quando olhei
melhor, percebi que a bandeira tinha mudado. Essa tinha uma estrela de sete
pontas no cu, ao lado da familiar lua crescente e da silhueta de palmeira A
Estrela do Sul, bem ali na bandeira, como se tivesse cado do cu.
     Se essa era a fresta onde o mundo Mortal e o mgico se tocavam, no
havia sinal disso ali. No sei o que estava esperando. Tudo o que eu tinha
agora era uma estrela a mais na bandeira estadual e uma sensao de magia to
densa quanto o sal no ar.
     Eu me juntei aos outros na extremidade da passarela. O vento tinha
aumentado e a bandeira balanava ao redor do mastro. No fazia som algum.
     Liv consultou o mapa dobrado.
     -- Se estivermos no lugar certo, s pode ser entre aquela ilha depois da
bia e o lugar onde estamos.
     -- Acho que estamos no lugar certo. -- Eu tinha certeza.
     -- Como voc sabe?
     -- Lembra-se daquela Estrela do Sul sobre a qual voc estava me
contando? -- Apontei para a bandeira. -- Pense s. Se voc seguisse a estrela
pelo caminho todo at aqui, a estrela na bandeira  exatamente o que estaria
procurando. Algum tipo de sinal de que est no lugar certo.
     --  claro. A estrela de sete pontas. -- Ela examinou a bandeira, tocando
no tecido como se estivesse se permitindo acreditar pela primeira vez.
     No havia tempo para isso. Eu sabia que tnhamos que ir em frente.
     -- Ento, o que estamos procurando? Terra? Ou alguma coisa feita pelo
homem?
     -- Voc quer dizer que no  aqui? -- Link pareceu desapontado e
enfiou a tesoura de jardinagem de volta no cinto.
     -- Acho que ainda precisamos cruzar a gua. Faz sentido, na verdade.
Como cruzar o rio Estige para chegar a Hades. -- Liv esticou o mapa sobre a
palma da mo. -- De acordo com o mapa, estamos procurando alguma
espcie de conexo que nos levar por cima da gua at a Grande Barreira em
si. Como um banco de areia ou uma ponte. -- Ela segurou o pergaminho por
cima do mapa e todos ns olhamos.
     Link tirou-os das mos dela.
     -- , estou vendo. At que  legal. -- Ele moveu o pergaminho para
cima e para baixo no mapa. -- Agora voc v, agora no v. -- Ele soltou o
mapa e ele flutuou em uma confuso de pginas at pousar na areia.
     Liv se inclinou para pegar.
     -- Cuidado com isso! Voc  completamente doente?
     -- Voc quer dizer gnio? -- s vezes no havia sentido em Link e Liv
se falarem. Liv colocou o mapa de tia Prue no bolso e recomeamos a andar.
     Ridley pegou Lucille Ball. Ela no tinha falado muito desde que samos s
tneis. Talvez agora que tinha sido privada dos poderes, preferisse a
commpanhia de Lucille. Ou talvez estivesse com medo. Ela provavelmente bia
melhor que ns quais eram os perigos nos aguardando.
     Pude sentir o Arco Voltaico quente no meu bolso. Meu corao comeou
a disparar e minha cabea comeou a rodar.
     O que ele estava fazendo comigo? Desde que cruzamos para a terra de
ningum que o mapa chamava de Loca silentia, a luz tinha parado de iluminar
nosso caminho e tinha comeado a iluminar o passado. O passado de Macon.
Ele havia se tornado um condutor para as vises, uma linha direta que eu no
podia controlar. As vises estavam vindo intermitentemente, interrompendo o
presente com pedaos fragmentados do passado de Macon.
     Uma velha folha de palmeira estalou debaixo de um dos sapatos de Ridley
Ento outra coisa, e me senti desfalecendo...

      Macon pde sentir imediatamente quando seus ombros estalaram -- a intensa dor dos
ossos rachando. Sua pele se esticou, como se no conseguisse mais conter o que se escondia
dentro dele. O ar deixou seus pulmes, como se ele estivesse sendo esmagado. Sua viso
comeou a ficar embaada e ele teve a sensao de que estava caindo, embora pudesse sentir
as pedras cortando sua pele enquanto seu corpo se contorcia no cho.
      A Transformao.
      A partir daquele momento, ele no poderia mais viver entre Mortais na luz do dia. O
sol queimaria sua pele. No poderia ignorar o desejo de se alimentar com o sangue de
Mortais. Era um deles agora -- outro Incubus de Sangue na extensa linhagem de
assassinos da rvore genealgica dos Ravenwood. Um predador andando no meio de suas
presas, esperando para se alimentar.

     Eu estava de volta, to repentinamente quanto fui.
     Cambaleei em direo a Liv, minha cabea girando.
     -- Temos que ir. As coisas esto ficando fora de controle.
     -- Que coisas?
     -- O Arco Voltaico. As coisas na minha cabea -- falei, incapaz de
explicar melhor do que isso.
     Ela assentiu.
     -- Achei que as coisas pudessem ficar ruins pra voc. Eu no tinha
certeza se um Obstinado reagiria mais intensamente a um lugar muito
poderoso, considerando o quanto voc  sensvel ao efeito de certos
Conjuradores. Quero dizer, se voc realmente for... -- Se eu realmente fosse
um Obstinado. Ela no precisava dizer.
     -- Ento voc est dizendo que finalmente acredita que a Grande
Barreira  real?
     -- No. A no ser... -- Ela apontou para o ponto alm do per mais
distante no horizonte, onde outro, o mais velho e corrodo, seguia, to longe
que no dava para ver onde terminava, exceto que desaparecia na neblina. --
Aquela pode ser a ponte que procuramos.
     -- No  bem uma ponte. -- Link parecia descrente.
     -- S tem um jeito de descobrirmos. -- Andei  frente deles.
     Conforme caminhvamos por tbuas podres e conchas, eu me vi e vindo.
Eu estava l e no estava. Num lugar e noutro. Em um momento podia ouvir
as vozes de Ridley e Link enquanto eles implicavam um o outro. No seguinte,
a neblina embaava os contornos e eu era puxado novamente para as vises
do passado de Macon. Eu sabia que havia alguma coisa que eu devia
apreender com as vises, mas elas vinham to rapidamente agora que era
impossvel descobrir.
     Pensei em Amma. Ela teria dito: Tudo significa alguma coisa Tenta
imaginar o que diria depois.
     P-R-E-N--N-C-I-O. Nove, vertical. Significando preste ateno no e
agora, Ethan Wate, porque isso vai apontar o caminho para o e depois.
     Ela estava certa, como sempre. Tudo o que eu fazia significava alguma
coisa, no ? Todas as mudanas em Lena levariam  verdade, se eu tivesse
conseguido ver. Mesmo agora, eu tentava encaixar meus fragmentos de vises
para encontrar a histria que elas tentavam contar.
     Mas eu no tinha tempo, porque quando chegamos  ponte, senti outra
onda, a passarela comeou a balanar e as vozes de Link e Ridley sumiram...
      O quarto estava escuro, mas Macon no precisava de luz para enxergar. As
prateleiras estavam cheias de livros, como ele imaginava que estariam. Exemplares de todos
os aspectos da histria dos Estados Unidos, em particular as guerras que moldaram o pas:
a Guerra Revolucionria e a Guerra Civil. Macon passou os dedos pelas lombadas de couro.
Aqueles livros no tinham mais utilidade para ele.
      A guerra agora era de um tipo diferente. Uma guerra entre Conjuradores, declarada
dentro de sua prpria famlia.
      Ele podia ouvir passos acima, o som da chave crescente se encaixando na fechadura. A
porta rangeu, uma fresta de luz escapando quando a entrada no teto se abriu. Ele queria
estender a mo, oferecer ajuda para que ela descesse, mas no ousava.
      Havia anos desde que ele a tinha visto ou tocado.
      S tinham se encontrado em cartas e entre as capas dos livros que ela deixava para ele
nos tneis. Mas ele no a tinha visto e nem ouvido sua voz durante todo esse tempo. Marian
tinha se certificado disso. Ela passou pela porta aberta no teto, a luz entrando no aposento.
A respirao de Macon ficou presa na garganta. Estava ainda mais bonita do que ele se
lembrava. O cabelo castanho brilhante preso debaixo de um par de culos de leitura. Ela
sorriu.
      -- Jane. -- Ele no dizia o nome dela em voz alta havia tanto tempo. Era como
uma msica.
      -- Ningum me chama assim desde... -- Ela olhou para baixo. -- Uso o nome
Lila agora.
      -- Claro, eu sabia disso.
      Lila estava visivelmente nervosa, a voz trmula.
      -- Lamento ter precisado vir, mas esse era o nico jeito. -- Ela evitou os olhos dele.
Era doloroso demais olh-lo. -- O que tenho para contar a voc... no  algo que eu pudesse
deixar no escritrio, e eu no podia me arriscar a mandar uma mensagem pelos tneis.
      Macon tinha um pequeno escritrio nos tneis, um alvio ao exlio autoimposto que era
sua vida solitria em Gatlin. s vezes Lua colocava mensagens entre as pginas dos livros
que deixava para ele Elas sempre falavam sobre a pesquisa dela na Lunae Libri --
possveis respostas a perguntas que os dois tinham.
      --  bom ver voc. -- Macon deu um passo  frente e Lila ficou tensa. Ele pareceu
magoado. --  seguro. Consigo controlar meus instintos agora.
      -- No  isso. Eu... Eu no devia estar aqui. Falei para Mitchell que estava
trabalhando at mais tarde no arquivo. No gosto de mentir para ele. --  claro. Ela se
sentia culpada. Ainda era to honesta quanto Macon lembrava.
      -- Estamos no arquivo.
      -- Semntica, Macon.
      Macon inspirou profundamente ao ouvir seu nome sair dos lbios dela.
      -- O que  to importante para fazer voc se arriscar e vir at mim, Lila?
      -- Descobri uma coisa que seu pai escondeu de voc.
      Os olhos pretos de Macon se escureceram mais com a meno de seu pai.
      -- No vejo meu pai h anos. No desde... -- Ele no queria dizer o que estava
pensando. No via o pai desde que Suas tinha manipulado Macon at que ele se separasse
de Lua. Suas e suas vises distorcidas, seu preconceito contra Mortais e Conjuradores.
Macon, no entanto, no mencionou nada disso. No queria tornar mais difcil para ela. --
Desde a Transformao.
      -- Tem uma coisa que voc precisa saber. -- Lila baixou o tom de voz, como se o que
tinha a dizer s pudesse ser dito em sussurros. -- Abraham est vivo.
      Macon e Lila no tiveram tempo de reagir. Houve um zunido e uma pessoa se
materializou na escurido.
      -- Bravo. Ela  mesmo muito mais inteligente do que eu tinha imaginado. Lila, no
? -- Abraham batia palmas. -- Um erro ttico da minha parte, mas um erro que sua
irm pode corrigir facilmente. Voc no concorda, Macon?
      Macon apertou os olhos.
      -- Sarafine no  minha irm.
      Abraham ajeitou a gravata. Com sua barba branca e terno de domingo, ele parecia
mais com o coronel Sanders3 do que com o que ele realmente era: um assassino.
      -- No precisa ser desagradvel. Sarafine  filha do seu pai, afinal.  uma pena que
vocs no se deem bem. -- Abraham andou casualmente em direo a Macon. -- Sabe, eu
sempre tive esperanas de que pudssemos nos conhecer. Tenho certeza de que depois que
conversarmos, voc vai entender seu lugar na Ordem das Coisas.
      -- Sei meu lugar. Fiz minha escolha e me Invoquei para a Luz h muito tempo.
3
 Fundador do KFC (Kentucky Fried Chicken), cujo rosto aparece no logo da lanchonete.
(N.da T.)
     Abraham riu em voz alta.
     -- Como se uma coisa assim fosse possvel. Voc  uma criatura das Trevas por
natureza, um Incubus. Essa aliana ridcula com Conjuradores da Luz, defendendo
Mortais,  loucura. Seu lugar  conosco, com sua famlia. -- Abraham olhou para Lila.
-- E para qu? Por uma mulher Mortal com quem nunca pde ficar? Uma que  casada
com Outro homem?
     Lila sabia que no era verdade. Macon no tinha feito sua escolha s por causa dela,
mas tambm sabia que era parte das razes.
     Ela encarou Abraham, reunindo toda coragem que possua.
     -- Vamos encontrar um jeito de acabar com isso. Conjuradores e Mortais deviam
poder mais do que apenas coexistir.
     A expresso de Abraham mudou. Seu rosto escureceu e ele no parecia mais um
cavalheiro sulista idoso. Sua expresso era sinistra e m quando ele sorriu para Macon.
     -- Seu pai e Hunting... Ns tnhamos esperana de que voc fosse se juntar a ns.
Avisei a Hunting que os irmos costumam ser uma decepo. Assim como os filhos.
     Macon virou a cabea de repente, seu rosto mudando e espelhando o de Abraham.
     -- No sou filho de ningum.
     -- De qualquer forma, no posso aceitar que voc ou essa mulher interfiram em nossos
planos.  uma pena, na verdade. Voc virou as costas para sua famlia porque amava essa
Mortal asquerosa, e mesmo assim ela vai morrer porque voc a arrastou para isso. --
Abraham sumiu e se materializou na frente de Lila. -- Pois bem. -- Ele abriu a boca,
mostrando os caninos brilhantes.
     Lila cobriu a cabea com os braos e gritou, esperando pela mordida que nunca
aconteceu. Macon se materializou entre eles. Lila sentiu o peso do corpo dele quando se
chocou contra ela, jogando-a para trs.
     -- Lila, corra!
     Por um segundo ela ficou paralisada, enquanto os dois lutavam. O som era violento,
como se a terra estivesse se partindo. Lila viu Macon jogar Abraham no cho enquanto seus
sons guturais cortavam o ar. Depois, ela saiu correndo.

    O cu rodopiou ao meu redor lentamente, como se algum tivesse
apertado o boto de rebobinar. Liv devia estar falando comigo, porque eu
podia ver sua boca formando palavras, mas no conseguia entend-las. Fechei
meus olhos de novo.
    Abraham tinha matado minha me. A morte pode ter sido provocada por
Sarafine, mas foi Abraham quem ordenou. Eu tinha certeza.
    -- Ethan? Est me ouvindo? -- A voz de Liv estava frentica.
    -- Estou bem. -- Eu me levantei lentamente. Os trs me olhavam e
Lucille estava sentada no meu peito.
    Eu estava estatelado na passarela de madeira podre.
    -- Me d isso. -- Liv estava tentando tirar o Arco Voltaico das minhas
mos. -- Ele est agindo como uma espcie de canal metafsico. Voc no
pode control-lo.
    No soltei a esfera. Era um canal que eu no podia perder.
    --Pelo menos me conte o que aconteceu. Quem foi agora? Abraham ou
Sarafine? -- Liv colocou a mo no meu ombro para me firmar.
    -- Est tudo bem. No quero falar sobre isso.
    Link olhou para mim.
    -- Voc est bem, cara?
    Pisquei algumas vezes. Era como se eu estivesse debaixo d`gua,
observando-o atravs de ondulaes.
    -- Estou bem.
    Ridley estava parada a alguns metros, limpando as mos na saia.
    -- As famosas ltimas palavras.
    Liv pegou sua mochila e ficou olhando para o final do per quase sem fim.
Fui para o lado dela.
    --  aqui. -- Olhei para Liv. -- Posso sentir.
    Tremi. Foi quando reparei que ela tambm estava tremendo.
                                    20 de junho   
                        Mudana no mar

                                   
P
     arecia que estvamos andando havia sculos, como se a ponte  frente
     ficasse maior  medida que chegvamos mais perto do fim. Quanto mais
     caminhvamos, menos enxergvamos. O ar ficou mais iluminado e
pesado e mido, at que, de repente, meus ps chegaram  beira das tbuas
velhas -- e o que aparentava ser uma parede impenetrvel neblina.
     -- Essa  a Grande Barreira? -- Eu me agachei, encostando no ponto
onde a madeira terminava. Minha mo no sentiu nada. Nenhuma escadaria
Conjuradora invisvel. Nada.
     -- Espere, e se isso for como um campo de fora perigoso ou algum tip.
de fumaa venenosa? -- Link pegou a tesoura de jardinagem e a empurrou
devagar contra a neblina, depois a puxou de volta, perfeitamente intacta. --
Ou talvez no. Ainda assim, assustador. Como sabemos que conseguiremos
voltar depois que passarmos? -- Como sempre, Link s estava dizendo o que
o restante de ns pensava.
     Fiquei de p no fim da ponte, encarando o nada.
     -- Eu vou passar.
     Liv pareceu insultada.
     -- Voc mal consegue andar. Por que voc?
     --Porque essa coisa toda  minha culpa. Porque Lena era minha
namorada. Porque eu posso ser um Obstinado, seja l o que isso for.
     Olhei para o outro lado e me vi olhando para Lucille, as patas agarradas 
camiseta de Ridley. Lucille Ball no era f de gua.
     -- Ai! -- Ridley a colocou no cho. -- Gata burra.
     Lucille deu alguns passos hesitantes pela ponte, se virando para me olhar.
Inclinou a cabea.
     Com um balanar de rabo, saiu andando e sumiu.
     -- Porque sim. -- A verdade era que eu no conseguia explicar. Liv
balanou a cabea e, sem esperar por mais ningum, segui Lucille em direo
s nuvens.


Eu estava na Grande Barreira, entre universos, e por um segundo no me
senti Conjurador nem Mortal. Eu s sentia a magia.
     Eu podia sentir e ouvir e cheirar o ar denso com o som e o sal e a gua. A
costa no final da ponte estava me atraindo, e fui sobrecarregado pela
insuportvel sensao de desejo. Eu queria estar l com Lena. Mais do que
isso. Eu s queria estar l. Eu no parecia ter uma razo e nem uma lgica
para isso, alm da intensidade do desejo em si.
     Eu queria estar l mais do que qualquer coisa.
     No queria escolher um mundo. Queria ser parte de ambos. No queria
ver s um lado do cu. Queria ver todos.
     Hesitei. Ento dei um nico passo, sa da neblina e entrei no
desconhecido.
                                    20 de junho   
                              Fora da Luz

                                    

O     ar frio me atingiu, deixando meus braos arrepiados.
           Quando abri os olhos, a luminosidade e a neblina tinham
     desaparecido. Tudo o que eu podia ver era um borro de luz da lua
passando por um buraco em uma caverna irregular ao longe. A lua cheia
estava clara e iluminada.
     Eu me perguntei se estava olhando para a Dcima Stima Lua.
     Fechei os olhos e tentei sentir a adrenalina intensa que tinha sentido nos
momento anterior, quando estava entre os mundos.
     Estava ali, atrs de tudo. O sentimento. A eletricidade do ar, como se este
lado do mundo fosse cheio de uma vida que eu no podia ver, mas sentira ao
meu redor.
     -- Vamos. -- Ridley estava atrs de mim, puxando Link, cujos olhos
estavam bem fechados. Ridley soltou a mo dele. -- Pode abrir seus olhos
agora, macho.
     Liv apareceu atrs deles, sem flego.
     -- Isso foi fantstico. -- Ela parou ao meu lado, sem nem um fio louro
solto das tranas. Observou as ondas batendo nas pedras  nossa frente com
olhos brilhantes. -- Voc acha que ns...
     Respondi antes que ela tivesse a chance de terminar.
     -- Entramos na Grande Barreira.
    O que significava que Lena estava em algum lugar ali, assim como
Sarafine.
    E sabe l o que mais.

     Lucille estava sentada em uma pedra, casualmente lambendo a pata. Vi
um objeto ao lado dela, cado entre duas pedras.
     Era o cordo de Lena.
     -- Ela est aqui.
     Eu me inclinei para peg-lo, minha mo tremendo incontrolavelmente.
Eu nunca a tinha visto sem ele, nem uma vez. O boto prateado estava
brilhando na areia, o clipe de papel em forma de estrela presa no aro onde ela
havia amarrado a linha vermelha. Aquelas no eram apenas as lembranas dela.
Eram nossas lembranas, tudo o que compartilhamos desde que nos
conhecemos. As provas de todos os momentos felizes que ela teve na vida.
Jogadas como as conchas quebradas e algas que apareciam na praia.
     Se era algum tipo de sinal, no era bom.
     -- Encontrou alguma coisa, Palitinho?
     Abri minha mo relutantemente e a ergui para que eles vissem. Ridley
soltou uma exclamao. Liv no reconheceu o colar.
     -- O que ?
     Link olhou para o cho.
     --  o cordo de Lena.
     -- Talvez ela o tenha perdido -- disse Liv inocentemente.
     -- No! -- A voz de Ridley ficou mais alta. -- Lena nunca o tirou. Nem
uma vez na vida. Ela no pode t-lo perdido. Teria reparado no momento em
que caiu.
     Liv deu de ombros.
     -- Talvez tenha reparado. Talvez no se importasse.
     Ridley voou para cima de Liv, mas Link a segurou pela cintura.
     -- No diga isso! Voc no sabe de nada! Conte a ela, Palitinho!
     Mas at eu no sabia mais.
     Conforme fomos andando pela beira da gua, nos aproximamos de linha
rochosa de cavernas costeiras irregulares. A gua da mar formava piscinas na
areia e paredes de pedra mantinham tudo nas sombras. O caminho entre as
rochas parecia nos levar em direo a uma delas em particular. O oceano
movimentava-se ao nosso redor e eu sentia como se ele pudesse nos levar a
qualquer segundo.
      Havia poder de verdade ali. A pedra ressoava sob meus ps, e mesmo a
luz da lua parecia viva com esse poder.
      Pulei de uma pedra a outra at estar alto o bastante para ver alm
cavernas. Os outros subiram atrs de mim, tentando me acompanhar.
      -- L. -- Apontei para uma caverna grande, logo depois das que
cercavam. A lua brilhava diretamente acima dela, iluminando uma enorme
abertura irregular no teto.
      E outra coisa.
      Sob a luz da lua, consegui distinguir pessoas se mexendo nas sombras
gangue do Sangue de Hunting. No havia como confundir.
      Ningum disse nada. Isso no era mais um mistrio a ser resolvido.
Estava se tornando realidade rapidamente. Era uma caverna provavelmente
cheia de Conjuradores das Trevas, Incubus de Sangue e uma Cataclista.
      Ns s tnhamos uns aos outros e o Arco Voltaico.
      A percepo atingiu Link em cheio.
      -- Vamos encarar. Ns quatro estamos mortos. -- Ele olhou para
Lucille, que lambia as patas. --Com uma gata morta.
      Ele tinha razo. Pelo que podamos ver, s havia uma maneira de entrar e
sair. A entrada da caverna estava bem protegida e o que nos esperava l dentro
provavelmente era uma ameaa bem maior.
      -- Ele est certo, Ethan. Meu tio provavelmente est l com seus rapazes.
Sem meus poderes, no vamos conseguir sobreviver  gangue Sangue outra
vez. Somos Mortais imprestveis. A nica coisa que tnhamos a nosso favor
era aquela pedra brilhante idiota. -- Ridley chutou a areia molhada, to
desesperanosa como sempre.
      -- No imprestveis, Rid. -- Link suspirou. -- S Mortais. Voc vai se
acostumar.
      -- Atire em mim se isso acontecer.
      Liv olhou para o mar.
     -- Talvez aqui seja o mais longe que podemos ir. Mesmo se
consegussemos passar pela gangue do Sangue, encarar Sarafine seria... -- Liv
no terminou, mas todos sabamos o que ela estava pensando.
     Um desejo de morte. Insanidade. Suicdio.
     Olhei em direo ao vento,  escurido e  noite.
     Onde voc est, L?
     Eu podia ver a luz da lua entrando na caverna. Lena estava em algum
lugar por ali, esperando por mim. Ela no respondeu, mas isso no me
impediu de tentar chegar a ela.
     Estou indo.
     -- Talvez Liv esteja certa e devssemos pensar em voltar. Pedir ajuda. --
Reparei que a respirao de Link estava pesada. Ele tentava esconder, mas
ainda sentia dor.
     Eu precisava admitir o que estava fazendo para os meus amigos, as
pessoas que gostavam de mim.
     -- No podemos voltar. Quero dizer, eu no posso.
     A Dcima Stima Lua no ia esperar e Lena estava ficando sem tempo.
     O Arco Voltaico me levou at ali por algum motivo. Pensei no que
Marian disse no tmulo de minha me quando o entregou para mim.
     Na Luz h Trevas e nas Trevas h Luz.
     Era uma coisa que minha me costumava dizer. Tirei o Arco Voltaico do
bolso. Ele estava ficando verde brilhante, incrivelmente intenso. Alguma coisa
estava acontecendo. Enquanto eu o virava nas mos, lembrei de tudo. Estava
tudo ali, olhando para mim da superfcie da pedra.
     Desenhos de Ravenwood e da rvore genealgica de Macon, espalhados na mesa da
minha me, no arquivo.
     Olhei para o Arco Voltaico, vendo as coisas pela primeira vez. Imagens
surgiram na superfcie da minha mente e da pedra.
     Marian me entregando o bem mais precioso de minha me, de p entre os tmulos de
duas pessoas que finalmente encontraram um jeito de ficarem juntas.
     Talvez Ridley estivesse certa. Tudo o que tnhamos a nosso favor era esta
pedra brilhante idiota.
     Depois um anel, girando em um dedo.
     Mortais sozinhos no tinham como competir com o poder das Treva.
     Uma imagem da minha me, nas sombras.
     Ser que a resposta estava no meu bolso o tempo todo?
     E um par de olhos pretos que refletiam os meus.
     No estvamos sozinhos. Nunca estivemos. As vises tinham me
mostrado isso desde o comeo. As Imagens sumiam to rapidamente quanto
apareciam, substitudas por palavras no momento em que eu pensava nela.
     No Arco h poder e no poder h Noite.
     -- O Arco Voltaico... No  o que pensvamos. -- Minha voz ecoou nas
pedras ao nosso redor.
     Liv estava surpresa.
     -- Do que voc est falando?
     -- No  uma bssola. Nunca foi.
     Eu o ergui para que eles pudessem ver. Enquanto observvamos, o Arco
Voltaico brilhou, cada vez com mais intensidade, at que foi eclipsado por um
crculo perfeito de luz. Como uma pequena estrela. Eu no conseguia mais ver
a pedra sob a luz.
     --O que ele est fazendo? -- sussurrou Liv.
     O Arco Voltaico, que peguei de Marian com tanta inocncia no tmulo
da minha me, no era um objeto de poder, no para mim.
     Era para Macon.
     Ergui o Arco Voltaico mais alto. Na luz iridescente do interior da
caverna, a gua escura ao redor dos meus ps brilhou. Mesmo os menores
pontos de quartzo presos nas paredes de pedra absorveram a luz. Na
escurido, a esfera pareceu se incendiar. Eu podia ver o brilho da superfcie
redonda e perolizada revelando as cores rodopiantes de um interior escondido,
O violeta se fundiu em um verde sbrio, depois explodiu em amarelo vibrante
que escureceu at virar laranja e, ento, vermelho. Naquele segundo, eu
entendi.
     Eu no era Guardio, nem Conjurador, nem Vidente.
     Eu no era como Marian e minha me. No cabia a mim guardar a
histria e as lendas nem proteger os livros e os segredos que constituam tanto
do mundo Conjurador. Eu no era como Liv, registrando o que no est no
mapa, medindo o imensurvel. Eu no era Amma. No cabia a mim ver o que
ningum mais podia ver nem me comunicar com os Grandes. Mais do que
tudo, eu no era como Lena. Eu no podia eclipsar a lua, fazer o cu desabar
ou a terra tremer. Eu jamais poderia convencer algum a pular de uma ponte,
como Ridley. E eu no era como Macon.
     No fundo, eu procurava como me encaixar na histria, na minha histria
com Lena. Com esperana de que pudesse.
     Mas minha histria tinha encontrado seu caminho at mim passando por
todos eles. Agora, no fim do que parecia uma vida inteira na escurido e
confuso dos tneis, eu sabia o que fazer. Conhecia o meu papel.
     Marian estava certa. Eu era o Obstinado. Era meu trabalho encontrar o
que estava perdido.
     Quem estava perdido.
     Rolei o Arco Voltaico at a ponta dos dedos e o soltei. A pedra ficou
mirando no ar.
     -- Mas que... -- Link cambaleou para mais perto.
     Peguei a folha amarela dobrada que estava no meu bolso. A que eu tinha
arrancado do dirio da minha me e carregado esse tempo todo sem motivo
algum Pelo menos era o que eu pensava.
     O Arco Voltaico emitia uma luz prateada pela caverna enquanto pairava
ar. Fui para mais perto dele e ergui a folha para dizer o Conjuro que estava
escrito na pgina do dirio da minha me, embora estivesse em latim.
Pronunciei as palavras com cuidado.

    In Luce Caecae Caligines sunt,
    Et in Caliginibus, Lux.
    In Arcu imperium est
    Et in imperio, Nox.
    --  claro -- murmurou Liv, chegando mais perto da luz. -- O Conjuro.
Ob Lucem Libertas. Liberdade na Luz. -- Liv olhou para mim. -- Termine.
    Virei o papel. No havia nada do outro lado.
    -- S tem isso.
    Liv arregalou os olhos.
     -- Voc no pode deixar pela metade.  incrivelmente perigoso. O poder
do Arco Voltaico, sem contar que  um Arco Voltaico de Ravenwood poderia
nos matar. Poderia matar...
     -- Voc tem que fazer.
     -- No posso, Ethan. Voc sabe que no posso.
     -- Liv. Lena vai morrer. Voc, eu, Link, Ridley, vamos todos
morrer.Viemos o mais longe que Mortais podem vir. No podemos fazer o
restante sozinhos. -- Coloquei minha mo no ombro dela.
     -- Ethan. -- Ela sussurrou meu nome, s meu nome, mas ouvi as
palavras que ela no podia dizer quase com tanta clareza quanto ouvia a voz
de Lena quando usvamos o Kelt.
     Liv e eu tnhamos uma ligao prpria, s nossa. No era magia. Era
coisa muito humana, muito real. Liv podia no gostar do que tinha se velado
entre ns, mas compreendia. Ela me entendia, e urna parte de acreditava que
sempre entenderia. Desejei que as coisas pudessem ser diferentes, que Liv
pudesse ter tudo o que queria ao final disso tudo. As coisas que no tinham
nada a ver com estrelas perdidas e cus Conjuradores. Liv no estava onde
minha estrada me levava. Ela era parte do caminho e em si.
     Ela olhou para o ponto atrs de mim, para o Arco Voltaico, ainda
brilhando em frente a ns. A silhueta dela estava contornada de uma luz
intensa que parecia que ela estava parada na frente do sol. Estendeu a para o
Arco Voltaico, e me lembrei do meu sonho, aquele em que Lena esticava o
brao para mim na escurido.
     Duas garotas que eram to diferentes quanto o Sol e a Lua. Sem uma, eu
nunca poderia ter encontrado o caminho de volta para a outra.
     Na Luz h Trevas e nas Trevas h Luz.
     Liv tocou no Arco Voltaico com um dedo s e comeou a falar.
     In Illio qui Vinctus est.
     Libertas Patefacietur.
     Spirate denuo, Caligines.
     E Luce exi.
      Ela estava chorando, observando a bola de luz enquanto as lgrimas
desciam pelas laterais de seu rosto. Ela se forou a dizer cada palavra, como se
estivessem sendo entalhadas nela, mas no parou.
      -- Naquele que est Enfeitiado
      A liberdade ser Encontrada.
      Viva de novo, Escurido,
      Saia da Luz.
      A voz de Liv falhou. Ela fechou os olhos e falou lentamente as palavras
finais para a noite entre ns.
      -- Saia. Saia...
      As palavras sumiram. Ela estendeu a mo na minha direo e eu a peguei.
Link mancou at ns e Ridley agarrou o brao dele do outro lado. O corpo
inteiro de Liv estava tremendo. Com cada palavra, ela se afastava cada vez
mais de seu dever sagrado e de seu sonho. Ela tinha escolhido um lado. Tinha
se Conjurado na histria que devia apenas Guardar. Quando isso terminasse,
se sobrevivssemos, Liv no seria mais uma Guardi em treinamento. Ela
sacrificava seu dom, a nica coisa que dava sentido  sua vida.
      Eu no conseguia imaginar como seria isso.
      Nos tornamos quatro vozes. No havia retorno.
      -- E Luce exi! Saia da Luz!
      O estrondo foi to cataclsmico que a pedra debaixo dos meus ps voou
at a parede atrs de mim. Ns quatro fomos lanados ao cho. Eu podia
sentir o gosto de areia molhada e gua salgada na boca, mas sabia. Minha me
tinha tentado me contar, mas eu no tinha conseguido ouvir.
      Na caverna, emoldurado por pedra e musgo e mar e areia, havia um ser
feito de nada mais do que uma mistura de sombra e luz. A princpio, eu s
conseguia ver as pedras atrs, como se fosse uma apario. A gua passou por
ele, que no encostava no cho.
      Ento a luz se esticou e se transformou em um contorno, o contorno em
uma forma; a forma em um homem. Suas mos se tornaram mos, seu corpo
se tornou um corpo e seu rosto se tornou um rosto.
      O rosto de Macon.
      Ouvi as palavras de minha me. Ele est com voc agora.
   Macon abriu os olhos e me olhou. S voc pode redimi-lo.
   Ele estava usando as roupas queimadas da noite em que morreu. Mas
uma coisa era diferente.
   Seus olhos estavam verdes.
   Verdes de Conjuradores.
   --  bom ver voc, Sr. Wate.
                                  20 de junho   
                         Carne e sangue

                                 

--M
                  acon!
                       Quase lancei meus braos ao redor dele. Macon, por
                  Outro lado, olhou para mim calmamente, tirando um pouco
da fuligem do palet. Os olhos dele eram perturbadores. Eu estava
acostumado aos olhos pretos vidrados de Macon Ravenwood, o Incubus;
olhos que observavam voc com nada alm de seu prprio reflexo. Agora ele
estava de p  minha frente, com os olhos verdes de qualquer Conjurador da
Luz. Ridley ficou olhando, mas no emitiu som algum. No era comum ver
Ridley sem palavras.
     -- Muito agradecido, Sr. Wate. Muito agradecido. -- Macon mexeu o
pescoo para um lado e para o outro e esticou e dobrou os braos, como se
estivesse acordando de uma longa soneca.
     Eu me inclinei e peguei o Arco Voltaico, que estava no cho arenoso.
     -- Eu estava certo. Voc estava no Arco Voltaico o tempo todo. --
Pensei em quantas vezes eu o tinha segurado na mo e contado com ele para
me guiar. Em como o calor da pedra tinha me parecido familiar.
     Link tambm estava tendo dificuldade em entender que Macon estava
vivo. Sem pensar, estendeu a mo para toc-lo. A mo de Macon se ergueu
subitamente e segurou o brao de Link, que fez uma careta.
     -- Desculpe, Sr. Lincoln. Acho que meus reflexos esto um tanto...
reflexivos. No tenho sado muito ultimamente.
     Link esfregou o brao.
     -- O senhor no precisava ter feito isso, Sr. Ravenwood. Eu s quria...
Sabe, pensei que o senhor era...
     -- O qu? Um Espectro? Um Tormento, talvez?
     Link tremeu.
     -- Isso mesmo, senhor.
     Macon esticou o brao.
     -- V em frente ento. Fique  vontade.
     Link estendeu a mo, hesitante, como se fosse coloc-la sobre uma em
um desafio de aniversrio. Seu dedo chegou a um milmetro do palet rasgado
de Macon e parou.
     Macon suspirou, revirando os olhos, e colocou a mo de Link sobre seu
peito.
     -- Est vendo? Carne e osso. Uma coisa que temos em comum agora, Sr.
Lincoln.
     -- Tio Macon? -- Ridley caminhou lentamente at ele, finalmente pronta
para encar-lo. --  mesmo o senhor?
     Ele encarou os olhos azuis dela.
     -- Voc perdeu seus poderes.
     Ela assentiu, os olhos brilhando pelas lgrimas.
     -- O senhor tambm.
     -- Alguns deles, sim, mas suspeito que ganhei outros. -- Ele estendeu a
mo em direo  de Ridley, mas ela se afastou. --  impossvel saber. Ainda
estou no meio do processo. -- Ele sorriu. --  meio como ser adolescente.
Duas vezes.
     -- Mas seus olhos esto verdes.
     Macon balanou a cabea, flexionando as mos.
     -- Verdade. Minha vida como Incubus acabou, mas a Transio no est
completa. Embora meus olhos sejam os de um Conjurador da Luz, ainda
posso sentir as Trevas dentro de mim. Elas ainda no foram exorcizadas.
     -- Eu no estou em Transio. No sou nada, sou Mortal. -- Ela disse a
palavra como se fosse uma maldio, e a tristeza na sua voz era real. -- No
tenho mais lugar na Ordem das Coisas.
     -- Voc est viva.
     -- No me sinto como eu mesma. No tenho poder.
     Macon pesou isso em sua mente, como se tentasse determinar o estado
presente dela tanto quanto o prprio.
     -- Voc pode estar no meio de uma Transio tambm, a no ser que
esse seja um dos truques mais impressionantes de minha irm.
     Os olhos de Ridley se iluminaram.
     -- Isso significa que meus poderes podem voltar?
     Macon observou os olhos azuis.
     -- Acho que Sarafine  cruel demais para isso. S quis dizer que talvez
voc ainda no seja completamente Mortal. As Trevas no saem de ns to
facilmente quanto gostaramos. -- Macon a puxou desajeitadamente contra o
peito, e ela enfiou o rosto no palet dele como uma menina de 12 anos. --
No  fcil ser da Luz depois que se foi das Trevas.  quase muito para se
pedir a algum.
     Tentei aquietar a torrente de perguntas que invadiam minha mente e
decidi me ater  primeira.
     -- Como?
     Macon se afastou de Ridley, os olhos verdes parecendo me queimar com
uma nova luz.
     -- Voc poderia ser mais especfico, Sr. Wate? Como no estou
descansando em 27 mil fragmentos de cinzas em uma urna no cofre da famlia
Ravenwood? Como no estou apodrecendo debaixo de um limoeiro no
prestigiado solo mido do Jardim da Paz Perptua? Como foi que me vi preso
em uma pequena bola cristalina em seu bolso sujo?
     -- Dois -- falei sem pensar.
     -- No entendi.
     -- Tem dois limoeiros sobre seu tmulo.
     -- Quanta generosidade. Um teria sido suficiente. -- Macon sorriu com
cansao, o que era espantoso, considerando que ele tinha passado quatro
meses em uma priso sobrenatural do tamanho de um ovo. -- Ou ser que
voc est se perguntando como foi que eu morri e voc viveu? Porque eu
preciso dizer, no que diz respeito a horas, essa  uma histria sobre a qual seus
vizinhos da Cotton Bend falariam pela vida inteira.
     -- S que no foi isso, senhor. Quero dizer, o senhor no morreu.
     -- Voc est correto, Sr. Wate. Estou e sempre estive muito vivo. E uma
maneira de falar.
     Liv deu um passo  frente, hesitante. Embora ela provavelmente jamais se
tornasse Guardi agora, ainda havia uma dentro dela procurando respostas.
     -- Sr. Ravenwood, posso fazer uma pergunta?
     Macon inclinou a cabea ligeiramente.
     -- E quem seria voc, minha querida? Imagino que foi sua voz que ouvi
me chamando de dentro do Arco Voltaico.
     Liv corou.
     -- Foi, senhor. Meu nome  Olivia Durand e eu estava em treinamento
com a professora Ashcroft. Antes... -- A voz dela sumiu.
     -- Antes de voc Conjurar o Ob Lucem Libertas?
     Liv assentiu, envergonhada. Macon pareceu triste, depois sorriu para ela.
     -- Ento voc abriu mo de algo grandioso para me salvar, Srta. Olivia
Durand. Tenho um dbito com voc e, como sempre pago minhas dvidas,
ficaria honrado em responder uma pergunta. No mnimo. -- Mesmo depois
de ficar preso por tantos meses, Macon ainda era um cavalheiro.
     -- Obviamente, sei como o senhor saiu do Arco Voltaico. Mas como
entrou?  impossvel um Incubus aprisionar a si mesmo, principalmente
considerando que, para todos os efeitos, o senhor estava morto. -- Liv estava
certa. Ele no podia ter feito isso sozinho. Algum precisava t-lo ajudado e,
no minuto em que a esfera o libertou, eu soube quem tinha sido.
     Era a nica pessoa que ns dois amvamos tanto quanto a Lena, mesmo
na morte.
     Minha me, que tinha amado livros e coisas antigas, no conformismo e
histria e complexidade. Que tinha amado tanto Macon a ponto de se afastar
quando ele pediu, embora no suportasse viver sem ele. Embora parte dela
jamais tivesse se afastado.
     -- Foi ela, no foi?
     Macon assentiu,
     -- Sua me era a nica que sabia do Arco Voltaico. Eu o dei a ela.
Qualquer Incubus a teria matado para destru-lo. Era nosso segredo, um dos
ltimos.
     -- O senhor a viu? -- Olhei para o mar, piscando com fora.
     A expresso de Macon mudou. Eu pude ver a dor em seu rosto.
     --Vi.
     -- Ela pareceu... -- O qu? Feliz? Morta? Ela mesma?
     -- Bonita como sempre, sua me. Bonita como no dia em que nos
deixou.
     -- Eu tambm a vi. -- Pensei no cemitrio Bonaventure e senti o n
familiar na garganta.
     -- Mas como isso  possvel? -- Liv no estava tentando desafi-lo, mas
no entendia. Nenhum de ns entendia.
     O rosto de Macon estava cheio de dor. No era fcil para ele falar de
minha me, assim como no era para mim.
     -- Acho que vocs vo descobrir que o impossvel  possvel com mais
frequncia do que imaginamos, principalmente no mundo Conjurador. Mas
caso queiram fazer uma ltima viagem comigo, posso mostrar. -- Ele abriu a
mo para mim, oferecendo a outra para Liv. Ridley deu um passo  frente e
fechou sua mo ao redor da minha, e Link mancou com hesitao para mais
perto, completando o crculo.
     Macon olhou para mim e, antes que eu pudesse entender sua expresso, o
ar se encheu de fumaa...

      Macon tentou aguentar, mas estava desmaiando. Ele podia ver o cu de bano sobre
sua cabea, tingido de chamas alaranjadas. No conseguia ver Hunting enquanto ele se
alimentava, mas conseguia sentir os dentes do irmo em seu ombro. Quando Hunting ficou
satisfeito, deixou o corpo de Macon cair no cho.
      Quando Macon abriu os olhos de novo, a av de Lena, Emmaline, estava ajoelhada
sobre ele. Macon podia sentir o calor do poder de cura dela percorrer seu corpo. Ethan
tambm estava l. Macon tentou falar, mas no sabia se podiam ouvi-lo. Encontrem Lena,
era o que queria dizer. Ethan devia t-lo ouvido, porque saiu em direo  fumaa e ao fogo.
      O garoto era to parecido com Amarie, to teimoso e destemido. Era muito parecido
com a me, leal e honesto, e prestes a encarar o sofrimento que era amar uma Conjuradora.
Macon ainda pensava em Jane quando sua mente se apagou.

      Quando Macon abriu os olhos de novo, o fogo tinha sumido. A fumaa, o rudo das
chamas e da munio, tudo tinha sumido. Ele se sentiu resvalando para a escurido. No
era como Viajar. Aquele vcuo tinha peso. Ele o estava puxando. Mas, quando estendeu a
mo, viu que ela estava turva, s parcialmente materializada.
      Ele estava morto.
      Lena devia ter feito a escolha. Ela havia escolhido ir para a Luz.
      Mesmo na escurido, sabendo qual era o destino de um Incubus no Outro Mundo,
uma sensao de calma o dominou. Estava acabado.
      -- Ainda no. No para voc.
      Macon se virou, reconhecendo a voz dela imediatamente. Lila Jane.
      Estava luminosa no abismo, cintilante e bela.
      -- Janie. Tem tanta coisa que preciso te contar.
      Jane balanou a cabea, o cabelo castanho caindo sobre os ombros.
      -- No h tempo.
      -- No h nada alm de tempo.
      Jane estendeu a mo e seus dedos cintilaram.
      -- Pegue minha mo.
      Assim que Macon tocou nela, a escurido comeou a sangrar em cores e luz. Ele podia
ver imagens, formas familiares danando ao seu redor, mas no conseguia identific-las.
Ento se deu conta de onde estavam. No arquivo, o lugar especial de Jane.

    -- Jane, o que est acontecendo? -- Ele a viu esticar a mo, mas tudo estava
embaado e indistinto. Ento ele ouviu as palavras, as que tinha ensinado a ela.
    -- Nestas paredes sem tempo e espao, eu enfeitio seu corpo e o apago desta Terra.
    Havia uma coisa na mo dela. O Arco Voltaico.
    -- Jane, no faa isso! Quero ficar aqui com voc.
    Ela flutuava na frente dele, j comeando a sumir.
     -- Eu prometi que, se chegasse a hora, eu o usaria. Estou cumprindo minha
promessa. Voc no pode morrer. Eles precisam de voc. -- Ela havia sumido agora, era
uma voz, nada mais. -- Meu filho precisa de voc.
     Macon tentou dizer para ela tudo o que no conseguiu em vida, mas era tarde demais.
J podia sentir a fora do Arco Voltaico, impossvel de romper. Enquanto caa no abismo,
ouviu-a selar seu destino.

     -- Comprehende, Liga, Cruci Fige.
     Capturar, Aprisionar e Crucflcar.

      Macon soltou minha mo e a viso nos libertou. Eu a mantive na mente,
incapaz de me desligar. Minha me o tinha salvado, usando a arma que Macon
tinha lhe dado para que usasse contra ele. Ela havia desistido da chance de eles
finalmente ficarem juntos por minha causa. Ser que sabia que ele era nossa
nica chance?
      Quando abri os olhos, Liv estava chorando e Ridley tentava fingir que
no.
      -- Ah, por favor. Chega de drama. -- Uma lgrima escorreu pela boca
dela.
      Liv limpou os olhos, fungando.
      -- Eu no fazia ideia de que um Espectro era capaz de algo assim.
      -- Voc ficaria surpresa com o que somos capazes de fazer quando a
situao exige. -- Macon colocou a mo sobre meu ombro. -- No e verdade,
Sr. Wate?
      Eu sabia que ele estava tentando me agradecer. Mas, quando olhei ao
redor, para nosso crculo rompido, senti que no merecia agradecimento.
Ridley tinha perdido seus poderes, Link fazia caretas de dor e Liv acabara de
destruir seu futuro.
      -- No fiz nada.
      A mo de Macon apertou meu ombro, me forando a encar-lo.
      -- Voc se fez ver o que a maioria teria ignorado. Voc me trouxe aqui
me trouxe de volta. Aceitou seu destino como Obstinado e encontrou o
caminho. Nada disso pode ter sido fcil. -- Ele olhou ao redor pela caverna
para Ridley, Link e Liv. Seus olhos se demoraram um pouco mais em Liv
depois se fixaram nos meus. -- Para ningum.
     Incluindo Lena.
     Eu quase no suportava contar a ele, mas no tinha certeza se ele sabia.
     -- Lena acha que o matou.
     Macon no disse nada por um segundo, mas quando falou, sua voz tava
estvel e controlada.
     -- Por que ela pensaria isso?
     -- Sarafine me esfaqueou naquela noite, mas o senhor morreu. Amma me
contou. Mas Lena no consegue se perdoar, e isso... a modificou. -- no
estava fazendo sentido, mas havia tanta coisa que Macon precisava saber. --
Acho que ela pode ter feito uma escolha no fundo do corao se dar conta.
     -- Ela no fez isso. Macon me soltou.
     -- Foi O Livro das Luas, Sr. Ravenwood. -- Liv no conseguiu se
controlar. -- Lena estava desesperada para salvar Ethan e usou o Livro. Ele
uma troca, a vida de Ethan pela sua. Lena no tinha como saber que ia
acontecer. O Livro no pode ser controlado, e  por isso que no deve ser
guardado por mos Conjuradoras. -- Liv parecia ainda mais com bibliotecria
Conjuradora do que o habitual.
     Macon inclinou a cabea ligeiramente.
     -- Entendo. Olivia?
     -- Sim, senhor?
     -- Com todo respeito, no temos tempo para uma Guardi. Este dia
exigir certas aes que  melhor no serem registradas. No mnimo, contadas.
Voc entende?
     Liv assentiu. Sua expresso dizia que ela entendia mais do que ele
imaginava.
     -- Ela no  mais Guardi. -- Liv tinha salvado a vida dele e destrudo
sua prpria no processo. Ela merecia o respeito de Macon, no mnimo.
     -- Provavelmente no, depois disso. -- Ela suspirou.
     Ouvi as ondas batendo, desejando que pudessem carregar meus
pensamentos para o mar.
     -- Tudo mudou.
     Os olhos de Macon se dirigiram rapidamente para Liv, depois voltaram
     -- Nada mudou. Nada de importante. Pode mudar, mas ainda no
aconteceu.
     Link limpou a garganta.
     -- Mas o que podemos fazer? Quero dizer, olhe para ns. -- Link fez na
pausa. -- Eles tm um exrcito de Incubus e quem sabe mais o que l
embaixo.
     Macon nos avaliou.
     -- O que temos? Uma Sirena sem poderes, uma Guardi renegada, um
perdido e... voc, Sr. Lincoln. Um grupo verstil mas til, sem duvida. --
Lucille miou. -- E sim, voc, Srta. Ball.
     Eu me dei conta do desastre que ramos, maltratados, sujos e exaustos.
     -- Ainda assim, de alguma forma, vocs chegaram at aqui. E me
libertaram do Arco Voltaico, o que no  pouca coisa.
     -- Est dizendo que acha que podemos encar-los? -- Link tinha a
mesma expresso de quando Earl Petty puxou briga com o time de futebol
americano inteiro da Summerville High.
     -- Estou dizendo que no temos tempo para ficar aqui conversando, por
mais que eu aprecie a tima companhia de vocs. Tenho mais do que algumas
coisas para resolver, sendo minha sobrinha a primeira e mais importante. --
Macon se virou para mim. -- Obstinado, mostre-nos o caminho.
     Macon deu um passo em direo  entrada da caverna e suas pernas
falharam. Uma nuvem de poeira subiu quando ele caiu. Olhei para ele, sentado
no cho com o palet queimado. Ele no tinha se recuperado do que tinha
acontecido no Arco Voltaico, fosse o que fosse. Eu no tinha convocado os
Fuzileiros. Precisvamos de um piano B.
                                    20 de junho   
                           Exrcito de um

                                    

M
       acon foi insistente. Ele no tinha condio de ir a lugar algum, mas
       sabia que no tnhamos muito tempo e estava determinado a ir
       conosco. Eu no discuti, porque mesmo um Macon Ravenwood
enfraquecido era mais til do que quatro Mortais sem poderes. Eu esperava.
    Eu sabia aonde tnhamos que ir. A luz da lua ainda entrava pelo teto da
caverna ao longe. Enquanto Liv e eu ajudamos Macon a percorrer a margem
da praia que levava  caverna iluminada, um passo lento de cada vez, ele
terminou de me fazer as suas perguntas e eu comecei a fazer as minhas.
    -- Por que Sarafine convocaria a Dcima Stima Lua agora?
    -- Quanto mais cedo Lena for Invocada, mais cedo os Conjuradores das
Trevas tero garantido seu futuro. Lena est ficando mais forte a cada dia. Eles
sabem que, quanto mais tempo esperarem, mais provvel que ela decida
sozinha. Se souberem das circunstncias acerca da minha morte, imagino que
vo querer tirar vantagem do estado vulnervel de Lena.
    Eu me lembrei de quando Hunting me contou que Lena tinha matado
Macon.
    -- Eles sabem.
    --  de suma importncia que vocs me contem tudo.
    Ridley passou a andar ao lado de Macon.
    -- Desde o aniversrio de Lena, Sarafine vem invocando o poder h` Fogo
Negro para se tornar poderosa o suficiente para erguer a Dcima Stima Lua.
     -- Voc est falando daquela fogueira maluca que ela provocou na resta?
-- Pelo modo como Link falou, eu tinha certeza de que ele imaginava uma
lata de lixo pegando fogo s margens do lago  noite.
     Ridley balanou a cabea.
     -- Aquilo no era Fogo Negro. Era uma manifestao, como Sarafine.
Ela criou aquilo.
     Liv assentiu.
     -- Ridley est certa. O Fogo Negro  a fonte de todo poder mgico. Se os
Conjuradores direcionarem a energia coletiva para sua fonte, ele se tornou
exponencialmente mais poderoso. Uma espcie de bomba atmica sobre--
natural.
     -- Voc est dizendo que vai explodir? -- Link no parecia mais to
seguro quanto a ir atrs de Sarafine.
     Ridley revirou os olhos.
     -- No vai explodir, gnio. Mas o Fogo Negro pode causar srios danos.
     Olhei para a lua cheia e o feixe de luz que criava um caminho direto para
o interior da caverna. A lua no estava alimentando o fogo. O poder do Fogo
Negro estava sendo canalizado para a lua. Foi assim que Sarafine convocou a
lua fora de poca.
     Macon observava Ridley com cuidado.
     --Por que Lena concordaria em vir para c?
     --Eu a convenci, eu e um cara chamado John.
     -- Quem  John e como ele se encaixa nisso tudo?
     Ridley estava roendo as unhas roxas.
     -- Ele  um Incubus. Quero dizer,  um hbrido, pelo menos. Parte
Incubus e parte Conjurador, e  muito poderoso. Ele estava obcecado pela
Grande Barreira e por como tudo seria perfeito se vissemos para c.
     -- Esse garoto sabia que Sarafine estaria aqui?
     -- No. Ele realmente acredita. Acha que a Grande Barreira vai resolver
todos os seus problemas, como se fosse uma espcie de utopia Conjuradora.
-- Ela revirou os olhos.
     Eu podia ver a raiva nos olhos de Macon. O verde refletia suas emoes
de um modo que o preto nunca tinha conseguido.
     -- Como foi que voc e um garoto que nem  um Incubus de sangue
puro conseguiram convencer Lena de uma coisa to absurda?
     Ridley olhou para o outro lado.
     -- No foi difcil. Lena estava sofrendo. Acho que pensava que no havia
outro lugar para onde pudesse ir. -- Era difcil olhar para a Ridley de olhos
azuis sem tentar imaginar como se sentia em relao  Conjuradora das Trevas
que era apenas alguns dias antes.
     -- Mesmo que Lena sentisse que era responsvel pela minha morte, por
que acharia que o lugar dela  com vocs, uma Conjuradora das Trevas e um
Demnio? -- Macon no falou com dio, mas deu para perceber que as
palavras magoaram Ridley.
     -- Lena se odeia e acha que est indo para as Trevas. -- Ridley olhou
para mim. -- Ela queria ir para um lugar onde no machucaria ningum.
     John prometeu que ficaria ao lado dela quando ningum mais fez isso.
     -- Eu ficaria ao lado dela. -- Minha voz ecoou nas paredes de pedra ao
nosso redor.
     Ridley olhou diretamente para mim.
     -- Mesmo se ela fosse para as Trevas?
     Tudo fazia sentido. Lena estava tomada pela culpa e atormentada, e John
estava l com todas as respostas, de um modo que eu no poderia.
     Pensei em quanto tempo ele e Lena teriam ficado sozinhos, em quantas
noites, em quantos tneis escuros. John no era Mortal. A intensidade do
toque dela no o mataria. John e Lena podiam fazer qualquer coisa que
quisessem -- todas as que Lena e eu jamais poderamos. Uma imagem surgiu
na minha mente, os dois aconchegados um ao outro, na escurido. Do modo
como Liv e eu ficamos em Savannah.
     -- Tem outra coisa. -- Eu tinha que contar a ele. -- Sarafine no fez isso
sozinha. Abraham vem ajudando-a.
     Algo passou pelo rosto de Macon, mas no consegui identificar o qu.
     -- Abraham. Isso no me surpreende.
     -- As vises mudaram tambm. Quando eu estava nelas, parecia que
Abraham podia me ver.
     Macon perdeu o equilbrio, quase me derrubando.
     -- Tem certeza?
     Assenti.
     -- Ele disse meu nome.
     Macon olhou para mim do mesmo jeito que tinha olhado na noite do
baile de inverno, o primeiro baile de Lena. Como se tivesse pena de mim,
pelas coisas que eu tinha que fazer, pelas responsabilidades que foram
atribudas a mim. Ele nunca entendeu que eu no me importava.
     Macon continuou falando e tentei me concentrar.
     -- Eu no tinha ideia de que as coisas haviam progredido to
rapidamente. Voc precisa ser muito cauteloso, Ethan. Se Abraham
estabeleceu uma conexo com voc, ento ele pode v-lo to claramente
quanto voc o v.
     -- Voc quer dizer fora das vises? -- A ideia de Abraham observando
todos os meus movimentos no era um pensamento agradvel.
     -- No momento, no tenho uma resposta. Mas at que eu tenha, tome
cuidado.
     -- Pode deixar. Depois que lutarmos contra um exrcito de Incubus para
resgatar Lena. -- Quanto mais falvamos no assunto, mais impossvel parecia.
     Macon se virou para encarar Ridley.
     -- Esse garoto John est envolvido com Abraham?
     -- No sei. Foi Abraham quem convenceu Sarafine de que ela podia
erguer a Dcima Stima Lua. -- Ridley parecia infeliz, exausta e imunda
     -- Ridley, preciso que me conte tudo o que sabe.
     -- Eu no estava no topo da cadeia alimentar, tio Macon. Nunca me
encontrei com ele. Tudo o que sei veio de Sarafine. -- Era difcil acreditar que
aquela Ridley era a mesma garota que quase convencera meu pai a pular de
uma sacada. Ela parecia to triste e dilacerada.
     -- Senhor? -- A voz de Liv estava hesitante. -- Tem uma coisa me
incomodando desde que conhecemos John Breed. Temos milhares de rvores
genealgicas de Conjuradores e de Incubus na Lunae Libri, centenas de anos
de histria. Como  que essa pessoa vem do nada e no h registro algum
sobre ele? Sobre John Breed?
     -- Eu estava me perguntando a mesma coisa. -- Macon recomeou a
andar, inclinado para um dos lados. -- Mas ele no  um Incubus.
     -- No no sentido exato.
     -- Ele  to forte quanto um. -- Chutei as pedras sob os meus ps.
     -- No importa. Eu poderia encar-lo. -- Link deu de ombros.
     Ridley acompanhou nosso passo.
     -- Ele no se alimenta, tio M. Eu teria visto.
     -- Interessante.
     Liv assentiu.
     -- Muito.
     -- Olivia, se voc no se importa... -- Ele esticou o brao para ela. -- J
houve casos de hbridos no seu lado do Atlntico?
     Liv posicionou o ombro sob o brao de Macon, tomando meu lugar.
     -- Hbridos? Espero que no...
     Liv seguiu pelas pedras com Macon e eu fiquei para trs. Tirei o cordo
de Lena do meu bolso. Deixei os pingentes rolarem na palma da minha mo,
mas eles estavam embolados e no faziam sentido sem ela. O cordo era mais
pesado do que eu imaginava, ou talvez fosse o peso da minha conscincia.
     Paramos sobre um penhasco acima da entrada da caverna, avaliando a
cena. A caverna era enorme, formada completamente de pedra vulcnica
preta. A lua estava to baixa que parecia poder cair do cu. Um grupo de
Incubus montava guarda na porta da caverna enquanto as ondas batiam nas
pedras pretas  frente deles, enviando finos lenis de gua at as botas.
     A luz da lua no era a nica coisa atrada para a caverna. Havia uma
multido de Tormentos, sombras pretas que se contorciam, flutuavam para
fora da gua e desciam do cu. Estavam circulando pela entrada da caverna e
pela abertura do teto, formando uma espcie de turbina hidrulica
sobrenatural. Observei um Tormento se erguer da gua, uma sombra
rodopiante perfeitamente refletida no mar abaixo.
     Macon apontou para as silhuetas fantasmagricas.
     -- Sarafine os est usando para alimentar o Fogo Negro.
     Um exrcito. Que chance ns tnhamos? Era pior do que eu imaginava, e
a possibilidade de salvar Lena parecia menos vivel. Pelo menos tnhamos
Macon.
     -- O que vamos fazer?
     -- Vou tentar ajudar vocs a entrar, mas de l tero que encontrar Lena
Voc  o Obstinado, afinal, -- Nos ajudar a entrar? Ele estava brincando?
     -- O senhor est falando de uma forma que parece que no vai conosco.
     Macon deslizou pela pedra at ficar sentado com as pernas penduradas.
     -- Essa concluso  correta.
     No tentei esconder minha raiva.
     -- Est brincando? O senhor mesmo disse. Acha que vamos salvar Lena
sem o senhor? Uma Sirena que perdeu os poderes, um Mortal que nunca teve
um, uma bibliotecria e eu? Contra uma gangue de Incubus de Sangue e
Tormentos suficientes para derrubar a Fora Area? Est falando srio? Diga
que tem algum tipo de plano.
     Macon olhou para a lua.
     -- Vou ajudar vocs, mas ser daqui. Confie em mim, Sr. Wate.  desse
modo que precisa ser.
     Fiquei ali parado, olhando para ele. Ele estava falando srio. Ia nos
mandar para dentro sozinhos.
     -- Se isso deveria parecer reconfortante, no foi.
     -- S tem uma batalha nos aguardando l embaixo, e ela no pertence a
mim ou a seus amigos.  sua, filho. Voc  um Obstinado, um Mortal com
um grande propsito. Tem lutado desde que o conheo: contra as senhoras
egostas do FRA, contra o Comit Disciplinar, a Dcima Sexta Lua, at
mesmo contra seus amigos. No tenho dvida de que encontrar um caminho.
     Eu vinha lutando o ano todo, mas isso no fez eu me sentir melhor. A
Sra. Lincoln podia aparentar que sugaria a vida de dentro de voc, mas ela no
podia realmente fazer isso. O que nos esperava l embaixo era uma histria
diferente.
     Macon tirou uma coisa do bolso e a colocou na minha mo.
     -- Aqui. Isto  tudo o que tenho, e como minha viagem recente foi um
tanto inesperada, no tive tempo de fazer as malas. -- Olhei para o pequeno
quadrado de ouro. Era um livro em miniatura, fechado por um boto. Eu o
apertei e ele se abriu. Dentro, havia uma foto da minha me, a garota das
vises. A Lua Jane dele.
     Ele olhou para o outro lado.
     -- Por acaso estava no meu bolso, depois de tanto tempo. Imagine s. --
Mas o pingente estava gasto e arranhado, e eu sabia sem dvida que estava no
bolso dele hoje porque ficava l todo dia, desde sabe-se l quantos anos atrs.
-- Acredito que voc vai descobrir que  um objeto de poder para voc,
Ethan. Sempre foi para mim. No vamos esquecer que Lila Jane era uma
mulher forte. Ela salvou minha vida, mesmo do tmulo.
     Reconheci o olhar da minha me na foto. Um que eu pensei que ela s
mostrasse a mim. Era o olhar que ela me deu na primeira vez em que li placas
de trnsito em voz alta pela janela do carro, antes de ela se dar conta de que eu
sabia ler. Era o olhar que ela me deu quando comi uma torta de creme feita
pela Amma sozinho e dormi na cama dela com uma dor de estmago to forte
quanto a prpria Amma. Era o olhar que ela guardou para meu primeiro dia
de aula, meu primeiro jogo de basquete, minha primeira paixozinha.
     E aqui estava ele de novo, saindo de um pequeno livro. Ela no ia me
abandonar. E Macon tambm no. Talvez ele tivesse alguma espcie de plano.
Ele tinha enganado a morte. Coloquei o livro no meu bolso, ao lado do
cordo de Lena.
     -- Espere um segundo. -- Link andou at mim. -- Estou feliz por voc
ter esse livrinho dourado e tudo mais, mas voc disse que a gangue do Sangue
toda ia estar l, junto com o Garoto Vampiro, e a me de Lena, e o imperador,
ou seja l quem esse Abraham a seja. E, na ltima vez que verifiquei, Han
Solo no estava por perto. Ento voc no acha que precisamos de mais que
um livrinho?
     Ridley estava assentindo atrs dele.
     -- Link est certo. Voc pode conseguir salvar Lena, mas s se conseguir
chegar a ela.
     Link tentou se inclinar ao lado de Macon.
     -- Sr. Ravenwood, o senhor no pode vir com a gente e acabar com
alguns caras para ns?
     Macon ergueu uma sobrancelha. Essa era a primeira conversa real q`.ie ele
tinha com Link.
     -- Infelizmente, filho, meu confinamento me enfraqueceu...
     -- Ele est em Transio, Link. No pode ir l embaixo. Est
incrivelmente vulnervel. -- Liv ainda estava apoiando Macon a maior parte
do tempo.
     -- Olivia est certa. Os Incubus possuem fora e velocidade incrvel. No
sou preo para nenhum deles em meu atual estado.
     -- Felizmente, eu sou. -- A voz surgiu do nada e uma pessoa se
materializou na escurido ainda mais rpido. Usava um casaco preto longo co
uma blusa de gola alta e botas pretas gastas. Seu cabelo castanho balanara ao
vento.
     Reconheci a Succubus do enterro imediatamente. Era Leah Ravenwood, a
irm de Macon. Macon estava to chocado quanto ns por v-la.
     -- Leah?
     Ela passou o brao pelas costas dele, apoiando-o, olhando bem dento dos
olhos dele.
     -- Verdes, ? Vou demorar para me acostumar a isso. -- Ela apoiou a
cabea no ombro dele, como Lena costumava fazer.
     -- Como nos encontrou?
     Ela riu.
     -- Vocs so o assunto dos tneis. Dizem por a que meu irmo vai
enfrentar Abraham. E ouvi que ele no est feliz com voc.
     A irm de Macon, a que Arelia levou para Nova Orleans quando
abandonou o pai de Macon. As Irms tinham falado dela.
     -- Trevas e Luz so o que so.
     Link atraiu minha ateno por trs deles e eu soube qual era a pergunta.
Ele estava esperando que eu desse a instruo. Lutar ou fugir. No estava
claro o que Leah Ravenwood queria de ns e nem por que estava ali. Mas se
ela fosse como Hunting e se alimentasse de sangue em vez de sonhos,
tnhamos de nos afastar rapidamente. Olhei para Liv. Ela balanou a cabea,
quase imperceptivelmente. Tambm no tinha certeza.
     Macon deu um de seus raros sorrisos.
     -- O que voc est fazendo aqui, minha querida?
     -- Estou aqui para melhorar as chances. Voc sabe que amo uma boa
briga familiar. -- Leah sorriu. Ela sacudiu o punho e um longo cajado, feito de
madeira polida, apareceu em sua mo. -- E carrego um porrete grande.
     Macon estava perplexo. Eu no conseguia decidir se ele parecia aliviado
ou preocupado. Fosse como fosse, estava surpreso.
     -- Por que agora? Voc no costuma se preocupar com assuntos
Conjuradores.
     Leah enfiou a mo no bolso e pegou um elstico, prendendo o cabelo em
um rabo de cavalo.
     -- Isso no  apenas uma batalha. Conjuradora, no mais. Se a Ordem
for destruda, podemos ser destrudos junto.
     Macon lanou-lhe um olhar expressivo. Identifiquei como um que dizia
no na frente das crianas.
     -- A Ordem das Coisas permanece desde o comeo dos tempos. Vai ser
preciso mais do que uma Cataclista para promover sua destruio.
     Ela sorriu e balanou o cajado.
     -- E j est na hora de algum ensinar bons modos a Hunting. Minhas
motivaes so puras, como o corao de uma Succubus. -- Macon riu com a
ideia. Para mim, no pareceu to engraado.
     Trevas ou Luz. Leah Ravenwood podia ser um ou outro, mas no
importava para mim.
     -- Precisamos encontrar Lena.
     Leah pegou seu cajado.
     -- Eu estava esperando que voc dissesse isso.
     Link limpou a garganta.
     -- Hum, no quero ser rude, senhora. Mas Ethan diz que Hunting est l
embaixo com sua gangue do Sangue. No me entenda mal, voc parece bem
corajosa e tudo, mas ainda assim  s uma garota com uma vara.
     -- Isso -- em uma frao de segundo, Leah esticou o cajado a
centmetros do nariz de Link --  um Cajado Succubino, no uma vara. E no
sou uma garota. Sou uma Succubus. Quando se trata da nossa espcie, as
fmeas tm a vantagem. Somos mais rpidas, mais fortes e mais inteligentes
que os machos. Pense em mim como a louva-a-deus do mundo sobrenatural.
     -- No so esses os insetos que arrancam a cabea dos machos? -- Link
parecia ctico.
     -- So. Depois os comem.
     Fossem quais fossem as reservas que Macon podia ter quanto a Leah, ele
pareceu aliviado por ela ir conosco. Mas tinha um conselho de ltimo minuto.
     -- Larkin cresceu desde a ltima vez em que o viu, Leah. Ele  um
Ilusionista poderoso. Tome cuidado. E, de acordo com Olivia, nosso irmo
mantm seus ces de caa estpidos consigo, uma gangue do Sangue.
     -- No se preocupe, irmo. Tenho meu prprio animal de estimao.
     -- Ela olhou para a montanha acima de ns. Uma espcie de leo da
montanha com o tamanho de um pastor alemo estava deitado nas pedras, o
rabo cado de lado. -- Bade! -- O felino saltou, ficando de p, e abriu a boca
mostrando fileiras de dentes afiados, ento foi para o lado dela. -- Tenho
certeza de que Bade mal pode esperar para brincar com os cachorrinhos de
Hunting. Voc sabe o que dizem sobre gatos e cachorros.
     Ridley sussurrou para Liv:
     -- Bade  o deus vodu do vento e das tempestades. No  o tipo com
quem voc vai querer se meter. -- Ele me lembrou de Lena, o que fez eu me
sentir um pouco melhor em relao ao animal de 70 quilos que me olhava
     -- Seguir e emboscar  a especialidade dele. -- Leah acariciou o gato
atrs das orelhas.
     Ao ver o gato selvagem, Lucille correu e deu uma patada nele de forma
brincalhona. Bade cutucou Lucille com o focinho. Leah se inclinou e a pegou.
     -- Lucille, como est minha doce garota?
     -- Como voc conhece a gata da minha tia-av?
     -- Eu estava l quando ela nasceu. Era a gata da minha me. Minha me
deu Lucille para sua tia Prue para que ela pudesse encontrar o caminho pelos
tneis. -- Lucille rolou entre as patas de Bade.
     Eu no estava muito certo quanto a Leah, mas Lucille nunca tinha me
decepcionado. Ela era boa em avaliar pessoas, mesmo sendo uma gata.
     Uma gata Conjuradora. Eu devia saber.
     Leah colocou o cajado debaixo do cinto e eu soube que a hora de
conversar tinha acabado.
     -- Prontos?
     Macon estendeu a mo e eu a peguei. Por um segundo, pude sentir o
poder no toque dele, como se estivssemos tendo algum tipo de conversa
Conjuradora que eu no conseguia entender. Ento ele soltou e me virei em
direo  caverna, imaginando se voltaria a v-lo.
     Fui na frente e, versteis ou no, meus amigos estavam logo atrs de mim.
Meus amigos, uma Succubus e um leo da montanha batizado em homenagem
a um deus vodu inconstante. Eu s esperava que fosse o bastante.
                                   20 de junho   
                             Fogo negro

                                  
Q    uando chegamos  base do penhasco, nos escondemos atrs de uma
     formao rochosa a alguns metros da caverna. Dois Incubus estavam
     protegendo a entrada, falando em voz baixa. Reconheci um, cheio de
cicatriz do enterro de Macon.
     -- timo. -- Dois Incubus de Sangue, e nem estvamos l dentro. Eu
sabia que o restante da gangue no podia estar longe.
     -- Deixe-os comigo, mas vocs talvez no queiram olhar. -- Leah fez,
sinal para Bade, que pulou para o seu lado.
     O cajado brilhou no ar como um relmpago. Os dois Incubus nem viram
o que os atingiu. Leah levou o primeiro Incubus ao cho em segundos. Bade
saltou, pegando o outro pela garganta e prendendo-o. Leah ficou p, limpou a
boca na manga e cuspiu, marcando a areia com uma mancha sangrenta.
     -- Sangue velho, 70 a 100 anos. Posso sentir.
     Link ficou de boca aberta.
     -- Ela est esperando que faamos isso?
     Leah se inclinou sobre o pescoo do segundo Incubus por quase um
minuto antes de sinalizar para ns.
     -- Vo.
     Eu no me mexi.
     -- O que ns... O que eu fao?
     -- Lute.
     A entrada da caverna estava to iluminada que o sol podia estar brilhando
l dentro.
     -- No posso fazer isso.
     Link olhou para o interior da caverna com nervosismo.
     -- O que voc est dizendo, cara?
     Olhei para meus amigos.
     -- Acho que vocs deviam voltar. Isso  perigoso demais. Eu no devia
ter arrastado vocs pra c.
     -- Ningum me arrastou pra nada. Eu vim para... -- Link olhou para
Ridley, ento se virou, constrangido. -- Para fugir de tudo.
     Ridley mexeu no cabelo sujo de forma dramtica.
     -- Bem, eu certamente no vim por sua causa, Palitinho. No fique se
achando. Por mais que eu goste de andar com o bando de idiotas de vocs,
estou aqui pra ajudar minha prima. -- Ela olhou para Liv. -- Qual  sua
desculpa?
     A voz de Liv estava baixa.
     -- Voc acredita em destino?
     Todos olhamos para Liv como se ela estivesse louca, mas ela no ligou.
     -- Bem, eu acredito. Observo o cu Conjurador desde que me lembro e
quando ele mudou, eu vi. A Estrela do Sul, a Dcima Stima Lua, meu
selenmetro que era motivo de piada para todo mundo na minha cidade... esse
 meu destino. Eu tinha que estar aqui. Mesmo... custando o que custar.
     -- Eu entendo disse Link. -- Mesmo se destruir tudo, mesmo voc
sabendo que vai ser pego, s vezes precisa fazer certas coisas de qualquer
maneira.
     --  algo assim.
     Link tentou estalar os dedos.
     -- Ento, qual  o plano?
     Olhei para meu melhor amigo, o que tinha dividido o Twinkie comigo no
nibus, no segundo ano. Eu ia mesmo deixar que ele me seguisse para dentro
de uma caverna e morrer?
     -- No tem plano. Voc no pode vir comigo. Sou o Obstinado. E
responsabilidade  minha, no sua.
     Ridley revirou os olhos.
     -- Obviamente o lance todo de Obstinado no foi explicado pra voc
direito. Voc no tem superpoder algum. No pode pular por cima de prdios
altos e nem lutar contra Conjuradores das Trevas com sua gata mgica. --
Lucille espiou de trs da minha perna. -- Basicamente, voc  um guia
turstico glorificado que no est mais bem equipado para encarar um bando
do de Conjuradores das Trevas do que a Mary Poppins aqui.
     -- Aquaman -- tossiu Link, piscando para mim.
     Liv tinha ficado quieta at aquele momento.
     -- Ela no est errada. Ethan, voc no pode fazer isso sozinho.
     Eu sabia o que eles estavam fazendo; ou melhor, o que no estavam
fazendo. Indo embora. Balancei minha cabea.
     -- Vocs so uns idiotas.
     Link sorriu.
     -- Eu teria dito corajosos  bea.
     Permanecemos encostados s paredes da caverna, acompanhando a luz da
lua que entrava pelo buraco no teto. Quando contornamos uma esquina, os
raios ficaram bizarramente intensos, e eu pude ver a pira abaixo de ns. Ela se
erguia do centro da caverna, chamas douradas envolvendo-a e lambendo a
pirmide de rvores quebradas. Havia uma plataforma de pedra, que quase
parecia uma espcie de altar maia, equilibrada no topo da pira como se
suspensa por fios invisveis. O crculo serpenteante usado por Conjuradores
das Trevas estava pintado na parede de pedra atrs dela.
     Sarafine estava deitada em cima do altar, assim como estivera quando
apareceu na floresta. Nada mais era igual. A luz da lua passava pelo teto e batia
no corpo dela, radiando para fora em todas as direes como se refratada por
um prisma. Era como se ela estivesse absorvendo a luz da lua que convocou
antes da hora -- a Dcima Stima Lua de Lena. At o vestido dourado de
Sarafine parecia ter sido feito com milhares de pequenas escamas douradas.
     Liv inspirou.
     -- Nunca vi nada assim.
     Sarafine parecia estar em alguma espcie de transe. Seu corpo se ergueu
alguns centmetros acima da pedra, as dobras do vestido cascateando como
gua, para alm das beiradas do altar. Ela estava acumulando uma quantidade
enorme de poder.
     Larkin estava na base da pira. Observei enquanto ele chegava mais perto
da escada de pedra. Mais perto de...
     Lena.
     Ela estava cada, as mos estendidas em direo s chamas, os olhos
fechados. Sua cabea estava no colo de John Breed e ela parecia inconsciente.
     Ele parecia diferente, vazio. Como se tambm estivesse em transe.
     Lena tremia. Mesmo dali, eu podia sentir o frio cortante que irradiava do
fogo. Ela devia estar congelando. Um crculo de Conjuradores das Trevas
cercava a pira. Eu no os reconheci, mas podia saber que eram das Trevas
pelos olhos amarelos desvairados.
     Lena! Voc consegue me ouvir?
     Os olhos de Sarafine se abriram. Os Conjuradores comearam a
cantarolar.
     -- Liv, o que est acontecendo? -- sussurrei.
     -- Eles esto chamando uma Lua Invocadora.
     Eu no precisava entender o que estavam dizendo para saber o que
acontecia. Sarafine estava chamando a Dcima Stima Lua para que Lena
pudesse fazer sua escolha enquanto estava sob a influncia de algum tipo de
Conjuro das Trevas. Ou do peso da culpa, um Conjuro das Trevas por si s.
     -- O que esto fazendo?
     -- Sarafine est usando todo seu poder para canalizar a energia do Fogo
Negro e a dela prpria para alua. -- Liv estava fixada na cena como se
tentasse decorar cada detalhe, do mal ou no. Era a Guardi que havia nela,
compelida a registrar a histria conforme acontecia.
     Tormentos rodopiaram pela caverna, ameaando derrubar as paredes --
espiralando, ganhando fora e massa.
     Precisamos ir l embaixo.
     Liv assentiu e Link pegou a mo de Ridley.
     Descemos pela lateral da caverna, permanecendo nas sombras at
chegarmos ao cho arenoso e molhado. Percebi que o cntico tinha parado.
Os Conjuradores estavam imobilizados em silncio, observando Sarafine pira,
como se todos estivessem sob o mesmo feitio entorpecedor da mente.
     -- E agora? -- Link estava plido.
     Uma pessoa entrou no centro do crculo. Eu no precisava supor quem
era, ele usava o mesmo terno dominical e a mesma gravata das vises. O terno
branco de vero o fazia parecer ainda mais deslocado no meio Conjuradores
das Trevas e da espiral de Tormentos.
     Era Abraham, o nico Incubus poderoso o suficiente para convocar
tantos Tormentos. Larkin e Hunting estavam atrs dele, e todos os Incubus da
caverna apoiaram um joelho no cho. Abraham ergueu as mos em direo ao
turbilho.
     -- Est na hora.
     Lena! Acorde!
     As chamas ao redor da pira ficaram mais altas. Em frente  pira, John
Breed gentilmente ergueu Lena para despert-la.
     L! Corra!
     Lena olhou ao redor, desorientada. Ela no reagiu  minha voz. Eu no
tinha certeza se ela conseguia ouvir alguma coisa. Seus movimentos estavam
incertos, como se no soubesse onde estava.
     Abraham estendeu a mo na direo de John e ento a ergueu lentamente.
John se sacudiu, depois pegou Lena nos braos e subiu como estivesse sendo
puxado por uma corda.
     Lena!
     A cabea de Lena pendeu para o lado, seus olhos se fechando novamente.
John a carregou escada acima. A postura arrogante tinha sumido. Ele parecia
um zumbi.
     Ridley chegou mais perto.
     -- Lena est totalmente desorientada. Nem sabe o que est acontecendo.
 efeito do fogo.
     -- Por que eles iriam querer que ela estivesse inconsciente? Lena no
precisa estar consciente para se Invocar? -- Eu achava que isso fosse bvio.
     Ridley ficou olhando para o fogo. A voz dela estava atipicamente sria e
ela evitava meus olhos.
     -- A Invocao requer vontade. Ela vai precisar fazer a escolha. --
Ridley estava estranha. -- A no ser...
     -- A no ser o qu? -- Eu no tinha tempo para tentar interpretar Ridley.
     -- A no ser que j tenha feito. -- Ao nos deixar para trs. Ao tirar o
cordo. Ao fugir com John Breed.
     -- Ela no fez -- falei automaticamente. Eu conhecia Lena. Havia um
motivo para tudo. -- Ela no fez.
     Ridley olhou para mim.
     -- Espero que esteja certo.
     John chegou ao topo do altar, com Larkin logo atrs. Larkin prendeu
Sarafine e Lena sob a luz da Dcima Stima Lua.
     Senti meu corao batendo forte.
     -- Preciso buscar Lena. Vocs podem me ajudar?
     Link pegou duas pedras, grandes o suficiente para fazer um estrago se ele
conseguisse se aproximar o suficiente para us-las. Liv folheou o caderno. At
Ridley desembrulhou um pirulito e deu de ombros.
     -- Nunca se sabe.
     Ouvi outra voz atrs de mim.
     -- Voc no vai conseguir chegar l em cima a no ser que esteja
pretendendo cuidar de todos aqueles Tormentos sozinho. E no me lembro
de ter te ensinado como fazer isso. -- Sorri antes de me virar.
     Era Amma, e dessa vez ela havia trazido alguns vivos com ela. Are- lia e
Twyla estavam ali, e juntas, elas pareciam as Trs Moiras. Senti-me aliviado e
percebi que parte de mim pensou que eu jamais veria Amma novamente. Dei
um abrao apertado nela, que retribuiu e depois ajeitou o chapu. Ento vi as
botas antiquadas de vov quando ela saiu de trs de Arelia.
     Eram as Quatro Moiras.
     -- Senhora. -- Acenei para vov com a cabea. Ela retribuiu, como se
estivesse prestes a me oferecer ch na varanda de Ravenwood. Ento entrei
em pnico, porque no estvamos em Ravenwood. E Amma e Arelia e Twyla
no eram as Trs Moiras. Eram trs senhoras sulistas idosas e frgeis que
provavelmente somavam uns 250 anos e usavam meias de alta compresso. E
vov no era muito mais jovem. Aquelas Quatro Moiras em particular no
deveriam estar em um campo de batalha.
     Pensando bem, nem esse Wate aqui.
     Eu me soltei do abrao de Amma.
     -- O que esto fazendo aqui? Como nos encontraram?
     -- O que estou fazendo aqui? -- Amma inspirou fundo. -- Minha
famlia chegou s ilhas costeiras vinda de Barbados antes que voc fosse um
pensamento na mente do Senhor. Conheo estas ilhas como a minha cozinha.
     -- Esta  uma ilha Conjuradora, Amma. No  uma das ilhas costeiras.
     --  claro que . Onde mais poderia se esconder uma ilha que no se
pode ver?
     Arelia colocou a mo no ombro de Amma.
     -- Ela est certa. A Grande Barreira est escondida no meio das ilhas
costeiras. Amarie pode no ser Conjuradora, mas compartilha o dom da Viso
com minha irm e comigo.
     Amma balanou a cabea com tanta fora que achei que ia sair voando.
     -- Voc no pensou mesmo que eu ia deixar voc andar sozinho com
areia movedia at os joelhos, pensou? -- Joguei os braos ao redor dela e a
abracei de novo.
     -- Como soube onde nos encontrar, senhora? Tivemos dificuldade para
encontrar este lugar. -- Link estava sempre um passo  frente ou um passo
atrs. As quatro olharam para ele como se fosse um tolo.
     -- Depois de vocs abrirem aquela bola de problemas como fizeram?
Com um feitio mais velho do que a me da minha me? Dava no mesmo
vocs terem ligado para o nmero de emergncia de Gatlin. -- Amma deu um
passo na direo de Link, que deu um passo atrs para sair do alcance dela.
Mas ela no me soltou. Foi assim que eu soube o que ela estava realmente
dizendo: amo voc e no podia estar mais orgulhosa. E voc ficar um ms de
castigo quando voltarmos para casa.
     Ridley se inclinou para mais perto de Link.
     -- Pense bem. Uma Necromancer, uma Adivinhadora e uma Vidente.
No tnhamos chance.
     Amma, Arelia, vov e Twyla se viraram para Ridley assim que ela falou.
Ela corou, baixando os olhos respeitosamente.
     -- No consigo acreditar que a senhora est aqui, tia Twyla. -- Ela
engoliu em seco. -- Vov.
     Vov segurou Ridley pelo queixo e olhou dentro de seus olhos azuis
claros.
     -- Ento  verdade. -- Ela abriu um sorriso. -- Bem-vinda de volta,
criana. -- Ela beijou Ridley na bochecha.
     Amma parecia arrogante.
     -- Eu disse. Estava nas cartas.
     Arelia assentiu.
     -- E nas estrelas.
     Twyla riu de maneira debochada e baixou a voz para um sussurro baixo.
     -- As cartas s mostram a superfcie das coisas. O que temos aqui  um
corte profundo, para alm do osso, at o outro lado. -- Uma sombra
percorreu seu rosto.
     Olhei para Twyla.
     -- O qu? -- Mas ela sorriu e a sombra sumiu.
     -- Voc precisa de um pouco de ajuda de La Bas. -- Twyla sacudiu a
mo para a frente e para trs acima da cabea. De volta ao problema do
momento.
     -- Do Outro Mundo -- traduziu Arelia.
     Amma se ajoelhou e desembrulhou um pano cheio de pequenos ossos e
amuletos. Parecia uma mdica preparando os instrumentos cirrgicos.
     -- Chamar o tipo de ajuda que precisamos  minha especialidade.
     Arelia pegou um chocalho e Twyla se sentou e acomodou-se. Quem sabia
o que ela teria que chamar? Amma espalhou os ossos e lutou com um de seus
jarros de vidro.
     -- Terra de cemitrio da Carolina do Sul. A melhor que h. Trazida de
casa. -- Peguei o jarro da mo dela e o abri, pensando sobre a noite em que a
segui at o pntano. -- Podemos cuidar daqueles Tormentos. No vai deter
Sarafine e nem o irmo imprestvel do Melchizedek, mas vai diminuir um
pouco do poder dela.
     Vov olhou para o ciclone escuro de Tormentos que alimentavam o fogo.
     -- Meu Deus, voc no estava exagerando, Amarie. H muitos deles. --
Vi os olhos dela irem do corpo imvel de Sarafine at Lena, ao longe, e as
linhas na testa dela se aprofundaram. Ridley largou sua mo, mas no saiu do
seu lado.
     Link soltou um suspiro de alvio.
     -- Cara, vou voltar para a igreja no domingo que vem, com certeza. --
Eu no falei nada, mas o que estava pensando no era muito diferente disso.
     Amma tirou os olhos da terra que espalhava debaixo de seus ps.
     -- Vamos mand-los de volta para onde devem ficar.
     Vov ajeitou o casaco.
     -- E ento vou lidar com a minha filha.
     Amma, Arelia e Twyla se sentaram de pernas cruzadas sobre as pedras
midas e deram as mos.
     -- Uma coisa de cada vez. Vamos nos livrar daqueles Tormentos.
     Vov deu um passo para atrs e abriu espao para elas.
     -- Isso seria timo, Amarie.
     As trs mulheres fecharam os olhos. A voz de Amma estava forte e clara
apesar do rodopio do turbilho e da magia das Trevas.
     -- Tio Abner, tia Delilah, tia Ivy, vov Sulla, precisamos mais uma vez de
sua intermediao. Chamo-os agora para este lugar. Encontrem o caminho
para este mundo e expulsem os que no pertencem a ele.
     Os olhos de Twyla se reviraram para dentro da cabea e ela comeou a
cantarolar.

    -- Les bis, meus espritos meus guias,
    Destruam a ponte
    Que carrega estas sombras do seu mundo para o prximo.

    Twyla ergueu o brao acima da cabea.
    -- Encore!
    -- De novo -- falou Arelia, traduzindo a palavra.
    -- Les bis, meus espritos, meus guias,
    Destruam a ponte
    Que carrega estas sombras do seu mundo para o prximo.

     Twyla continuou a cantarolar, misturando o francs-creole com o ingls
de Amma e Arelia. As vozes delas se sobrepunham como em um coral. Pela
abertura no teto da caverna, o cu escureceu em torno do feixe de luz da lua,
como se elas tivessem chamado uma nuvem que traria uma tempestade s
delas. Mas no estavam chamando uma nuvem. Estavam criando um tipo
diferente de turbilho, a escurido espiralando acima delas como um tornado
perfeitamente formado tocando o centro do crculo. Por um segundo, pensei
que a enorme espiral s ia fazer com que morrssemos mais rpido, atraindo
todos os Tormentos e Incubus.
     Eu no devia ter duvidado das trs. As imagens fantasmagricas dos
Grandes comearam a aparecer: tio Abner, tia Delilah, tia Ivy e Sulla, a
Profeta. Estavam se materializando de areia e terra, seus corpos sendo
compostos pouco a pouco.
     Nossas Trs Moiras continuaram.
     -- Destruam a ponte
     Que carrega estas sombras do seu mundo para o prximo.

      Em segundos havia mais espritos do Outro Mundo, Espectros. Estavam
nascendo da terra rodopiante, como borboletas de um casulo. Os Grandes e
os espritos atraram os Tormentos, fazendo com que as criaturas de sombras
corressem para cima deles com o grito terrvel do qual eu me lembrava dos
tneis.
      Os Grandes comearam a crescer. Sulla estava to grande que seus
colares pareciam cordas. Tio Abner s precisava de um raio e de uma toga
para se passar por Zeus acima de ns. Os Tormentos voaram das chamas do
Fogo Negro, riscos pretos cortando o cu. Com a mesma rapidez, as manchas
que gritavam desapareceram. Os Grandes os inalaram, como Twyla pareceu
ter inalado os Espectros naquela noite, no cemitrio.
     Sulla, a Profeta, deslizou para a frente, os dedos cheios de anis
apontando para o ltimo dos Tormentos, girando e gritando ao vento.
     -- Destrua a ponte!
     Os Tormentos sumiram, deixando nada alm de uma nuvem preta que
pairava acima e os Grandes, com Sulla na frente. Ela estava cintilando  luz da
lua quando falou as ltimas palavras.
     -- Sangue  sempre Sangue. Mesmo o tempo no pode Enfeiti-lo.
     Os Grandes desapareceram e a nuvem preta se dissipou. S a fumaa
ondulada do Fogo Negro permaneceu. A pira ainda queimava e Sarafine e
Lena ainda estavam presas  plataforma.
     O turbilho de Tormentos tinha sumido e uma outra coisa tinha mudado.
No estvamos mais observando em silncio, esperando por uma
oportunidade para dar nosso passo. Os olhos de todos os Incubus e
Conjuradores das Trevas na caverna estavam em ns, com caninos  mostra e
olhos amarelos queimando.
     Tnhamos nos juntado  festa, quer gostssemos ou no.
                                   20 de junho   
                          Dezessete Luas

                                  
O
     s Incubus de Sangue reagiram primeiro, se desmaterializando um a um e
     reaparecendo em formao. Reconheci Cicatriz, o Incubus do enterro de
     Macon. Ele estava na frente, os olhos pretos atentos. Hunting, como era
de se esperar, no estava  vista, importante demais para uma simples
matana. Mas Larkin estava de p na frente deles, com uma cobra preta
enrolada no brao. O segundo na linha de comando.
    Eles nos cercaram em segundos e no havia para onde ir. A gangue estava
na nossa frente e a parede da caverna, atrs. Amma se posicionou entre os
Incubus e eu, como se planejasse lutar com as prprias mos. Ela no teve
chance.
    -- Amma! -- gritei, mas era tarde demais.
    Larkin estava parado a centmetros do corpo pequeno dela, segurando
uma faca que no parecia nem um pouco uma iluso.
    -- Voc  uma velha muito chata, sabia? Sempre se mete onde no 
chamada e convoca seus parentes mortos. J est na hora de se juntar a eles.
    Amma no se mexeu.
    -- Larkin Ravenwood, voc vai se lamentar mil vezes quando tentar
encontrar o caminho entre este mundo e o prximo.
    -- Promete? -- Eu podia ver os msculos no ombro de Larkin se
mexendo quando ele puxou o brao, se preparando para dar o bote em
Amma.
     Antes que ele pudesse atingi-la, Twyla abriu a mo e partculas brancas
voaram pelo ar. Larkin gritou, soltando a faca e esfregando os olhos com as
costas das mos.
     -- Ethan, cuidado! -- Pude ouvir a voz de Link, mas tudo estava em
cmera lenta. Vi a gangue vindo em minha direo e ouvi uma outra coisa Um
zumbido que cresceu devagar, como a crista de uma onda. Uma luz verde
surgiu  nossa frente. Era a mesma luz pura que o Arco Voltaico emitiu
quando girou no ar, logo antes de libertarmos Macon.
     Tinha que ser Macon.
     O zumbido ficou mais alto e a luz se lanou para a frente, fazendo com
que os Incubus de Sangue recuassem. Olhei ao redor para ver se todo mundo
estava bem.
     Link estava inclinado, com as mos sobre os joelhos como se fosse
vomitar.
     -- Essa foi por pouco. -- Ridley deu um tapinha um pouco forte demais
nas costas dele e se virou para Twyla.
     -- O que voc jogou em Larkin? Alguma espcie de matria carregada?
     Twyla sorriu, esfregando as contas de um dos trinta ou quarenta colara
que usava.
     -- No preciso de matria carregada, cher.
     -- Ento o que era?
     -- Sl manje. -- Ela falou as palavras com o pesado sotaque creole, mas
Ridley no entendeu.
     Arelia sorriu.
     --Sal.
     Amma bateu no meu brao.
     -- Eu disse que o sal podia manter longe os espritos do mal. Meninos do
mal tambm.
     -- Precisamos ir andando. No temos muito tempo. -- Vov correu at
a escada, carregando a bengala na mo. -- Ethan, venha comigo. -- Segui
vov at o altar, a fumaa do fogo criando uma neblina grossa ao meu redor.
Era intoxicante e sufocante ao mesmo tempo.
     Chegamos no alto da escada. Vov ergueu a bengala na direo de
Sarafine e ela imediatamente comeou a brilhar com luz dourada. Senti uma
onda de alvio. Vov era uma Emptica. No tinha poderes prprios, s a
habilidade de usar os poderes dos outros. E o poder que estava pegando agora
pertencia  mulher mais perigosa do aposento: sua filha Sarafine.
     A que estava canalizando a energia do Fogo Negro para chamar a Dcima
Stima Lua.
     -- Ethan, pegue Lena! -- gritou vov. Ela estava em alguma espcie de
controle psquico com Sarafine.
     Era tudo o que eu precisava ouvir. Peguei as cordas e afrouxei os ns que
a prendiam  me. Lena estava quase inconsciente, o corpo cado sobre a
pedra gelada. Encostei nela. Sua pele estava fria como gelo, e senti o toque
sufocante do Fogo Negro  medida que meu corpo comeava a ficar
dormente.
     -- Lena, acorde. Sou eu.
     Eu a sacudi e a cabea dela tombou de um lado para outro, o rosto
vermelho pelo toque da pedra gelada. Ergui o corpo de Lena e a envolvi com
meus braos, doando o pouco de calor que eu tinha.
     Seus olhos se abriram. Ela estava tentando falar. Segurei o rosto dela nas
minhas mos.
     -- Ethan... -- Suas plpebras estavam pesadas e os olhos voltaram a se
fechar. -- Saia daqui.
     -- No. -- Eu a beijei enquanto a segurava em meus braos. O que
aconteceria no importava; aquele momento valia  pena. Abra-la de novo.
     No vou a lugar algum sem voc.
     Ouvi Link gritar. Um Incubus tinha escapado da poderosa parede de luz
que segurava o restante deles. John Breed estava atrs de Link, com o brao
redor do pescoo dele e os caninos  mostra. John ainda tinha a mesma
presso vidrada, como se estivesse no piloto automtico. Eu me perguntei se
era efeito da fumaa txica. Ridley se virou e jogou as costas de John,
derrubando-o. Ela deve t-lo pegado de surpresa, porque Ridley no era forte
o bastante para derrub-lo sozinha. Os trs caram no cho, procurando
manter vantagem.
     No consegui ver mais do que isso, mas foi o bastante para eu perceber
que estvamos com problemas graves. Eu no sabia por quanto tempo o
campo sobrenatural ia aguentar, principalmente se era Macon quem o estava
gerando.
     Lena precisava terminar aquilo.
     Olhei para ela. Seus olhos estavam abertos, mas seu olhar passava direto
por mim, como se ela no pudesse me ver.
     Lena. Voc no pode desistir agora. No com...
     No fale.
      sua Lua Invocadora.
     No  a Lua Invocadora dela.
     No importa.  sua Dcima Stima Lua, L.
     Ela olhou para mim com olhos vazios.
     Sarafine a ergueu. Eu no pedi nada disso.
     Voc precisa escolher, ou todos de quem gostamos podem morrer aqui hoje.
     Ela olhou para longe de mim.
     E se eu no estiver pronta?
     Voc no pode fugir disso, Lena. No mais.
     Voc no entende. No  uma escolha.  uma maldio. Se eu for para a Luz, Ridley
e metade da minha famlia vo morrer. Se eu for para as Trevas, vov, tia Del, minhas
primas, todas vo morrer. Que tipo de escolha  essa?
     Eu a segurei com mais fora, desejando haver um jeito de poder dar
minha fora a ela ou de absorver sua dor.
     --  uma escolha que s voc pode fazer. -- Puxei Lena at que ficasse
de p. -- Olhe s o que est acontecendo. As pessoas que voc ama esto
lutando por suas vidas agora. Voc pode acabar com isso. S voc.
     -- No sei se posso.
     -- Por que no? -- Eu estava gritando.
     -- Porque no sei o que sou.
     Olhei nos olhos dela e eles mudaram outra vez. Um estava perfeitamente
verde e o outro perfeitamente dourado.
     -- Olhe para mim, Ethan. Eu sou das Trevas ou da Luz?
     Olhei para Lena e soube o que ela era. A garota que eu amava. A garota
que eu sempre amaria.
     Instintivamente, peguei o livro dourado no meu bolso. Estava quente,
como se alguma parte da minha me estivesse viva dentro dele. Pressionei o
livro contra a mo de Lena, sentindo o calor se espalhar pelo seu corpo.
Desejei que ela sentisse -- o tipo de amor que havia dentro do livro, o tipo de
amor que nunca morria.
     -- Sei o que voc , Lena. Conheo seu corao. Voc pode confiar em
mim. Pode confiar em si mesma.
     Lena segurou o pequeno livro na mo. No foi o bastante.
     -- E se voc estiver errado, Ethan? Como posso saber?
     -- Eu sei, porque conheo voc.
     Soltei a mo dela. Eu no podia suportar pensar em qualquer coisa
acontecendo a ela, mas no podia impedir que acontecesse.
     -- Lena, voc precisa fazer isso. No tem outro jeito. Eu queria que
tivesse, mas no tem.
     Olhamos para a caverna. Ridley olhou para cima e por um segundo achei
que tivesse nos visto.
     Lena olhou para mim.
     -- No posso deixar Ridley morrer. Juro que ela est tentando mudar. J
perdi muito.
     J perdi tio Macon.
     -- Foi minha culpa. -- Ela se agarrou a mim, chorando.
     Eu queria dizer a ela que Macon estava vivo, mas me lembrei do que ele
tinha dito. Ele ainda estava em Transio. Havia uma possibilidade de ainda
ter as Trevas dentro de si. Se Lena soubesse que ele estava vivo e que havia
uma chance de perd-lo novamente, jamais escolheria ir para a Luz. Ela no
era capaz de mat-lo uma segunda vez.
     A lua estava diretamente sobre a cabea de Lena. Logo a Invocao
comearia. S havia uma deciso a ser tomada e eu temia que ela no fosse
tom-la.
      Ridley apareceu no topo da escadaria, sem flego. Ela abraou Lena,
tirando-a de mim. Esfregou o rosto contra a bochecha molhada de Lena. Elas
eram irms, independentemente do que acontecesse. Sempre tinham sido.
      -- Lena, me escute. Voc precisa escolher.
      Lena olhou para o outro lado, sofrendo. Ridley segurou a lateral do rosto
de Lena, forando a prima a olhar para ela. Lena reparou imediatamente.
      -- O que aconteceu com seus olhos?
      -- No importa. Voc precisa me escutar. J fiz alguma coisa nobre na
vida? J deixei voc sentar no banco da frente do carro alguma vez? J guardei
o ltimo pedao de bolo pra voc, em 16 anos? J deixei voc experimentar
meus sapatos?
      -- Sempre odiei seus sapatos. -- Uma lgrima desceu pela bochecha de
Lena.
      -- Voc amava meus sapatos. -- Ridley sorriu e limpou o rosto de Lena
com a mo arranhada e sangrenta.
      -- No ligo pro que voc diz. No vou fazer isso. -- Elas olhavam
fixamente uma nos olhos da outra.
      -- No tenho sequer um osso altrusta no corpo e estou dizendo para
voc fazer.
      -- No.
      --Confie em mim.  melhor assim. Se eu ainda tiver algum resqucio das
Trevas em mim, voc estar me fazendo um favor. No quero mais ser das
Trevas, mas no nasci para ser Mortal. Sou uma Sirena.
      Pude ver a compreenso nos olhos de Lena.
      --Mas se voc  Mortal, no...
      Ridley balanou a cabea.
      -- No h como saber. Se houver Trevas no sangue, voc sabe... Ela
parou de falar.
      Eu me lembrei do que Macon tinha dito. As Trevas no saem de ns to
facilmente quanto gostaramos.
      Ridley abraou Lena com fora.
      -- Vamos, o que vou fazer com mais setenta ou oitenta anos? Voc pode
me ver em Gat-lixo, fazendo pegao com Link no banco de trs do Lata-
Velha? Tentando entender como um forno funciona? -- Ela olhou para o
outro lado, a voz falha. -- No tem nem comida chinesa decente naquela
bosta de cidade.
     Lena segurou com fora a mo de Ridley e ela a apertou, depois
gentilmente afastou a mo, um dedo de cada vez, e colocou a de Lena na
minha.
     -- Cuide dela por mim, Palitinho. -- Ridley desapareceu na escada antes
que eu pudesse dizer qualquer coisa.
     Estou com medo, Ethan.
     Estou bem aqui, L. No vou a lugar algum. Voc consegue passar por isso.
     Ethan...
     Voc consegue, L. Invoque-se. Ningum precisa te mostrar o caminho. Voc sabe o seu
caminho.
     Ento outra voz se juntou  minha, vindo de uma grande distncia e
tambm de dentro de mim.
     Minha me.
     Juntos dissemos a Lena, no nico momento roubado que tnhamos, no o
que fazer, mas que ela era capaz de faz-lo.
     Invoque-se, falei.
     Invoque-se, falou minha me.
     Sou eu mesma, disse Lena. Eu sou.
     Uma luz cegante partiu da lua, como um estrondo snico, soltando as
pedras das paredes. Eu no conseguia ver mais nada alm da luz da lua. Senti
o medo e a dor de Lena caindo sobre mim como uma onda. Cada perda, cada
erro estava fundido na alma dela, criando um tipo diferente de tatuagem. Uma
tatuagem feita de dio e abandono, sofrimento e lgrimas.
     A luz da lua inundou a caverna, pura e ofuscante. Por um minuto, no
consegui ver nem ouvir nada. Ento olhei para Lena, e lgrimas desciam pelo
seu rosto e brilhavam em seus olhos, que agora tinham suas verdadeiras cores.
     Um verde, outro dourado.
     Ela inclinou a cabea para trs e encarou a lua. Seu corpo se contorceu, os
ps flutuaram acima da pedra. Abaixo dela, a luta parou. Ningum falava nem
se mexia. Cada Conjurador e Demnio no local parecia saber o que estava
acontecendo, que seus destinos estavam em jogo. Acima dela, o brilho da lua
comeou a vibrar, a luminosidade atraindo, at que a caverna inteira era uma
nica bola de luz.
     A lua continuou a inchar. Como um momento de um sonho, ela se partiu
em duas metades, dividindo o cu diretamente acima do local onde Lena
estava. A luz da lua atrs dela pareceu formar uma borboleta gigante e
luminosa, com duas asas brilhantes e intensas. Uma verde, outra dourada.
     Um som de algo se partindo ecoou pela caverna e Lena gritou.
     A luz desapareceu. O Fogo Negro desapareceu. No havia altar, nem pira,
e estvamos de volta ao cho.
     O ar estava perfeitamente esttico. Pensei que tivesse acabado, mas eu
estava errado.
     Um relmpago cortou o ar, se dividindo em dois braos distintos,
acertando em seus alvos simultaneamente.
     Larkin.
     Seu rosto se contorceu de terror quando seu corpo foi atingido e
comeou a ficar preto. Ele parecia estar queimando de dentro para fora.
Rachaduras pretas surgiram em sua pele at ele virar p, voando pelo cho da
caverna.
     O segundo raio foi na direo oposta e atingiu Twyla.
     Os olhos dela se reviraram para trs. Seu corpo caiu no cho, como se seu
esprito o tivesse deixado e descartado. Mas ela no virou p. O corpo sem
vida ficou deitado no cho enquanto Twyla se erguia acima dele, brilhando e
sumindo at ficar transparente.
     Ento a neblina comeou a baixar, as partculas se rearrumando at Twyla
aparentar como era em vida. Fosse o que fosse que ela tivesse deixado para
trs nesta vida, estava terminado. Se tivesse coisas a fazer aqui de novo, seria
porque quis. Twyla no estava presa a este mundo. Estava livre. E parecia em
paz, como se soubesse de alguma coisa que no sabamos.
     Quando subia pela abertura no teto da caverna, em direo  lua, ela
parou. Por um segundo, no tive certeza do que estava acontecendo enquanto
ela estava ali, flutuando.
     Adeus, cher.
     No sei se ela realmente falou ou se eu imaginei, mas ela estendeu uma
mo luminosa e sorriu. Ergui a mo em direo ao cu e observei Twyla sumir
 luz da lua.
     Uma nica estrela apareceu no cu Conjurador -- um cu que eu pude
ver, mas s por um segundo. A Estrela do Sul. Ela tinha encontrado seu lugar,
de volta no cu.
     Lena tinha feito sua escolha.
     Ela tinha se Invocado.
     Mesmo que eu no tivesse certeza do que isso significava, ela ainda estava
comigo. Eu no a tinha perdido.
     Invoque-se.
     Minha me teria orgulho de ns.
                                    21 de junho   
                             Trevas e Luz

                                    
L
     ena ficou de p, ereta, uma silhueta escura contra a lua. No chorou e no
     estava gritando. Seus ps estavam apoiados no cho, cada um de um lado
     da enorme fenda que agora cortava a caverna, partindo-a quase
completamente em duas.
     -- O que acabou de acontecer? -- Liv olhava para Amma e Arelia em
busca de respostas.
     Segui o olhar de Lena pela vasta extenso de pedras e entendi seu silncio.
Ela estava em choque, olhando para um rosto familiar.
     -- Parece que Abraham vem interferindo na Ordem das Coisas.
     Macon estava na entrada da caverna, cercado da luz de uma lua que estava
comeando a se reunificar. Leah e Bade estavam ao lado dele. Eu no tinha
certeza de h quanto tempo ele estava ali, mas pude notar pela sua expresso
que ele tinha visto tudo. Macon andou lentamente, ainda se ajustando 
sensao dos ps tocando o cho. Bade o acompanhou e Leah tambm, uma
das mos no brao dele.
     Lena acalmou-se ao ouvir o som da voz dele, uma voz do tmulo. Ouvi o
pensamento, que no chegava nem a um murmrio. Ela estava com medo at
de pensar.
     Tio Macon?
     O rosto dela ficou plido. Eu me lembrei de como me senti quando vi
minha me no cemitrio.
     -- Um truquezinho impressionante que voc e Sarafine conseguiram
fazer, vov. Tenho que admitir isso. Chamar uma Lua Invocadora fora da
poca? Vocs se superaram, de verdade. -- A voz de Macon ecoou na
caverna. O ar estava to parado, to silencioso, que no dava para ouvir nada
alm do suave ritmo das ondas. -- Naturalmente, quando eu soube que voc
estava vindo, tive que aparecer por aqui. -- Macon esperou, como se estivesse
aguardando uma resposta. Mas quando no recebeu uma, disse:
     -- Abraham Vejo seu toque nisso.
     A caverna comeou a tremer. Pedras caram da abertura no teto, se
espatifando no cho. Parecia que tudo ia desmoronar. O cu ficou mais
escuro. O Macon de olhos verdes -- o Conjurador da Luz, se  que ele era
isso mesmo -- parecia ainda mais poderoso do que o Incubus que ele fora.
     Uma risada retumbante ecoou nas paredes de pedra. No cho coberto de
gua, onde a lua no mais brilhava, Abraham saiu das sombras. Com sua barba
branca e terno branco combinando, ele parecia um velho inofensivo ao invs
do mais sombrio de todos os Incubus de Sangue. Hunting permaneceu ao
lado dele.
     Abraham estava de p acima de Sarafine, cujo corpo estava no cho. Ela
havia ficado completamente branca, coberta por uma fina camada gelada, um
casulo de gelo.
     -- Chamou, garoto? -- O velho riu de novo, um som agudo e rpido. --
Ah, a arrogncia da juventude. Em cem anos voc vai aprender seu lugar, meu
neto. -- Tentei calcular mentalmente as geraes entre eles: quatro, talvez at
cinco.
     -- Tenho profunda cincia do meu lugar, vov. Infelizmente, e isso 
excepcionalmente estranho, acredito que serei eu a coloc-lo de volta no seu.
     Abraham passou a mo lentamente pela barba.
     -- Pequeno Macon Ravenwood. Voc sempre foi um garoto perdido. Foi
voc quem fez isso, no eu. Sangue  Sangue, assim como Trevas so Trevas.
Voc devia ter se lembrado a quem deve ser leal -- Ele fez uma pausa,
olhando para Leah. -- Voc tambm devia ter se lembrado disso, minha
querida. Mas  fato que voc foi criada por uma Conjuradora. -- E tremeu.
     Eu via raiva no rosto de Leah, mas tambm via medo. Ela estava disposta
a tentar a sorte contra a gangue do Sangue, mas no queria desafiar Abraham.
     Abraham olhou para Hunting.
     -- Falando em garotos perdidos, onde est John?
     -- Foi embora h tempos. Covarde.
     Abraham se virou para encarar Hunting.
     -- John no  capaz de covardia. No est na natureza dele. E a vida d 
mais importante para mim do que a sua. Ento sugiro que o encontre. --
Hunting baixou os olhos e assentiu. Eu no conseguia parar de imagina por
que John Breed era to importante para Abraham, que no parecia importar
com mais ningum.
     Macon observou Abraham com ateno.
     -- E tocante ver como voc est preocupado com o garoto. Espero que
voc o encontre. Sei como  doloroso perder um filho.
     A caverna recomeou a tremer e pedras caram ao redor de nossos ps.
     -- O que fez com John? -- Em sua fria, Abraham pareceu menos com
o velhinho indefeso e mais com o Demnio que realmente era.
     -- O que eu fiz com ele? Acho que a pergunta  o que voc fez a ele. --
Os olhos pretos de Abraham se apertaram, mas Macon s sorriu. -- Um
Incubus que pode andar na luz do sol e manter a fora sem se alimentar...
Seria preciso uma unio muito especfica para produzir essas qualidades em
um filho. Voc no concorda? Falando cientificamente, voc precisaria de
qualidades Mortais, mas esse garoto John possui os dons de um Conjurador.
Ele no pode ter trs pais, o que significa que a me dele era...
     Leah ofegou.
     -- Uma Evo.
     Todos os Conjuradores presentes reagiram  palavra. A surpresa se
espalhou como uma onda, um novo tipo de frieza no ar. S Amma parecia
impassvel. Ela cruzou os braos e fixou o olhar em Abraham Ravenwood,
como se ele fosse apenas outra galinha que ela planejava matar, depenar e
cozinhar na panela velha.
     Tentei lembrar o que Lena tinha me contado sobre Evos. Eram
metamorfos, com a habilidade de espelhar a forma humana. Eles no
entravam simplesmente em um corpo Mortal, como Sarafine. Evos podiam se
tornar Mortais por curtos perodos de tempo.
     Macon sorriu.
     -- Precisamente. Um Conjurador que consegue assumir forma humana
por tempo o bastante para conceber uma criana, com todo o DNA de um
Mortal e de um Conjurador de um lado e o de um Incubus do outro. Voc
andou ocupado, no , vov? No me dei conta de que estava bancando o
casamenteiro no seu tempo livre.
     Os olhos de Abraham ficaram mais escuros.
     -- Foi voc que sujou a Ordem das Coisas. Primeiro, com sua
paixozinha por uma Mortal, depois ao se virar contra a prpria espcie para
proteger esta garota. -- Abraham balanou a cabea, como se Macon no
fosse nada alm de um menino impetuoso. -- E aonde isso nos levou? Agora
a criana Duchannes partiu a lua. Voc sabe o que isso significa? A ameaa
que ela  a todos ns?
     -- O destino da minha sobrinha no  do seu interesse. Voc parece estar
bastante ocupado com seu filho-experimento. Mas no tenho como no ficar
curioso quanto ao que est fazendo com ele. -- Os olhos verdes de Macon
brilharam enquanto ele falava.
     -- Tome cuidado com quem voc fala dessa maneira. -- Hunting deu um
passo  frente, mas Abraham ergueu a mo e Hunting parou. -- J matei voc
uma vez, posso matar duas.
     Macon balanou a cabea.
     -- Canes de ninar, Hunting? Se voc est planejando uma carreira
como seguidor de vov, precisa melhorar o discurso. -- Macon suspirou.
     -- Agora enfie o rabo entre as pernas e siga seu dono at em casa como
um bom cachorro.
     A expresso de Hunting ficou mais cruel. Macon se virou para Abraham.
     -- E vov, por mais que eu fosse adorar comparar anotaes de
laboratrio, acho que est na hora de voc ir embora.
      O velho riu. Um vento frio comeou a circular ao redor dele, assobiando
entre as pedras.
      -- Voc acha que pode me dar ordens como a um garoto de recados?
Voc no vai dizer meu nome, Macon Ravenwood. Vai chorar meu nome..
Vai sangrar meu nome. -- O vento aumentou ao redor dele, soprando sua
gravata contra o corpo. -- E quando voc morrer, meu nome ainda ser
temido, e o seu, esquecido.
      Macon olhou nos olhos dele, sem a menor sombra de medo.
      -- Como meu irmo matematicamente talentoso explicou, j morri uma
vez. Voc vai ter que aparecer com alguma novidade, coroa. Est ficando
cansativo. Permita-me lev-lo at a porta.
      Macon sacudiu os dedos e ouvi um estrondo quando a noite se abriu atrs
de Abraham. O velho hesitou e depois sorriu.
      -- A idade deve estar me afetando. Quase me esqueci de pegar minhas
coisas antes de ir. -- Ele esticou a mo e algo surgiu por trs de uma das
fendas na pedra. O objeto desapareceu e reapareceu em sua mo. Prendi a
respirao por um segundo quando vi o que era.
      O Livro das Luas.
      O Livro que acreditamos ter queimado at virar cinza nos campos de
Greenbrier. O Livro que era uma maldio por si s.
      O rosto de Macon se escureceu e ele estendeu a mo.
      -- Isso no pertence a voc, vov.
      O Livro tremeu na mo de Abraham, mas a escurido ao redor dela ficou
mais intensa e o velho deu de ombros e sorriu. Um segundo estrondo ecoou
na caverna quando ele desapareceu, levando o Livro, Hunting e Sarafine
consigo. Quando o eco morreu, as pequenas ondas apagaram a marca do
corpo de Sarafine na areia.
      Ao som do estrondo, Lena comeou a correr. Quando Abraham sumiu,
ela j estava na metade do caminho at Macon. Ele ficou encostado na parede
spera at Lena se jogar em seu peito, ento oscilou como se fosse cair.
      -- Voc est morto. -- Lena falou com o rosto enterrado na camisa suja
 e rasgada.
     -- No, querida, estou muito vivo. -- Ele puxou o rosto dela para que
olhasse para ele. -- Olhe para mim. Ainda estou aqui.
     -- Seus olhos. Esto verdes. -- Ela tocou o rosto dele, chocada.
     -- E os seus no. -- Ele tocou na bochecha dela com tristeza. -- Mas
esto lindos. Tanto o verde quanto o dourado.
     Lena balanou a cabea sem acreditar.
     -- Eu matei voc. Usei o Livro e ele matou voc.
     Macon acariciou o cabelo dela.
     -- Lila Jane me salvou antes de eu cruzar. Ela me aprisionou no Arco
Voltaico e Ethan me libertou. No foi sua culpa, Lena. Voc no sabia o que
ia acontecer. -- Lena comeou a soluar. Ele acariciou os cachos pretos,
sussurrando: -- Shh. Est tudo bem agora. Acabou.
     Ele estava mentindo. Eu podia ver nos olhos dele. As piscinas pretas que
guardavam seus segredos no existiam mais. No entendi tudo o que Abraham
disse, mas sabia que havia verdade nas palavras, O que tinha acontecido
quando Lena se Invocou no era a soluo dos nossos problemas, mas um
problema completamente novo.
     Lena se afastou de Macon.
     -- Tio Macon, eu no sabia que isso ia acontecer. Em um minuto eu
estava pensando sobre Trevas e Luz, sobre o que eu realmente queria. Mas s
conseguia pensar que no perteno a lugar algum. Depois de tudo por que
passei, no sou da Luz nem das Trevas. Sou os dois.
     -- Est tudo bem, Lena. -- Ele esticou o brao na direo dela, mas ela
ficou de p sozinha.
     -- No est. -- Ela balanou a cabea. -- Vejam o que fiz. Tia Twyla e
Ridley se foram, e Larkin...
     Macon olhou para Lena como se a visse pela primeira vez.
     -- Voc fez o que precisava fazer. Se Invocou. Voc no escolheu um
lugar na Ordem. Voc a mudou.
     A voz dela estava hesitante.
     -- O que isso significa?
     -- Significa que voc  voc mesma, poderosa e nica, como a Grande
Barreira, um lugar onde no h Trevas nem Luz, s magia. Mas, ao contrrio
da Grande Barreira, voc  tanto Luz quanto Trevas. Como eu. E depois do
que vi hoje, como Ridley.
     -- Mas o que aconteceu  lua? -- Lena olhou para vov, mas foi Amma
quem falou, da base das pedras.
     -- Voc a partiu, criana. Melchizedek est certo, a Ordem das Coisas
est rompida. No h como saber o que vai acontecer agora. -- Pelo modo
como ela falou rompida, ficou claro que era uma coisa que no queramos que
a Ordem estivesse.
     -- No entendo. Vocs todos esto aqui, mas Hunting e Abraham
tambm estavam. Como  possvel? A maldio... -- hesitou Lena.
     -- Voc possui tanto Luz quanto Trevas, uma alternativa que a maldio
no previa. Nenhum de ns previa. -- Havia sofrimento na voz de vov. Ela
estava escondendo alguma coisa, e senti que as coisas eram mais complicadas
do que ela transparecia. -- S estou feliz por voc estar bem.
     O som de gua espirrando ecoou pela caverna. Eu me virei a tempo de
ver o cabelo louro e cor-de-rosa de Ridley dobrando a esquina. Link estava
logo atrs dela.
     --Acho que sou mesmo Mortal. -- Ridley falou com sua dose usual de
sarcasmo, mas parecia aliviada. -- Voc sempre precisa ser diferente, no ?
Parabns por estragar tudo de novo, prima.
     Ouvi a respirao de Lena parar e, por um segundo, ela no se moveu.
     Era demais. Macon estava vivo quando Lena acreditava t-lo matado. Ela
havia se Invocado e ficado nas Trevas e na Luz. Pelo que eu podia notar, tinha
partido a lua. Eu sabia que Lena desabaria em poucos momentos. Quando
acontecesse, eu estaria ali para carreg-la para casa.
     Lena agarrou Ridley e Macon, praticamente estrangulando-os em seu
prprio crculo Conjurador, parecendo no ser nem da Luz nem das Trevas.
S muito cansada, porm no mais completamente solitria.
                                   22 de junho   
            O caminho de volta para casa

                                   

E    u no conseguia mais dormir. Tinha apagado na noite anterior, no j
     familiar piso de tbuas de pinho que havia no quarto de Lena. Ns dois
     tnhamos desmaiado, ainda de roupa. Vinte e quatro horas depois, era
estranho estar no meu quarto, em uma cama novamente, depois de dormir
catre razes de rvore em chos lamacentos de floresta. Eu tinha visto coisas
demais. Levantei-me e fechei a janela, apesar do calor. Havia muito a temer l
fora, coisas demais contra as quais lutar.
     Era uma surpresa que qualquer pessoa em Gatlin conseguisse dormir.
     Lucille no tinha esse problema. Estava remexendo uma pilha de roupas
sujas no canto, afofando sua cama para a noite. Aquela gata conseguia dormir
em qualquer lugar.
     Eu no.Virei de lado. Estava tendo dificuldade em me acostumar com o
conforto.
     Eu tambm.
     Sorri. Tbuas rangeram e minha porta se abriu. Lena estava de p na
porta do meu quarto, usando minha camiseta surrada do Surfista Prateado. Eu
podia ver a barra do short do pijama por baixo. Seu cabelo estava molhado e
solto de novo, do jeito que eu mais gostava.
     -- Isso  um sonho, certo?
     Lena fechou a porta atrs de si com um leve brilho nos olhos verde e
dourado.
     -- Est falando do seu tipo de sonho ou do meu?
     Ela puxou o lenol e se deitou ao meu lado. Seu cheiro era de limo,
alecrim e sabonete. Tinha sido um longo caminho para ns dois. Ela apoiou a
cabea debaixo do meu queixo e se recostou em mim. Pude sentir suas
perguntas e seus medos, debaixo do lenol, conosco.
     O que foi, L?
     Ela se afundou ainda mais no meu peito.
     Voc acha que algum dia vai conseguir me perdoar? Sei que as coisas no sero as
mesmas...
     Apertei os braos ao redor dela, me lembrando de todas as vezes que
pensei que a tivesse perdido para sempre. Aqueles momentos pareciam me
envolver e ameaar me esmagar sob seu peso. No havia como eu viver sem
ela. Perdoar no era um problema.
     As coisas vo ser diferentes. Melhores.
     Mas no sou da Luz, Ethan. Sou uma coisa diferente. Sou... complicada.
     Estiquei a mo por baixo do lenol e levei a mo dela aos meus lbios.
Beijei a palma de onde os desenhos espiralados pretos no haviam
desaparecido. Quase pareciam caneta permanente, mas eu sabia que jamais
sumiriam.
     -- Sei o que voc  e a amo. Nada pode mudar isso.
     -- Eu queria poder voltar no tempo. Queria...
     Apertei minha testa contra a dela.
     -- No. Voc  voc. Escolheu ser voc mesma.
     --  assustador. Durante toda a minha vida, cresci com Trevas e Luz. 
estranho no me encaixar em nenhum dos dois. -- Ela se deitou de costas.
     -- E se eu no for nada?
     -- E se essa for a pergunta errada?
     Ela sorriu.
     -- ? Qual  a certa?
     -- Voc  voc. Quem  essa pessoa? O que ela quer ser? E como posso
fazer com que ela me beije?
     Ela se apoiou nos braos e se inclinou sobre meu rosto, deixando que o
cabelo me fizesse ccegas. Seus lbios tocaram os meus e l estava de novo: a
eletricidade, a corrente que passava entre ns. Eu tinha sentido falta disso,
mesmo queimando meus lbios.
     Mas estava faltando uma outra coisa.
     Eu me inclinei, abri a gaveta da mesa de cabeceira e coloquei a mo l
dentro.
     -- Acho que isso pertence a voc. -- Deixei o cordo cair na mo dela,
as lembranas se espalhando entre seus dedos: o boto prateado que ela havia
prendido com um clipe, a linha vermelha, a pequena caneta permanente que
dei a ela na torre de gua.
     Ela ficou olhando para a mo, atnita.
     -- Acrescentei algumas coisas. -- Desembaracei os pingentes para que
Lena pudesse ver o pardal prateado do enterro de Macon. Significava algo
muito diferente agora. -- Amma disse que os pardais conseguem Viajar para
muito longe e sempre encontram o caminho de casa. Como voc.
     -- S porque voc foi me buscar.
     -- Tive ajuda. Por essa razo te dei isso.
     Ergui a medalha da coleira de Lucille, a que estava no meu bolso de trs
enquanto procurvamos por Lena e me permitiu observar pelos olhos de
Lucille. Lucille olhou para mim calmamente, bocejando no canto do quarto.
     --  um condutor que permite que Mortais se conectem a um animal
Conjurador. Macon me explicou hoje de manh.
     -- Esteve com voc esse tempo todo?
     -- Esteve. Tia Prue me deu. Funciona enquanto voc carrega a medalha.
     -- Espere. Como sua tia acabou com uma gata Conjuradora?
     -- Arelia deu Lucille a minha tia para que ela conseguisse encontrar o
caminho dentro dos tneis.
     Lena comeou a desembolar o cordo, soltando os ns que tinham se
formado desde que ela o tinha perdido.
     -- No acredito que voc o encontrou. Quando o deixei para trs, jamais
pensei que o veria de novo.
     Ela no havia perdido. Havia tirado. Resisti ao desejo de perguntar por
qu.
     --  claro que encontrei. Tem tudo que j dei pra voc.
     Lena fechou a mo ao redor do cordo e olhou para o outro lado.
     -- Nem tudo.
     Eu sabia em que ela estava pensando: no anel da minha me. Ela tambm
tinha tirado o anel, mas eu no o tinha encontrado.
     No at aquela manh, quando o vi em cima da minha mesa, como se
sempre tivesse estado ali. Enfiei a mo na gaveta de novo e abri a mo de
Lena, colocando o anel nela. Quando Lena sentiu o metal frio, olhou para
mim.
     Voc o encontrou?
     No. Minha me deve ter encontrado. Estava na minha mesa quando acordei.
     Ela no me odeia?
     Era uma pergunta que s uma garota Conjuradora faria. O fantasma da
minha me morta a tinha perdoado? Eu sabia a resposta. Encontrei o anel
dentro de um livro que Lena havia me emprestado, o Livro das perguntas, de
Pablo Neruda, a corrente servindo de marcador debaixo dos versos 
verdade que o mbar contm/as lgrimas das sirenas?
     Minha me era mais f de Emily Dickinson, mas Lena amava Neruda. Foi
como o ramo de alecrim que encontrei no livro de receitas favorito de minha
me no Natal -- uma coisa da minha me e uma coisa de Lena, juntas, como
se tudo fosse para ser assim desde sempre.
     Respondi colocando a correntinha ao redor do pescoo de Lena, onde era
seu lugar. Ela tocou nele e olhou nos meus olhos castanhos com os seus, um
verde e um dourado. Eu sabia que ela ainda era a garota que eu amava,
independentemente da cor dos olhos. No havia cor que pudesse representar
Lena Duchannes. Ela era um suter vermelho e um cu azul, um vento cinza e
um pardal prateado, um cacho de cabelo preto escapando de detrs da orelha.
     Agora que estvamos juntos, tudo parecia se encaixar.
      Lena se inclinou na minha direo, encostando os lbios nos meus com
delicadeza a princpio. Ento me beijou com uma intensidade que fez um calor
subir pela minha espinha. Senti-a encontrando o caminho de volta at mim,
at nossas curvas e nossos cantos, os lugares onde nossos corpos se
encaixavam to naturalmente.
      -- Tudo bem, isso com certeza  um sonho. -- Eu sorri e passei os
dedos pelo cabelo preto bagunado.
      Eu no teria tanta certeza disso.
      Ela passou as mos no meu peito enquanto eu sentia seu aroma. Minha
boca foi at seu ombro e a puxei mais para perto at sentir os ossos do quadril
dela pressionados contra minha pele. Fazia tanto tempo e eu tinha sentido
tanta falta dela -- do gosto, do cheiro. Segurei seu rosto em minhas mos,
beijando-a com mais intensidade, e meu corao disparou. Tive que parar e
recuperar o flego.
      Ela olhou nos meus olhos e se recostou no meu travesseiro, tomando
cuidado para no tocar em mim.
      Est melhor? Voc... Eu estou machucando voc?
      No. Est melhor.
      Olhei para a parede e contei em silncio, acalmando meu corao.
      Voc est mentindo.
      Passei o brao em torno dela, mas ela no olhou para mim.
      Jamais vamos conseguir ficar juntos de verdade, Ethan.
      Estamos juntos agora.
      Passei os dedos levemente pelos braos dela, observando a pele se
arrepiar sob meu toque.
      Voc tem 16 anos e eu farei 17 em duas semanas. Temos tempo.
      Na verdade, em anos Conjuradores, j tenho 17. Conte as luas. Sou mais velha que
voc agora.
      Ela sorriu um pouco e apertei-a entre os braos.
      Dezessete. Tudo bem. Talvez at completarmos 18 teremos encontrado um jeito, L.
      L.
      Eu me sentei na cama e fiquei olhando para ela.
      Voc sabe, no sabe?
      O qu?
      Seu nome de verdade. Agora que voc foi Invocada, voc sabe, no ?
      Ela inclinou a cabea de lado com um meio sorriso. Peguei-a nos braos
meu rosto acima do dela.
      O que foi? Voc no acha que eu devia saber?
      Voc ainda no entendeu, Ethan? Meu nome  Lena.  o nome que eu tinha quando
nos conhecemos.  o nico nome que terei.
      Ela sabia, mas no ia me contar. Entendi por qu. Lena estava se
Invocando de novo. Decidindo quem seria. Estava nos unindo com as coisas
que tnhamos compartilhado. Eu me sentia aliviado, porque ela sempre seria
Lena para mim.
      A garota que conheci nos meus sonhos.
      Puxei o lenol por cima de nossas cabeas. Embora nenhum dos meus
sonhos se parecesse minimamente com isto, em questo de minutos
estvamos os dois profundamente adormecidos.
                                    22 de junho   
                            Sangue Novo

                                   

D
      esta vez eu no estava sonhando. Foi o sibilar de Lucille que me acordou.
      Rolei para o lado com Lena encolhida na cama comigo. Ainda era difcil
      acreditar que ela estava aqui e que estava segura. Era o que eu mais
queria no mundo e agora eu tinha conseguido. Com que frequncia isso
acontece? A lua minguante vista pela janela do meu quarto estava to brilhante
que eu podia ver os clios de Lena tocando em seu rosto no sono.
     Lucille pulou da beirada da minha cama e alguma coisa se mexeu nas
sombras.
     Uma silhueta.
     Algum estava parado na frente da minha janela. S podia ser uma
pessoa, que no era exatamente uma pessoa de verdade. Eu me sentei na
cama. Macon estava no meu quarto e Lena estava sob o lenol na minha cama.
Fraco ou no, ele ia me matar.
     -- Ethan? -- Reconheci a voz no segundo em que a ouvi, embora ele
estivesse tentando ser silencioso. No era Macon. Era Link.
     -- Que diabos voc est fazendo no meu quarto no meio da noite? --
sussurrei, tentando no acordar Lena.
     -- Estou encrencado, cara. Voc precisa me ajudar. -- Ento ele reparou
em Lena encolhida ao meu lado. -- Ah, nossa. Eu no sabia que vocs
estavam... voc sabe.
     -- Dormindo?
     -- Pelo menos algum consegue.
     Ele andava de um lado para o outro, cheio de energia nervosa at mesmo
para os padres de Link. Seu brao estava engessado e ele o balanava de um
lado para outro. Mesmo com a luz fraca que entrava pela janela, eu via que seu
rosto estava suado e plido. Ele parecia doente, pior que doente.
     -- Qual  o problema, cara? Como entrou aqui?
     Link se sentou na cadeira velha em frente a minha mesa, ento se
levantou de novo. Sua camiseta tinha o desenho de um cachorro-quente com
ME MORDA escrito embaixo. Ele tinha essa camiseta desde que estvamos
no oitavo ano.
     -- Voc no acreditaria se eu contasse.
     A janela estava aberta atrs dele e as cortinas voavam como se uma brisa
entrasse no quarto. Meu estmago comeou se embrulhar em um n familiar.
     -- Experimente.
     -- Lembra de quando o Garoto Vampiro me agarrou naquela noite
infernal? -- Ele estava falando da noite da Dcima Stima Lua, que sempre
seria a noite infernal para ele. Tambm era o nome de um filme de terror que
o havia apavorado quando ele tinha 10 anos.
     -- Lembro.
     Link comeou a andar de um lado para o outro novamente.
     -- Voc sabe que ele podia ter me matado, certo?
     Eu no tinha certeza se queria ouvir o que estava por vir.
     -- Mas ele no o matou, e provavelmente est morto, como Larkin. --
John desaparecera naquela noite, mas ningum sabia o que tinha acontecido a
ele de verdade.
     -- , bem, se ele morreu, deixou um presente de despedida. Dois, na
verdade. -- Link se inclinou sobre minha cama. Dei um salto para trs
instintivamente, esbarrando em Lena.
     -- O que est acontecendo? -- Ela ainda estava meio adormecida, a voz
rouca e grave.
     -- Relaxa, cara. -- Link esticou o brao e acendeu a luz ao lado da minha
cama. -- O que isso te parece?
     Meus olhos se ajustaram  luz fraca e vi dois pequenos ferimentos
redondos no pescoo suado de Link, marcas claramente feitas por caninos.
     -- Ele te mordeu? -- Dei um salto para longe, puxando Lena para fora
da cama e colocando-a contra a parede atrs de mim.
     -- Ento estou certo? Puta merda. -- Link se sentou na minha cama e
apoiou a cabea nas mos. Parecia infeliz. -- Vou virar um daqueles sugadores
de sangue? -- Ele olhava para Lena, esperando que ela confirmasse o que ele
j sabia.
     -- Tecnicamente, sim. Voc provavelmente j est virando, mas no
significa que vai ser um Incubus de Sangue. Voc pode lutar contra isso, como
tio Macon, e se alimentar de sonhos e lembranas em vez de sangue. -- Ela
me empurrou e saiu de trs de mim. -- Relaxe, Ethan. Ele no vai nos atacar
como um vampiro de seus filmes Mortais bobos, onde todas as bruxas usam
chapu preto.
     -- Pelo menos fico bonito de chapu -- suspirou Link. -- E de preto.
     Ela se sentou ao lado dele, na beirada da minha cama.
     -- Ele ainda  Link.
     -- Tem certeza disso? -- Quanto mais eu o observava, pior ele parecia.
     -- , preciso saber essas coisas. -- Link balanava a cabea, derrotado.
Estava bem bvio que ele tinha esperana de que Lena fosse dizer a ele que
havia outra explicao. -- Puta merda, minha me vai me expulsar de casa
quando descobrir. Vou ter que morar no Lata-Velha.
     -- Vai ficar tudo bem, cara. -- Era mentira, mas o que mais eu podia
dizer? Lena estava certa. Link ainda era o meu melhor amigo. Ele tinha me
seguido pelos tneis e era esse o motivo de ele estar ali sentado com dois
buracos no pescoo.
     Link passou a mo pelo cabelo, nervoso.
     -- Cara, minha me  batista. Voc acha mesmo que ela vai deixar eu
ficar em casa quando descobrir que sou um Demnio? Ela no gosta nem de
metodistas.
     -- Talvez ela no repare. -- Eu sabia que era uma coisa idiota a dizer,
mas eu estava tentando.
     -- Claro. Talvez ela no repare se eu nunca sair durante o dia porque
minha pele iria fritar. -- Link esfregou os braos plidos como se j pudesse
sentir a pele descascando.
     -- No necessariamente. -- Lena estava pensando em alguma coisa. --
John no era um Incubus comum. Era um hbrido. Tio M ainda est tentando
entender o que Abraham estava fazendo com ele.
     Eu me lembrei do que Macon tinha dito sobre hbridos enquanto discutia
com Abraham na Grande Barreira, coisa que parecia ter acontecido uma vida
inteira atrs. Mas eu no queria pensar em John Breed. No conseguia
esquecer a viso dele com as mos em Lena.
     Pelo menos Lena no percebeu.
     -- A me dele era uma Evo. Elas conseguem Mudar, se transmutar em
qualquer espcie, at mesmo Mortais. Era por isso que John conseguia andar
por a durante o dia, enquanto outros Incubus precisam evitar a luz do sol.
     -- ? Ento eu sou o que, 25% sugador de sangue?
     Lena assentiu.
     -- Provavelmente. Quero dizer, no tenho como ter certeza de nada.
     Link balanou a cabea.
     -- Foi por isso que no tive certeza no comeo. Eu passava o dia fora e
nada acontecia. Achei que significava que no era nada.
     -- Por que voc no falou na hora? -- Era uma pergunta idiota. Quem ia
querer dizer aos amigos que estava se transformando em uma espcie de
Demnio?
     -- No me dei conta de que ele tinha me mordido. S achei que tinha
apanhado na luta, mas ento comecei a me sentir esquisito e vi as marcas.
     -- Voc vai precisar tomar cuidado, cara. No sabemos muito sobre John
Breed. Se ele  uma espcie de hbrido, quem sabe o que voc  capaz de
fazer?
     Lena limpou a garganta.
     -- Na verdade, eu o conheci muito bem. -- Link e eu nos viramos e
olhamos para ela ao mesmo tempo. Ela mexeu no cordo nervosamente. --
Quero dizer, no to bem. Mas passamos muito tempo juntos nos tneis.
     -- E? -- Eu podia sentir meu sangue esquentando.
     -- Ele era muito forte e tinha algum tipo esquisito de magnetismo que
deixava as meninas loucas onde quer que fssemos.
     -- Garotas como voc? -- Eu no consegui me controlar.
     -- Cale a boca. -- Ela me cutucou com o ombro.
     -- Isso j est comeando a ficar melhor. -- Link abriu um sorriso,
apesar de tudo.
     Lena estava enumerando os atributos de John, lista que eu esperava no
ser muito longa.
     -- Ele conseguia ver e ouvir e cheirar coisas que eu no conseguia.
     Link inspirou fundo, depois tossiu.
     -- Cara, voc precisa muito tomar banho.
     -- Voc tem superpoderes agora e isso  o melhor que consegue fazer?
     -- Dei um empurro nele. Ele me empurrou de volta e voei da cama para
o cho.
     -- Como assim? -- Eu estava acostumado a jogar Link no cho.
     Link olhou para as mos, assentindo com satisfao.
     -- Isso mesmo, punhos em fria. Como eu sempre falei.
     Lena pegou Lucille, que tinha se encolhido em um canto.
     -- E voc deve conseguir Viajar. Voc sabe, se materializar onde quiser.
No vai precisar usar a janela, embora tio Macon diga que  mais civilizado.
     -- Posso atravessar paredes como um super-heri? -- Link parecia bem
mais animado.
     -- Voc provavelmente vai se divertir bastante, s que... -- Lena respirou
fundo e tentou agir de forma casual. -- No vai mais comer. E supondo que
planeje ser mais como tio Macon do que como Hunting, ter que se alimentar
dos sonhos e das lembranas dos outros para se manter vivo. Tio Macon
chamava de espionar. Mas voc ter muito tempo, porque no precisar mais
dormir.
     -- No posso comer? Mas o que vou dizer a minha me?
     Lena deu de ombros.
     -- Diga que se tornou vegetariano.
     -- Vegetariano? Est louca? Isso  pior do que ser 25% Demnio! --
Link parou de andar. -- Ouviram isso?
     -- O qu?
     Ele andou at a janela aberta e se inclinou para fora.
     --  srio? -- Houve alguns sons de batida na lateral da casa e Link
puxou Ridley para dentro pela minha janela. Olhei para o lado de maneira
bem-comportada, porque a maior parte da calcinha de Ridley apareceu quando
ela subiu pelo peitoril da janela. No foi uma entrada muito graciosa.
     Ao que tudo indicava, Ridley tinha voltado a ter a aparncia de Sirena,
quer fosse uma que no. Ela ajeitou a saia e sacudiu o cabelo louro e cor-de-
rosa.
     -- Deixe-me entender isso direito. A festa  aqui, mas eu deveria ficar na
minha cela com o cachorro?
     Lena suspirou.
     -- Est falando do meu quarto?
     -- Deixa pra l. No preciso de vocs trs juntos falando de mim. J
tenho problemas suficientes. Tio Macon e minha me decidiram que preciso
voltar para a escola j que, pelo visto, no ofereo mais perigo a ningum.
     -- Parecia que ela ia irromper em lgrimas.
     -- Mas voc no oferece mesmo. -- Link puxou minha cadeira para ela.
     -- Sou bem perigosa. -- Ela o ignorou, sentando na minha cama. --
Vocs vo ver. -- Link sorriu. Era o que ele esperava, isso estava claro. --
Eles no podem me fazer ir para aquela porcaria de fundo de quintal que
vocs chamam de escola.
     -- Ningum estava falando de voc, Ridley. -- Lena se sentou na cama
ao lado da prima.
     Link voltou a andar de um lado para o outro.
     -- Estvamos falando de mim.
     -- O que tem voc? -- Ele olhou para o outro lado, mas Ridley j devia
ter visto alguma coisa, porque cruzou o quarto em um segundo. Ela segurou a
lateral do rosto de Link. -- Olhe para mim.
     -- Pra qu?
     Quando ele se virou, sua pele plida e suada capturou o pouco de luz que
a lua lanava no quarto. Mas foi o suficiente para que as marcas de mordida
ficassem visveis.
     Ridley ainda segurava o rosto dele, mas sua mo tremia. Link colocou a
mo sobre seu pulso.
     -- Rid...
     -- Ele fez isso com voc? -- Ela apertou os olhos. Embora estivessem
azuis agora em vez de dourados e ela no pudesse convencer ningum a pular
de um penhasco, Ridley parecia capaz de jogar algum de um. Era fcil
imagin-la defendendo Lena na escola quando eram crianas.
     Link pegou a mo dela e puxou Ridley em sua direo, passando o brao
ao redor de seus ombros.
     -- No  nada de mais. Talvez eu faa o dever de vez em quando agora
que no preciso mais dormir. -- Link abriu um sorriso, mas Ridley no.
     -- Isso no  brincadeira. John provavelmente  o Incubus mais
poderoso do mundo Conjurador, se no contarmos o prprio Abraham. Se
Abraham estava  procura dele, deve haver um motivo. -- Eu podia v-la
mordendo o lbio, olhando para as rvores l fora.
     -- Voc se preocupa demais, gata.
     Ridley empurrou o brao de Link.
     -- No me chame de gata.
     Eu me reclinei sobre a cabeceira da cama, observando os dois. Agora que
Ridley era Mortal e Link era um Incubus, ela ainda seria a garota que ele podia
ter e provavelmente a nica que iria querer. Este ano ia ser interessante.
     Um Incubus na Jackson High.
     Link, o cara mais forte da escola, enlouquecendo Savannah Snow cada
vez que entrasse na sala sem ao menos uma lambida de um dos pirulitos de
Ridley. E Ridley, a ex-Sirena, que eu tinha certeza que logo encontraria o
caminho de volta aos problemas, com ou sem pirulitos. Dois meses at
setembro e, pela primeira vez na vida, eu mal podia esperar pelo primeiro dia
de aula.
     Link no foi o nico que no conseguiu dormir naquela noite.
                                   28 de junho   
                            Nascer do sol

                                   

--V
                  oc no podem cavar mais rpido?
                      Link e eu olhamos com raiva para Ridley de alguns
                  metros dentro do tmulo de Macon. Aquele no qual ele no
tinha passado nem um minuto dentro. Eu j estava pingando de suor e o sol
nem tinha subido ainda. Link, com sua recm-descoberta fora, no tinha
suado uma gota.
     -- No podemos. E sim, sei que voc est completamente agradecida por
estarmos fazendo isso no seu lugar, gata. -- Link sacudiu a p em direo a
Ridley.
     -- Por que o caminho longo tem que ser to longo? -- Ridley olhou para
Lena, enojada. -- Por que Mortais so to suarentos e tediosos?
     -- Voc  Mortal agora. Diga voc. -- Joguei um pouco de terra com a
p na direo de Ridley.
     --Voc no tem um Conjuro pra esse tipo de coisa? -- Ridley se sentou
ao lado de Lena, que estava de pernas cruzadas ao lado do tmulo, folheando
um velho livro sobre Incubus.
     -- Como conseguiram tirar esse livro da Lunae Libri, alis? -- Link tinha
esperanas de que Lena descobrisse algo sobre hbridos. -- No  feriado
bancrio. -- Tnhamos arrumado problemas demais na Lunae Libri durante o
ltimo ano.
     Ridley lanou um olhar a Link que provavelmente o teria deixado de
joelhos quando ela ainda era Sirena.
     -- Ele tem muita influncia sobre a bibliotecria, gnio.
     Assim que ela falou, o livro que Lena estava segurando pegou fogo.
     --Ah, no! -- Ela puxou as mos antes que se queimassem. Ridley pisou
no livro. Lena suspirou. -- Sinto muito. Essas coisas simplesmente
acontecem.
     -- Ela estava falando de Marian -- falei na defensiva.
     Evitei os olhos dela e me ocupei com a p. Lena e eu tnhamos voltado a
ser, bem, ns. No havia um segundo no qual eu no pensasse na proximidade
entre a mo dela e a minha, entre o rosto dela e o meu. No havia um
momento no qual estivssemos acordados que eu conseguisse suportar no ter
a voz dela na minha cabea, depois de ter ficado sem ela por tanto tempo. Era
a ltima pessoa com quem eu falava  noite e a primeira que eu procurava de
manh. Depois de tudo o que passamos, eu teria trocado de lugar com Boo se
pudesse. Era a esse ponto que eu no queria nunca perd-la de vista.
     Amma tinha at comeado a guardar o lugar de Lena na mesa. Em
Ravenwood, tia Dei deixava um travesseiro e um edredom dobrado ao lado do
sof do primeiro andar para mim. Ningum dizia nada sobre hora de dormir
ou regras ou um ver o outro demais. Ningum esperava que confissemos o
outro ao mundo se no estivssemos juntos.
     O vero tinha ido alm. No se podia desfazer as coisas que aconteceram.
Liv tinha acontecido. John e Abraham tinham acontecido. Twyla e Larkin,
Sarafine e Hunting -- no eram pessoas que eu pudesse esquecer. A escola
seria a mesma se voc ignorasse o fato de que meu melhor amigo era um
Incubus e que a segunda garota mais gostosa da escola era uma Sirena
rebaixada. O general Lee e o diretor Harper, Savannah Snow e Emily Asher,
esses nunca mudariam.
     Lena e eu jamais seramos os mesmos.
     Link e Ridley estavam to sobrenaturalmente alterados que nem estavam
no mesmo universo.
     Liv estava escondida na biblioteca, feliz por estar em segurana entre
prateleiras de livros por um tempo. Eu s a tinha visto uma vez desde a noite
da Dcima Stima Lua. Ela no estava mais em treinamento para ser Guardi,
mas parecia lidar bem com isso.
     Ns dois sabemos que eu jamais seria feliz observando de longe tinha
dito ela. Eu sabia que era verdade. Liv era uma astrnoma, como Galileu uma
exploradora, como Vasco da Gama; uma erudita, como Marian. Talvez at
uma cientista maluca, como minha me.
     Acho que todos precisvamos recomear.
     Alm do mais, eu tinha a sensao de que Liv gostava do novo professor
tanto quanto da antiga professora. A educao de Liv tinha sido delegada a um
certo ex-Incubus que passava o dia escondido -- em Ravenwood ou em seu
escritrio favorito, um velho local nos tneis Conjuradores -- com Liv e a
bibliotecria-chefe como suas nicas companhias Mortais.
     No era como eu esperava que o vero se desenrolasse. Por outro lado,
quando se tratava de Gatlin, eu nunca sabia o que ia acontecer. Em certo
momento, eu tinha parado de tentar.
     Pare de pensar e comece a cavar.
     Soltei a p e me alcei para cima pela lateral do tmulo. Lena se deitou de
bruos, os tnis Ali Star gastos balanando atrs de si. Coloquei as mos atrs
do pescoo dela e puxei sua boca em direo  minha at que nosso beijo fez
o cemitrio girar.
     -- Crianas, crianas. Parem com isso. Estamos prontos. -- Link se
apoiou na p e se afastou um pouco para admirar seu trabalho. O tmulo de
Macon estava aberto, mas no havia caixo l embaixo.
     -- Ento? -- Eu queria acabar com aquilo. Ridley pegou um pequeno
embrulho de seda preta do bolso e o segurou  sua frente.
     Link recuou como se ela tivesse colocado uma tocha em seu rosto.
     -- Cuidado, Rid! No coloque essa coisa perto de mim. Criptonita de
Incubus, lembra?
     -- Desculpe, Super-Homem, esqueci. -- Ridley desceu at o fundo do
buraco, segurando o embrulho cuidadosamente com uma das mos, e o
colocou no fundo do tmulo vazio de Macon Ravenwood. Minha me podia
ter salvado Macon com o Arco Voltaico, mas ns o vamos pelo que ele era:
perigoso. Uma priso sobrenatural na qual eu no queria ver o meu melhor
amigo preso. Sete palmos abaixo da terra era o lugar do Arco Voltaico, e o
tmulo de Macon era o lugar mais seguro em que todos ns conseguimos
pensar.
     -- J vai tarde -- disse Link ao puxar Ridley para fora do tmulo. -- No
 isso que devemos dizer quando o bem derrota o mal no fim do filme?
     Olhei para ele.
     -- Voc j leu algum livro, cara?
     -- Cubra. -- Ridley esfregou as mos para limpar aterra. -- Pelo menos e
o que eu digo.
     Link jogou ps e mais ps cheias de terra no buraco enquanto Ridley
observava, sem tirar os olhos do tmulo.
     -- Termine -- falei.
     Lena assentiu, enfiando as mos nos bolsos.
     -- Vamos sair daqui.
     O sol comeou a subir sobre as magnlias em frente ao tmulo de minha
me. Ele no me incomodava mais, porque eu sabia que ela no estava l.
Estava em algum lugar, em todo lugar, ainda cuidando de mim. No aposento
escondido de Macon. No arquivo de Marian. Em nosso escritrio na
propriedade Wate.
     -- Vamos, L. -- Puxei Lena pelo brao. -- Estou cansado do escuro.
Vamos ver o sol nascer.
     Samos correndo pela grama da colina como crianas, passando pelos
tmulos e pelas magnlias, pelas palmeiras e carvalhos cobertos de musgo
espanhol, pelas fileiras irregulares de sinalizadores de tmulos e anjos
chorando e pelo velho banco de pedra. Eu podia senti-la tremendo no ar do
incio da manh, mas nenhum de ns dois queria parar. Ento no paramos e,
quando chegamos ao p da colina, estvamos quase caindo, quase voando.
Quase felizes.
     No vimos o estranho brilho dourado passar pelas pequenas rachaduras e
fissuras da terra jogada sobre o tmulo de Macon.
     E eu no chequei o iPod no meu bolso, no qual podia ter reparado em
uma nova msica na minha lista de msicas.
     Dezoito Luas
     Mas no chequei porque no me importava. Ningum estava ouvindo.
Ningum estava olhando. Ningum existia no mundo alm de ns dois...
     Ns dois e o velho de terno branco e gravata que ficou parado no topo da
colina at que o sol comeasse a nascer e as sombras se recolhessem s suas
criptas.
     No o vimos. S vimos a noite desaparecendo e o cu azul surgindo. No
o cu azul do meu quarto, mas o de verdade. Embora ele pudesse parecer
diferente a cada um de ns. Mas agora eu no tinha mais tanta certeza de que
o cu parecesse igual para quaisquer duas pessoas, independentemente do
universo em que vivessem.
     Quero dizer, como se pode ter certeza?
     O velho foi embora.
     No ouvimos o som familiar de espao e tempo se rearrumando quando
ele partiu no ltimo momento possvel da noite: a escurido antes do
alvorecer.

    Dezoito Luas, dezoito esferas,
    Do mundo alm dos anos,
    Um No Escolhido, morte ou nascimento,
    Um dia Partido espera a Terra...
                                      DEPOIS   
                      Lgrimas de Sirena

                                   
R
       idley estava de p em seu quarto em Ravenwood, o quarto que
       costumava ser de Macon. Mas nada estava igual a no ser pelas quatro
       paredes, o teto e o cho, e possivelmente, a porta acolchoada.
     Ela a fechou, com um estrondo pesado, e passou a tranca. Virou-se para
olhar o quarto, as costas contra a porta. Macon tinha decidido ficar com outro
quarto, embora passasse a maior parte do tempo no escritrio nos tneis.
Ento aquele quarto pertencia a Ridley agora e ela teve o cuidado de manter
trancado o alapo que levava aos tneis debaixo de um grosso e felpudo
tapete cor-de-rosa. As paredes estavam cobertas de pichaes feitas com
spray, pretas e cor-de-rosa non, com algumas em verde fluorescente, amarelo
e laranja. No eram exatamente palavras -- eram mais formas, riscos,
emoes. Raiva, guardada em uma lata de tinta spray barata comprada no Wal-
Mart de Summerville. Lena tinha se oferecido para fazer para ela, mas Ridley
insistiu em fazer sozinha, no estilo dos Mortais. A fumaa fedorenta tinha
feito sua cabea doer e a tinta que espirrou tinha estragado tudo. Era
exatamente o que ela queria e como estava se sentindo.
     Tinha estragado tudo.
     Sem palavras. Ridley odiava palavras. A maior parte delas era mentira. A
priso de duas semanas no quarto de Lena tinha sido o bastante para faz-la
odiar poesia para o resto da vida.
     Meucoraoquebateesanfraprecisadevoc...
     Que seja.
     Ridley tremeu. No havia como justificar a falta de gosto nos genes de sua
famlia. Ela se afastou da porta e andou at o armrio. Com um leve toque,
abriu as portas de madeira branca, revelando uma vida inteira de uma
cuidadosa coleo de roupas, a marca de uma Sirena.
     Coisa que, Ridley disse para si mesma, ela no era.
     Arrastou um banquinho cor-de-rosa at as prateleiras e subiu, os sapatos
plataforma cor-de-rosa balanado debaixo da meia 3/4 listrada de cor- de -
rosa. Tinha sido um dia de roupa extravagante estilo Harajuku, nada comum
em Gatlin. Os olhares que recebeu no Dar-ee Keen foram preciosos. Pelo
menos tinha feito a tarde passar.
     Uma tarde. De quantas?
     Tateou pela borda da prateleira at encontrar uma caixa de sapatos de
Paris. Ela sorriu e a pegou. Peeptoes de veludo roxo com saltos de dez
centmetros, se ela se lembrava direito.  claro que se lembrava. Tinha se
divertido bastante usando aqueles sapatos.
     Derrubou o contedo da caixa sobre a colcha branca e preta. L estava,
meio escondido na seda, ainda coberto de terra.
     Ridley se sentou no cho ao lado da cama, apoiando os braos na beirada.
No era burra. S queria olhar, como tinha feito todas as noites durante as
ltimas duas semanas. Queria sentir o poder de uma coisa mgica) um poder
que jamais voltaria a ter.
     Ridley no era uma menina m. No de verdade. Alm do mais, mesmo
se fosse, qual era a diferena? No tinha poder algum para fazer nada. Tinha
sido descartada como um rmel velho.
     Seu celular tocou e ela o pegou da mesa de cabeceira. Uma foto de Link
apareceu na tela. Ela desligou e jogou o telefone no enorme tapete cor-de-
rosa.
     Agora no, gostoso.
     Tinha outro Incubus em mente.
     John Breed.
     Ridley voltou a se sentar de novo, inclinando a cabea para o lado
enquanto observava a esfera comear a brilhar em um tom leve de cor-de-
rosa.
     -- O que vou fazer com voc? -- Ela sorriu porque, pela primeira vez, a
deciso era dela, e porque ainda precisava tom-la.
     A luz ficou mais e mais intensa at que o quarto ficasse banhado em tons
de luz cor-de-rosa, o que fez quase tudo desaparecer como finas linhas
traadas a lpis que tinham sido parcialmente apagadas.
     Ridley fechou os olhos -- uma garotinha soprando uma vela de
aniversrio para fazer um desejo...
     Ela abriu os olhos.
     Estava decidido.




                                    FIM
               a srie Beautiful Creatures continua em Dezoito Luas
